Antes de brotar, semente
A vida já existia
Escondida e caprichosa
Esperando um momento para se revelar
E você veio me visitar em forma de inspiração
Tomou forma palpável na minha alma
Me visitou em meus sonhos
De mansinho para eu não fugir
Eu tinha medo
Era solo árido
E cresceu meu desejo de ouvir seu sorriso que eu ainda não conhecia
De sempre te ver
Semente, brotou no meu coração
Fez tum-tum mudinha e se enraizou
E um dia eu, que não sabia amar
Te peguei no colo
E você, brotinho
Agora é raiz grossa, caule, seiva
Primavera em luz
Polidez poética
Gentileza que abraça
Você é um cadinho de tudo de bom
Às cinco da tarde, na saída da escola, caminhávamos pela avenida principal; íamos para a academia e antes paramos em vários lugares para comer.
Meu lugar favorito era a barraca de burrito. Quando pedimos o burrito, a mulher que anotou o pedido nos perguntou quantas listras de chiliqueríamos acrescentar. Normalmente pedia três ou quatro linhas, mas naquele dia Simon me desafiou a colocar trinta e sete.
Como uma boa pimenteira que sou, aceitei o desafio sem medo. O fogo subiu à cabeça, toda a boca ardeu e os lábios ficaram dormentes; nós dois acabamos chorando.
Não podíamos beber água porque ia piorar a situação, pois ia espalhar o tempero ardido por toda a nossa boca, então Martín nos deu a ideia de atravessar a avenida para ir até o carrinho de sorvete, que estava na promoção dois por um.
Eu não conseguia falar, tudo estava embaçado e as lágrimas escorriam pelos meus olhos.
Balancei a cabeça e aceitei a proposta de Martin, peguei-o pelo braço e me deixei guiar para atravessar a avenida.
A minha língua também estava dormente e quando a cobertura de chocolate tocou as papilas gustativas senti um alívio imediato, o chocolate derreteu na minha boca, parecia uma pomada calmante na ferida, e quando o creme entrou neutralizou completamente a queimação na boca.
Aos poucos as lágrimas secaram e a vista ficou clara de novo, a cabeça se refrescou e pude olhar nos olhos dos meus amigos novamente, rimos alto durante cerca de dez minutos, retomamos a caminhada e nunca mais aceitei os desafios do Simon.
Meus dentes amarelos não dizem nada de mim. Mas o olho que repuxa e a mão que balança denunciam a ansiedade. Os cafés e os cigarros, que não me deixam dormir e evitam a fome a qualquer hora, têm seu preço.
Entre um cigarro que pede um café e um café que implora a tragada, quatrocentas palavras são digitadas, céleres como meu pensamento torto. E quando saem da tela, vejo o amarelado da velhice dos escritos, como livro antigo em estante empoeirada. Pretendem o estrelato, serem clássicos antes mesmo de lidos, e espraiados como poeira no universo das letras.
Na chama que consome o cigarro, o tempo passa e as desditosas páginas se amontoam. Uma pilha de cacos desconexos do meu ser. O que está ali sobre a mesa sou eu em forma de prosa. Prosaica.
Escureceu. Troco o café por vinho. Tento tirar o cheiro amarelo dos dedos, dos dentes. Sou a chama que queima as pontas dos dedos. E as ideias maquinam sua nova versão de clássico.
Sorrio amarelo no espelho para a figura esquálida que me olha assustada. Há tempos não nos vemos. Impressiona-se com a palidez e grita comigo irritada que precisa parar de se esconder nas palavras. Quer forma nova, quer ter vida e se espalhar. Quer ser mais que a sombra que me acompanha enquanto desce o crepúsculo.
Respondo para acalmá-la “amanhã finalizo. O amanhã logo chega.” As letras pulam do teclado de volta às pontas dos dedos. Talvez essa seja a noite das promessas cumpridas.