OBRIGADO MOÇA

Moça, lembro de você desde o início, as primeiras sensações… Lembro do calor do seu corpo, das batidas do seu coração. As vezes ele batia tão acelerado que se confundia com o meu. O som das suas risadas eram como o badalar convidativo dos sinos das igrejas ao chamar os seus fiéis. Lembro também do seu choro contido e do sentimento de dor que abraçava seu corpo e me enchia de medo. Nesses momentos moça eu ficava bem quietinha para não machucar mais ainda o seu viver. Lembro de vozes que gritavam com você e sentia um banho de gelo tomar conta da sua alma, vozes que sempre diziam não a você e a mim. Nesses momentos desejava ter forças para embalar você e lhe colocar dentro de mim, assim como você fazia comigo. Nessas horas sentia o calor das suas mãos acariciando o próprio ventre, sentia o seu amor tão infinito.

Moça, de repente tudo ficou tão claro, falta ar nos meus pulmões, uma força estranha me coloca para fora e não reconheço mais nada. Está tudo tão diferente. Luzes, ferros, barulhos estridentes, vozes que não reconheço e muito frio. Estou sozinha sem você.

Estou em um quarto que falam que é meu, onde uma mulher muito meiga e carinhosa fala com carinho olhando dentro dos meus olhos. Sinto uma sensação gostosa de líquido quentinho na boca.  A voz não é a sua, o calor do corpo dela não é o seu. Onde você esta moça? Onde esta sua jovem e encantadora voz que me chamava de meu amor?

O tempo passou e a saudade provocada por sua ausência foi apagada por tanta dedicação daquela mulher que me criou. Mas o vazio da sua falta ficou e junto com ele uma revolta por não saber o que aconteceu com você. Por que não se despediu?

Moça o tempo passou mais ainda e hoje sou uma senhora que depois de muita análise compreendeu o quanto o seu amor por mim foi maior do que as vozes que tentaram lhe silenciar. Mesmo sozinha você permitiu que eu existisse dentro de você e que foi por amor que eu vim ao mundo.

Quero lhe pedi perdão porque não fui forte o bastante para lhe proteger assim como você me protegeu. Obrigado moça porque você acreditou em mim, no meu potencial de vida, nos meus sonhos de vir a ser. Obrigado moça por ser corajosa e generosa de partilhar a minha vida com outras pessoas que também me amaram tanto como você me amou. Obrigado moça pela vida.

Crédito da Imagem: Foto por Isabela Catu00e3o em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

DESTINO

Nunca acreditei nas linhas,
no traçado inquieto
dos gestos ocultos.

Nunca a amargura do medo
me causou tanto espanto,
quanto esse vazio constante.

Nunca havia sido tocada pela sanidade,
a ponto de desejar e temer a loucura…
Entrelaçar-me fio a fio nos cabelos do vento,
libertando assim os meus segredos,
meu pensar mais sincero, puro e insano.

Nunca pensei sentir tão profundamente a dor,
o peso da lâmina me arrancando as flores…
Quando deveriam ter-me cortado as raízes.

Porque eu nunca soube, como agora,
o quanto meus pés precisam ir além
dessas amarras relutando em meu peito…
Além do desejo de permanecer…
Ou de nunca mais voltar…

Lívia Maria (05/07/2018)

Crédito da Imagem: Foto Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Reencontros 

Olhou profundamente no espelho

Para além da imagem, quem estava ali?

Reconhecia nos traços mais delicados a menina que fora aos 07 anos

Na leveza do olhar

 a moça dos 18

Na força, a mulher de 30

Na altivez, a de 40

Eram como camadas sobrepostas 

da mesma pessoa

Mas que ganhavam contornos diferentes

E ali, brindando os 50,

Todas elas foram convidadas

Chegaram como um pouco donas da própria festa 

Cada uma a seu modo 

e se juntaram 

De repente 

uma pergunta feita  entre risos e muita música 

Ei, diga, qual de nós vc prefere?

Silêncio

Respiração pausada

Escolha difícil 

Olho atenta para todas

(Im)perfeitas…

 Um brinde…proponho

À vida que virá

Crédito da Imagem: Foto Pexels.com

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O Gato

O Gato.

Sabe, eu nunca gostei muito de gatos, creio que a independência deles me agride um pouco. Então decidi: nunca terei gatos. E lá estava aquele. Um dia apareceu em cima do muro, lá ficou com seu passo lento e calculado, me olhando, de longe; Petulância.

No outro dia, o “desgramado” estava dormindo no capacho da porta de entrada, não ousou se mexer quando me aproximei, só me restou pulá-lo. Tenho coração. Deixei-o lá, era tão quieto.

No terceiro dia ele miou, saltou do muro, se enroscou entre minhas pernas, deslizou os pelos macios por entre meus tornozelos, sedutor, confesso. Deixei à porta uma fresta. Não sou culpada por ele entrar, entrou por conta. Sento no sofá o gato se aninha no colo, o tamanho exato do corpo leve. É quente. Ele se agrada disso, eu sei. Me peguei lendo em voz alta esses dias e entre palavra e outra minha mão alisava o seu arfar lento e barulhento. Me ouvia como outra voz dita. Dia desses estava tomando café, assim, de um salto alcançou a mesa e me encarou, me olhou nos olhos. Tive medo. Do amarelo dos seus olhos. Não, tive medo do verde dos seus olhos. Não, eu tive medo do mar revolto dos seus olhos. Eu tive medo.

Na minha cama ele me segue. Se aninha na dobra dos meus joelhos. É quente, então deixo, às vezes me apalpa e deita no ventre. É quente então deixo.

O gato não tem dono. A independência dele me agride um pouco, não depende de mim. Eu tenho medo; Da cama vazia.

Crédito da Imagem: Foto Pexels.com

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CONSELHO DE QUEM TE AMA

Ela me chegou num dia nublado pela tristeza com uma pergunta que parecia simples, coisa de gente que soma dois mais dois e realmente encontra quatro. Meu somatório tendia a cinco, mas, naqueles dias, eu só enxergava o três como resposta.
Sem humor, ouvi o que tinha a dizer. Eu não devia jogar tudo que construí para o alto pelas minhas paixões. Paixões queimam rápido e se apagam. Definitivamente não, não era isso que eu queria. Eu devia querer a chama que perdura, a velha e boa estabilidade emocional, nada de arroubos, só a sabedoria das escolhas simples.
Achei pouco.
Argumento fraco. Qual filósofo disse que devemos aceitar tão pouco da vida?
Não era pouco o que tinha. E se continuasse com consistência em meu caminho obteria muito mais do que imaginava. Eu precisava apenas me manter no curso, ajustar as velas, meu vento de prosperidade estava soprando.
Meu ego gritou “ganho o que com isso? Com essa tal sonhada consistência?” Ela me respondeu com um sorriso: o mundo pode ser seu.
Na carreira, conseguia me ver sentada na mesa da chefia, comandando aquelas pessoas com meu estilo de liderança. Era isso, eu queria abraçar aquela ideia. Mas ela não vinha sozinha. Vinha com o casamento a reboque, com um plano infalível do Cebolinha para derrotar a Mônica. Novamente, chamada à consciência, um recado simples: “casamento sem amor, sem um amor profundo, melhor não casar.”
Fiquei intrigada com esse conselho, para mim era fácil, só divorciar se não der certo! Não, novamente, não tinha como ser casada apenas por convenção social. Era preciso entender que seriam necessárias boas doses de superação de obstáculos, salto, natação, e outros esportes olímpicos para lidar com as diferenças que se mostram quando um prefere assistir o futebol e o outro a novela.
Me imaginei nesse momento no curso certo: sabia que casamento só com amor, que carreira é se manter numa rota bem traçada, porque a ladeira é grande e a marcha é lenta.
Ainda precisava entender que nem todos que se apresentavam como amigos assim o são. E que dirigir minha vida é como guiar um carro. Às vezes aceleramos, às vezes pisamos no freio, olhamos para trás antes de mudar de curso, de pista, de rumo, e vemos se a passagem que nos dão está realmente livre e não nos conduzirá ao caminho esburacado.
O melhor de todos os conselhos: compre seu carro e dirija sua vida.
Não foi exatamente assim, mas eu entendi.

Crédito da Imagem: Foto Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Cortina de fumaça

Ela chega silenciosa, sorrateira como uma serpente que planeja, meticulosamente, o bote perfeito em sua presa desavisada.

Não deixa claro o motivo de sua vinda, mas surge de repente. E assim, nessa fugacidade, o discernimento completamente desprevenido não consegue encontrar defesas.

No início, aparece disfarçada de um pequeno sopro no estômago e, antes que se perceba, pernas e mãos começam a tremer. Em seguida, o coração responde com um descompasso desordenadamente acelerado. O pulmão não perde a oportunidade e também participa, deixando a respiração ofegante.

O cenário está posto. O cérebro, coitado, ocupado com tantas demandas repentinas, não percebe o blefe do corpo e sofre minutos de agonia. Mas, no auge do seu desespero, um fio de lucidez sobrevém e a mente rememora outros ataques já experimentados.

Então, recupera o controle e entende que foi só mais uma “cortina de fumaça”, chamada crise de ansiedade.

Lidya Gois

Jan/2022

Crédito da Imagem: Foto Pexels.com

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Lembra?

“Tudo bem se não deu certo. Eu achei que nós chegamos tão perto”. Assim pensei, ao ouvir esse trecho da música https://www.youtube.com/watch?v=I4u0GcKa1Vc do Nenhum de Nós. E me pus a lembrar de nosso passado. Vieram tantos momentos: as viagens, a decoração do apartamento, as reuniões de família, os dias na praia… ah, os dias na praia!

Mergulhávamos juntos como dois jovens, em um amor puro, sem a menor ideia da seriedade do que estávamos fazendo. Nós queríamos curtir, namorar, viver! Nem por um segundo tivemos a menor preocupação com contas, divisão de tarefas, emprego, filhos.

Acho que sequer sabíamos o que é um boleto.

Afinal, nós éramos adolescentes. E como tais nos comportávamos. Uma adolescência cheia de planos e sonhos, de esperanças e alegrias.

E inocência, muita!

Ao começarmos a faculdade, decidimos morar juntos para economizar uma grana, e também para passar mais tempo um com o outro. Eu no Direito, você na Engenharia. O futuro era nosso e garantido. Eu seria concursada, e você trabalharia em uma multinacional. Tudo daria certo.

E assim fomos levando, levando, levando…

Até que veio a pandemia. E aquele concurso tão sonhado não chegou. Eram tempos políticos difíceis, e o estado era mais que mínimo, era micro. Acabei ficando em um escritório pequeno, tosco, defendendo laranja. E você precisou pegar qualquer emprego, pois as empresas estavam falidas.

Começamos o isolamento social tentando manter um home office feliz, pois pelo menos passaríamos ainda mais tempo juntos.

Mas com a convivência, vieram as brigas. Os ânimos ficaram mais acirrados. O tesão, foi acabando aos poucos. Entre nossas quatro paredes, longe de tudo aquilo que tanto gostávamos na rua, fomos obrigados a conhecer mais um ao outro. E isso nos revelou partes que nem imaginávamos.

E eu fiquei ali perdida no meio daquilo tudo, sem ter a menor ideia do que estava acontecendo. Afinal, não foi nada daquilo que combinamos na praia. Ou quando dormíamos juntos, e antes de fechar os olhos você me prometia “nunca vou te largar”.

E eu me agarrava àquilo como uma verdade absoluta. E de certa forma foi, porque quem decidiu sair fui eu. Estava cansada. Sem preparo psicológico e emocional nenhum para aquele momento, e decidi ir morar com uma amiga.

Um ano se passou de lá pra cá.

E até hoje, entre fotos, livros e discos que ouvíamos juntos, me pergunto: será que tomei a decisão certa? E escuto Hotel Califórnia https://www.youtube.com/watch?v=GVYdsucRUpA. E me lembro de ti. Quando debaixo do chuveiro você resolvia dar uma de cantor e eu dizia, rindo: você devia ir para o Ídolos.

“Welcome to the Hotel California, Such a lovely place, Such a lovely place, Such a lovely face”.*

Hoje, já em uma empresa maior e de volta ao presencial, mas ainda com minha máscara no rosto, tenho cinco minutos para colocar um fone no ouvido e relaxar. E eis que esbarro nessa música, que há tanto tempo não escuto, “Você vai lembrar de mim” https://www.youtube.com/watch?v=I4u0GcKa1Vc, do Nenhum de Nós. Esta que motivou todo o início desse meu belo e cafona discurso.

E me pergunto.

– Será que você ainda lembra?

***

*Bem-vindo ao Hotel Califórnia, Que lugar encantador, Que lugar encantador, Que rosto encantador

SIMPLESMENTE EU

Neste momento eu não penso na minha aparência atualizada pela idade.

Neste momento apenas penso no que guardo em minha alma.

A mulher que sou hoje já foi uma adolescente de saia curta, batom vermelho e longos cabelos soltos ao vento.

Tomava refrigerantes, comia cachorro quente e dava risadas gostosas. Desfrutava a vida do jeito que ela viesse.

O tempo passou e fui apresentada de “repente” a uma senhora de cabelos brancos, roupas comportadas, aparência sóbria.

Mas não se enganem, nem tudo é como parece, enquanto tiver um sopro de vida no corpo, a alma desejosa e inquieta é ” dona da minha cabeça e comanda o espetáculo da minha vida.

Crédito da Imagem: Foto Pexels.com

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TEMPO

Como vai você?

Já tirou uma hora livre só para ti?

Seus planos mudaram com o tempo?

Os sonhos foram realizados ou deixados para depois?

A vida é tão bonita que merece um dia de beleza.

Quando tiver tempo livre, gaste esse tempo para se embelezar.

No cabelo jogue uma hidratação, nos olhos um delineador e na boca um batom.

A vida merece uma dedicatória  sendo aproveitada com astúcia.

Viva a vida! Tão bela e curta.

Tempo? O tempo é ouro.

O tempo é vida, modificando o futuro com o luxo da esperança de dias melhores.


Crédito da Imagem: Foto por Jordan Benton em Pexels.com

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IN MEMORIAN

O dia chora contra meu peito
Lágrimas frias de partida.
Não das palavras,
Vivas
Agarradas ao muro feito Hera
Feito Eva
Sobem esgueiras e transcendentes.
Agarram o tempo do poema que prometi
E não cumpri
Não cumpri porque eram suas as palavras
De seus segredos
Que me pediu duras de vida
Para trazer de volta
Os passarinhos
Verdes
Da sua juventude.

(In memorian Isabel Pakes)


Crédito da Imagem: Foto por cottonbro em Pexels.com

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