Maria(s)

Maria retomou a escrita no diário após três anos sem nenhum registro. Ao pegar aquele caderno de capa cor de rosa, meio emborrachada e com suas folhas sem pauta (Maria não gostava de limites), pôs-se a escrever…

“Ah! Que saudade dessas páginas! Quantos sentimentos registrados aqui! Quase três anos se passaram e entre os fatos mais importantes: a mudança de emprego e a separação.

O que poderia ser um acontecimento trágico, devastador, transformou-se em libertação, autoconhecimento, um amor profundo por mim mesma e uma admiração imensa pela mulher que me tornei. A valorização da minha mãe e da minha filha, como mulheres fortes que são. O amor incondicional pelo meu filho, que me faz renascer a cada sorriso pela manhã.

A liberdade de ser quem eu sou; de fazer amigos; de rir sem julgamentos; de ler um livro quando eu quiser; de tomar vinho sozinha, sem dividir com ninguém (kkk); de me sentir linda, amada por mim e desejada por alguns; feliz e realizada no trabalho; me ter de volta.

Como eu estava mergulhada a até o último fio de cabelo em um relacionamento que me fazia mal e não tinha noção disso!

Mas tudo se resolve, cicatriza, caleja.

Hoje sou grata à vida, às pequenas coisas, aos pequenos milagres de cada dia. Não preciso curar ninguém, apenas a mim mesma e renascer cada dia mais forte…e feliz! Mais merecedora de realização, de amor!

Hoje, consigo admirar o sol, a chuva, o vento, a noite, a comida, o brincar dos meus filhos, as rugas da minha mãe!

Me devolvi pra mim, pro mundo, pra quem de fato me ama. E sem querer, por caminhos inesperados, fiz amigos que me devolveram a crença de que o amor e a admiração existem e me fizeram perceber o quão foda eu sou!

A vida é sábia! Se tivermos o dom de observar e a maturidade para entender o ir e vir dos fatos, sem temor, sem ansiedade, sem querer fazer acontecer do nosso jeito, seremos contemplados com a serenidade e a serendipidade do universo.

Serendipidade é quando encontramos algo que não estávamos procurando, ao buscar outra coisa. Deu pra entender?

Em meio ao caos, encontrei paz. Me achei. Me amei.

A letra? Meu filho acordou!

Te amo, Maria(s)!”

Desejo que muitas Marias consigam se libertar, se encontrar e ser felizes!

Cláudia Nagau

Crédito da imagem:  Pexels

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

SINAIS

Por: Sônia Souza


Gente que vive de sinais
Eu sou assim
Uma esperança voando na sala
Um sonho mal sonhado
Uma borboleta bruxa a espreita

Desde pequena procuro sinais em tudo que vejo
Foi assim que passei a vida paralela interpretando tudo o que acontecia 
com um script que brincava comigo aqui e ali
tal como pique pega.

Como Sherlock 
Vi nas estranhas intrigas, secretas conspirações 
Vi nos pequenos casos clássicos 
o verdadeiro amor
Vi no desassossego 
Os desacertos do que haveria de ser

Muita alegria, sinal de tristeza
De tanto ouvir eu já nem ria tanto
Decerto a tristeza não chegaria de surpresa
Por que a mágica 
Era o escudo que protegia

A colher caída do nada
Antecipava a visita da mulher 
O sal perdido no raso 
Era a briga que vinha ao acaso
E o arrepio de fora de hora
Nossa... 
Indicava companhia que já nem estava  viva

Isso tudo que aconteceu 
Eu falo para vocês
Eu vi ali 
Na minha frente
Pedido aos céus 
E logo depois o presente

E assim fui tecendo uma história 
Muito minha com enredo próprio e final adaptado

Para o bom entendedor
Um sinal
Já basta

Crédito da imagem: Foto por Wesley Carvalho em Pexels.com

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

CEIA DA LUZ

Por: Lidya Gois


O universo emudece no turbilhão de emoções desconexas.

E nesse angustiante silêncio, a palidez da alma é revelada pela face.

A formosura aviltada, no entanto, pode retornar.

Volta teus olhos à janela e sente o aceno do consolo.

Abre a porta, convida a Luz para entrar e come do alimento que ela traz.

A transformação do ambiente gélido começará.

Crédito da imagem: Karina Freitas

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

CORAÇÃO

Eu vejo poesia nas flores da calçada,

No desgastado reboco da parede expondo os tijolos em forma de coração.

Na textura histórica dos asfaltos,

No peso dos passos e na leveza dos sons.

No toque do sol me ardendo a pele.

Nos inesquecíveis pequenos detalhes.

Na presença das cores e na ausência delas eu também vejo poesia. 

Eu vejo poesia no período de seca poética, no medo, na sede de viver.

Na paixão, em toda a sua intensidade!

No amor que só o olhar expressa…

Nos corações cansados, na dor…

Na chuva se entregando ao solo.

Nas tardes vazias e noites de insônia.

Nas cinzentas nuvens carregadas de saudade eu também vejo poesia.

Eu vejo poesia, fazer o quê?

.

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(Lívia Maria – 31/10/2019)

Crédito da imagem: Foto por Lívia Maria

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DITO DE FRIDA

Por: Rosi Santos

“Onde não puderes amar, não te demores”, nunca antes em minha vida, esse dito de Frida fez tanto sentido.

Não posso amar onde não há empatia para com os sentimentos e dor do próximo, porque o “amor é paciente e bondoso”.

Não posso amar onde não se vive uma história autêntica, nossa, de sentimentos reais e autorais, porque o amor “não inveja, não se vangloria, não se orgulha”.

Não posso amar onde não há preocupação autêntica com o que o outro está sentindo, vivenciando, desejando, ansiando, porque o amor “não maltrata, não procura seus interesses”.

Não posso amar numa relação iniciada com mentira e em que meus sorrisos custem as lágrimas de alguém, porque o amor “não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade”.

Elucubrando tudo isso, foi fácil decidir seguir sozinha e em paz…

Roupa de cama trocada, corpo lavado, alma renovada…

A verdade sempre liberta!

Em um primeiro momento, quando descobrimos que fomos enganadas, nos culpamos, nos envergonhamos, nos entristecemos, nos encolhemos.

Mas é preciso lembrar que quem foi enganado é a vítima e que nem por isso precisamos nos vitimar. De tudo que vivemos há lições a aprender, há marcas que ficarão, há histórias que contaremos, e a vida segue em seu fluxo insano.

Hoje estou só e em paz, amanhã, talvez me apaixone de novo, por que sempre acredito que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”!


Crédito da imagem: Foto por Brett Sayles em Pexels.com

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

SIMPLESMENTE

(última atualização em 27 de junho de 2021)

Por: Karina Freitas

No segundo ano em pandemia comemorar mais um ano de vida é uma grande celebração. Receber e celebrar felicitações de saúde ganhou novo significado. Ter os mais próximos vivos e saudáveis é um motivo de gratidão. Vou querer mais o que neste momento?

Daí paro… olho ao redor e reflito…

O que realmente importa?

Comemorei meu aniversário de 2021 num dos melhores lugares do mundo: na praia, com o primeiro banho de mar do ano. São Pedro deu uma forcinha! Muito obrigada.

Depois de um domingo de chuva, parecia que meus planos estariam cancelados. Nosso encontro fora adiado apenas por um dia. O mar e eu. Eu e o mar.

A terça-feira amanheceu bela, com aquele sol de inverno tímido que se revela aos poucos. De um jeito sem pressa pra nascer que nunca se sabe se sairá um sol frio (daquele engana trouxa) ou ficará um calorzinho de verdade para aquecer o corpo e reenergizar a alma!!!

Ele saiu brilhoso, estonteante com um verdadeiro presente de aniversário. Depois de risoto, chocolate e aipim eu amo o Sol (nem sempre nessa ordem rs). E como gosto do astro rei.

Mal cheguei na praia, que estava simplesmente deslumbrante, e já fui mergulhar! Para molhar o corpo e lavar a alma. No meu ano novo pessoal, um banho de mar veio bem a calhar!

A água não estava gelada, apenas fria. Com uma dose de coragem e disposição para aproveitar e me deliciar com aquele momento ímpar. Aniversário na praia!!! Quero repetir.

Comemos peixe, depois de risoto é meu prato predileto, e aipim frito…hummm (não é mandioca, nem macaxera, rs). Pensa numa pessoa que gosta (com som de “x”) de aipim! Eu mesma. Muito prazer! Tudo orquestrado por uma grande amiga. Seu abraço representou todos os amigos que não pude encontrar e abraçar.

À noite, seguindo as comemorações, virei master chef num jantar em casa. Éramos cinco, uma grande festa nos tempos do Covid. Com meus pais, irmã e cunhado, que representaram todos os parentes que não puderem comparecer.

Cantamos parabéns!!! Ah! Eu assoprei a vela sim! Mantendo a tradição, só que não mais no bolo. A vela foi devidamente transferida para o prato de sobremesa.

E com essa simplicidade completei mais um “outono” e fui feliz!

Sem grandes eventos, jantares, churrascos que foram tema nos anos anteriores.

E no final pensei do que mais precisaria neste dia, no meu dia!!

Nada mais!

Simplesmente assim e tudo bastou em mim!


Crédito da Imagem: Foto por Pixabay em Pexels.com

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ESCULTURA

Por: Paola Lima

Noite que toma conta da alma e dela extrai uma porcentagem estritamente necessária para continuar. Na mesma medida que te é extraída, tu absorve algo que não sabes o nome, algo que a noite deixa escorrer, um sentimento de fuga.

A noite grita e parece nada dizer. Mas ao se calar nos canta uma grande Odisseia heróica e mentirosa, vinda de nossa própria mente sabotada pelas crenças na vida. Sabotada pelos sentidos irreais de um órgão que pulsa o próprio tempo. 

Ínfima substância de nossos segredos circula no ar. Dessa forma enxergamos o oculto daquilo que se escuta no silêncio. E devoramos o tempo com muita fome cardíaca, lambuzamos a cara e as mãos, negando as máscaras e luvas fantasiosas, pois nos admitimos animais do infinito e da matéria.

A carne pede vida, e a vontade nos afoga no prazer que renuncia cada vez mais a razão da existência. Vivo dentro de uma carência constante de realidade desde que vi coisas que moram nos olhos dela, essas jamais vistas antes por um ser humano, não sabendo mais diferenciar minhas invenções das coisas concretas de fato. Amar o perdido confunde a razão de ser. 

Não era poesia de se ler com os olhos, mas sim de escrever-se com a boca e coxas, percorrendo veias e traçando cabelos embaraçados. Uma obscena carne que nos confunde a memória desagregando a veracidade dos pensamentos. 

Surge no estômago a necessidade de recompô-la, essa complexa lembrança sensitiva que me invade a cabeça sem permissão. Limpo o vidro embaçado de ilusões e fica claro o reflexo da ausência. 

É preciso moldá-la no ar através de minhas mãos desajeitadas, uma composição fictícia de figurações abstratas com caprichos leves. Tento reconstruí-la nesse momento a partir daquilo que tem de ti em mim, mas ainda me faltam muitos toques esquecidos.

Apesar do cuidado, um suspiro a mais e toda obra viria a desabar. Não será possível te modelar pois não encontro vestes, não encontro matéria.

Eu que me via na forma concreta e viva, me perco dentro da ilusão, essa falsa realidade que me sabota constantemente.

 Há de ser esse fascínio pela utopia que nos mantém vivos por gerações, sempre a imaginar o irreal. 

Contemplo o nada, o ilusório. 

No final das contas, 

o que existe 

é o tempo e sua fuga, 

e nada mais além dele.

10/08/2019


Crédito da imagem: Foto por Sunsetoned em Pexels.com

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Paola Lima

Escritora convidada do Sabático Literário em junho.

ILUSÃO

Por: Julia Quintanilha

Quem me dera poder me apaixonar
Corações nos olhos, borboletas na barriga
Agir de forma estúpida, sentir flutuar
Fazer as pazes depois de uma briga

Passei um tempo dizendo que sentia por você
Todos esses sentimentos confusos que pareciam no ar
Pareciam fortes e era natural como aprender o abc
Mas a verdade, é que eu só queria me enturmar

É irritante não gostar de ninguém quando todo mundo parece apaixonado
Achei que deveria me sentir assim também, parecia o certo
E você estava lá, e parecia que nunca me deixaria de lado

Em um certo momento, tudo pareceu verdade
O olhar fixo, a mão nervosa que segurava a minha por mais tempo do que devia
Mas você também não sabia, que pra nós dois, era tudo vaidade.


Crédito da Imagem:  Foto por Arthur Brognoli em Pexels.com

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LADY IN RED

Por: Elaine Resende

O DJ anunciou a hora do intervalo e colocou uma música antiga, que ele reconheceu imediatamente de um dos discos da sua mãe. Era uma música muito romântica, que falava sobre um homem que admirava uma mulher com a qual dançava, a mais bela de todas, cobiçada pelos homens no salão.

Ela estava de pé em seu vestido vermelho, observava os pares se formarem sem expressão definida. Ele começou a andar em sua direção, o coração batia acelerado. Quando estendeu a mão, ela aceitou. Naquele momento, para ele, não existia ninguém mais além dos dois juntinhos, de rosto colado. Ele encontrou os batimentos do coração dela e sentiu que estavam no mesmo ritmo. Havia espaço para ele, gritava aos solavancos seu peito.

A música era a mais perfeita descrição do que experimentava. Imaginou seus corpos físicos flutuando como uma projeção astral. A cadência de seus passos, a respiração quente, tudo conspirava por essa união. Em seu íntimo, podia ouvir o sussurro do universo em seus ouvidos que dizia que este encontro havia sido escrito muitos anos antes, eram almas que anseiam pelo reencontro.

Quando a música acabou, ele a segurou firmemente em seus braços e a jogou para trás, deixando que a curva de seu pescoço se mostrasse, os cabelos pendendo no ar. Trouxe seu corpo suavemente para cima e, enquanto os casais se dissipavam por aqui e por ali, beijou-a com paixão.

Ela sentiu a tensão daquela noite descer de seus ombros e buscar outros pontos onde se hospedar. Estava desacorrentada, como se o último elo do grilhão que ainda a prendia a outro homem houvesse rompido. Ela encostou sua mão em seu peito e se aconchegou em seu ombro. Ele exalava calor e um cheiro de almíscar inebriante. Ele era algo de delicioso e reconfortante, tão inexplicavelmente gostoso que ela não tinha palavras para descrevê-lo. Ele era fortaleza, uma tarde de outono em maio, o perfume das árvores.

Ela olhou dentro de seus olhos e viu quando seu olhar encontrou sua alma. Sua íris, de um caramelo cristalino e marcante, parecia única. Lembrou da música que sua mãe cantava sobre os olhos castanhos… raios de luz. Abriu um sorriso bobo, era a noite adequada para isso, sorrisos bobos. Ele sorriu de volta.

Ainda estavam no meio do salão quando a música eletrônica recomeçou, acordando ambos do transe em que se encontravam. As pessoas adentravam freneticamente no ambiente, que estava muitos decibéis acima do que a audição humana deveria suportar.

Ele beijou a parte de trás de seu pescoço, próximo a sua orelha, e segurou sua mão com confiança. Ela podia ler seus pensamentos. Caminharam juntos de mãos dadas, lado a lado. Ele agora sabia o que nunca havia se permitido sentir, mas estava lá. Nunca mais a perderia para ninguém, ele a amava, mesmo que isso significasse magoar outra pessoa. Mesmo que essa outra pessoa fosse seu irmão.


Crédito da Imagem:  Foto por Anton H em Pexels.com

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NUM BECO SEM SAÍDA

Por: Angelica

Era assim que me sentia quando alguém me perguntava na frente dos meus pais: você já tem namorado?

Queria dizer que sim com vergonha de assumir que não. Ficava horas da minha adolescência sonhando acordada que aquele garoto da casa vizinha era o meu namorado.

Em meus devaneios de menina ele se aproximava de mim na calçada e me convidava para dar uma volta na rua. Era o máximo que eu podia pensar.

Sempre que ia para a escola levava uma esperança de conhecer algum novo colega e que naquele momento tornava-se meu príncipe encantado.

Na minha adolescência e juventude vivíamos estes sonhos encantadores embalados por lindas melodias. Estes amores fugazes que nasciam tão de repente, despareciam no ar. Não sofríamos porque tínhamos certeza de que logo encontraríamos outro.

Hoje, vejo as meninas que já não sonham porque perderam o direito de serem simples meninas e cedo, muito cedo, por causa de uma impressão errada ou porque acreditaram nas promessas segredadas em seus ouvidos, com toda a força de uma voz rouca e suave, transformam-se em notícias de jornal.

Nossas meninas estão em perigo e precisam saber disto. Nossas meninas não podem mais acreditar naquela voz que diz palavras de amor e depois mata. É hora de chamar atenção para os cuidados que devem ter e não pensarem que aquele homem que jurou amor, há tão pouco tempo, não será capaz de machucá-la, quando o ódio ocupar o coração dele.

As nossas mulheres precisam ser salvas, dos amores mal vividos, das palavras mentirosas, das mentes loucas e da falta de cuidados. Precisam recuperar o direito de falar, o direito de viver e ser feliz e principalmente o direito de amar por vontade própria.

Crédito da Imagem:  Pexels

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