Minha alma crua sangra
E turbulenta, clama
Tinha uma pandemia lá fora
Agora a pandemia sou eu
Foto: Steven John Pascua
Um respiro na rotina, uma pausa escrita, é o nosso respiro ou o respiro de quem lê? O Sabático é um respiro para existência escrita.
Minha alma crua sangra
E turbulenta, clama
Tinha uma pandemia lá fora
Agora a pandemia sou eu
Foto: Steven John Pascua
Mora em mim
Mora em mim um espírito aventureiro. Uma mochileira, um andarilho, uma cigana.
Cada um deles ecoa em mim. E gritam sedentos e exigem asas.
Cada um deles quer estar em mim e, ao mesmo tempo, no mundo.
Mora em mim uma cantora, uma atriz, uma artista.
Uma pintora. Que pinta a liberdade.
Cada uma delas me pede emoção, imaginação, verdade.
Mora em mim uma mulher vadia. E ao mesmo tempo uma inocente criança.
Mora em mim o múltiplo, o diverso. O pacífico e o adverso.
Mora em mim esta canção. Que fiz para expressar meu coração.
Tão piegas…
Mora em mim o exclusivo, e o universal. O platônico e o carnal.
Mora em mim uma vontade que não passa.
E mora em mim, ah…palavras…
Que explodem em verso, arrebentam o papel e dançam ao vento
Pintar paredes
Trocar piso
Azulejos
Móveis
Tirar entulho
Comandar tarefas
Limpar poeira
Redecorar cômodos
Transformar o velho em novo
E o novo em seu
Com sua cara
E sua visão
Cada taco, uma história
E para cada história, uma emoção
Mas para mudar o coração
É preciso nova trajetória
A limpeza é da tristeza
A reconstrução, é da beleza
A troca não é de parede, ou chão
Mas dos pilares de renovação
A verdadeira reforma
Re-forma
Re-afirma
O interno
Não é uma casa de paredes
Mas um lar de lembranças
Um coração de andanças
Que precisa de esperança
Que precisa de reforma
Foto: Freek Wolsink
A gente tem que queimar
A fatura atrasada, o amor mal vivido, o rancor entalado, o caso mal resolvido
Não tem que queimar a esperança, a sede de mudança, a nova lembrança, o amor de criança
Ai, que vontade
Loucos por livros
Emily Henry
10.ed., 2026.
Verus Editora
Tradução de Ana Rodrigues
432 pag.
Que livro gostoso da porra de ler!
Te contar, a Emily escreve sobre uma mulher sem coração, uma daquelas megeras de salto alto. É como se fosse uma releitura da Disney para as vilãs mais amadas, uma Malévola da cidade grande.
Não por acaso, esse é o estereótipo da mulher que sempre toma o pé na bunda nos filmes da Hallmark, quando o mocinho vai para a cidade do interior resolver um problema do trabalho ou receber uma herança e acaba se apaixonando por alguém que gosta de fazer trilhas e admirar as estrelas. Emily honra essas mulheres com uma história de amor para elas.
E aí, você já foi a Cruella De Vil da vida de alguém? Se fui, não lembro mais! (Aqui, vocês devem ouvir uma gargalhada sonora! Hahahaha! Só mulheres capazes de tomar um fora sem sucumbir a uma nuvem de lágrimas fazem jus ao título de megeras e dão gargalhadas sonoras).
Para quem gosta das comédias românticas como eu, esse livro dá pro almoço, lanche da tarde e jantar.
Com 432 páginas que misturam sensualidade, provocação entre colegas da área editorial, irmãs que se amam muito e aperto no coração, a leitura flui com facilidade.
Eu decidi pela leitura profunda, pegar as referências e fazer notas mentais. Em romances assim, normalmente minha leitura é acelerada, mas esse eu curti e deixei o final marinar por um dia e meio antes de acabar. Gostei demais dos personagens para perdê-los. Nora, Charlie, Libby, Shepherd, todos queridos demais para se despedirem depois de algumas páginas.
Minha recomendação: divirta-se com esse livro no seu tempo. Nas últimas páginas têm uma lista com os livros indicados pelas irmãs protagonistas. Não resisti e já adquiri dois que vão ficar na lista infinita de “para ler”.
Que bom que os livros da Emily estão virando filmes. Espero que os roteiristas sejam fiéis a sua escrita loquaz.
Valeu a pena pra mim, espero que valha para você também.
Escrevo para me libertar
Me liberar
das culpas
do passado
do medo
Do presente
que aperta o peito
Da ansiedade que me corrói por dentro
Escrevo
Depois penso
No que não fiz
No que ficou por um triz
Por medo
preguiça
falta de paciência
Agora é passado
Mas fica guardado
No peito
Na mente
Na alma
Como um filme,
uma vida que não vivi
Uma vida paralela
que existe
Tem cheiro, cor
Sentimentos e pensamentos
Sensações
Devaneios
Por isso escrevo
Pra não implodir
Pra deixar sair
Ganhar vida
e me deixar
em paz.
Eu não sou posse
Não sou ancoragem
Não sou porto
Não sou paragem
Eu
Não sou ternura
Nem sou loucura
Tampouco ingênua
Não sou insegura
Eu
Não sou bebida fraca
Pintura abstrata
Medalha de prata
Eu
((Sou concreta, sou luz, mulher, voz que não cala))
O céu empurrou o sol para trás das nuvens carregadas. Imagino um lugar em que eu não precise ser outra coisa, a não ser exatamente quem sou. Um espaço completamente meu. Este lugar existe. É aqui, em frente à janela, essa fronteira entre dois universos: o lado de dentro e o lado de fora.
Janelas costumam ser de onde se assiste ao mundo, embora, daqui, minha vista privilegiada seja o prédio em frente e roupas penduradas nas varandas. Todas as manhãs, com uma xícara de café e a luz do dia perfurando a renda branca da cortina, insisto em enxergar além das janelas fechadas. Capturo momentos prestando atenção no que acontece ao redor e dentro de mim. Permaneço neste instante capturado.
E, então, escrevo.
Por amar ler romances, procuro criar histórias com protagonistas maduras. Quero que mulheres como eu se reconheçam nelas e saibam do valor que têm. E, acima de tudo, que nunca se esqueçam dele. Minhas heroínas não se resumem a dores nas costas nem apenas a crochês em cadeira de balanço. Para isso, venho construindo, pouco a pouco, uma voz própria, com um jeito único de expressar minhas ideias. Algumas pessoas chamam isso de estilo. Eu considero um instinto afiado que me conecta a pessoas que partilham as mesmas causas e se envolvem em questionamentos semelhantes.
Quando leio sobre a impetuosidade de Elizabeth Bennet, a heroína de Jane Austen em Orgulho e Preconceito, ou a força de Claire Beauchamp, em Outlander, da Diana Gabaldon, identifico-me com seus anseios e paixões. Da mesma forma, sem querer me comparar com estes gênios (imagina, eu, uma simples aprendiz), envolvo minhas personagens em uma aura de sonho, romantismo e delicadeza, ao mesmo tempo em que as coloco à frente de seu tempo, sem se deixarem conter diante de empecilhos sociais ou biológicos.
Influenciada por elas, optei por retratar mulheres que lutam pelo que acreditam e buscam formas de realizar seus sonhos. E conseguem! Apesar dos obstáculos que a sociedade tenta nos empurrar goela abaixo, como: Você não pode mais. Já passou da idade. Deixa isso para as mais jovens, são mulheres modernas, decididas, obstinadas, livres e apaixonadas.
O tom da chuva
Os respingos na vidraça da janela e as nuvens carregadas atrás do prédio em frente formam o cenário perfeito para uma pausa dramática. Medito no caminho percorrido para encontrar meu tom na escrita e nas razões pelas quais escrevo romances. Percebo que quero ser uma escritora que naturaliza a presença da mulher de meia idade em todos os espaços, do profissional ao afetivo e onde mais ela bem entender. E como me incomoda que ainda queiram nos aposentar antes do tempo em lugares onde deveríamos continuar reinando.
Então pensei: como expressar essa voz em histórias com um tema tão urgente, mantendo o tom delicado e envolvente, sem parecer que carrego bandeiras, como bem sinaliza a inigualável Adélia Prado em sua Licença poética? A resposta vem com a criação de personagens que retratam mulheres com as quais me identifico: mulheres que desejei ser um dia, mulheres que procurei ser ao longo dos anos, mulheres que ainda posso ser se eu quiser. Protagonistas transpondo a barreira do preconceito e do
apagamento. Mulheres que simplesmente podem e são.
Fecho a janela e procuro um agasalho. Esfriou aqui dentro. De repente, quase esqueci: sou apenas uma aprendiz de escritora. Mas, devagar, eu chego lá. Vou preparar mais um café. E escrever em frente à vidraça.
Foto de Christopher Jolly na Unsplash
Sair por aí e fazer o que temos vontade
Dar os mergulhos que estamos devendo
Ir na cachoeira lavar a alma
Limpar a aura
Pegar aquele voo
Despachar aquela mala
Conhecer aquela cidade
Andar por aquelas ruas
Sonhar com a cabeça em outros travesseiros
Ou viver o sonho, sem parar para dormir…
Conhecer gente nova
Viver aventuras
Provar pratos típicos
E nem tão típicos
Ser cidadã do mundo
Globe trotter
Trocar dinheiros
Errar idiomas
Comer apontando o dedo para o que tem na vitrine
Pensar que moraria ali
Carregar a casa em malas de rodinhas
Ser uma nômade digital
Ou analógica mesmo
Sentir saudade de casa
E do feijão com arroz
Voltar rapidinho
Para, então, partir de novo
Com roupas limpas e lavadas
Coração aberto para mais aventuras que hão de vir
Foto: Taylen Lundequam
Eu amo Omar.
Ele me entende
e me recebe de braços abertos.
Absorve minhas lágrimas
e as transforma em outras coisas,
outras águas.
Me acolhe e me abraça
com seu vai e vem
que me acalma.
Em certos momentos ele muda o ritmo
e me lembra que eu preciso de movimentos.
Me chama para pensamentos
e mergulhos mais profundos.
Me leva pra longe e mostra que
existem outras praias a serem descobertas.
Onde sairei renovada,
com a alma lavada pelo sal,
a pele seca pelo sol
e novos pensamentos
guiados pelos ventos.