ELOCUBRAÇÕES

Por: Rosi Santos

Não foi fácil ser Maria, não foi fácil ser Frida, não é fácil ser Rosi, mas sigo tentando. Longe de mim querer me comparar a essas duas mulheres incríveis, fortes, que marcaram presença na história e que significam muito na minha vida. Só enalteço mesmo a grandeza delas e procuro me inspirar diariamente…

Sou filha de Maria antes mesmo de ser católica e o desejo da maternidade foi inspiração dela. Com Maria aprendi a doçura, a cobrança gentil, a persistência nas minhas verdades, a empatia, a sororidade! Amou sem medida os seus e a humanidade! Eternamente será pra mim “vida, doçura, esperança nossa”!

Já Frida chegou aos meus ouvidos pela música da Calcanhoto nos anos 90. De cara fiquei intrigada, apaixonada, emocionada, impactada. A força de Frida me impulsiona todo dia, e vejo atitudes “fridianas” em várias mulheres “phodas” que eu conheço!

Aquela mulher que sorri feliz quando vê a cara chorosa de seu filho pela primeira vez depois de horas de dores inimagináveis ou depois de ter inúmeras camadas de sua pele cortadas e costuradas; que tem jornada dupla, tripla; que cuida e educa sozinha os filhos porque o pai é ausente; que sofre mensalmente com a gangorra hormonal do ciclo e dores infernais da menstruação; que ganha menos que o colega de profissão porque tem “pepeca” e não “piupiu”; que é assediada e ainda é acusada de provocar o assédio; que fica viúva e decide criar seus filhos sozinha em outro lugar, só pra que eles tenham uma condição melhor de vida; que teima em conseguir a vaga na faculdade pública e tenta o ENEM mil vezes até conseguir; que sofre de transtornos psiquiátricos e tem coragem de assumi-los publicamente e tratá-los; que se divide diariamente no papel de mãe/esposa/mulher/filha/neta/amiga/etc; que é multifacetada e se lança em “vários projetos tudo ao mesmo tempo agora”; que decide mudar de carreira, fazer uma pós e uma segunda graduação depois dos 50… Todas essas mulheres são “phodas” e “fridianas”! Muitas vezes elas dormem chorando, mas acordam dispostas a sorrir e conseguem com a ajuda do poder do batom vermelho!

Com ela aprendi que sem amor não vale a pena manter nenhum tipo de relação, é pra pular fora mesmo! Correndo! Mesmo que o bonde esteja em movimento! Que nossos sonhos importam, que vale a pena lutar por eles, vale a pena todo sacrifício para conquista-los! Que as adversidades são pontes para alcançarmos momentos melhores e que mesmos incertos, podem ser surpreendentemente maravilhosos!

Sou uma mulher órfã/mãe/irmã/amiga/vivente, passei dos 50 e tenho sonhos e vontades infinitos! Minha lista de projetos para 2022 não para de crescer! Óbvio que nem sei se vou realizar metade deles, mas já vale querer, desejar!

O grande ensinamento de Maria e Frida, é que A DOR FORJA, tanto pro bem quanto pro mal, e quero ser sempre uma versão melhorada de mim, então sigo tentando…


Crédito da Imagem: Foto por Roy Reyna em Pexels.com

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

IDENTIDADE

Por: Karina Freitas

Quem sou? O que sou? 
Quem somos?
Será que somos ...
Os papéis que representamos no grupo social a que fazemos parte?
A profissão que escolhemos?
O trabalho que nos escolheu?
A forma como encaro meus desafios?
Ou o sorriso que eleva meu dia?
Ainda as lágrimas que derramei?

Talvez seja...
A criança que chora;
A menina que dorme tarde;
Ou a mulher que perde o sono;
Quem sabe, ainda, a senhora que acorda cedo. 

Sou...
A mãe que embala o berço;
A jovem no show;
A atleta na competição;
A estudante no exame;
A empresária, a manicure, a motorista, a professora, a cientista;
Somos muitas.

Sou…
O filme que assisti;
O livro que li;
A música que ouvi;
O lugar para onde viajei;
O restaurante que gosto;
Meu prato preferido.

Sou...
A roupa que visto;
O perfume que uso;
A cor do meu cabelo;
A cor da minha pele;
O carro que dirijo;
O gosto pela montanha ou pelo mar;
O desejo em fazer trilha ou a vontade de ir ao cinema.

Mas…
Pego-me refletindo que ...
também sou aquilo que não fiz!!!
Posso ser a soma das experiências que tive;
Como também as que não tive;
Mais ainda as que terei.
Sou muitas possibilidades;
Uma análise combinatória das inúmeras combinações que me tornei.
A soma de tudo que torna a parte.

Ainda busco uma resposta simples para uma pergunta complexa.
Enquanto não encontro uma resposta que me defina respondo apenas que…
Sou uma experiência metamorfósica ambulante.

Crédito da Imagem: Foto por Miriam Fischer em Pexels.com

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Galway

Amor você não sabe

Por onde andei

Onde passei

Para te encontrar

Amor

Nadei nas pedras

Voei nos montes

Andei nas águas

Corri com o vento

Amor você não sabe

Quanto eu chorei

Ah! Quanto chorei

Ao te encontrar

Amor

Revi meus sonhos

Olhei os barcos

Refiz meus passos

Abri meu coração

Amor você não sabe

Quanto amor cabe

No peito da solidão

Amor você não sabe

Quanta dor cabe

Da alma da canção

(Lívia Maria – 2018)

Crédito da Imagem: Foto Lívia Maria

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

NÃO TOQUE NO MEU CABELO!

Por: Elaine Resende

Recebi uma tarde dessas uma mensagem com uma foto, uma daquelas recordações que te transportam de pronto para um dia infinitamente bom. Minha irmã e eu, lado a lado, no batismo da bebê que eu seguro nos braços, com meus olhos inchados e o nariz vermelho.

Olívia, a bebê em meu colo, é nossa avant-première. Uma celebração de laço vermelho que inaugura em nós uma vida adulta de verdade: filha para minha irmã, neta para minha mãe, sobrinha e afilhada de consagração a Maria para mim. Muitas mulheres numa mesma sentença. Existia uma vida antes de sua chegada, e como em um solstício de verão, uma nova estação se inicia em nossos calendários. Um egoísmo nosso dar todo esse peso à primogênita, mas é difícil lidar com esse sentimento no primeiro encontro. Olívia marca o começo de uma nova geração, e nós que éramos apenas três, agora vemos o mundo com a perspectiva de uma continuidade antes inexistente.

Minha irmã se casou com meu melhor amigo de faculdade e tiveram a mais linda bebê que eles poderiam ter. Aquela bebê que me fitava de volta numa foto antiga, nosso grande amor. Sagaz, espirituosa e divertida, ela é a remetente da mensagem com a foto e a legenda curiosa: “o mais engraçado dessa foto é que a mamãe ainda usa o mesmo penteado.” Emendei: “eu também!”. E rimos juntas dessa peculiaridade.

Dias depois recebo uma mensagem de um dos meus endereços de e-mail que não costumo acessar. Uma caixa postal com a perseverança cristã de me fazer reviver em suas mensagens recordações de outros tempos. Cedendo as suas súplicas, abri várias mensagens e me deliciei com as fotos, de todos os tempos e narrativas. Numa das imagens, há pouco mais de quatro anos, estou lá eu e meus cabelos super curtos: a recordação do big chop. Lembrei logo do comentário feito com a Olivia e foi impossível não transformar essa simples frase em uma grande reflexão.

Big chop, BC para as íntimas, é um termo que foi incorporado ao dia a dia das mulheres de cabelo crespo e retrata o momento de maior sacrifício na transição de um tratamento capilar qualquer para os cabelos naturais: a hora do corte. Passei aquela foto e mais outras tantas, e me encontrei loira sarará, como diria Sandra de Sá, um dos meus maiores arrependimentos devidamente registrado em meu passaporte. Digo mais, esse não foi o meu primeiro grande corte. Talvez nem de longe seja o último. Sou afeita às transições, às mudanças e às vezes aos modismos, mas sinto que estou sempre em busca, uma busca que não se encerra em si própria, que se retroalimenta nas minhas necessidades de afirmação e poder. Cabelo é poder!

E não é à toa que digo isso. Lá nos idos da história antiga, Dalila cortou os cabelos de Sansão e lhe roubou as forças, num ato desesperado para salvar seu povo da força de um homem (aqui alguém pode me dizer que foi apenas por dinheiro, importante manter o foco no cabelo!). Desde os meus 13 anos mudo os cabelos como se mudam as estações. Essa idade tão marcada é a data do meu primeiro alisamento de cabelo. Eu era uma menina rebelde, que corria livre de pés calçados, que amava o vento no rosto, e detestava pentear os cabelos. A solução? Alisar para controlar o volume indomável. Indomável era o meu espírito! Meu cabelo, apenas um reflexo. A vasta cabeleira não resistiu e se desiludiu com a vida, me abandonando aos poucos. Eu parecia um cão sarnento sem pelos. Tá aí a minha recordação mais antiga, meu primeiro big chop!

Naquele tempo não existia uma variedade de produtos para cabelos crespos que não causassem algum tipo de dermatite. Os cremes bons eram caros e não garantiam uma hidratação de qualidade, os cremes acessíveis eram só isso, acessíveis.

Crescida, parti para tratamentos menos destruidores. E por volta dos 22 anos decidi que era hora de mudar. Outro big chop, dessa vez saindo do natural para o cabelo alisado e curto. Um big chop reverso, acho que posso chamar assim. Meus longos cachos foram cuidadosamente retirados, lavados e transformados em um aplique para uma noiva que tinha o cabelo rarefeito. Meu cabelo indomável entrou na igreja de véu e grinalda, com pompa e circunstância, para ver realizado o sonho de outra mulher. Eu não fui convidada, mas estive lá na minha forma mais marcante.

Quando dei o passo na direção dos alisamentos não tinha como mensurar o tamanho do estrago que aquela decisão me causaria. Não seriam problemas capilares tratáveis com medicamentos. As raízes são sempre interiores ao que se pode enxergar na superfície, e as minhas datavam da minha origem humilde e da minha questão racial. Me tornei refém das escovas, completamente escrava da imagem que criei de mim. Imagina lidar com os 40°C do Rio de Janeiro e o cabelo alisado no calor do secador? Era só pôr um pé na rua para sentir o suor escorrer no couro cabeludo e o desejo de fazer aquele desafio do balde de gelo na cabeça crescer espontaneamente. Para os fracos! Eu era, no meu entender, uma fortaleza obstinada, não ruiria frente a um problema tão simples de resolver. Nas estações mais quentes, no mínimo 2 escovas semanais eram necessárias.

Fiz a alegria e a desgraça dos salões de beleza. Altos níveis de exigência, lisos perfeitos com ondas nas pontas de um cabelo que chegava ao meio das costas. Ganhei o apelido de dondoca e outros que provavelmente não sabia que eram para mim. Fazia duas ou três pessoas trabalharem simultaneamente comigo para economizar tempo, um bem sempre escasso. E me sentia feliz assim. Ou pelo menos achava que sim.

Se toda história tem um revés, o meu começou no mestrado, durante as aulas de engenharia dos materiais. Estávamos eu e meu marido nos preparatórios para o nosso primeiro filho quando comecei a entender um pouco melhor sobre os produtos químicos. Quando a gestação se concretizou, não queria usar em meus cabelos produtos que poderiam envenenar meu bebê, alguns feitos à base de lítio, chumbo ou outros metais pesados. Formaldeídos? Nem pensar! A mudança não podia mais esperar e um outro big chop veio de assalto.

Usei tranças nagô coladinhas na cabeça, tranças rastafári em apliques cacheados, e meus cabelos naturais voltaram a preencher os espaços vazios. Tentei me manter forte e adepta de uma mentalidade mais natural, mas não durou muito. E como não poderia fraquejar sozinha, levei muitas amigas para alisar os cabelos comigo. Apresentava minha cabeleireira de confiança, que as conduziria no caminho de incontáveis retoques de raiz, escovas e pranchas, e um mundo de produtos dos quais não entendemos nem os 3 primeiros ingredientes do rótulo.

Dentre as adeptas do meu estilo de vida, uma amiga em especial que costumava se orgulhar de seu cabelo Black Power acabou cedendo aos meus encantos. Renunciou ao seu Black e viveu por um ano, ou talvez dois, alisada. Ter os cabelos nos ombros, soltos e esvoaçantes, fizeram-na mudar de comportamento. Ela era linda com seu Black, mas se sentiu poderosa com seu corte Chanel. E esse poder durou até o dia em que seu noivo a deixou, sob as alegações de que gostava mais da versão anterior, pois os cabelos a transformaram em outra pessoa. Um golpe sujo (ou não) e ela retornou ao Black, mas o noivo, esse nunca retornou.

De uma outra amiga querida ouvi que a vida na comunidade em que morava era como uma estrada do interior, cheia de obstáculos. Seu ex-marido e vizinho sentia saudades, queria que ela reatasse o casamento rompido. Na ânsia de ser atendido, se queixou ao mandante da comunidade sob o pretexto de que ela o traía. Na súplica do marido traído, a amiga foi chamada ao julgamento sumário, cuja punição para a adúltera era, rufem os tambores, raspar a cabeça. Quer tirar o poder de uma mulher? Roube seus cabelos. Ela conseguiu provar sua inocência mesmo não havendo crime, e preservou sua honra e seus cabelos.

No filme V de Vingança, durante o processo de dor e humilhação ao qual a heroína é submetida, numa tentativa de forjar seu caráter guerreiro, seus cabelos… conseguem adivinhar? Natalie Portman foi a primeira a raspar a cabeça para um filme, até onde me lembro, em uma única tomada sem cortes. Chocante! Num filme mais recente, Felicidade por um Fio, Sanaa Lathan vive o drama de perder os cabelos alisados desde a infância, e uma mudança de comportamento se inicia. A atriz também raspou as madeixas e eu me identifiquei muito com esse filme.

Na literatura me lembro da Fantine de Victor Hugo em Os Miseráveis, que veste a filha com seus cabelos, como ela mesma diz. Em Mulherzinhas, é Jo March (possível alter ego da escritora Louisa May Alcott) quem vende os cabelos para que a mãe possa viajar e cuidar do pai, ferido durante a guerra. No livro de Eliana Alves da Cruz, Nada Digo de ti que em ti não Veja, um romance histórico do Brasil colônia, são os cabelos crespos e fartos como lã da mulher trans e negra alforriada, Vitória, que seduzem o rapaz de ascendência nobre portuguesa.

Quando se fala em cabelo nós, mulheres negras, temos muito a dizer sobre nossos percalços. Para sermos “aceitas” na sociedade, era essencial alisar e pentear como as mulheres brancas o faziam. Li há pouco tempo (e infelizmente perdi a referência) que os senhores de escravos mergulhavam as cabeças das negras escravizadas em barris com uma mistura que levava soda cáustica para “amansar” os cabelos crespos. Cento e trinta e dois anos depois do fim da escravidão no Brasil, ainda estamos escravas de uma estética que não nos pertence, cerceadas de nossa verdadeira identidade.

Hoje, por conta das lutas sociais e da maior representatividade da mulher negra no mercado, como geradora de riqueza e consumidora, há produtos especialmente concebidos para os nossos cabelos, considerando os diferentes tipos de crespos que existem numa terra tão vasta e miscigenada como a nossa. O cabelo é mais que uma representação de feminilidade, da nossa etnia ou da identidade de uma pessoa. O cabelo é um instrumento político! Como diria Nilma Lino Gomes no livro Sem Perder a Raiz, o cabelo crespo no Brasil é uma linguagem, um signo, uma identidade e um estilo de vida. Nós, negras e pardas, ainda podemos alisar se essa for a nossa vontade, mas temos escolhas, e podemos mostrar o poder que o nosso cabelo tem.

Para encerrar minha odisseia capilar, lembro que não importa se sua cabeça é raspada ou cabeluda, se seus cabelos são fininhos como os da Xuxa, ou vastos como os da Tais Araújo, as escolhas são suas, e toda tentativa externa de definirem como você deve se comportar em relação aos seus cabelos é uma tentativa de controle. E o controle é seu!

Sobre a minha Olivia, nascida numa família inter-racial, de pele muito clara e cabelo loiro e fino que contrastava com a nossa cor, temi por um curto tempo que ela se afastasse das nossas origens étnicas, como eu me afastei um dia. Mas ela é sagaz demais e hoje, acho que posso dizer sem lhe causar vergonha, que ela é a nossa Merida, a princesa Valente de cabelos vermelhos, que ostenta um crespo longo e lindo. Aquela bebê pequena em meus braços é hoje uma mulher poderosa, com suas próprias escolhas.


Crédito da Imagem: Foto montagem de Elaine Resende

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

MULHER

Por favor avisa lá nêgo.

Avisa que sou filha do estupro da índia,

Do trabalho escravo.

Da imigração japonesa,

Que sou neta de Sinhá.

Avisa que sou branca, negra, azul, vermelha e amarela.

Sou filha da terra também.

Que brotei do ventre de terras Brasili’s

Minha cultura é osmótica…

Minha alvura é zica genética.

Avisa que sou colorida

E embora Homo Sapiens

Prefiro ser chamada de Mulher.

Crédito da imagem: PEXELS

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

TEIMOSIA!!!

Por: Angelica

Medo! Silêncio! Dor!
Por que me prender
a estas palavras doentes?
Por que não procurar
a alegria, o riso, o amor?
Por que deixar instalar-se no meu coração
o desgosto antes do tempo?

Mais do que nunca
na hora da incerteza
na hora da dúvida
precisamos trazer para fora nossas memórias.
Lembrar músicas antigas, bons filmes de muito
tempo atrás, encontros bem divertidos.
E pensar: CHEGUEI ATÉ AQUI!

Tenho muito o que viver.
Ir aos lugares que nunca fui,
visitar parentes, amigos.
CONVIVER!
Conhecer ou reconhecer a cidade onde moro, outra vez.
PLANOS, preciso de planos,
que podem jamais se realizar, não importar.

Preciso sonhar, desejar, amar. Ir em busca...
Quanto tempo tem o meu futuro?
Não sei, quero ser feliz no tempo que tiver.
Quero CONSTRUIR, RESGATAR, MUDAR!
Prestar mais atenção nas flores, nos pássaros, na natureza.

COMPARTILHAR sorrisos, abraçar no sofrimento, acalentar na insônia.

Quando melhorar e o sol raiar na vida de todos nós,
quero ESTAR JUNTO.
Enquanto estivermos isolados e distantes fisicamente,
aguardo o REENCONTRO.
SOLIDÁRIA! Distribuo em mensagens as palavras de amparo
que brotam do meu coração.

Crédito da imagem: Foto por Buse Doa em Pexels.com

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

SOB(RE) O GUARDA-CHUVA

Por: Lidianne Monteiro

Nunca gostei de guarda-chuva. Inicialmente, por questões práticas. Sempre o vi como um trambolho que passava mais tempo fechado, sendo levado de um lado para o outro, do que efetivamente sendo usado sobre nossas cabeças. E quando chegava a ser aberto para ser usado alguma vez, precisava depois ser carregado encharcado por muito mais tempo, deixando um rastro atrás de nós e molhando as outras coisas que precisávamos carregar além dele. Perdi as contas de quantos deles foram esquecidos nos mais diversos lugares, por mim ou por pessoas próximas, quando nos cansávamos da sua companhia e o pendurávamos na carteira da escola ou no assento do ônibus. Eu costumava dizer que os guarda-chuvas esquecidos ficavam presos em outra dimensão para nunca mais serem vistos. Porque todo mundo perdia guarda-chuvas mas não se sabia de ninguém por aí que os encontrasse.

Talvez essa minha antipatia para com o pobre objeto tenha se iniciado porque no meu Ceará não chove muito. Infelizmente. Talvez eu pensasse diferente se morasse em outro local com chuva diária e precisasse realmente contar com o guarda-chuva para a vida prática. Ou não. O que tenho certeza mesmo é que sempre gostei de chuva. Aqui, no Ceará, tempo bom é quando está “bonito para chover”.

Recordo que na adolescência passei por um inverno cearense muito chuvoso para os nossos padrões. Na época, eu voltava da escola para casa a pé, em um trajeto de uns vinte minutos de caminhada pelas calçadas de uma avenida muito movimentada. Eu sempre tinha a opção de voltar de ônibus, se preferisse. Essa escolha me pouparia tempo e garantiria menos exposição à chuva. Mas eu sempre preferia a caminhada sob a chuva. Mochila nas costas, livros relativamente protegidos da água em uma sacola plástica dentro da mochila, tênis nos pés, mãos livres, óculos dispensados. O ritmo da caminhada era o mesmo de sempre. Não me apressava por conta da chuva. Seguia tranquila como se nada estivesse acontecendo, sentindo a refrescância da água que escorria abundantemente sobre mim, o contato da roupa molhada que começava a pesar, os cabelos pingando e a maravilhosa sensação de liberdade, de seguir meu destino sem precisar de nada a não ser dos meus próprios pés. Naquela época, no auge da minha invencibilidade adolescente, não me preocupava com raios. Eu me sentia quebrando padrões. Observava com orgulho os olhares muito intrigados de quem passava nos carros ou ônibus e não entendiam o porquê daquela menina feliz sob a chuva torrencial.

Nesse mesmo semestre, meus cadernos chegaram ao fim do período letivo com as bordas mofadas. Porque por mais que tentasse protegê-los, a água é persistente e jeitosa, sempre vai dar um jeito. Eu passei anos contando essa história dos “cadernos mofados” nesse semestre chuvoso, exibindo-a como um troféu da menina diferente que eu achava que era. Da menina que tinha uma mão com unhas curtas e outra com unhas grandes para aprender a tocar violão, ainda que dissessem que não era bonito, e que fazia natação ainda que as amigas saíssem da turma porque o cloro “estragava” o cabelo. Eu seguia sendo menina-moça feliz com minhas escolhas.

Já na faculdade, por conta de não usar guarda-chuva, passei por uma situação que me deixou envergonhada. Eu havia ingressado no primeiro semestre de uma universidade federal onde o ingresso por meio de regras diferenciadas (como as conhecidas cotas de hoje) era uma possibilidade ainda distante de ser concretizada. Assim, alunos oriundos de escola pública, como eu, concorriam nas mesmas regras dos demais. Nós éramos minoria. O curso que escolhi tinha alunos de um perfil muito elitizado, vindos, em sua grande maioria, das melhores escolas particulares de Fortaleza. Muitos desses alunos iam à faculdade em carro próprio. Eu ia às aulas de transporte público. Nesse dia, estava chovendo muito e os ônibus estavam em estado de greve. Como sempre, saí sem guarda-chuva e tive muita dificuldade para entrar em um dos poucos ônibus que estavam circulando. Cheguei à faculdade atrasada e encharcada. Eu já estava acostumada a não levar guarda-chuva comigo. Então, fora o atraso por conta da greve dos ônibus, para mim estava tudo bem. Contudo, recebi um olhar de desprezo e o comentário com tom de deboche de uma colega de turma que disse: “Coitada! Toda molhada!”.  Nesse momento, desconectei-me da menina cheia de orgulho das caminhadas na chuva e me apequenei no meu lugar de minoria. Era minoria por ser mulher em um curso de muitos homens, por vir de escola pública, por andar de ônibus e por gostar de me molhar na chuva.

Minha relação com o guarda-chuva seguiu assim, ora de afastamento ora de trégua. Possuí alguns, principalmente depois que minhas filhas nasceram e eu não queria que se molhassem e adoecessem. Então, se chovia e elas estavam comigo, lá estava eu segurando o guarda-chuva para proteger as crias, e não a mim. Ainda nessa minha experiência pela maternidade, vi a palavra guarda-chuva ser usada também para se referir à condição de se abarcar várias tarefas de uma vez só, em mais uma tentativa de fazer as mães acreditarem que precisavam dar conta de tudo e de todos. Uma mãe guarda-chuva.

Semana passada, assisti a um filme que me relembrou dessa minha peleja antiga com os guarda-chuvas. Era a história de mulheres espiãs que lutaram contra o nazismo na Europa, na década de 40. Uma das mais brilhantes, a americana Virgínia Hall, tinha uma deficiência e andava com uma prótese em uma das pernas. Ela havia sido rejeitada pela diplomacia americana e tinha perdido relacionamentos amorosos por conta da sua deficiência. Apesar da dificuldade de se locomover com sua prótese de mais de 3kg, ela se lançou à luta contra o nazismo e correspondeu à altura a grande expectativa do governo britânico pelo seu trabalho de espionagem. Em uma das cenas, quando Virgínia ainda estava em sua preparação para a espionagem, um homem se aproxima dela e lhe oferece um guarda-chuva quando ela sai de um carro. Ela rejeita a oferta e diz: “Não uso guarda-chuva”. Essa frase simples ecoou cheia de significado em suas entrelinhas. Afinal, para quê Virgínia iria ter receio de se molhar se a vida dela tinha tantos outros obstáculos maiores a enfrentar? O que era uma chuva ou cabelos molhados para uma mulher que lutava o tempo todo contra a dor que a deficiência lhe impunha, sofrendo discriminação por ser mulher deficiente em uma sociedade machista e em um trabalho perigoso no qual ela precisava se reafirmar a todo instante? Nesse contexto, a chuva era apenas um detalhe. E proteger-se dela, definitivamente, não era prioridade.

Não quero nem de longe me comparar à Virgínia. Mas ouso compartilhar o sentimento de desejar que as mulheres possam buscar o caminho que mais faz sentido para cada uma delas, livrando-se dos guarda-chuvas, das amarras, das exigências e convenções que foram se consolidando ao longo do tempo e que, muitas vezes, reproduzimos sem nem saber o porquê. O guarda-chuva, nesse contexto, é também uma alegoria. E minha histórica rejeição a ele é reforçada pela ideia de que nem sempre queremos nos proteger. Porque em prol da “proteção”, muitas vezes, sucumbimos a pagar o preço de sermos como esperam que nós sejamos e não como verdadeiramente queremos ser e estar. Não há nada de mal seguirmos por um caminho diferente, se assim desejarmos. O guarda-chuva representa a proteção, um anteparo que pode nos resguardar de alguma coisa: da chuva, do sol, das regras, das expectativas, dos padrões… Eu às vezes quero me molhar apenas. E você? Quer mesmo se proteger do quê?

Vida de aconchego

Esperança de um tempo leve

Sem rostos escondidos

Esperança de poder abraçar sem medo

 Uma vida de aconchego

Olhar nos olhos e apertar as mãos

 De conversar com os conhecidos

Ver as crianças aglomeradas

A correr e a brincar

Saí por aí na correria sem preocupação

Esse tempo nos faz sentir saudades

Saudades de uma reunião familiar

 De aconchegar com os amigos

 E quando tudo isso passar

Voltaremos ao conforto de acolhimento.

 Poderemos abraçar, beijar e apertar

 Curtindo o aconchego de cada momento.

Enfim, ser mais feliz.

Crédito da imagem: Pexels “Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário

Enluarei

Sou fases, idas e vindas, ter e deixar ir

Sou cheia de sonhos, alegrias, esperanças,  lembranças, abundância

Nova de espírito, de possibilidades, de experiências

Crescente de esperança,  conhecimento, fé

Minguante de tudo que não me realiza, não me faz feliz

Minguante, nova, crescente, cheia

Não necessariamente nesta ordem

Cresço,  sumo, brilho, acredito, apareço e me faço

E de ciclo em ciclo, vou enluarando meu viver.

Crédito da imagem: Pexels

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.

DE DENTRO DE MIM

Por: Sônia Souza

Eu
Em uma mesa redonda, sentamos
Era estranha a nossa troca de olhares
Um desconhecimento conhecido, quase íntimo
Na mesa as cartas iam sendo, uma a uma, apresentadas
Autoestima
Cuidado
Gentileza
Amor
Intolerância
Fuga
Fantasia
Realidade
E diante de tudo perguntei até aonde aquilo iria
Perplexa ouvi a resposta
Fluida e paciente
que saia de mim
Vamos até o fim

Crédito da imagem: https://www.iquilibrio.com/blog/amp/

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

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