PARA AS MULHERES QUE CONTINUAM EM MIM

Já há algum tempo eu tenho pensado muito na minha ancestralidade e no que as mulheres incríveis que vieram antes de mim me deixaram de legado.

Nesta semana que passou escutei a frase de que herança seria diferente de legado. Enquanto a herança seria o que você deixa para o outro, o legado seria o que você deixa “no outro”. Já há algum tempo eu tenho pensado muito na minha ancestralidade e no que as mulheres incríveis que vieram antes de mim me deixaram de legado. Para muito além dos genes que gentilmente recebi, tem nesse legado um quê de força, de dores, de crenças e valores passados de geração em geração e que chegaram até mim, ajudando-me a construir a pessoa em que me tornei, fosse replicando e repassando parte desse legado já transformado pelas minhas próprias vivências ou mesmo me rebelando e rompendo com ciclos deletérios que as fizeram mais sofrer do que florescer.

Quando a gente tenta voltar no tempo, não viajando por uma máquina como nos filmes de ficção científica, mas embarcando na nuvem fresca e macia das lembranças, comumente alcançamos mães, tias e avós. Felizes daquelas que puderam conhecer e conviver com suas bisavós, tendo a oportunidade preciosa de sorver in natura as histórias delas, relatadas com a vivacidade que nos transporta para um tempo antes de nós.

Tenho lembranças muito marcantes das minhas duas avós. Tanto da avó que beijei, abracei, que me alimentou, que me ensinou a andar de bicicleta e colocou mertiolate nas feridas das quedas da infância quanto da avó que meus olhos mundanos não alcançaram ver os seus, porque ela partiu antes de eu chegar. Para ambas, carrego comigo a sensação de que também são parte de mim e que se encaixam em várias partes do quebra-cabeça da minha identidade.

Minha vó Noeme foi a avó que conheci ao vivo e em cores. É a avó que tem cheiro de café e tapioca com coco fresco ralado por ela, que fazia chá de capim santo para eu tomar no café da manhã quando estava com dor de barriga. Ela era a avó que guardava só para mim a nata do leite fresco para colocar sal e eu comer com pão fresquinho quando eu aportava na casa dela nas férias escolares.

As lembranças mais recorrentes que tenho dela têm como pano de fundo o cenário da cozinha da casa de São Gonçalo. Cozinha que era só dela e de onde tolerava ruidosamente, uma vez ou outra, alguma ajudante intrusa. Adorava vê-la moer a carne em uma máquina manual que ela tinha, onde moía a carne junto com as ervas e verduras, potencializando o cheiro gostoso do tempero no calor da tarde. Fazia isso quando se levantava da sesta e depois de preparar o café para quem fosse chegando. Era sempre um vai-e-vem de tios e primos chegando para tomar esse café e ter um dedo de prosa com ela. Quando dormia mais tempo depois do almoço e a gente comentava, dizia: “Não dormi nada! Estava acordada o tempo todo, só com os olhos fechados”! E ríamos dizendo que ela não queria admitir que tinha dormido “demais”.

Na verdade, ela parecia se justificar porque talvez sentisse que não tivesse o direito de descansar. Vejo esse legado em algumas posturas das mulheres da minha família que têm essa cobrança interna e desmedida de que mulher e mãe não podem descansar porque tem sempre que estar atentas às necessidades dos seus. Os legados são assim mesmo, uma base em que construímos nossa identidade, replicando ou ressignificando as marcas que ficaram na gente.

Ela era a avó incansável em cuidar dos seus e o cuidado podia ser sentido no carinho de fazer a comida preferida de cada um, escolhendo os ingredientes e fazendo vários menus diferentes para agradar a todos, ainda que precisasse ir ao mercado quase todo dia, sob os protestos das filhas que reclamavam que ela se cansaria muito com esse movimento. Ela se sentia satisfeita em ver a mesa cheia dos seus sendo alimentados pela sua mão.

Lembro da vó Noeme ensinando-me a andar de bicicleta. Foram incontáveis as pedaladas em frente à igreja matriz, contornando a mangueira centenária em frente à casa, o asfalto ainda morno pelo início do anoitecer e os familiares já chegando para se reunirem sentados em cadeiras de balanço colocadas na calçada. Ela permanecia incansável, segurando a garupa da bicicleta de forma que eu não a visse. Sem vê-la, eu não percebia os momentos em que ela me deixava pedalar sem apoio, exercitando a confiança de que eu precisava para saber que iria conseguir, simplesmente porque ela estava ali.

A vó Noeme vivia tão intensamente em prol da família e do meu avô que cuidou dele até o último dia. E, depois da partida dele, ela também se deixou ir. Sua mente poderosa manteve seu corpo firme mesmo no avançar da idade porque ela entendia que ele precisava dela. Quando ele se foi, ela, de certa forma, também se permitiu descansar. A saga não foi curta nem fácil por toda uma vida, incluindo se mudar temporariamente com a família de filhos pequenos para acompanhar meu avô que se lançou à loteria de conseguir uma vida melhor embalado pelo ciclo da borracha na década de 50. A passagem pelo Norte não correspondeu às expectativas e eles retornaram ao Ceará trazendo pela mão a maior vitória dessa empreitada: minha mãe recém-nascida. A fortaleza da minha avó como mulher me inspira e me deixa um legado de amor incondicional e dedicação, ainda que eu exercite o ressignificar constante desse legado, entendendo-me como mulher que exerce outros papéis que minha avó, em seu tempo, não pôde exercer. Fosse pelas limitações que a vida lhe impôs em sua juventude, com escassez de recursos, de instrução e de apoio, reforçadas pelos costumes da época que a impediram de reinar para além dos muros da vida familiar.

O quadro em que pinto minha avó paterna, por sua vez, tem o colorido das mulheres criativas, pensantes, que causam admiração com o que constroem para além da vida doméstica.

Como não a conheci em vida, a imagem dela foi desenhada com o lápis das palavras e impressões dos que a conheceram. Assim, terá sempre uma aura de poesia, de etéreo, ao mesmo tempo em que sua vida foi tão real como o fato de eu estar aqui escrevendo sobre ela. Minha avó de corpo franzino, submissa ao meu avô paterno na vida familiar, mãe e avó quase ao mesmo tempo, tinha um jeito só dela de ganhar asas e inspirar as pessoas fora do círculo familiar. Minha avó Fransquinha Eulália escrevia cantigas para serem cantadas na igreja, hinos religiosos para o padroeiro da cidade, peças de teatro e até jingles para as campanhas políticas. Tudo isso no interior do Ceará, na década de 30, em meio às adversidades de viver em uma terra seca, em um distrito afastado da sede, com filhos, marido e casa para cuidar. Ainda assim ela encontrava uma forma de expressar o que acreditava, tal qual como eu estou fazendo agora.

Desde a minha infância, minha avó Fransquinha sempre foi apresentada como uma mulher muito inteligente e criativa. De tanto se falar nela, eu a imagino tal qual como se eu a tivesse visto em vida, de corpo inteiro, o jeito de andar e de falar, talvez fruto de uma miscelânea de outras mulheres em que a vejo refletida de alguma forma. Inclusive em mim que quase recebi o nome dela para chamar de meu, Eulália.

O quanto em mim vêm de todas essas mulheres, o quanto de mim está e ficará nas minhas filhas e nas filhas delas… não saberei dizer. Apenas saúdo a todas e agradeço pela força dessa ancestralidade que permitiu que eu estivesse aqui, com tantas escolhas e caminhos que cada uma dessas mulheres poderia ter seguido, todas escolheram, ainda que indiretamente, por mim.


Os legados são assim mesmo, uma base em que construímos nossa identidade, replicando ou ressignificando as marcas que ficaram na gente.

Lidianne monteiro

Crédito da imagem: Foto por Marko Milivojevic de Pixnio

ELA DISSE ADEUS!

Ela disse adeus, e chorou. Ainda havia sinal de amor, mas era o fim. Ela já não estava feliz! Mas demorou para perceber, para aceitar e para se decidir.

Havia se perdido de si mesma.

Já não se reconhecia mais.

Distante de seus sonhos, seus desejos e expectativas.

Já consciente, sentiu o peso do relacionamento, de um futuro que não se desenhava. Depois a dor pela decisão que tinha que tomar.

Afinal, estava abrindo mão voluntariamente da ideia de um relacionamento amoroso que animava seus sonhos, mas também de tudo que a realidade a desagradava.

Renunciaria para voltar ao status de solteira. Quase um estigma, uma doença, um sinal de perigo para a sociedade. Afinal, “ – Nenhuma mulher escolhe estar sozinha”.

Enquanto homem solteiro é sinal de virilidade, mulher solteira pode causar estranhamento.

O que ela não sabia era que sua decisão não era pelo fim do relacionamento falido, que já tinha acabado. Ela estava escolhendo a si mesma, sua paz, sua felicidade, suas prioridades, sua autoestima, seu auto-amor.

Foi corajosa!

Mas ele a chamou de egoísta. Que simplesmente fora notificado do término, que não lhe foi dado chance ao diálogo! Oportunidade para corrigir o que não estava indo bem! Porque nada estava bem!

Também foi chamada de egoísta por ele não saber ler os sinais! A cada dia ela estava um pouco mais triste.

Ainda, foi chamada de egoísta por se dedicar a um relacionamento de mão única. Por amar e não ser amada.

Ela foi egoísta sim! É verdade!

Egoísta por se escolher, por se amar. Ela não precisava mais dele. Talvez nunca tenha precisado. Tinha a si mesma. Sua melhor companhia. Apenas se esquecera disso.

Ela disse adeus! Chorou! Era triste o fim. Um amor se acabou. Tinha aceitado! Se perdoado!

Ela sorriu. Sentiu-se em paz. Estava inteira novamente! Estava feliz! Um amor recomeçou.


Karina Freitas

Nascida em Niterói/RJ, residente na Capital Federal, desbravadora do cerrado. Ama natureza, trilha, pedalar, filmes, música, conversar bastante (gêmeos, já entendeu) e vez em quando se perder dentre as letras e as palavras.

Ela sorriu. Sentiu-se em paz. Estava inteira novamente! Estava feliz! Um amor recomeçou.

Karina Freitas

DOIS POEMAS

Por: Ivone Santana

ABRAÇOS

Grande gesto que pensamos com prioridade no dia a dia para agradar, parabenizar, acolher ou até chorar
Para um dia de festa, de comemorar
Muitos abraços alguém irá ganhar
Para um dia de luto, de choro só de abraços para toda a dor passar
Abraços para mostrar nossa alegria 
Abraços para diminuir a tristeza
Afinal quem não aceita um ombro amigo? 
Um abraço que em troca ganha-se um sorriso
Vamos nos abraçar muito e ser felizes. 

SAUDADE

Ela despediu da família já sentindo saudades do pai, mãe e irmãos.
Ela saiu da sua terra natal à procura de estrutura financeira.
A esperança era a grande chama daquele coração.
Aquela moça saiu com tão pouco no bolso, mas em sua alma levava todo o sonho de melhorar a sua vida e a vida de sua família.
E agora ela está na sua casa, passeando com o seu carro e cuidando de seu filho. 
E aquele coração tão cheio de esperança que um dia se tornará a esperança de outros corações.
Ah, ela carrega em si uma grande saudade, a maior lembrança da sua consciência;
O lugarzinho que nasceu, o aconchego do colo dos seus pais e o abraço de cada um dos irmãos que agora já não pode ser dado presencialmente.
E cada dia que passa a vontade de voltar, de retornar aquele lugarzinho tão querido se aproxima do seu consciente. 
Aquela pergunta que não tem resposta quando é que esse momento irá acabar para que ela possa viajar a sua terrinha e a todos abraçar!? 
Aí sim ela poderá retornar e matar toda a sua saudade.

Foto: Adobe Stock

Ivone Santana

Brasileira, nascida nas terras de MG e morando atualmente no interior de SP. Mãe de um menino. Apaixonada pela natureza, pelo sol e pelas plantas. Gosta de ler, escrever e ouvir histórias.

“Amar ter a liberdade de poder viver toda a pureza desse mundo mágico.”

BAILARINA

Por: Daniela Echeverri Fierro

Existiu uma bailarina que durante a pandemia dançou em seu quarto sem parar. No início passava os dias revendo cada um dos passos em frente ao espelho, em busca da perfeição passava dia e noite repetindo a mesma coreografia, estudando cada detalhe de seu corpo, vendo seu corpo se transformar com a prática sem fim.

Ela parou de beber, parou de comer e parou de dormir, entrou em transe, em um looping eterno e colorido. Depois de alguns dias, começou a praticar de olhos fechados, como já conhecia perfeitamente cada detalhe de seu quarto e de seu corpo, não precisava mais ter os olhos abertos.

A partir daquele momento ela apenas sentia as cores e a música entrando pelos poros da pele de seus pés, que se conduziam pela corrente sanguínea percorrendo  suas pernas, sua vagina, seus quadris, sua coluna, seu pescoço até chegar ao seu cérebro. De lá, irradiava-se para todo o universo, que nada mais era do que seu quarto.

Não sentia mais sede, fome ou cansaço, não sentia mais seu corpo, simplesmente dançava, com a ilusão de que quando seu corpo parasse a pandemia teria acabado e poderia voltar a se apresentar no teatro, queria experimentar de novo aquele frio na barriga, que sentia quando estava no palco e a cortina começava a subir ao mesmo tempo que as luzes se acendiam para iniciar o show.

CÍRCULO DE FOGO

A gente saiu da missa após Gabriel cantar que “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã…”. Essa nunca foi minha parte preferida. Sempre gostei mais quando Renato Russo entoava “o amor é fogo que arde sem se ver.”

Um contentamento descontente é melhor que só dor. Era assim aquele grupo para mim, tal qual algo que a gente se contenta enquanto espera algo melhor acontecer.

No final daquela missa fomos para a saída lateral, para nossas despedidas e para marcar onde seria o reencontro mais tarde.

Normalmente tínhamos o segundo encontro do grupo jovem na varanda da minha casa, com pelo menos dois amigos tocando violão e as meninas cantando. Alguns se tornaram casais nesses encontros, outros tentavam sem sucesso.

Nesse dia em particular nós tínhamos outras opções. Gabriel disse que queria ir ao encontro de outros amigos, estavam reunidos perto da casa dele numa roda de conversa e música. Uma festa do Círculo de Fogo.

A líder do grupo jovem, carismática para a maioria, mas cheia de uma soberba irritante para mim, tinha um passeio em um clube. Seu pai tinha dinheiro, levaria a ela e aos amigos que ela convidasse para se divertir por sua conta.

O grupo tendeu na íntegra a aceitar o convite da líder, eu não. Pode ser que pareça pecado o que vou dizer, já que éramos um grupo de jovens saindo da missa e que se encontrava para falar do amor de Deus. Mas tinha algo na voz dela que me irritava. Um esnobismo incompreensível, que me causava uma tremenda ira. Eu não queria sentir, mas sentia.

Era cedo para voltar para casa. Então, eu e minha melhor amiga, Carol, aceitamos o convite do Gabriel e fomos para a festa do Círculo do Fogo.
Caminhamos por cerca de meia hora até que chegamos ao local. Era uma festa americana, as pessoas tinham levado comidas e bebidas. Nos sentimos um pouco intrusas mas seguimos em frente.

Estavam todos no quintal dos fundos, o irmão do Gabriel com o violão cantava junto com o grupo a música do Capital Inicial. Nas minhas entranhas eu ria e achava louca a coincidência de ter todo aquele fogo presente: uma fogueira, um facho aceso numa tocha, uma música que falava “é tão certo quanto o calor do fogo”, e a vergonha que ardia no meu rosto por chegar na festa de mãos vazias.

Carol e eu fizemos um breve aceno e continuamos a cantoria com o grupo: rapazes e moças que eu não conhecia, não eram da minha escola nem frequentavam nossa igreja. Divertido como mudar de bairro mudava todo nosso contexto e nos deixava perdidos.

Acabada a música, o carinha que era uma graça e estava sentado ao lado do Gabriel pegou uma maraca e sacudiu. Soltei um risinho bobo, ele não notou. Feito isso, falou uns versos de Milton Nascimento sobre guardar amigos no coração. Passou a maraca para a menina ao lado dele que lembrou uma passagem bíblica sobre a força da amizade. Comecei a entender que existia um padrão: as pessoas falavam sempre algo relativo a amizade.

A-ha! Meu cérebro lógico não me deixava na mão, aquele era um encontro temático.


A menina seguinte passou a maraca sem nada dizer. Olhei pra Carol e sussurrei “vou falar também “. Ela me incentivou com o olhar. Outro rapaz falou a frase sobre amigos serem irmãos e discorreu sobre o assunto alguns minutos.

A cada um que passava a maraca, uma chacoalhada, uma frase, um poema, uma música, uma recordação mesmo que breve.


Chegou minha vez, eu estava empolgada, falei sobre a felicidade de estar com aquele grupo especial, por ter dois grandes amigos comigo.
Carol chacoalhou a maraca e passou sem nada dizer e assim foi até chegar no Gabriel, com o círculo se fechando. Ele agradeceu as palavras e passou a maraca para seu irmão cantar.

Durante a música, algumas pessoas se levantaram e eu aproveitei para beber água. Uma menina se aproximou de mim.
– Pena que vocês tenham vindo num dia tão triste. Normalmente estaríamos mais alegres, com dança e sangria, mas hoje estamos fazendo uma homenagem ao nosso amigo que cometeu suicídio.

Nesse momento desabou minha máscara de vaidade e minha aparência ostentava o choque da informação. Não podia acreditar que estava ali por quase uma hora sem notar os sinais.

Deus, que ser humano sem compaixão eu fui! Tinha um arranjo na mesa ao lado do buffet de comidas com uma foto, velas acesas tremulando e vários cartões com mensagens dentro de um jarro de vidro.


Não compreendi o significado do ritual, nem os sentimentos de quem estava a minha volta.
Soube um pouco mais do menino quando Gabriel chegou com Carol ao seu lado.
– Me desculpa, meninas. Não sabia que seria assim hoje.
– Você o conhecia?
– Sim, mas não éramos muito próximos. Ele era de outra igreja, onde meu irmão participa. Às vezes ele vinha para a festa do fogo, mas sempre ficava na dele, sabe? Muito introspectivo. Soube hoje que foi depressão.
– Quantos anos ele tinha? – Carol quis saber.
– A mesma que a gente.

Baixei minha cabeça e não consegui conter as lágrimas. Conheci a depressão de perto, um ano antes, e me lembrava bem da sensação de não ter saída, de estar encurralada no canto escuro.

Carol e Gabriel me abraçaram, sentiram a dor que eu compartilhava com aquele menino. Eu tive apoio e achei a saída. Ele não. Gabriel achou melhor me levar para casa. Voltamos andando na penumbra das ruas do meu bairro. Ao lado dele, um outro rapaz que viera para fazer companhia no retorno.

Nunca mais participei de outra festa do Círculo de Fogo. Aquele grupo jovem que me apoiou quando nada fazia sentido seguiu suas vidas adultas, cada um no seu caminho, às vezes um encontro, outros tantos desencontros.

A depressão que um dia me manteve refém volta de tempos em tempos para me lembrar que ela ainda existe. A diferença daqueles tempos para hoje é que quando ela vem, vem também a lembrança e a certeza de que tenho muitos amigos que não soltam minha mão, mesmo que não estejam comigo. E a vida volta ao curso.

PROFUNDO (A)MAR

Por: Lívia Maria

Finitas tardes intermináveis,
Cabelos embaraçados, soltos.
A ventania os amava tanto...
E a recíproca era real. Surreal.
Cobrindo face, encobrindo medos,
Embalados na canção profunda,
Tão profunda a misturar brisa, riso,
Sonho, desejo, lágrima e sal...
Uma vida. Uma eternidade. Mar.
Profundidade. Melancolia. Despertar.
Verdes ondas acariciando as rochas,
Acolhendo as lágrimas, abraçando-as,
Dançando ao som do meu pranto...
Pressentindo a dor da despedida,
Vislumbre imediato, encantamento
Um cenário familiar e mágico...
Profundo sentir. Profundo a(MAR).
(Lívia Maria - 10/11/2017)

Sou Lívia Maria. Artista Plástica, poeta e atriz. Apaixonada por arte. Vivo arte. Sou arte. Inspiro e expiro arte por onde vou. 

Ilustração: Lívia Maria

SEM NOME

Por: Katya Mota

Macerava a folha amarga entre dentes. Amarga de uma mágoa morna, sem grandes arroubos, só uma saudade persistente, afinal já era tempo.

Absorvia a seiva fresca que lhe escorria pela garganta, mas sem conter o arrepio que o sabor provocava. Ah o arrepio e seus pelos eriçados! Beijo na boca, hálito na nuca… Também era uma saudade persistente (…) e fez um chá para rememorar.

Katia Mota

Nascida em São Paulo, residente em Cerquilho-SP desde tenra idade.

Formada em Letras e Artes Visuais, pós graduada em Literatura Contemporânea.

ESPERANÇA

Por: Lidianne Monteiro


Dormi até acordar, sem despertador, sem hora marcada.

Só que não programar o despertador é só uma farsa que faço comigo mesma.

Porque, na prática, deixo a janela e a cortina abertas para a luz do sol invadir o quarto e me despertar. Banho-me com essa luz, energizando-me e completando o trabalho das horas de sono que normalmente foram insuficientes. É assim na rotina espartana da semana e na maioria dos sábados e domingos “livres”.

Mal tinha aberto os olhos e peguei o celular quase instantaneamente. Qual não foi minha surpresa ao ver que havia uma mensagem enviada na madrugada avisando do agendamento para que meu pai comparecesse a um local de vacinação para receber a segunda dose da tão preciosa e ainda rara vacina contra a COVID-19. Por um instante, meu cérebro titubeou em me responder se havíamos perdido o prazo ou não.

Felizmente não. Corri para avisá-los para que viessem para a cidade, pois estão morando há alguns quilômetros da capital e não tem carro próprio. Combinamos tudo. Como dizem os muros cinzentos da cidade: “vai dar certo”.

Meus pais agora são quase meus filhos. E digo isso com o orgulho e felicidade de que chegamos a esse ponto. Pois é sinal de que continuam aqui, compartilhando esse mundo comigo, ainda que seja um mundo caótico e desafiador.

Eu sabia que esse dia em que eles precisariam mais de mim do que eu deles chegaria. Chegou junto com a pandemia, com o medo galopante de que se infectassem e sofressem, com a necessidade de que se isolassem fisicamente em uma rotina planetária que tem achado no mundo virtual a alternativa para substituir as tantas coisas que eram feitas presencialmente.

Diferentemente daqueles que vimos nascer das nossas entranhas, os pais que viraram filhos precisarão cada vez mais de nós. Esperamos que os filhos criem asas e voem “ao infinito e além”, como diz o Buzz Lightyear ainda que estejamos com o ninho quentinho esperando as pausas dos vôos deles. Com os pais que viram filhos é diferente. Nesse caso, nosso ninho tem que ser cada vez maior e mais aconchegante para a permanência cada vez mais frequente deles.

Mudei minha programação caseira do dia para incorporar essa missão feliz e nobre de levar meu pai para receber essa dose de esperança que tem o poder de contagiar a gente que está perto e que nem vacina vai receber. Apressei-me na cozinha e adaptei o prato de chef que eu estava me programando para fazer desde a véspera. Enquanto cozinhava o pensamento ia longe, borbulhava junto com a água das panelas e se dissipava no ar em meio aos aromas da cozinha, bailava no ar junto com as músicas da playlist preferida. Por que não cozinho mais? Tive mais ideias mirabolantes nesses minutinhos à beira do fogão do que na semana inteira ao computador…

A saída para buscar meus pais não foi sem contratempos. Filha que cortou o dedo na lavagem apressada da louça: corre, pega o curativo, diz que não precisa de ponto, mesmo porque ir para hospital, nem pensar! Procura a chave do carro que descobrimos perdida na hora de sair, busca pela chave reserva que, por ser reserva, nunca é usada e logicamente está perdida também. Pega duas máscaras para cada pessoa que essa variação da cepa não está de brincadeira! Segura o gato para não sair e contaminar as patas no hall, pega o borrifador de álcool reserva que o do carro acabou, sai descalça, calça o sapato que está no hall. Ufa! Dizem que as mulheres conseguem fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Muito treino desde sempre das nossas ancestrais, né? Ou era isso ou a gente era engolida pelos dinossauros na primeira espiadela para fora da caverna.

Conseguimos pegar meus pais a tempo e com os nervos mais calmos após a saída “traumática” de casa. Minha mãe que estava sedenta por um interlocutor ao vivo que não fosse o meu pai, despejou, em minutos, várias atualizações de assuntos que foram da pandemia ao BBB, passando pela nova namorada do meu sobrinho e pela nostalgia de voltar à Fortaleza após a recente mudança para a cidade natal deles, após mais de 40 anos morando aqui.

À medida que nos aproximávamos do local da vacinação, íamos nos preparando para o momento. Recomendávamos a todos que estivessémos atentos à vacinação, à aplicação da dose, às informações que seriam prestadas, à foto que deveria ser retirada para registrar esse momento histórico, etc. Minha mãe orientando que meu pai fizesse assim ou assado. “Mãe, deixa ele tranquilo. A gente faz o que precisa fazer. Ele tem que apenas aproveitar o momento.”

Pai vacinado e todos batemos palmas! Eu sempre atenta às impressões do meu pai no pós-vacina. Ele sempre fica emocionado e eu também. Foi assim na primeira dose e na segunda.

Nesta, a primeira frase foi: “Espero que em breve todos os brasileiros possam ter esse momento”. Na primeira dose, ele disse: “Viva a Deus. Viva à Ciência. Viva aos Servidores da Saúde”. Chorei.

Missão cumprida e eu e Bia, a neta do dedo cortado, retornamos para casa. Bia, a princípio, não sabia se poderia ir com a gente nessa missão porque tinha coisas para fazer (ela sempre tem coisas a fazer, não sei a quem puxou!). Na volta, feliz em ter podido estar com os nossos velhinhos, perguntei como tinha sido o “passeio”. E ela disse: “Foi bom treinar a esperança”.


Lidianne Monteiro

Mulher, mãe, trabalhadora e especialista em tentar equilibrar todos esses pratos. Engenheira apaixonada pela precisão dos números que desenham o mundo. E pela subjetividade que permeia as relações e as pessoas. Enfim, paradoxal como se deve ser.

SENTIDO DO TACTO

Por: Daniela Echeverri Fierro

Ela estava sentada, bebendo café, seu cabelo castanho acariciando suas costas cobertas por uma jaqueta de lã com listras coloridas. Nas mãos um livrinho e os olhos fixos nas páginas amareladas furadas pelo tempo.

Ele não conseguia parar de olhá-la, sentou-se na mesa ao lado sem esconder o encanto por aquele movimento absurdo e ao mesmo tempo sedutor de suas pernas por baixo da mesa.

Então ele pediu um café e lembrou da aquela velha arvore onde passou a manhã abrigado à sombra, desfrutando do vício adocicado e ardido de ler as poesias do escritor Jose Asunción Silva.

Enquanto levava o café amargo aos lábios, sentia o calor queimando seu esôfago, enquanto imaginava como o chumbo passava por seu coração assim como aconteceu com o poeta.

Cada verso afundou-se num grito de dor, num pedido de silêncio entre as folhas secas que caíam da árvore. Imerso nas palavras, ele foi dominado novamente pela morte tão engenhosa e trágica do escritor.

De repente, ele percebeu novamente a bela mulher ao seu lado, dessa vez ele notava as mãos pequenas e macias, eram mãos de artista – ele pensou – era fascinante como seguravam delicadamente aquele livrinho azul.

Ela poderia ser uma pintora ou cartunista, talvez pudesse tocar um instrumento, um piano ou algo assim.

Ele queria falar com ela, mas parecia estúpido abordá-la sem nenhum motivo além de seu fascínio por sua imagem boêmia.