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MEU REENCONTRO COM RENATO RUSSO

Por: Elaine Resende

Durante anos trabalhei apenas para o jornal e a rádio AM, subindo e descendo com a equipe de trabalho e os visitantes. Gente fina esse pessoal! Até o dia em que eu percebi uma movimentação estranha, uma gente bem jovem, muito ruidosa, inquieta. Foi a primeira vez na vida que ouvi a zoeira que eles chamavam de rock and roll. Não era o som do Roberto e Erasmo, Little Richard, Elvis ou do Chuck Berry. Esses eu conhecia, não sou ultrapassado. Era um som barulhento que ecoava na minha cabine de 2×2 e fazia as partes metálicas reverberarem. Tremia tudo!

Era isso, estava feito: chegou ao prédio a mais nova atração de Niterói e adjacências, a primeira rádio FM da cidade, a Maldita 94,9 Fluminense FM.

Vai ser passageiro, essas coisas ruins não se criam, eu pensava a cada novo dia de trabalho. Como um prédio que recebia tanta gente importante ficaria com todo aquele povo baderneiro circulando? Tive certeza de que Sr. Alberto Torres ia se cansar daquele movimento e botar todo mundo para correr.

Sou tão antigo aqui que mereço placa de patrimônio. Estou aqui desde a fundação do jornal, sabe? Lembro bem dos plantões, os jornalistas chegando e saindo apressados com suas máquinas fotográficas e blocos de notas para caçar matéria na rua. Tempo das joaninhas da polícia, da rádio AM e da foto em preto e branco. Tudo muito bacana!

Eu tenho orgulho de dizer que em meus mais de 40 anos de dedicação ao trabalho transportei pessoas realmente importantes. Vi grandes homens nesses dois metros quadrados. Acompanhei os primeiros passos de muitos políticos. Donos de empresa negociando seu espaço nas páginas do jornal e nos anúncios da rádio, as mulheres da High Society niteroiense, prefeitos e vereadores, e até mesmo um presidente da república. Sabe por que me orgulho disso? Porque todos eles, sem exceção, elogiaram minha elegância discreta, minha aparência de simplicidade e imponência.

Ainda hoje me envaideço daquelas senhoras de unhas bem tratadas tocando em meus botões. Até me arrepio, olha só! Meu parceiro de trabalho, bem mais humilde que eu, carrega de um tudo nas costas. O coitado nunca recebeu uma visita ilustre, muito diferente de mim.

Qual não foi minha surpresa no dia que escutei Sr. Alberto Torres comentar com um dos diretores que estava gostando daquela turba. Eles não vão embora. Como assim eles não vão embora? Aquela rapaziada que ocupou os dois últimos andares do prédio não vai embora? Perfeito! Quem mais vou ter que transportar agora? Quero nem saber. Ora tinha um bando de gente que parecia ter voltado da praia, ora era a horda de cabeludos com roupa de couro. Gente que se espremia dentro daquele espaço confinado, querendo ir todo mundo junto numa viagem só. Nem tem cabimento um negócio desses. Eu alertava para a capacidade máxima permitida, com rigor, porque afinal essa era a minha função, transportar a todos com segurança. Estacava no andar e não subia ou descia enquanto não se adequassem às regras. aí uma coisa que podem falar de mim: sempre fui implacável na aplicação das regras.

Mas, sabe como é, né? Com o tempo as coisas vão se assentando, quando se vê, sente falta até do que achava ruim. E olha eu lá, acostumado com aquele sonzinho deles, com a juventude, com as altas demandas que eles faziam. E nesses horários de pico a música até que era boa, dava aquela animada no dia. E não era só isso que era bom. As vozes das locutoras eram igual veludo, uma mais macia que a outra. Ondas de FM comandadas por mulheres, e só mulher surfava naquelas ondas! Negócio inédito! Eita lasqueira! Quando elas trocavam de turno e entravam no meu cubículo, era a minha praia, eu ouvia a melodia das sereias! Sempre com muito respeito, claro! Elas eram novinhas, mas tinham uma potência na voz que dava gosto de ouvir.

Quando se é velho as adaptações são difíceis, posso garantir. Mas quando se dá uma chance ao novo, certeza de se sentir jovem outra vez. Foi o caminho que segui. Me entreguei aos novos sons, ao rock nacional que tocava logo cedo, sabia de cor sobre o mar e onde a molecada podia ir surfar. Comecei a transportar um bocado de gente diferente, de vez em quando eles batucavam uma melodia nas paredes da cabine e eu acompanhava de leve, não queria atrapalhar. Toda aquela movimentação para o décimo andar era um barato.

Mas como tudo que é bom passa, eu estava passando do meu tempo também. Comecei a falhar no trabalho. Às vezes no início do turno eu precisava de um atendimento emergencial para dar conta do dia. Eles não me substituíam, sempre acreditei que era por conta da minha dedicação. E eu me firmava e continuava o dia. Outras vezes eles me pediam para encerrar mais cedo, o que eu fazia com tranquilidade. Era melhor que passar vergonha com o cubículo cheio de gente.

O pessoal do décimo era o mais prejudicado com as minhas ausências. Meu parceiro transportava de tudo, e o pessoal viajava com o que ele estivesse transportando. Ele também estava velho e falhando, e eu não via esforço nenhum da direção para sua substituição. Entendo que o serviço dele era importante, mas acho que era mais fácil substituir a ele do que a mim!

Naquele fim de ano, era dezembro de 1993 lembro bem, a FM tinha anunciado todos os dias por uma semana inteira a chegada de uma banda importante para a juventude, a Legião Urbana. A banda chegaria para dar uma entrevista de lançamento de um disco, eles falavam disso o tempo todo. Uma expectativa enorme. E era fim de ano, as pessoas sempre ficam animadas, compras, festas natalinas, um calor típico desse período, e eu… eu não estava nos meus melhores dias. Eu completei nesse ano meus 39 anos de serviço e meu cansaço e desgaste eram aparentes.

Quando o tão esperado dia chegou, até eu já estava ansioso com o aguardo. Me coloquei pronto para o trabalho. A primeira pessoa que chegava para o décimo andar era a menina da recepção da rádio. Ela era muito simpática, chegava cedo e subia sempre cantarolando alguma coisa, mas nesse dia ela me olhou e deu meia volta. Não entrou. Sem dizer uma palavra, abriu e fechou a porta do elevador, deu meia volta e foi embora. Que coisa mais grosseira de se fazer! Estapafúrdia, no mínimo.

E foi assim esse início de manhã, algumas pessoas passavam em frente e iam para a cabine do meu colega, me ignorando totalmente. Pensei com meus botões: que raio de comportamento estranho é esse? Será que eu fedendo? Ou isso, ou estavam me guardando para receber a Banda no meu melhor estado. Talvez fosse isso. O calor intenso e toda aquela gente suada sendo transportada, meu envelhecimento, esses fatores todos juntos, quiseram me poupar. Sempre percebi a consideração deles por mim.

Não lembrava direito da primeira vez que transportei a Legião Urbana. Mas sei que fui eu. Eles estavam em início de carreira e eram falantes, um pouco bagunceiros. Não podia imaginar que aquela rapaziada se tornaria uma referência para a juventude. Então estava lá eu, orgulhoso de poder transportá-los de novo, agora banda famosa de gravadora grande e mais de 4 discos lançados e premiados. Eles chegaram, eles chegaram!

Quando abriram a porta do elevador eu me engasguei. Travei. Renato Russo pronto para dar sua entrevista na rádio e eu sem ação. Me faltava energia para qualquer coisa. O Renato foi um dos seres humanos mais gentis que conheci em todos esses anos de serviço. Vendo a precariedade da minha condição, voltou para a recepção e decidiu por esperar até que eu fosse atendido, fez questão de subir comigo. Nunca experimentei nada parecido com essa sensação! Um ato de compaixão como esse, de um homem acostumado a lhe abrirem as portas, esperar humildemente por mim, me deixou sem palavras!

Chamaram rapidamente um especialista para me atender. Logo, dois grandalhões estavam lá me cercando de todos os lados, me apertando em pontos sensíveis em busca de uma reação. Eu estacado no lugar, imóvel como uma rocha, engasgado, travado, sombrio. Um funeral no qual só compareceu o defunto. Nesse caso: Eu!

Podia ouvir os passos apressados dos homens na recepção, sussurravam algo sobre gravidez, mas acho que não era isso, não. Parecia que uma pequena multidão se formava na rua, bradando pela anunciada entrevista do astro do rock nacional. A cada intervalo a locução ao vivo repetia que ele estava lá, faltava pouco para “uma entrevista exclusiva da Fluminense FM”. E eu simplesmente ouvia, e mais nada.

Inerte estava, inerte fiquei. Minhas forças haviam se acabado. Uma vida de dedicação para aquele trabalho, uma vida de condução dos grandes nomes da cidade, quiçá do país, para eu esmorecer quando todos aguardavam seu grande ídolo.

Se eu fosse um Samurai teria dado um fim aquele suplício. Os minutos seguintes foram os piores da minha carreira. Uma ligação entre as recepções e tudo estava resolvido: Renato e Dado não deveriam mais esperar, era para subir imediatamente.

Um fim desonroso o meu. Os rapazes da Legião Urbana subiram os dez andares de escada. Por meus alto-falantes, pelas paredes ocas da minha casa de máquinas, eu ecoava a felicidade de quem os recepcionava. Queria que fosse da minha cabine que eles saíssem para receber aqueles aplausos calorosos.

Bem mais tarde naquele dia substituíram uma peça do meu motor que havia quebrado e voltei a funcionar. Recebi de portas abertas, a pantográfica e a de madeira, um Renato Russo desconfiado, me olhando de lado. Queria muito tê-lo deixado seguro de que não ficaria travado entre dois andares, mas tudo que consegui expressar foi um som que parecia um gemido de dor.

Ele se apoiou na barra do fundo da cabine e bateu na minha parede de carvalho antigo como um amigo que compreende nossas limitações e disse: “Só a Flu FM para fazer isso com a gente!”.


PS: Renato Russo visitou a Rádio Fluminense FM entre o final de 1993 e início de 1994, no lançamento do disco O Descobrimento do Brasil. Em julho de 1994 a Rádio Fluminense FM encerrou suas atividades, dando lugar a Rádio Jovem Pan de São Paulo. Há 25 anos, em 11 de outubro de 1996, Renato Russo faleceu, deixando uma legião de fãs órfãos da sua poesia urbana.


Crédito da Imagem: https://adnews.com.br/renato-russo-conheca-o-acervo-do-cantor-que-vai-inspirar-minisserie/

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Des(encanto)

Já perdera de longe
a contagem dos dias

Servir
Agradar
Atender
Anular

De onde vinham todas aquelas cobranças?

Por mais que fizesse
se esforçasse
desviasse a atenção
Lá estavam elas
Listadas
Pontualmente
A sufocar

Sempre tem alguém para mandar
E na roda o mandado

Como uma continuação nada efêmera daquele rigor travestido de bom

Mas hoje não

Na balança
um minuto de reconhecimento
seguido de horas de insuficiência

Hoje não

Nas desculpas sem assinatura

Eu quisera entender
Quantas versões do amor existe

Só para saber
Quando sou amada
E quando não


Crédito da imagem:  Foto por Skyler Ewing em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Cicatrizes

Cicatrizes

O sopro dos dias sussurra no meu rosto
Nem menina, nem mulher
Como se escreve um corpo
Um tropeço?
Um engano
Foi-se o Pertencimento
O eu refletido no véu do não
Lâmina afiada
Tão crua
Cicatriz fina e fria
Em meu rosto estampado
A velhice de minha mãe.
Incógnita profusa
Dolorida de ser consentida
Marcando a pele
Feito ferro quente


Crédito da imagem:  Foto por Alexander Krivitskiy em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

As quatro estações do amor

A falta de amor é como o inverno frio e sozinho. Onde sentimos calafrios que deixam nosso coração gelado, petrificado, sem vida e sem sentido. No inverno o branco se mistura ao vazio dos sentimentos onde nem a dor consegue existir.

O amor que floresce é como a primavera que desperta nossos diversos desejos. Nasce amor por todos os lados. O movimento de cores e diversidade transforma tudo numa linda fantasia. Tudo é possível entre os corações.

O outono é como o amor que se transforma. É um amor maduro, porto seguro dos amantes. Consolidado. Um amor que fica cada vez mais forte, calmo, estável e seguro.

E de repente chega o verão. O sol ardente do amor nos invade com uma paixão avassaladora e queremos viver plenamente com toda nossa energia. Mania de você, mania de ter. Mania de sempre querer.

São essas as estações do amor. Acontecem assim naturalmente. Invadem nossos caminhos e transformam e consolidam e mudam novamente. Basta uma pequena semente de vida e lá vem uma nova estação.


Crédito da imagem:  Foto por Magda Ehlers em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Um grande dia para escritoras

Desejo começar esse texto de um jeito que me pareça que falo para uma pequena audiência, uma sala com alguns espectadores, sem pretensão de parecer detentora de um conhecimento maior. Sinto falta dos tempos em sala, daqueles momentos de interação com a classe, da partilha que se realizava nesses espaços.

E então eu diria: Olá pessoal, é muito bom ter vocês aqui nessa reunião, nessa noite quente de outono no Ceará, para debatermos ideias. É bom demais ter com quem debater ideias, às vezes meu imaginário se torna um lugar solitário e, sem outras pessoas por lá, me falta o contraditório.

Eu ouviria alguns risos da minha piada boba e, após uma pausa estratégica e um sorriso gentil, sentiria o ímpeto necessário para prosseguir. Me movendo pela sala, cabeça baixa para organizar os pensamentos, recomeçaria minha fala assim:

Essa última semana do Dia dos Namorados teve um sabor mais especial para mim que os bombons, presentes e jantares que poderia ganhar. E digo com firmeza que não foi assim apenas para mim, mas para um grupo imenso de mulheres ao redor do Brasil, quiçá do mundo, que decidiram se encontrar trajando apenas coragem e suas palavras em um livro, um escrito, um manifesto de sua independência literária.

Independência que vem sendo trabalhada e conquistada ao longo dos anos, numa luta diária por um espaço que também é nosso. Na história recente do Brasil, questão de 30 ou 40 anos atrás, ainda era possível encontrar mulheres que não tinham CPF (cadastro de pessoa física) em seus próprios nomes. Entre 1916 e 1962 vigorou o Código Civil Brasileiro que previa que a mulher era incapaz e totalmente dependente de um homem para ditar os rumos da sua vida. Dessa forma, a mulher só poderia trabalhar, estudar, ter uma profissão, um comércio ou uma conta no banco se fosse autorizada pelo pai ou pelo marido. Não seria a mulher uma pessoa?

Se para algumas mulheres se discutia o direito a ter um documento em seu próprio nome, para outras entretanto inexistia o direito ao registro civil, que era pago até 1997. Seja pela pobreza ou pela questão racial, muitas mulheres viviam relegadas a condições ainda mais espúrias. Trabalhadoras domésticas eram as principais vítimas de um país cujo preconceito anda sob panos quentes e termos como “agregadas” eram comuns para se referir a alguém que trabalhava dia e noite e, vez em quando, ganhava algo que lhe concedia um status de “quase da família”.

Tem apenas 106 anos que a lei deixou de legitimar o direito de o marido matar a mulher por qualquer suposição de adultério. Ele nem precisava provar, bastava ouvir rumores. E mesmo depois de revogada, precisamos de uma nova lei para nos proteger de agressões, a Lei Maria da Penha, de 2006. E temos indicadores: o Brasil é o 5º país no ranking de assassinatos de mulheres. Em 50% dos casos, a mulher é atacada por quem ela mais confia, dentro de sua casa. Na morte, somos todas iguais, no entanto as mulheres negras morrem mais. A desigualdade de gênero é o fator preponderante nos homicídios, mas o preconceito racial e desigualdade social tornam essas situações ainda mais cruéis.

Voltando às leis, foi apenas em 1988 que a Constituição Federal tornou homens e mulheres iguais. E transformou o preconceito racial em crime. Quantos de vocês que me leem hoje nasceram depois dessa data? Você sabia que antes disso havia dispositivos legais que nos tornavam diferentes perante a sociedade? Em questões de gênero, podemos não ser iguais biologicamente falando, é evidente que não somos. Mas em questões de raça, o que nos difere além do preconceito? Você, mulher, se acha menos merecedora de uma casa, de um trabalho justo e um salário digno, de ter direito à guarda dos seus filhos, de estudar o que quiser, ter uma conta bancária e investir no mercado financeiro, que um homem? E uma mulher negra é menos merecedora que uma mulher branca? Você escritora, acha que seus livros não merecem ganhar as prateleiras das livrarias, contratos editoriais que te permitam escrever como profissão e não apenas como passatempo?

Como seria o Brasil se, ao lermos as estatísticas de prêmios e publicações de livros, descobríssemos que 50% dos livros lançados e premiados no ano pertencem a escritoras? E que metade dessas publicações pertencem a escritoras negras e pardas? Nossa média atual está em cerca de 30% dos livros publicados escritos por mulheres (chute meu, depois de ler várias estatísticas de grandes editoras), e mantemos a lanterna acesa iluminando um grupo pequeno, que se repete em muitas mídias, como me lembrou uma autora querida.

Eliane Paz escreveu um artigo onde analisou a lista publicada pela Revista Veja de livros mais vendidos nos últimos 21 anos e alguns prêmios existentes. Ela chegou aos seguintes dados: dos 113 prêmios Nobel de Literatura, apenas 16 foram concedidos para mulheres, sendo 10 delas premiadas nos últimos 30 anos. O Jabuti, nosso prêmio maior da literatura brasileira, contemplou 19 autoras e 116 autores ao longo dos anos. Em ambos, representamos cerca de 15% dos contemplados. O ranking da Veja mostra que apenas 30% dos livros mais vendidos no país são escritos por mulheres. E desse percentual, a maioria avassaladora é de livros de língua estrangeira. Não creiam que para elas é mais fácil. As duas maiores potências de autoria feminina foram orientadas a não assinar seus nomes completos.

Não poderia dizer minhas palavras após ler estas da Eliane Paz:

“Essa baixa representatividade perpetua o círculo vicioso da invisibilidade literária feminina – menos publicação, menos divulgação, menos prêmios, menos leitores –, aumenta o desconhecimento sobre o que as mulheres têm a narrar, silencia suas experiências e mantém as mulheres à margem do campo literário.”

No censo brasileiro de 2019 ficou evidente que somos maioria da população (52%). Em 2019 uma estatística apontou que somos também a maioria do público leitor: 54% dos leitores se identificam com o gênero feminino. É aqui que te pergunto algo que minha amiga de coletivo me perguntou há quase um ano: quantos livros escritos por mulheres você leu nesse ano?

Antes que ideias pré-concebidas te assaltem a alma, literatura feminina não significa apenas romances com finais felizes ou poemas de amor. Somos isso também, mas somos muito mais. E me acreditem quando digo que escrever um romance com um final feliz é muito desafiador. Tente imaginar aquele par que se junta com você e abraça uma vida cheia de percalços, compreende que você é um ser imperfeito (assim como ele) e que te ama incondicionalmente. Só amor de mãe, né? Às vezes nem esse… escrevemos ficção de alto nível.

Há mulheres incríveis fazendo todo tipo de literatura. Se elas existem, por que não lemos seus livros? Por que deixamos esse espaço ser ocupado por homens em sua maioria? Você lembra quem formou seu gosto pela literatura? O meu foi formado por outra mulher, minha mãe. E ela me apresentou várias escritoras maravilhosas. E escritoras brasileiras.

Aqui no Ceará, me apresentei para aproximadamente 40 mulheres na tarde de 11 de junho de 2022 e celebramos esse momento com um registro fotográfico. Cada uma de nós teve seu tempo de fala respeitado e muitas histórias bonitas foram compartilhadas. Algumas me tocaram e reverberaram por mais tempo na memória, histórias de silenciamento e dor, de poemas incompreendidos e rasgados. Lá em São Paulo, onde essa onda começou, um tsunami de mulheres ocupou a arquibancada do Estádio do Pacaembu. Vestimos coragem e nossos livros. Tenho consciência de que somos muitas mais e, por isso, mal posso esperar pelo próximo encontro.

Para encerrar essa fala, me responda: qual autora brasileira viva você leu nos últimos seis meses? Se a sua resposta for “nenhuma”, leia novamente esse texto e perceba que você pode ajudar a mudar as estatísticas. Terminada a minha preleção, eu teria em mãos uma lista de autoras para quem quiser começar a mudança.


Quer conhecer as fontes das informações citadas nesse texto? Só vem:

https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/feminicidio/capitulos/qual-a-dimensao-do-problema-no-brasil/

https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18320-quantidade-de-homens-e-mulheres.html

https://www.prolivro.org.br/pesquisas-retratos-da-leitura/as-pesquisas-2/

https://jornal.usp.br/radio-usp/dados-do-ibge-mostram-que-54-da-populacao-brasileira-e-negra/

https://seer.dppg.cefetmg.br/index.php/VINCO/article/download/1030/987

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2019/01/05/interna-brasil,729072/lei-que-torna-racismo-crime-completa-30-anos-mas-ha-muito-a-se-fazer.shtml


Crédito da imagem:  Foto por Cláudio Rodrigues (@claudc ) e Miguel Silva (@silva.fotografo )

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Expresso da Meia-Noite

Sabe aquela receita do insucesso que todos, inclusive eu, recomendam não fazer porque é quase certo que o resultado dê errado? Não seria exatamente uma tragédia anunciada, mas a chance de “dar bom” seria bemmm improvável. Mas uma chance mínima ainda é uma chance, então me apeguei a ela com disposição. Me inscrevi para participar de uma corrida de rua no domingo (dia 19/06). Estava bem animada para o evento, mas acabei precisando desistir por conta de uma viagem. Mesmo assim, resolvi pegar o kit porque achei a camisa linda (queria guardar de lembrança) e também pela garrafinha pra usar na academia. Acontece que, na quarta-feira, algumas horas antes da minha viagem, aconteceu uma reviravolta e não viajei. Logo, estaria na minha cidade no dia e horário da corrida. Resumindo: desisti da desistência de correr. Buscar o kit não foi em vão. Bora me preparar para aquela corrida!!!

Naquele final de semana também tinha sido o feriado de Corpus Christi (em parte a razão da minha viagem), aí começou a sequência de eventos não recomendados. Mas antes, preciso explicar que estou com o joelho lesionado e em tratamento (fisioterapia, acupuntura, musculação, repouso, etc). Então, como não viajei fui aproveitar meus dias de descanso do feriado. Só lembrando que a corrida seria no domingo. Na quinta fui dar uma volta de bike que totalizaram pouco mais de 20 quilômetros de percurso. Primeiro ponto: não é uma distância que estou acostumada a fazer, normalmente, faço, no máximo, 15 km. Segundo ponto: faziam semanas que não pedalava. Ponto três: faltavam 3 dias para a prova. Na sexta-feira fiz treino de musculação e funcional. Quarto ponto: estava evitando o funcional por causa do joelho (seguindo minha trajetória do insucesso kkk).

No sábado…advinhem??? Descanso!!!! Só que não. Dei uma caminhada pelo meu bairro alternando com trotes de corrida (total de 8 km). Ponto cinco: esse ano não fiz nenhuma corrida (já falei do joelho né! rs). Ah! também tem a coluna inflamada na lombar. Mas pelo menos eu dormi cedo??? Deveria, só que não!!! À noite tive uma confraternização de festa junina. Não consumi bebida alcoólica, nem comi muita besteira, só um pouquinho (ninguém é de ferro). Despedi-me à meia-noite, ainda mantinha a intenção de correr. Fui pra casa para dormir um pouco, deveria me levantar às 6h da manhã. Cansada do dia e da noite resolvi tomar um café expresso quase 1 da manhã, não me tiraria o sono, mas me permitiria acordar disposta com as poucas horas de sono que me restavam. Era isso ou nada. Não recomendo, mas pra mim dá certo, só uso em situações bem extremas, como era este o caso. Às seis, o despertador tocou, ensaiei insistir no modo soneca, mas se já tinha passado por todas aquelas etapas e tinha acordado era pra eu ir!!!! Comi pão com geleia, banana com mel, mais um cafezinho e rumei ao meu desafio.

Às oito foi dada a largada, estava disposta e alegre pela minha persistência em tentar até o final, mas ainda tinha o desafio de correr!!! O primeiro quilômetro vieram aqueles pensamentos combativos de que não ia aguentar, que o joelho ia doer, estava sem treinar, por qual razão fui, podia estar dormindo e uma infinidade de possibilidades e forças contrárias. Tava lá né!!! Então esquece. Podia desistir? Claro! Sentaria no meio fio e assistiria as pessoas participando, se superando e comemorando suas pequenas vitórias. Resolvi seguir: eu tinha 2 metas: 1) cumprir o trajeto de 5 km e 2) percorrer todo o trajeto correndo, sem nenhum momento de caminhada. Se conseguisse ambos estaria orgulhosa de mim. Coloquei minha meta dentro das condições que me encontrava. No segundo quilômetro começavam as baixas dos corredores migrando para a caminhada, ao mesmo tempo vários passavam a minha frente, o sol começava a esquentar, o olhar no horizonte me lembrava que ainda tinha muito chão pela frente. Então foi tentando manter minha velocidade média e respirar, lembrando que cada vez que avançava faltava menos do que na largada.

No quilômetro três tinha descida, um descanso, mas um alerta e cuidado para o joelho e coluna. Logo estaria dando a volta e a descida se transformaria em uma subida digna de respeito. Até pensei que estaria tudo bem caminhar só na subida para conseguir fechar a prova, mas fui no meu ritmo e persisti até o limite que pudesse aguentar. Só pensei: “- Bora lá!!!! Não desista na mente antes de tentar no corpo”. Até que cheguei no quilômetro quatro, agora era questão de honra, a subida íngreme já tinha acabado, já estava plano então era buscar a energia que me restava e correr para o abraço. Voltar ao ponto de largada é um misto de felicidade pela chegada, do cumprimento das metas e exaustão (morri, mas passo bem!!!!). Acabou!!!!!

Sentei no meio fio para recuperar o fôlego, comi uma fruta, bebi uma água, conferi meu relógio medidor, tinha ficado abaixo dos 30 minutos. Aguardei o resultado oficial. A medalha de participação já estava garantida. Eis que tive uma grata surpresa, além de um bom tempo de prova, para uma pessoa sem treinar e lesionada, tive uma excelente colocação. No quadro geral feminino em 16º lugar de 493 participantes e na minha categoria em 8º lugar de 343. Fiquei muito feliz e bem surpresa. Se aquele cafezinho da meia-noite fez a diferença no resultado?? Não tenho certeza!! Mas tenho fé que sim!!! Não recomendo, mas diante do meu cenário era a ferramenta que tinha para me ajudar. Resumindo: deu bom, apesar de tudo!!! Como estarei amanhã??? Ou melhor, como meu joelho e coluna estarão amanhã?? Aposto que vão doer voltando a rotina, mas foram legais comigo neste dia, me deram um descanso pra minha diversão na manhã de um domingo. O efeito do expresso passou, mas esse feito ficará na memória.


Crédito da imagem:  Foto por Nataliya Vaitkevich em Pexels.com

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Uma mãe por todas. Todas por uma mãe

Deixei minha caçula em casa com o compromisso de lavar a louça gigante que estava sobre a pia desde muito cedo. Era a tarefa dela, meio indigesta, eu sei, mas ela parecia resignada. Deitada no sofá, ela tentava reunir coragem para enfrentar a pilha de pratos e travessas enquanto a cachorrinha a puxava pelo vestido para ceder à brincadeira de cabo de guerra.

Eu estava atrasada e me arrumava apressadamente para o compromisso que me aguardava. Entretanto, interrompi o que estava fazendo por alguns instantes e me sentei na ponta da cama para conversar por meio de mensagens com a filha mais velha que estava na casa do namorado desde o dia anterior. Perguntei como ela estava e a que horas chegaria. Ela me respondeu de pronto, dizendo que estava tudo bem e que chegaria em casa no inicio da noite pois ainda tinha marcado uma tarde de jogos com os amigos. Fiquei feliz por ela estar bem e por estar se distraindo após sua semana cansativa de faculdade e trabalho. Eu disse que a amava e desejei que se divertisse. Ela me respondeu com um “Eu também te amo”.

Voltei a me arrumar sem muita atenção com o que vestiria. Mas com o requisito de que teria que ser simples e que denotasse esperança. E fé de que a vida não termina aqui… Não sei se a cor de uma roupa conseguiria denotar tudo isso. Mas não me sentia confortável em vestir preto no velório de um adolescente. Seria muito estranho. Com o pensamento sob uma nuvem de tristeza, apesar de estar tudo bem com minhas “pequenas”, saí para ver uma despedida de mãe e filho.

Não posso dizer que imagino a dor que minha colega de trabalho estava sentindo pela partida de seu filho único. Não, eu não consigo nem imaginar. Acredito que deva ser uma dor que transcende qualquer definição ou explicação. A dor dela me causou uma profunda tristeza desde o momento em que soube que seu filhinho havia partido. Como mães, inevitavelmente acabamos pensando o que faríamos se fôssemos nós a passar por aquilo tudo. A identificação é imediata e profunda. O que eu diria a ela quando a visse e sentisse seu pranto? Não havia nada que eu dissesse que pudesse amenizar seu luto. Ofereci meu abraço e meu carinho. A ela peço desculpas por ser tão pequena e tão pouco poder fazer. Sou mãe e sou humana, falível, limitada e pequena frente aos mistérios e dores desse mundo. 

Precisei sair mais cedo do velório e não vi o sepultamento. Despedi-me dos conhecidos e, já quase na saída, conversei um pouco com outra colega que há muito tempo não encontrava. Ela me disse que estava tudo bem com sua família e falou das conquistas recentes dos seus dois filhos. Um deles está estudando medicina e o outro formado e pós-graduado. Tão orgulhosa estava aquela mãe! E solidária nessa corrente de outras mães em volta da mãe enlutada. Fiquei feliz pelas conquistas dos filhos dela.

O outro compromisso que me fez sair mais cedo do velório foi com uma de minhas enteadas. Ela estava voltando de um retiro religioso que fazia parte de sua preparação para a crisma. A escola tinha organizado uma recepção surpresa dos familiares para com os crismandos. Eu participei da pequena comitiva dela, junto aos seus pais. Esperamos por volta de uma hora até que os crismandos chegassem do retiro. Nesse tempo, vi o desfilar de pais, irmãos e avós esperando por seus adolescentes, conduzindo flores, presentes e cartazes. Era uma festa, sem dúvida. Festa de cores alegres, de risadas, de cânticos religiosos e de palavras de esperança e fé. Via-se o quanto os pais estavam sedentos por receber suas crias das quais estiveram sem comunicação durante todo um final de semana. Juntei-me a esse coro de saudação, de comemoração da vida e recebi minha enteada com muita alegria. Feliz pela felicidade dela. Ali, eu era uma coadjuvante: a madrasta. Mas como mãe, estava ali com o mesmo sentimento uníssono de saudação aos jovens que retornavam de uma experiência espiritual.

Mas, no fundo, meu coração de mãe estava dividido. Meus sentimentos oscilavam como um pêndulo desbalanceado. Eu acabara de presenciar a dor pungente de uma mãe que perdera o filho e que nitidamente ansiava por algum entendimento para aquela avalanche que a havia atingido. Praticamente ao mesmo tempo, eu vira o regozijo de outra mãe orgulhosa e que comemorava com toda legitimidade as conquistas dos seus filhos. Estava, ainda, entre as mães coloridas e risonhas da escola que festejavam a chegada de seus jovens crismandos e, ao mesmo tempo, eu refletia sobre a minha própria condição particular de mãe divorciada, o que muito impactava na vivência da minha própria maternidade. Eu estava em meio àquela turba festiva mas havia acabado de presenciar um clamor de lamento e dor em um cemitério há minutos dali. E, por incrível que pareça, em cada um daqueles lugares e situações, eu me senti igualmente parte desse corpo único da maternidade. Eu identifico a dor e a alegria de todas essas mães. E vivencio ambos os sentimentos com a mesma legitimidade, entendendo que não há incoerência alguma nessa identificação quase que simultânea com a dor e com a alegria. Permito-me chorar pela dor compartilhada com a mãe que lutou e não alcançou a saúde do seu filho. E me permito sorrir ao ver minha enteada feliz, retornando de um retiro, recebendo abraços, presentes e aconchego.

Na volta para casa, uma olhada no celular para ver as últimas mensagens que haviam sido negligenciadas pelos eventos (e sentimentos) das últimas horas. Lá, aguardavam resposta uns recados da minha mãe, combinando detalhes da semana vindoura de consultas médicas de rotina dela e do meu pai, para as quais minha participação seria necessária. Estava ali outra faceta da maternidade dela e minha, com uma recente troca de papéis. A filha cuidando da mãe. A mãe cuidada pela filha.

Em tudo isso, sinto a teia invisível da maternidade unindo-me, de certa forma, a todas essas mulheres, em menor ou maior grau. Certamente, nem todas as mães se sentem da mesma forma frente a situações como essas. E não há mal algum se elas sentem de outro jeito. Cada uma conduz às costas sua carga, às vezes leve e com asas que as fazem voar, às vezes pesada que dificulta a navegação por esse rio que é a maternidade. Fluido, dinâmico, caudaloso ou plácido, mas sempre a permear a nossa existência inteira.


Crédito da imagem:  Foto por Irina Iriser em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Apenas mais um texto infeliz

Era escritora. Ofício difícil, que carrega muita dor. 

Para escrever, pensava principalmente no passado. Os abandonos que sofrera, a saudade da família, os relacionamentos que não foram para frente… toda a sorte de angústias, desprazeres e frustrações.

Era um dia frio de maio, um domingo daqueles entediantes, arrastados. Foi para a frente do computador com sua xícara de café e pensou: preciso reverter esse quadro.

Queria escrever textos mais animados, motivantes. Xô tristeza!

Mas nossa, como é difícil mudar o quadro quando se tem tendência a depressão.

Abriu então seu word e disse a si mesma: a primeira coisa que vier a minha cabeça vai ser colocada no papel.

Havia acabado de receber um e-mail da revista na qual trabalhava cobrando urgência. Sua coluna já estava atrasada, e bem atrasada.

Era uma baita crise de inspiração.

Até que…

***

Era como se estivesse nas nuvens. Aquele beijo representou exatamente o que ela imaginava por anos.

Eduardo era melhor amigo de uma amiga dela. Tinha os olhos claros, o cabelo castanho, e uma linda voz. Alice era apaixonada por ele há anos. Chegou a ter outro namorado, mas nunca o esqueceu.

Ele martelava em seu pensamento. Martelava, martelava. Às vezes, inclusive, nos sonhos. Quando isso acontecia, Alice acordava assustada, com medo. Não queria que ninguém soubesse do seu segredo.

Segredo tão bem guardado, que nem sua melhor amiga sabia. Ninguém sabia. Alice não queria admitir nem pra si mesma.

Mas naquela noite, quando todos dançavam na festa, algo surpreendente aconteceu. Eduardo, que nunca lhe havia dado a menor bola, de repente começou a olhar pra ela de modo estranho, diferente. Tímida como era, Alice ficou encabulada. Mas ele foi se aproximando, aproximando. E enquanto isso começou a tocar uma música do Los Hermanos: “De onde vem a calma, daquele cara…”

E um beijo aconteceu. Um beijo de amor.

***

Olhando para o arquivo em branco, Alice lembrava-se apenas daquele beijo, e daquela noite inesquecível.

Como já podemos imaginar, aquilo que julgou amor não teve prosseguimento. Foi apenas mais um momento nesta longa vida líquida…

Um momento que marcou tanto, tanto.

Dessa vez, não pensou duas vezes.

Precisava vomitar aquilo.

O prazo estava apertado, precisava entregar a coluna. Com o coração aos pulos, lembrou-se daquela música tão especial, e escreveu.

“De onde vem a calma, daquele cara? Tá se exibindo pra solidão”.

E ali, naquele domingo preguiçoso, acabou escrevendo…

apenas mais um texto infeliz.


Crédito da imagem:  Foto por Ketut Subiyanto em Pexels.com

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Solta

Solta os medos
As limitações
As angústias
Tudo o que te prende
Solta o peso
A sensação de impotência e de não merecimento
Solta o grito
 a respiração contida, o confinamento
Solta as ideias, as emoções
 A gentileza, os afetos
Solta o amor
E OLHE PARA A FRENTE
E ande mais leve
Sinta o sol dentro de você
Veja os caminhos que se abrem
Sinta a explosão de cores
Sinta a alegria
Solte a vida e se encha de vida
Quanto mais damos mais recebemos
De maneira melhor e diferente
Em outro idioma, frequência, universo

SOMOS PRESENTES E RECEBEMOS PRESENTES

Quando voamos sem medo de perder
Somos capazes de levar somente o que importa
E o que realmente faz sentido


Crédito da imagem:  Foto por Ron Lach em Pexels.com

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Fragmentos sociais

Minhas primeiras lembranças de alteridade, de brincadeiras com amigas, trazem a imagem da “Bel”. Uma menina preta. Linda. Altiva. Dois ou três anos mais velha do que eu. Inteligente. Prática. Estudiosa. Olhos incrivelmente brilhantes. Cabelos partidos, trançados, presos – sempre. Organizava todas as nossas brincadeiras, que na época eram bastante restritas. Talvez por falta de espaço, externo. Ou, quem sabe, exatamente pela amplitude dos espaços internos. Casinha, bonecas, maquiagem, comidinha, desenhos, escola … ela adorava brincar de escola, e era a professora, claro. Nunca queria dançar, correr ou se esconder – não compreendia suas razões; mas não me importava; eu adorava brincar com ela. Ela pensava em cada detalhe, todas as etapas de nossos dias partilhados, e a mim cabia divertir-me, inclusive com suas incisivas e rotineiras ordens. Quando pintava, era sempre uma obra de arte. As cores vivas. Os desenhos multicoloridos. Os meus lápis de cores e canetinhas margeavam as linhas impecavelmente nas mãos dela. Eu invejava isso. Quando acabava o dia, a brincadeira, ela ia dormir com a avó, a Maria, no quartinho dos fundos da casa dos meus avós. À noite eu me encontrava com meus sonhos; ela com sua realidade.

Hoje? Ela brinca de ser professora e eu continuo minha busca por diversão. Mantenho a inveja da força e da destreza daquelas mãos pretas. Espero que ela se lembre de mim, se possível, com algum bom afeto.


Crédito da imagem:  Foto por Pixabay em Pexels.com

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Vento

O vento soprou forte

Balançou todas as árvores ao redor

Os meus cabelos foram-se na ventania

Arrepiaram… Embaraçaram…

A vontade de fazer o coque para disfarçar o frizz

As folhas vieram em minha direção

Eram folhas verdes, amarelas e marrons porque também tinham as folhas secas.

Um vento impetuoso vindo dos ares

Esforçava para arrancar coisas de um lugar para o outro

Me veio na mente que a vida é como o vento: uma constante mudança; há coisas que não podemos arrancar, outras podemos soprar para longe e outras que levamos onde for.


Crédito da imagem:  Foto por Masha Raymers em Pexels.com

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