BORBOLETAS

Por: Karla Militão

Admiro as borboletas. Elas vivem cada momento intensamente.

Admiro as borboletas. Elas são discretas, belas e voam sempre em busca do colorido das suas queridas flores. Na sua frágil beleza dão exemplo de simplicidade e elegância. Não gostam de alarde, ao contrário são silenciosas e no silêncio quando nada parece acontecer elas passam por um processo de abandono e transformação, onde deixam seus corpos pesados de lagartas e transformam-se em bailarinas dos ares. De suas crisálidas inertes brotam sonhos leves e repletos de fantasias.

Admiro as borboletas. Elas vivem cada momento intensamente. Sabem que suas vidas passam em um breve instante por isso não podem desperdiçar tempo com banalidades.

Quero ser borboleta. Quero passar por metamorfoses e por fim tornar-me uma criatura mais bonita. Com minhas asas suspirar pelos jardins da vida. E com minhas cores divertir os dias cinzentos daqueles que esqueceram que a vida pode ser multicor. Com minha leveza desejo embalar os pensamentos acelerados do nosso dia a dia e acalmar os corações com a sutileza do meu voar.

E assim de flor em flor, de cor em cor, de voo em voo irei espalhando mensagens de amor e esperança para uma humanidade ensimesmada presa dentro do seu próprio casulo.

Admiro as borboletas. Na sua finitude seus corpos encontrarão a última transformação. E assim a alma se tornará pronta para gozar da eterna felicidade.


Crédito da Imagem: Foto por Daniela Echeverri Fierro

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário. ”

A CARTA

Oi…

   Como tem sido sua vida? Me conta, mesmo que não ache importante.

    Mandei arrumar o carro. Ficou bom, você tinha toda razão, estava precisando. Não entendo porquê relutei tanto.

   Ainda não consegui ler os livros que me indicou, abro-os, cheiro-os e percebo que não querem ser lidos, só embalados no meu colo vazio e fico a observar o vazio que eles deixam na estante.

    Pintei a casa. Laranja. Não como do poema “Impressionista” (sempre amanhecendo), mas entardecendo. Teria gostado, logo é noite.

   Refiz o jardim. Abandonei as orquídeas, são melindrosas demais, sou por demais incompreensiva para com elas e seus melindres de excentricidade. Hoje, cultivo as violetas, a janela da cozinha está florida, elas me dão a chance de acreditar que estou no caminho certo. Se falho, substituo por uma nova, já em botões e tenho a impressão de que tudo continua sempre igual.

   Ontem encontrei aquele nosso amigo de longa data. Perdemos a intimidade. Senti essa perda, não somos mais crianças. Sabe… chego à conclusão: o tempo realmente passou, assim, feito ventania, destelhou casas, levantou poeira…

   E sigo assim. Como se nada nunca tivesse fim.

 Carinho.

                                        Da sempre sua;

 PS: As portas continuam sem chaves.

Crédito da Imagem: Pexels

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

A SEMENTE DO ACOLHIMENTO

Por: LIdianne Monteiro

EM TODAS AS SITUAÇÕES, A DUREZA DO ABANDONO PODE TRAZER A LIÇÃO REDENTORA DA ACOLHIDA, A DEPENDER DE COMO REAGIMOS A ELE.

Temos um gatinho em casa. Adotado há quase três anos. Fruto do desejo antigo da minha menina mais nova, ele chegou em um momento em que nossa família se reestruturava e se acomodava a mudanças difíceis. Ele trouxe um ar de frescor e vivacidade à casa e preencheu nossos dias com ternura e traquinagens. Antes dele chegar, já tínhamos decidido que adotaríamos um bichinho abandonado que precisasse de uma família. Divulgamos com alguns amigos esse nosso desejo e o universo o fez chegar aqui por meio de uma rede de amigos onde um fala para o outro que fala para mais alguém e, quando a gente vê, está se comunicando com alguém que nem conhece e que estava cuidando do nosso bichinho enquanto a gente ainda nem sabia que ele existia.

Charlie foi abandonado por sua mãe, uma gata que vivia nas ruas. A primeira pessoa que o resgatou, moradora das proximidades dessa rua em que a gatinha transitava, viu a ninhada e observou, por diversas vezes, que a gata mãe o rejeitava, deixando-o para trás ou até mesmo machucando-o. A humana (com todo os sentidos da palavra “humana”) que teve compaixão por ele já cuidava de outros animais e o resgatou para proteger sua vida frágil enquanto conseguia um lar definitivo para ele. E assim ele chegou para nós.

Por que queríamos um gatinho abandonado? Por que não fomos a um pet shop comprar um gatinho de raça, perfumado e lindo? Também amamos os bichinhos de pet shop. Mas a probabilidade desses bichinhos conseguirem um bom lar é bem maior do que a de um gatinho abandonado, sem raça definida, sem histórico de saúde conhecido, muitas vezes magrinho e sujo, talvez doente. Além disso, há indícios recorrentes de exploração animal nesse tipo de comercialização, o que, obviamente, não posso generalizar como regra.

Nesse contexto, salta-me aos olhos de forma muito contundente a questão do abandono em geral, do estar sozinho, do ser preterido, rejeitado, de não ter ninguém para lhe acolher e de estar entregue à própria sorte. Isso acontece com todos, humanos e animais, em determinados graus e em muitas situações ao longo da vida. É o emprego do qual se foi dispensado; é a dificuldade em alimentar a família quando não se tem recurso e falta ajuda de terceiros ou do Estado; é a falta de assistência à saúde e o abandono em um corredor de hospital; é o idoso abandonado ou explorado pelos familiares; é a criança cujos pais não dão a devida proteção; é a mãe chefe de família com sua prole e sem a assistência dos pais de seus filhos; é o morador de rua; é o estudante esforçado e sonhador que não consegue uma oportunidade de ingressar na universidade porque o Estado não provê vagas suficientes; é a pessoa que sofre discriminação pela cor da pele, origem ou orientação sexual; é o bichinho abandonado também, ou porque algum “humano” o descartou ou porque cresceu na rua sem contar com a eficácia de uma política sanitária que abordasse de forma responsável a questão animal, que também é uma premissa de saúde pública.

Seguimos todos desdobrando-nos para superar esses abandonos porque em todos nós há, latente, o instinto pela sobrevivência. Não importa qual o abandono que estejamos buscando superar, seja aquele protagonizado por alguém próximo do qual se esperava compromisso ou empatia ou, ainda, o abandono do próprio Estado e das instituições. Em todos podemos atuar em alguma escala e, de preferência, de mãos dadas. A ilustração trazida pelo exemplo concreto do bichinho abandonado é um caso dentre tantos de várias naturezas e gravidades distintas.

Em todas as situações, a dureza do abandono pode trazer a lição redentora da acolhida, a depender de como reagimos a ele. Na minha pequena e limitada esfera doméstica, a lição de acolher um bichinho e de fazer dele um membro da família amado e digno de cuidado e carinho desperta o compromisso com outro ser, o exercício da nossa capacidade de ter empatia e a iniciativa de fazer algo com nossas próprias mãos, ainda que demande energia, esforço e dedicação. E isto pode e deve ser extrapolado para outras causas também. A escolha pela acolhida beneficia tanto ou mais a quem acolhe.

Minhas filhas vivenciaram a lição da acolhida com a decisão pela adoção do Charlie. As lições construídas sobre a base do bem podem permear tantas outras decisões e prosseguir em outras causas, ainda que nem sempre consigamos ou possamos atuar de forma eficaz e no nível em que desejamos. Mas a semente da boa vontade e do acolhimento foi plantada e é regada todos os dias. Ainda que seja com um regador de conta-gotas, a terra estará sempre molhada e essa plantinha pode prosseguir e florescer.

 Agora, em meio à pandemia, vimos nossa família receber uma cachorrinha recém-nascida abandonada em uma caixa de papelão com outros filhotes. É tão pequena que ainda nem abriu os olhos. Não sabemos se ficará tão grande que não caberá no apartamento, nem podemos predizer nada de sua futura condição de saúde. Mas aceitamos o desafio com amor. Fomos ao encontro dela também sinalizados por uma rede de proteção da qual não conhecíamos ninguém presencialmente. E estamos aqui, as três, alimentando-a com uma seringa a cada duas horas. A acolhida demanda esforço e ações concretas sempre. Envolve também resistências, medos, críticas e dificuldades que, apesar se fazerem presentes, nem de longe fazem frente à terra viva e fecunda lançada à semente do acolhimento.


Crédito da Imagem: Foto por Snapwire em Pexels.com

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Mulher

Mulher que faz de tudo em seu lar

Que ama o que faz

 Que deixa o seu reflexo por onde passa.

Mulher que transforma sua casa, sua família colocando amor em cada detalhe.

Mulher que acorda cedo para preparar o café a todos da casa.

Mulher que em frente ao espelho fica olhando o seu olhar belo.

Mulher que trabalha fora e ainda rege o seu lar.

Mulher cheia de sonhos, de expectativas.

Mulher que luta por suas realizações.

Mulher que fala, mulher que faz.

Mulher que é mãe, mulher que é pai.

Mulher que é esposa

Mulher que batalha

Mulher vencedora!  Parabéns a todas as mulheres empoderadas de amor, de luz; enfim mulheres cheias de vida.

Crédito da Imagem: Pexels

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INTEIRA

Por: Sônia Souza

Ela estava lá
Não inteira
Arena de duas forças que insistiam em ficar
E teve início ao que talvez nunca mais tivesse fim
Não eram dois ou três
Era o mesmo um que indistinto 
Se multiplicava e era indivisível

Crédito da Imagem: Daniela Echeverri Fierro

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PALAVRAS ESPALHADAS

Quem sabe elas encontrem um coração distraído


Por: Lidya Gois

Deixa eu escrever, espalhar minhas palavras por aí
Quem sabe elas encontrem um coração distraído
Arranquem algum pequeno sorriso
Sejam a companhia de alguém na solidão
Tragam de volta um lampejo de esperança
Ou quem sabe elas viajem e cheguem distante
Bem no instante em que precisam chegar
E se puder espalha as tuas também
Mas só se forem de bem
Para o mundo abençoar

Crédito da Imagem: Foto por Michelle Leman em Pexels.com

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O LADO SOMBRIO DA VIDA É O LADO SUBLIME DA MORTE

Por: Lívia Maria

Silêncio… Fecharam-se as portas

do olhar terreno. Aqui jaz um coração.

Luto… O sofrimento silencia os acordes

de belas lembranças. 

O som da despedida ainda ecoa.

Desalento… Será em vão aguardar 

o aconchego das mãos em eterno descanso.

Trevas… Como a escuridão das noites

perante novas manhãs, o pesar da escuridão

dos sentimentos se amenizará…

Busca… Olhar para o céu à procura

de um sentido para prosseguir…

Aprendizado… Reerguer-se, aprendendo

a conviver com a presença da ausência.

Claridade… É possível alcançar centelhas

de alegria em meio a saudade.

Memórias… Memórias brotam da alma,

como flores brotam da terra. E enxergar

a beleza de ambas, torna a vida mais leve.

Esperança… O abraço, o olhar, os sorriso,

os poemas, os desenhos e preces entregues

em pensamento… E a certeza da reciprocidade.

Há de haver um reencontro… 

A distância pode ser grande, mas

o amor verdadeiro é imensurável!

Encontro, proximidade, felicidade…

Despedida, distância, tristeza.

Tudo é tão efêmero e inexplicável

como o bater das asas de um Anjo.

O lado sombrio da Vida, 

É o lado sublime da Morte…

.

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(Lívia Maria – 24/09/2015)

Crédito da Imagem: Lívia Maria

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INVENTÁRIO

Por: Karina Freita

Mudanças decorrem de escolhas. E escolhas provocam movimentos!

Cada movimento é regido por uma decisão. Toda escolha também envolve uma eliminação.

Definitiva?! Talvez sim!!!  Ou um realinhamento de prioridades.

Mudanças podem ser muitas: casa, trabalho, rotina, carro, visual, e tantas outras! Mas aquela que envolve o nosso íntimo merece o atributo de transformação.  

Muitas são marcadas com partidas e chegadas ao encontro do novo. Rumo ao universo desconhecido.

Algumas são voluntárias, outras são impostas e se revelam caminhos que a vida propõe! Seja qual delas tenha vivenciado, ambas desenvolvem a capacidade de renovar-se, reinventar-se e transformar-se.

Um sentimento de começar de novo! Rompido o casulo não se volta ao que era antes.

Podemos não saber aonde ir, o que queremos, como será esse novo ser que habita o íntimo!

Mas a pessoa do ontem não será a mesma do hoje.

Mudar cansa, é trabalhoso, é desafiador. É simplesmente assustador!

Mas  manter-se na zona de conforto também.

Quanto mais se busca, mais se conhece. Conhecer a si mesmo é um mergulho profundo.

É a mais longa viagem é possível de realizar. Dura a vida toda. E também a mais difícil. Não há guia de viagem para esse destino.

No processo da transformação muitas possibilidades acontecerão, outras não. Pode-se saber quem era quando iniciada a jornada, mas não o que se tornará.

Quando mudamos temos a oportunidade de fazer nosso inventário, catalogar as coisas que temos, o que sentimos, o que vivemos.

E, de tudo isso, escolher aquilo que desejamos ficar, o que precisamos consertar, o que precisamos doar e o que devemos jogar fora.

Com uma vida tão corrida, quantas vezes, conseguimos parar, refletir e, voluntariamente decidir por se renovar!!! 

Não espere o dia do inventário, escolha todo dia e apenas reinvente-se.

Crédito da Imagem: Pexels

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PG

Por: Rosi Santos

Isso não tá certo não!

Tô dilacerada com a dor da partida do Paulo Gustavo. Assim como fiquei dilacerada com a partida do meu tio Paulo, dos meus primos Fernando e Ismael, da tia Selma da Elaine, da mãe da minha amiga Marcelle, da mãe do Pe. Fabio, do colega de trabalho de 37 anos que partiu dias depois da mãe dele, de um conhecido antigo de Fortaleza, do Edson, de mais de 400 mil pessoas que morreram de Covid.

Amanhã é o dia “comercial” das mães, e não paro de pensar na dor de todos os filhos que perderam suas mães e na dor de todas as mães que perderam seus filhos. Marcelle e Deia em particular. Porque? Porque conheço as duas. Marcelle é amiga e Deia gerou, criou e educou um dos MAIORES e MELHORES HOMENS DO BRASIL!

Então isso não tá certo não!

Desde o início dessa louca pandemia, o PG me alegrou, me alertou, se fez presente nos meus dias angustiantes falando de assuntos sérios com aquela leveza e humor que só ELE sabia fazer.

Antes de muitos, cedeu seu Instagram pra Djamila falar e conscientizar MILHARES de pessoas sobre o real problema do preconceito racial brasileiro, que EXISTE sim, e é latente, degradante e silenciosamente canceroso.

Ele doou milhares de reais para combater essa batalha injusta contra esse vírus que chegou em 2019 e que parece que não vai embora nunca mais. Que veio e virou nossas vidas e psiques de cabeça pra baixo.

Em novembro de 2020 tive Covid. Por uma DIVINA estatística tratei como gripe e me recuperei. Ontem tomei a primeira dose da AstraZenica e chorei emocionada e trêmula, pensando em quantas vidas podiam ter sido salvas, em quantas vidas ainda precisam dessa vacina, angustiada pela minha filha de 20 anos que não tem ideia de quando receberá essa picada praticamente indolor e altamente desejada.

Isso não tá certo não!

Essa nova ordem mundial veio com tudo, mostrando quantos paradigmas precisamos quebrar, quantas incertezas transformadas em lágrimas teimam em rolar em nossas faces, quantos preconceitos precisamos entender e expurgar, quantos valores precisamos resgatar, quantas emoções e sentimentos precisamos demostrar, quanta indignação precisamos trabalhar…

Ouvi que a perda extremamente prematura do PG foi da vontade de DEUS. E apesar de toda dor e incompreensão, realmente creio que ELE é o Senhor de todos os destinos, mas acho muito injusto jogar nas costas DELE esses desfechos trágicos do Covid. Então não podemos aceitar essa verdade nos confortar sem antes nos indignarmos com tanta inércia!

Isso não tá certo não!

Realmente não sei como enfrentar esses tempos sombrios de crise e confinamento sem a arte, a música, a leitura, o meu scrapbook.

Não sei como manter minha sanidade sem ter meus cats por perto me acarinhando e ronronando no meu ouvido.

Não sei como permanecer esperançosa sem olhar as folhas verdes da amendoeira pela janela do meu quarto, meu refúgio.

Não sei como pensar nos meus projetos futuros, nos meus sonhos de vida, sem rezar para que eles se realizem.

Definitivamente isso não tá certo não!

O dia amanheceu nublado, como minha alma.

Sinto frio nos pés e no coração.

Ouço o som da rodovia e o choro dos enlutados.

Penso na minha lista de tarefas da semana e em tudo que não vai ser realizar porque alguém morreu.

Tô triste e de luto. Luto pelos conhecidos e pelos desconhecidos.

Hoje me permito viver nubladamente.

Amanhã vai ser outro dia…

P.S.  Dia 20/05 foi colocada uma linda placa mudando o nome de uma rua de Niterói para RUA ATOR PAULO GUSTAVO, homenagem a ele que tanto enalteceu essa cidade linda!

Rosi Santos – 8 de maio de 2021

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”