Mora em mim

Mora em mim
Mora em mim um espírito aventureiro. Uma mochileira, um andarilho, uma cigana.
Cada um deles ecoa em mim. E gritam sedentos e exigem asas.
Cada um deles quer estar em mim e, ao mesmo tempo, no mundo.
Mora em mim uma cantora, uma atriz, uma artista.
Uma pintora. Que pinta a liberdade.
Cada uma delas me pede emoção, imaginação, verdade.
Mora em mim uma mulher vadia. E ao mesmo tempo uma inocente criança.
Mora em mim o múltiplo, o diverso. O pacífico e o adverso.
Mora em mim esta canção. Que fiz para expressar meu coração.

Tão piegas…


Mora em mim o exclusivo, e o universal. O platônico e o carnal.
Mora em mim uma vontade que não passa.
E mora em mim, ah…palavras…
Que explodem em verso, arrebentam o papel e dançam ao vento

Reforma

Pintar paredes
Trocar piso
Azulejos
Móveis
Tirar entulho
Comandar tarefas
Limpar poeira
Redecorar cômodos
Transformar o velho em novo
E o novo em seu
Com sua cara
E sua visão
Cada taco, uma história
E para cada história, uma emoção
Mas para mudar o coração
É preciso nova trajetória
A limpeza é da tristeza
A reconstrução, é da beleza
A troca não é de parede, ou chão
Mas dos pilares de renovação
A verdadeira reforma
Re-forma
Re-afirma
O interno
Não é uma casa de paredes
Mas um lar de lembranças
Um coração de andanças
Que precisa de esperança
Que precisa de reforma

Foto: Freek Wolsink

Resenha – Loucos por livros – Emily Henry

Loucos por livros
Emily Henry
10.ed., 2026. 
Verus Editora
Tradução de Ana Rodrigues
432 pag.

Que livro gostoso da porra de ler! 

Te contar, a Emily escreve sobre uma mulher sem coração, uma daquelas megeras de salto alto. É como se fosse uma releitura da Disney para as vilãs mais amadas, uma Malévola da cidade grande.

Não por acaso, esse é o estereótipo da mulher que sempre toma o pé na bunda nos filmes da Hallmark, quando o mocinho vai para a cidade do interior resolver um problema do trabalho ou receber uma herança e acaba se apaixonando por alguém que gosta de fazer trilhas e admirar as estrelas. Emily honra essas mulheres com uma história de amor para elas.

E aí, você já foi a Cruella De Vil da vida de alguém? Se fui, não lembro mais! (Aqui, vocês devem ouvir uma gargalhada sonora! Hahahaha! Só mulheres capazes de tomar um fora sem sucumbir a uma nuvem de lágrimas fazem jus ao título de megeras e dão gargalhadas sonoras). 

Para quem gosta das comédias românticas como eu, esse livro dá pro almoço, lanche da tarde e jantar. 

Com 432 páginas que misturam sensualidade, provocação entre colegas da área editorial, irmãs que se amam muito e aperto no coração, a leitura flui com facilidade. 

Eu decidi pela leitura profunda, pegar as referências e fazer notas mentais. Em romances assim, normalmente minha leitura é acelerada, mas esse eu curti e deixei o final marinar por um dia e meio antes de acabar. Gostei demais dos personagens para perdê-los. Nora, Charlie, Libby, Shepherd, todos queridos demais para se despedirem depois de algumas páginas. 

Minha recomendação: divirta-se com esse livro no seu tempo. Nas últimas páginas têm uma lista com os livros indicados pelas irmãs protagonistas. Não resisti e já adquiri dois que vão ficar na lista infinita de “para ler”.

Que bom que os livros da Emily estão virando filmes. Espero que os roteiristas sejam fiéis a sua escrita loquaz.

Valeu a pena pra mim, espero que valha para você também. 

Por que

Escrevo para me libertar

Me liberar
das culpas
do passado
do medo

Do presente
que aperta o peito
Da ansiedade que me corrói por dentro

Escrevo

Depois penso

No que não fiz
No que ficou por um triz

Por medo
preguiça
falta de paciência

Agora é passado

Mas fica guardado
No peito
Na mente
Na alma

Como um filme,
uma vida que não vivi

Uma vida paralela
que existe
Tem cheiro, cor
Sentimentos e pensamentos
Sensações
Devaneios

Por isso escrevo

Pra não implodir
Pra deixar sair
Ganhar vida
e me deixar
em paz.

O tom da chuva

O céu empurrou o sol para trás das nuvens carregadas. Imagino um lugar em que eu não precise ser outra coisa, a não ser exatamente quem sou. Um espaço completamente meu. Este lugar existe. É aqui, em frente à janela, essa fronteira entre dois universos: o lado de dentro e o lado de fora.

Janelas costumam ser de onde se assiste ao mundo, embora, daqui, minha vista privilegiada seja o prédio em frente e roupas penduradas nas varandas. Todas as manhãs, com uma xícara de café e a luz do dia perfurando a renda branca da cortina, insisto em enxergar além das janelas fechadas. Capturo momentos prestando atenção no que acontece ao redor e dentro de mim. Permaneço neste instante capturado.

E, então, escrevo.

Por amar ler romances, procuro criar histórias com protagonistas maduras. Quero que mulheres como eu se reconheçam nelas e saibam do valor que têm. E, acima de tudo, que nunca se esqueçam dele. Minhas heroínas não se resumem a dores nas costas nem apenas a crochês em cadeira de balanço. Para isso, venho construindo, pouco a pouco, uma voz própria, com um jeito único de expressar minhas ideias. Algumas pessoas chamam isso de estilo. Eu considero um instinto afiado que me conecta a pessoas que partilham as mesmas causas e se envolvem em questionamentos semelhantes.

Quando leio sobre a impetuosidade de Elizabeth Bennet, a heroína de Jane Austen em Orgulho e Preconceito, ou a força de Claire Beauchamp, em Outlander, da Diana Gabaldon, identifico-me com seus anseios e paixões. Da mesma forma, sem querer me comparar com estes gênios (imagina, eu, uma simples aprendiz), envolvo minhas personagens em uma aura de sonho, romantismo e delicadeza, ao mesmo tempo em que as coloco à frente de seu tempo, sem se deixarem conter diante de empecilhos sociais ou biológicos.

Influenciada por elas, optei por retratar mulheres que lutam pelo que acreditam e buscam formas de realizar seus sonhos. E conseguem! Apesar dos obstáculos que a sociedade tenta nos empurrar goela abaixo, como: Você não pode mais. Já passou da idade. Deixa isso para as mais jovens, são mulheres modernas, decididas, obstinadas, livres e apaixonadas.

O tom da chuva
Os respingos na vidraça da janela e as nuvens carregadas atrás do prédio em frente formam o cenário perfeito para uma pausa dramática. Medito no caminho percorrido para encontrar meu tom na escrita e nas razões pelas quais escrevo romances. Percebo que quero ser uma escritora que naturaliza a presença da mulher de meia idade em todos os espaços, do profissional ao afetivo e onde mais ela bem entender. E como me incomoda que ainda queiram nos aposentar antes do tempo em lugares onde deveríamos continuar reinando.

Então pensei: como expressar essa voz em histórias com um tema tão urgente, mantendo o tom delicado e envolvente, sem parecer que carrego bandeiras, como bem sinaliza a inigualável Adélia Prado em sua Licença poética? A resposta vem com a criação de personagens que retratam mulheres com as quais me identifico: mulheres que desejei ser um dia, mulheres que procurei ser ao longo dos anos, mulheres que ainda posso ser se eu quiser. Protagonistas transpondo a barreira do preconceito e do
apagamento. Mulheres que simplesmente podem e são.

Fecho a janela e procuro um agasalho. Esfriou aqui dentro. De repente, quase esqueci: sou apenas uma aprendiz de escritora. Mas, devagar, eu chego lá. Vou preparar mais um café. E escrever em frente à vidraça.

Foto de Christopher Jolly na Unsplash

Vamos?

Sair por aí e fazer o que temos vontade

Dar os mergulhos que estamos devendo

Ir na cachoeira lavar a alma

Limpar a aura

Pegar aquele voo

Despachar aquela mala

Conhecer aquela cidade

Andar por aquelas ruas

Sonhar com a cabeça em outros travesseiros

Ou viver o sonho, sem parar para dormir…

Conhecer gente nova

Viver aventuras

Provar pratos típicos

E nem tão típicos

Ser cidadã do mundo

Globe trotter

Trocar dinheiros

Errar idiomas

Comer apontando o dedo para o que tem na vitrine

Pensar que moraria ali

Carregar a casa em malas de rodinhas

Ser uma nômade digital

Ou analógica mesmo

Sentir saudade de casa

E do feijão com arroz

Voltar rapidinho

Para, então, partir de novo

Com roupas limpas e lavadas

Coração aberto para mais aventuras que hão de vir

Foto: Taylen Lundequam

Omar

Eu amo Omar.
Ele me entende 
e me recebe de braços abertos.

Absorve minhas lágrimas 
e as transforma em outras coisas,
outras águas.

Me acolhe e me abraça
com seu vai e vem
que me acalma.

Em certos momentos ele muda o ritmo
e me lembra que eu preciso de movimentos.
Me chama para pensamentos
e mergulhos mais profundos.

Me leva pra longe e mostra que
existem outras praias a serem descobertas.

Onde sairei renovada,
com a alma lavada pelo sal,
a pele seca pelo sol
e novos pensamentos
guiados pelos ventos.