VOA PASSARINHO

Por: Karla Militão

Ele chegou assustado.
Seu bico parecia machucado.
Trazia suas asas feridas e
Nos olhos lembranças perdidas.
Cansado de voos cansativos
Largado e já sem motivos
Não sabia o porquê, mas se encantou por ela.
Talvez pelo seu jeito de criança que trouxe a ele um raio de esperança.
Ela cuidou do Passarinho com amor e com o tempo a dor não mais restou.
Ele agora estava serelepe, o bico mais forte.
Ele estava confiante e com as asas curadas.
Cantava belas melodias que embalavam os dias.
Os dois sabiam que era chegado o momento da partida.
Por mais que fosse dolorida não poderiam evitar. 
Afinal, os passarinhos nasceram para voar e ela nasceu para amar.
E ele voou...


Crédito da Imagem: Daniela Echeverri

“Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

CIGANA

Por: Katja Mota

Tudo começou quando não encontrou o sapato habitual no meio do caminho ao chegar em casa. Estranhou, mas não deu tanta importância, enfim, estava cansado, talvez um pouco entorpecido pelo álcool do happy-hour, o fato foi logo esquecido junto com o relaxamento de um banho quente.

          Os dias passaram normalmente, se é que pode sentir-se normal depois de ser atirado a um estado de solidão do dia para noite, totalmente fulminante. Há um tempo havia retomado a rotina de trabalho, aos poucos começou a aceitar os convites dos amigos para uma bebida, às vezes enfrentava a escuridão do cinema desfrutando de sua própria companhia.            

          Numa dessas incursões de animal sem matilha, visitou uma galeria de artes, foi tomado de encanto por um quadro que retratava uma cigana. O realismo no movimento das saias e sedução nos olhos marcados da mulher o impeliram a comprá-lo. Um pequeno pecado, um presente, um luxo que se permitiu. À princípio se recriminou pelo deslize, abandonando o quadro sem pendurá-lo sobre um aparador.

           Um dia entrou em casa e o cheiro de café recém coado o encontrou na porta. Um choque. Vasculhou cada canto da casa e não encontrou nada fora do normal. O café na garrafa. Há tempos não fazia café. Ainda intrigado sentou-se na poltrona em frente ao aparador, sorvendo o café quente observou o quadro, a cigana dançando inclinava levemente a cabeça para trás, feliz. Dançava para alguém, o sol iluminava seu colo. Sorriu ao se imaginar no cenário do quadro, uma tarde ensolarada de domingo, ouvindo o som da música gitana, encantado pelos movimentos frenéticos da saia, os cabelos balançando ao vento e ele ali envolvido por aquela beleza morena.

          Dormiu ali, na poltrona da sala imaginando a cigana, despertou coberto por uma manta. No final da tarde resolveu pendurar o quadro na parede, ali em cima do aparador de frente à poltrona.

         Os dias se tornaram uma sucessão de pequenos agrados, uma luz nova no quadro, um agrado novo na casa. Não entendia o que estava acontecendo, mas não conseguia quebrar o encanto. Era para ele que ela dançava e era para ele que fazia daquela casa um lar quente que o esperava todos os finais de dia.

          Seus instintos o chamavam, os hormônios exigiam dele, um corpo carecido de toque e demorou-se na rua. Chegou em casa e nada o recebeu. A cigana ali, tal qual o dia anterior. Saiu e bateu a porta para que ela tivesse a certeza de que ele estava saindo. Na volta trouxe consigo uma moça que tinha conhecido no bar, morena, bonita e ali na sua poltrona se conheciam, se acariciavam entregues ao momento. Quando no ápice da excitação foram surpreendidos pelo quadro que estatelando-se no chão. E ele passou a  noite aos prantos recolhendo os cacos.

Crédito da Imagem: Pexels

“Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Loucura

Por: Claudia Nagau

Loucura é o lugar temido

É ser o que não se quer

É pensar onde a sanidade não alcança

É viver o que o mundo não deixa

Devir de impulsos e desejos

Concretizá-los

Loucura é oportunidade…

Crédito da Imagem: Joana Nagau

“Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

NO MUSEU DOS AMORES PERDIDOS

Por: Lidianne Monteiro

Não se demora no museu

Não se quer souvenir

Tudo o que se quer é partir

Os corredores estão vazios 
As gargalhadas nas prateleiras soam tristes
De repente se está lá, sem que se queira estar
Já era outro tempo e foi a música que lhe levou
O perfume que lhe levou
A cicatriz na pele
O filme em cartaz
A rua movimentada
O sorriso de alguém
O seu sorriso também está no mural
Na instalação que ninguém entenderia
É tarde
Já lhe levaram ao museu de novo
À força
Nessas idas e vindas
As prateleiras estão abarrotadas
Há gavetas fechadas
Não é preciso abrir para saber o que está lá
Não se demora no museu
Não se quer souvenir
Tudo o que se quer é partir
Só que foi o partir que lhe levou ali
O gosto salgado desperta
E se bate em retirada
Apressada
Até a próxima visita
Que demore
Em que não se demore
Até que se deixe de ir

Crédito da Imagem: Pexels

“Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

VOAR PARA LONGE

Voar para longe do que é ruim. Não adianta se apegar e agarrar aquilo que não faz sentido, o que não acrescenta em nada de bom para a vida. Voar para longe é a melhor solução. Voando para longe a vida te dá novas asas para que se possa chegar em novos endereços. 

Se algo parecer sem solução, se você não tem estratégias para sair de um mundo louco que te faz remoer e remoer mais de uma vez em cada pensamento; então voe para longe desse ambiente, pessoa ou qualquer seja o seu problema. 

O minuto seguinte sempre é de esperança. Voar para outra história em busca da alegria e de todo encanto que a vida pode te proporcionar. Não se apegue ao passado pois as novas oportunidades aparecem quando se desapega daquilo que não te traz felicidade e do que não lhe faz bem.

Então voe para longe sem medo de ser feliz.

Crédito da Imagem: Daniela Echeverri Fierro

“Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

LICENÇA PARA SER

Por: Sônia Souza

Na porta da cozinha ela se sente segura

Afinal, no doce lar, cada um tem seu espaço

Da porta da cozinha ela espreita a sala
Por vezes não acredita em tudo o que conquistou
Da porta da cozinha ela olha a janela
Lembra do diploma, prêmios, cargos conquistados
O sucesso ainda por vir
Mas... há uma linha invisível e forte
entre a porta da cozinha e o mundo
Que insiste em prender sem amarras
Constranger sem palavras
Paralisar sem pudor
Na porta da cozinha ela se sente segura
Afinal, no doce lar, cada um tem seu espaço
E transgredir é delírio de quem não é
Na porta da cozinha tudo se conforma
E quem canta a liberdade lá fora
Aqui é presa dócil
Da porta da cozinha
Vê-se a nudez da realidade
Árida e experiente
Mas... tudo passa
Desde que se continue
simples e irremediavelmente
na porta da cozinha

Crédito da Imagem: Pexels

“Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

MELANCOLIA

Melancolia, uma harpa ressoa…

Esmeralda, ilha da minha saudade.

Livre, meu pensamento a ti retorna,

Atormentado, lhe abraça, dança e chora.

Nos olhos e coração, ondas, ondas…

Chove em mim o dia frio e cinza.

Outono das folhas secas caídas…

Longe de ti, longe do meu próprio ser

Inspiro-me em lembranças, canções…

Afoga-me, doe-me n’alma. Melancolia.


(Lívia Maria - 07/01/2018)

Crédito da Imagem: Lívia Maria

“Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.“

CONQUISTE-SE

Por: Karina Freitas

Faria qualquer coisa para alcançar a felicidade que lhe garantiram.


Ela queria conquistar o mundo, mas não conquistou a si mesma.

Era jovem, bonita, dedicada e inteligente.

Era determinada, forte, competente e capaz.

Amava o trabalho.

Tinha acabado de ser promovida.

Teria um futuro promissor.

Respeitada por clientes,

querida por amigos,

amada pela família,

cuidava de todos. 

Tinha alcançado o sucesso.

Amava a família, o cachorro e a bicicleta.

Pedalava para buscar sua paz.

Era livre e independente.

Mas…não era feliz.

Não se amou de verdade.

Não aceitava sua imagem, seu corpo, nem sua essência.

Achava-se feia e nada atraente.

Buscava  o padrão de beleza do mundo para agradar o mundo que não a agradava.

Queria ser aceita socialmente, se sentir amada.

Queria um amor que a acompanhasse nesta jornada chamada Vida.

Acreditava que seu fracasso amoroso era devido à sua aparência.

Invejava o sucesso das amigas com assuntos do coração.

Queria uma beleza irreal, fabricada, se sentir desejada.

Tentou se encaixar no padrão do mundo: lhe garantiram a plena felicidade.

Fez dieta, fazia exercícios e vários procedimentos estéticos.

Mas nada disso bastava.

Queria mais, queria ser completa.

Faria qualquer coisa para alcançar a felicidade que lhe garantiram.

Estava disposta a pagar preço, mas pagou com a própria vida.

Aceitou se submeter a uma cirurgia com o sonho de sentir-se bonita e desejável.

As coisas saíram dos planos, passou por complicações…

Ela não resistiu.

Tentando ser aceita pelo mundo, não aceitou a si mesma.


Crédito da Imagem: Daniela Echeverri

“Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.“

GATA NO CIO

Por: Rosi Santos

Em cada salto, uma esperança de matar a vontade de algo que nunca experimentou.

E ela amanheceu assim, completamente no cio! É um desespero de contorções, um desassossego de movimentos, nada tá bom, nada tá satisfatório. E ela segue no seu sofrimento matinal ao longo do dia…

Comer e beber é um sacrifício, falta concentração, foco, vontade. Em movimentos circulares e repetitivos, ela percorre todo o quarto, a sala, a cozinha… espera uma brecha pra fugir em busca de satisfazer sua vontade.

Por quantos dias ela ficará desse jeito? É perturbador, angustiante, sentir tanta necessidade e não poder saciá-la… tô ficando cansada por ela, quero ajudar e não sei como…

Tento conversar, acarinhar, deixa-la confortável, mas nada ajuda, nada faz efeito, nada alivia esse tormento da natureza felina…

Em cada salto, uma esperança de matar a vontade de algo que nunca experimentou, é o primeiro cio e ela não sabe o que é isso, ela não sabe como fartar tanto desejo, só sente… e espera…

De repente ela para, se posiciona e espera… espera por algo, espera o preenchimento, espera a penetração, espera um momento fugaz de prazer e nada…

Janelas e portas fechadas impedem que ela fuja, impedem que um intruso entre, impedem um momento de prazer irracional, impedem a concretização do instinto de reprodução, impedem que a população felina dos arredores aumente…

Sigo contemplando esse estado de excitabilidade profunda, pensando nas minhas carências e necessidades há tanto tempo esquecidas, há tanto tempo camufladas, há tanto tempo deixadas de lado…

Então somos duas fêmeas desejando satisfazer de tanto desejo: pra mim adormecido e pra ela novidade…

Queremos acasalar, mas não procriar. Eu posso e consigo, sei como ter o prazer sem cria…Ela não… Quando for castrada perderá esse desejo sôfrego, essa necessidade, essa inquietação…

Agora ela adormeceu e está sossegada. E eu também. Faz um tempo que despertei pra vida dos orgasmos múltiplos, das caricias intimas, dos beijos nos pescoço e tenho gostado de viver de novo tanta coisa boa…

Castração agendada para início de maio/2021, falta pouco Dandara! Falta pouco pra você ficar livre desse tormento pra sempre… te prometo… você terá uma vida tranquila, segura, estável, poderá comer e beber em paz, brincar sem amarras, dormir onde e como quiser!

Mas eu estou embarcando numa viagem inversa. Quero a inquietação e o desassossego de um relacionamento… quero as incertezas e as possibilidades infinitas de fracasso e sucesso… quero deitar de um jeito e acordar de outro, todo dia… quero me sentir diferente, vulnerável e um tanto insegura… quero as expectativas, as emoções e muito gozo… quero viver plenamente meus cios!


Rosi Santos

Artesã, apaixonada por gatos, apaixonada pela vida.


CASA SOLAR

Em janeiro do ano passado, participei de um desafio epistolar com uma comunidade de mulheres de língua espanhola. Nos três dias de desafio, enviei três cartas a uma estranha e devia receber três cartas de outra estranha.

Recebi uma bela carta de uma professora de literatura que morava em Cali, uma cidade tropical do interior da Colômbia onde – como ela diz – às vezes chove, mas nunca faz muito frio.

Ela me contou que mora em uma casa grande e amarela com quatro desconhecidas que sempre se ajudam ente elas.  Como aquela vez em que seu gato ficou preso em algum lugar do jardim e todas a ajudaram a resgatá-lo.

Ela só me escreveu uma vez e durante algum tempo eu checava ansiosamente meu e-mail todos os dias, na esperança de receber a segunda e a terceira carta contando sobre sua vida tropical, mas essa carta nunca chegou.

Eu me interessei muito pela história dela, pois além de ser professora de literatura – profissão que considero maravilhosa – ela morava em Cali, cidade onde nasceu um movimento cultural nos anos 70, que alguns chamavam de Caliwood, muito rico em cultura e artes. A cidade da salsa, La María de Jorge Isac, Sandro Romero Rey, Patricia Restrepo, Pilar Quintana, Andrés Caicedo, Luis Ospina, Carlos Mayolo, o pandebono¹ e o chontaduro².

Pensei em escrever-lhe de novo para que me contasse mais sobre a sua vida e escrevesse uma crónica mais real, confesso que tenho alguns receios de escrever sobre uma cidade que não é minha, que nunca foi, mas de alguma forma senti que foi minha através da literatura, música e as curtas passagens que tive por ela.

Também tive medo de arriscar e ela me dissesse – como disse uma vez Luis Ospina – que o narcotráfico acabou com a cultura de Cali, ou que em Cali agora só existe o futebol, como já disse Sandro Romero Rey.

Decidi então criar minha própria versão da Carla, aquela professora de literatura que passava noites inteiras em frente à máquina de escrever tomando café e escrevendo poemas, escrevia palavras aleatórias que rimavam umas com as outras e depois juntava para criar belos versos.

Imaginei que ela chamava aquela casa grande e amarela de Casa Solar e suas quatro companheiras de casa também eram artistas e de vez em quando realizavam exposições de fotografia e peças de teatro abertas ao público no quintal da casa.

Ela ouvia “Elsa y Elmar” e dava aulas de literatura na Universidade del Valle, onde o fantasma do jovem escritor Andrés Caicedo a perseguia pelos corredores, nos quais o viu parado entre as ondas do oceano Pacífico que tinham viajado centenas de quilômetros até entrar no recinto.

Falava para seus alunos sobre “Que viva la música” e “El Atravesado” de Caicedo, “Las cerimónias del deseo” de Sandro Romero Rey e “La perra” de Pilar Quintana.

Aos sábados, gostava de passear nas livrarias e de vez em quando estacionava no corredor para ler um poema achado entre as prateleiras.

À tarde, quando voltava da faculdade com fome, comia chontaduro com mel e sal sentada no terraço de seu quarto observando o pôr do sol e acariciando seu gato, enquanto ouvia Let it bleed dos Rolling Stones.

E depois de imaginá-la de muitas maneiras e em muitos lugares, imaginei-a lendo essa história e me mandando para o inferno de raiva por ter inventado uma ficção tão distante de sua realidade simples e plana.

E depois de me mandar para o inferno, ela continuaria comendo, escrevendo, ensinando, dançando, continuaria sendo o que sempre foi. https://www.youtube.com/watch?v=JXw9HXXcUK4&ab_channel=ElsayElmar

¹ Produto de panificação típico do Departamento de Valle del Cauca com alguma semelhança com o pão de queijo.

²Fruto vermelho ou amarelo comestível