A última barca para Paquetá

Ela me ofereceu um cigarro tirado de uma cigarrilha cravejada de brilhantes. Eu havia envenenado meu fígado de muitas maneiras diferentes antes de me sentar naquela amurada, tinha acabado o happy hour e não consegui pegar a última barca pra Paquetá. Aquela oferta me fez fixar o olhar em quem só de lado me fitava.Continuar lendo “A última barca para Paquetá”

Os sonhos mudam

Desde pequena sonhava em ser bailarina. Dessas que dançam em grandes companhias, ganham prêmios, e dão entrevistas. Para a realização do projeto, treinava todos os dias. Era incansável em seus passos e piruetas. Ensaiva, e ensaiava, e ensaiava… Até que com apenas dezoito anos entrou para o corpo de baile de um grande grupo. AContinuar lendo “Os sonhos mudam”

Hospedeiro de palavras

Ela tinha a ligeira impressão de que sempre era escutada por ele, mas nunca ouvida. Ficava sempre presa na contingência do pensamento dele e não vivia o real das palavras que sua boca reproduziam. Sensação de desespero, sensação de eco ineficaz. Definitivamente ele era o opressor da sua linguagem, ele era um hospedeiro das suasContinuar lendo “Hospedeiro de palavras”

Presença

Se puder escolher um caminho em tua vida, escolha se emocionar. Escolha a experiência que te levará para além; afora de tuas margens concretadas. Sempre. Para longe dos sentimentos diários e atitudes orquestradas. Opte por aquela viagem que sonhou, muito antes de poder viajar. Retire da estante o livro que te desafia.  Pés no chão;Continuar lendo “Presença”

Salto para o desconhecido

A sombra projetada de seu próprio reflexo contra a água lhe dava medo. Via-se pálida, com escuras olheiras, a pele seca. Era jovem, mas sentia-se velha, cansada. Antes do momento final, sentou-se e refletiu. Sentia dentro de si uma forte pulsão de morte. Estudou tudo isso no curso de psicologia. Mas nem a graduação, nemContinuar lendo “Salto para o desconhecido”

Clara no Sistema

Clara não conseguia respirar dentro do ônibus lotado. Estava abafado e sua sensação era a de que o ar que entrava pela janela estava denso, pesando sobre seu corpo franzino. A máscara no rosto incomodava mas não era prudente prescindir dela se quase todos os seus companheiros de viagem já a haviam dispensado. O suorContinuar lendo “Clara no Sistema”

Verdades ínfimas

Acordou acompanhada pelo Chico. Buarque. “Cotidiano”, a música com a qual despertara naquela terça-feira. Ainda deitada, visitava, por meio da melodia, o ritmo padronizado de suas escolhas; na letra, que se repetia incessantemente em seu pensamento, a estória de uma vida. Dia a dia. Ano a ano. Décadas. Definitivamente, era aquela “A música” que representavaContinuar lendo “Verdades ínfimas”

Apenas mais um texto infeliz

Era escritora. Ofício difícil, que carrega muita dor.  Para escrever, pensava principalmente no passado. Os abandonos que sofrera, a saudade da família, os relacionamentos que não foram para frente… toda a sorte de angústias, desprazeres e frustrações. Era um dia frio de maio, um domingo daqueles entediantes, arrastados. Foi para a frente do computador comContinuar lendo “Apenas mais um texto infeliz”

A BONEQUINHA

Quando cheguei do aeroporto no apartamento em que ficaria hospedada fui levada pela dona da casa até o quarto que eu ocuparia. Desarrumei a mala, acomodei minhas roupas e tudo que eu trouxe da melhor forma possível no armário que me havia sido oferecido. Como sempre faço, dei uma olhada em torno do quarto e viContinuar lendo A BONEQUINHA