Omar

Eu amo Omar.
Ele me entende 
e me recebe de braços abertos.

Absorve minhas lágrimas 
e as transforma em outras coisas,
outras águas.

Me acolhe e me abraça
com seu vai e vem
que me acalma.

Em certos momentos ele muda o ritmo
e me lembra que eu preciso de movimentos.
Me chama para pensamentos
e mergulhos mais profundos.

Me leva pra longe e mostra que
existem outras praias a serem descobertas.

Onde sairei renovada,
com a alma lavada pelo sal,
a pele seca pelo sol
e novos pensamentos
guiados pelos ventos.

Quinta-feira 13

Na porta da terapia

Vivendo lutos familiares, dores intensas

Você me ligou com uma sentença

Chegou ao final

Você que era minha base

Em meio a tantas intercorrências

Era a única certeza

De tantas as violências

Se cansou dos meus problemas?

Na porta da terapia

A pauta virou outra

No tema desamor

Você alcançou a referência

Minhas outras dores

Até ficaram mais leves

Me presenteou com alívio?

Ou acabou com a minha inocência?

Um domingo e dois mundos

No domingo tive um pesadelo e acordei com o coração acelerado

Como um dependente químico em abstinência,

Me vi sem você

E me vi sem meus planos e sonhos

Sentindo-me uma completa incompetente em não ter percebido

Os nítidos sinais da sua falta de amor

Deve estar cansado

Preocupado com a família

Trabalhando muito

E na verdade, em sua mente covarde

A dúvida não exprimida

Será que quero mesmo essa menina?

Resolveu na terapia

O que não tinha coragem

De me dizer na cara

“Estou em dúvida”

Disse ter medo de como eu reagiria

Esperava que eu te enfiasse uma faca na tua barriga?

Só porque resolveu me deixar menos de dois meses depois do pior momento da minha vida, e de uma série de outros problemas na sequência?

Falando assim, acho até que haveria quem concordasse com o ato insano

Ainda mais considerando a localização da facada e sua protuberância

Mas a violência nunca foi minha índole

E nem eu teria força diante do teu tamanho, de grande e fraco

Dois meses antes, me deu um presente de parceria no dia dos namorados

Menos de um antes, me levou numa viagem romântica

Poucos dias antes

Dizia que me amava e me chamava por apelido carinhoso

Mas quando eu perguntava pela viagem das próximas férias

Ou até mesmo sobre o que faríamos no próximo fim de semana

Vacilava

Já sabia que não teria fôlego para chegar até lá

Devia ser uma verdadeira tortura continuar comigo

Até mesmo mais um dia

A chata que sofre cada hora com um problema

Como se eu tivesse culpa

Pelas tragédias da vida

Será que você preferia

Que eu ligasse pro meu pai

E falasse, não fica doente não

Porque senão dá merda no meu namoro

Ele só tem tesão por mulher feliz

E pensar que até meu pai gostou de você

Justo ele, que de tão pouca gente gostava

Minha família te adorou

Enganou a todos direitinho

Como se eu tivesse culpa

Por meu transtorno depressivo ansioso

Que eu nunca escondi

Diferente do seu autismo

Que até da família você ocultava

E veio me perguntar

Você vai terminar comigo por causa disso?

Talvez eu devesse ter feito isso mesmo

Melhor ser julgada capacistista do que ser tratada que nem lixo, como fui meses depois

A verdade é que passei por uma tempestade

Quero ver se fosse na sua vida

E eu me retirasse

Seria chamada de todo o tipo de adjetivo sujo

Porque a mulher nunca pode se colocar em primeiro lugar, ela é a que cuida

Enquanto o homem, até que está sendo caridoso

“Tenho certeza que se ele fez isso, é porque foi o melhor para vocês dois”.

Melhor para quem?

Sinta um milímetro da minha decepção e da minha dor

E veja que qualquer outra coisa seria menos pior pra mim, que essa deslealdade

E humilhação

Irresponsabilidade emocional é eufemismo para o que você fez

E ainda foi tentar se proteger do que eu poderia dizer para uma amiga em comum

Como se eu precisasse te adjetivar pelo que você fez

Para qualquer mulher medianamente consciente

Os fatos falam por si só

Eu nem precisei dar muitos detalhes do que aconteceu

Fico me perguntando a partir de que dia

Você olhou pra mim e pensou

Eu acho que não quero mais isso

Será que foi quando meu pai adoeceu, e eu fiquei frágil e menos engraçada?

Se é essa ideia de alegria que você faz de um relacionamento

Lamento muito, mas você nunca vai ter algo assim, perfeito

A vida não é igual a uma pegadinha ou uma série de humor das idiotas que você gosta de ver

A vida é real e DÓI

Será que foi quando eu chorei

Depois de visitar meu pai numa clínica psiquiátrica

E você pensou

Meu Deus, tô namorando filha de doido

Enxugou minhas lágrimas antes de eu dormir pensando

Caramba, onde eu fui amarrar meu burro

Te esclareço que problemas familiares, e de todos os tipos, acontecem todos os dias

Bem-vindo ao mundo real

Se você não consegue suportar

Como um completo insensível, um verdadeiro deficiente emocional

Não se coloque a disposição

Não engane ninguém

Não inspire uma confiança que não consegue sustentar

Aprende a ser DIGNO

Espero que você tenha acordado finalmente bem num domingo, depois de se livrar do estorvo que era me carregar nas suas costas

Tempos e ventos

Os ventos dessa vez trouxeram um sonho
Um começo.

O encontro daqueles que orbitaram os mesmos astros,
Que viveram no mesmo espaço.
Respiraram os mesmos ares
Ao mesmo tempo,
Mas não haviam se encontrado.

Precisou o tempo, com suas artimanhas,
E o vento, com suas sanhas,
Provocarem esse interlúdio, 30 anos depois,
Como dois fios que dão voltas na Terra
Que o acaso fez cruzarem-se
Pelos caminhos virtuais.

Os risos chegaram como sopros.
As noites eram passagens pelas esquinas da vida.
Conversas que a brisa ecoa ao longe.
Um sentido de urgência fazia o amor acontecer.

Uma tempestade que, antes de amanhecer,
Levanta a poeira dos pensamentos
Que se dissipam nas brumas da beira Rio
E faz sobrar o tempo no vento.
Na ventania que precede a calmaria,
Que assenta os desejos
E acalma a maré dos amores.

Um tufão altera o tempo,
Acelera a respiração dos amantes e a rotação da Terra,
Sacode os sentimentos e as vaidades.
E, quando assenta, os faz parar em outro lugar.
O que estava junto pousa distante.
Longe do coração.

O ar pesado vira um tornado.
Leva os ventos em ruas retas, sem esquinas.
Não viram à direita nem à esquerda.
Sempre retos.
Sempre em frente.

Mas agora em direções opostas.

Recesso com listas de tarefas


A xícara de café preto sem açúcar, a renda da cortina filtrando o feixe luz sobre a escrivaninha. Cenário perfeito para quem decidiu parar a vida e se dedicar a sua escrita.

Os potes abarrotados de canetas e lápis, um arsenal de ideias nesta suposta trégua com o trabalho, anunciam o excesso de organização. A página “Registro Diário” aberta com caixas de seleção marcadas de afazeres desmascara o desejo de um sabático para escrever.

Escrever para quê?, grita a capa do livro ao fundo. Pergunta que ela finge não fazer a si mesma neste hiato para a prática de escrita. O descanso já vem com plano de estudo na fila das boas intenções. A lista de pendências: edição, textos, organização, que insiste em aparecer dentro deste suposto parênteses na rotina.

Edição do novo romance, o carro-chefe que puxa o tom de descanso produtivo. Já é a terceira xícara da manhã e ainda não editou uma linha. Sabático, dizem, é para descansar a mente. A dela decidiu trabalhar horas extras movida a cafeína.

Paixãozinha

Me apaixonei

Isso

Me

a-pai-xo-nei

Começando assim, com pronome na frente, tudo errado. E tudo errado mesmo. Totalmente diferente do que a professora ensinou. Totalmente diferente mesmo.

Vou explicar melhor, você não deve estar entendendo nada.

É que eu tenho doze anos.

Do-ze a-nos

Moro com meus pais. Eles são separados.  Sepa/rados. Entendeu?

Aí você vem e pergunta: como que você mora com eles, se eles são separados?

Ué, simples assim, uma hora fico com um, na outra com o outro. Aí eu moro ué. Eu tenho duas casas.

Duas casas mesmo.

Ai meu Deus, me perdi. Mudei de assunto, desculpa. Eu sempre faço isso.

Estava contando que me apaixonei.

ME APAIXONEI.

Grande assim.

Siiiiiim.

Sabe quando você come uma bala do pacote e não quer parar?

Isso que senti.

E foi estranho.

É que sempre achei esquisito essa “coisa” de amor. Não me lembro de ter visto meus pais se beijarem.

E eles também não me beijam muito. Nem outros parentes.

Então sempre fiquei meio assim, perdida sabe?

Sempre achei que quem ama, beija.

Mas na minha família não é assim.

Mas aí ontem…

Caramba, já são quatro horas! E eu tô cheia de dever de casa pra fazer. E ainda tenho aula de música mais tarde!

“Foca Nina, foca”.

É assim que minha mãe fala quando está nervosa.

E eu já estou me perdendo no assunto de novo.

É que acho que estou com vergonha de contar.

Mas preciso ter coragem. É meu diário, posso falar o que quiser.

Tomara que meus pais nunca vejam.

O meu é desconfiaaaado, olha tudo.

Ai ai, já estou desviando outra vez…

Bom, lá vou eu!

Tudo aconteceu ontem.

Estava com amigas na escola, na hora do intervalo.

Um grupo de meninos imbecis (sim, eles são isso), nos chamou para conversar. Eu não gostei nada nada da ideia, mas as meninas, super assanhadas né, logo quiseram. Eu então, fui junto.

Acho que sou meio maria-vai-com-as-outras. Mas a psicóloga do colégio disse que eu sou só tímida, e que entro em grupos mas não tenho coragem de me expressar. E me recomendou fazer esses textos.

Estranho se sou tímida ela me mandar falar com um papel. Achei que ia me mandar falar com gente. Mas enfim, como meu pai diz às vezes, “só cumpro ordens”.

A gente estava lá na tal conversa. Aí de repente, todo mundo foi se afastando. Mariana disse que ia beber água. A Juju foi mexer no celular, e a Marcela disse que ia no banheiro. Os meninos também sumiram.

Su-mi-ram

Fiquei então ali, sozinha com o tal do Vitor.

Meio pateta, sem saber o que fazer. Afinal, só tenho doze anos.

Eu estou falando isso, para ser bem clara, e para deixar bem claro: me acho muito nova para essas coisas.

Mas sei lá, às vezes dá uma vontade…

Ai, me senti imbecil que nem eles.

Não sabia o que fazer com as mãos.

Parecia que tinha geleca no meu cabelo, não conseguia parar de mexer.

Foi quando ele chegou perto de mim e…

Siiiim

É isso que vocês estão pensando!

Foi chegando, chegando e…

Me deu um BEIJO!

*Conto publicado no livro Amor e outras histórias: contos para aquecer o coração. Disponível aqui.

Foto: socialsudo

Brincadeira

Joguei seu jogo, vi graça em aceitar seus termos, até gostei de dançar no seu ritmo

TUDO O QUE O SENHOR MANDAR, FAREMOS TODOS

O que está em aberto agora é se você vai querer participar da minha brincadeira

Porque ela é concreta

Ao contrário da nossa

Que ia chamar de sua

Mas que corrigi porque sei que ela não pertence só a você

Até então digital

O que não quer dizer que não tenha sido real

Real é tudo

O concreto e o virtual

O inefável e o tangível

O que não posso tocar

E o que está aqui agora na minha mão

Sente o cheiro?

Sente o toque?

Sente a falta de controle?

Principalmente, sente o medo?

O receio

O frio… Na espinha e no estômago.

E o desejo

Ah, este vence tudo.

Capitólio

Senti o ar entrando em meu corpo para me preencher, me rechear. Era diferente do ar do Rio de Janeiro, poluído, sujo, podre. Era puro, natural, renovador.

Para quem não sabe, Capitólio é uma das trinta e quatro cidades banhadas pelo Lago de Furnas, cercado por grandes paredões de pedra, que formam piscinas naturais e cachoeiras de uma beleza sem igual.

São os Cânions do Rio São Francisco.

O destino tornou-se sucesso há algum tempo, e passou a atrair milhares de turistas todos os anos, mesmo depois de um deslizamento de uma rocha que chocou todo o país.

Eu era só mais uma.

Estava ali sem câmera, sem pauta, sem objetivo. Apenas uma mulher em busca de sua recuperação física e mental. Ou quem sabe até espiritual.

Escolhi começar o passeio pela trilha do Sol, circuito que conta com diversos caminhos que levam a cachoeiras inesquecíveis. Eu estava fora de forma, e subir e descer tudo aquilo foi uma verdadeira loucura. Pensava que por ser repórter, ficar pra lá e pra cá atrás da notícia, teria alguma vantagem, mas que nada.

Eu estava velha, gorda, abatida.

Mas precisava prosseguir. Como se prossegue na primeira entrada ao vivo desajeitada, mas você precisa fazer porque é uma questão de honra, uma espécie de cala a boca para quem duvidou do seu talento. E um agradecimento eterno a quem ajudou.

Nathália estava certa. Sempre esteve. Aquela viagem não era só externa, era interna. A cada passo do caminho, em meio aquela beleza sem igual, refleti sobre minha vida, minhas escolhas, sobre mim mesma.

(…)

Minha vida era obcecada pelo trabalho, por metas, por uma tentativa insana de aparecer no vídeo. E pra que, para depois receber curtidas nas redes sociais e no máximo dois tapinhas nas costas?

Aceitei trocar de horário diversas vezes. Aceitei ir pra tudo quanto é buraco. Levei fora de político, de artista, e até de missionário. Engoli sapo, almocei amendoim no intervalo da coletiva, escorreguei em bueiro mal tampado.

E além disso, não fiz mais nada.

*Trecho do romance A Cápsula, de Carolina Pessôa. Disponível aqui.