ESCULTURA

Por: Paola Lima

Noite que toma conta da alma e dela extrai uma porcentagem estritamente necessária para continuar. Na mesma medida que te é extraída, tu absorve algo que não sabes o nome, algo que a noite deixa escorrer, um sentimento de fuga.

A noite grita e parece nada dizer. Mas ao se calar nos canta uma grande Odisseia heróica e mentirosa, vinda de nossa própria mente sabotada pelas crenças na vida. Sabotada pelos sentidos irreais de um órgão que pulsa o próprio tempo. 

Ínfima substância de nossos segredos circula no ar. Dessa forma enxergamos o oculto daquilo que se escuta no silêncio. E devoramos o tempo com muita fome cardíaca, lambuzamos a cara e as mãos, negando as máscaras e luvas fantasiosas, pois nos admitimos animais do infinito e da matéria.

A carne pede vida, e a vontade nos afoga no prazer que renuncia cada vez mais a razão da existência. Vivo dentro de uma carência constante de realidade desde que vi coisas que moram nos olhos dela, essas jamais vistas antes por um ser humano, não sabendo mais diferenciar minhas invenções das coisas concretas de fato. Amar o perdido confunde a razão de ser. 

Não era poesia de se ler com os olhos, mas sim de escrever-se com a boca e coxas, percorrendo veias e traçando cabelos embaraçados. Uma obscena carne que nos confunde a memória desagregando a veracidade dos pensamentos. 

Surge no estômago a necessidade de recompô-la, essa complexa lembrança sensitiva que me invade a cabeça sem permissão. Limpo o vidro embaçado de ilusões e fica claro o reflexo da ausência. 

É preciso moldá-la no ar através de minhas mãos desajeitadas, uma composição fictícia de figurações abstratas com caprichos leves. Tento reconstruí-la nesse momento a partir daquilo que tem de ti em mim, mas ainda me faltam muitos toques esquecidos.

Apesar do cuidado, um suspiro a mais e toda obra viria a desabar. Não será possível te modelar pois não encontro vestes, não encontro matéria.

Eu que me via na forma concreta e viva, me perco dentro da ilusão, essa falsa realidade que me sabota constantemente.

 Há de ser esse fascínio pela utopia que nos mantém vivos por gerações, sempre a imaginar o irreal. 

Contemplo o nada, o ilusório. 

No final das contas, 

o que existe 

é o tempo e sua fuga, 

e nada mais além dele.

10/08/2019


Crédito da imagem: Foto por Sunsetoned em Pexels.com

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”


Paola Lima

Escritora convidada do Sabático Literário em junho.

3 comentários em “ESCULTURA

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