Uma palavra para chamar de minha

Por: Elaine Resende

Assisti esses dias a um trecho do filme Comer, rezar, amar, exatamente no ponto em que perguntam à escritora qual é a sua palavra. Ela responde de pronto: escritora. Ao que retrucam: isso é o que você faz, não quem você é. Mudei de canal 5 minutos depois, ou talvez 30, porque o tempo passa em seu próprio ritmo quando estamos gostando de algo. E não consegui mais parar de pensar nisso.

Fiquei ali absorta, me perguntando no instante seguinte, qual seria a minha palavra. Levou uma noite para descobrir. Precisei sentir um pouquinho de raiva, claro, pois ela desperta esses sentimentos que nos fazem reconhecer melhor nossas características. A palavra que me cabe nesse vasto léxico, segundo minha auto avaliação, é voluntariosa.

Definitivamente não é um adjetivo desejado quando se quer fazer parte de um grupo. Seu significado não faz justiça às melhores qualidades que um ser humano pode ter. Ao longo dos anos, mulheres voluntariosas ganharam uma fama ruim, foram estereotipadas, especialmente as negras. Mulheres voluntariosas não se encaixam num grupo, pois não estão dentro de um padrão de comportamento esperado. 

Quando se chega aos 40 anos, as pessoas esperam que você tenha aprendido alguma lição importante de vida, seja ponderada e tenha bom gosto (Marian Keys fala sobre isso). Mas a verdade para mim é que aos quarenta e tantos, continuo agindo por impulso. Não pergunto se o problema enseja uma solução, se é realmente um problema, e se eu ajudo ou atrapalho com as minhas ideias.

A primeira prova que tive disso foi quando decidi arrecadar fundos para amiga que teve a casa inundada por uma enchente. Devia ter aprendido minha lição naquele dia, que me chamaram num canto para dizer que eu embaraçava as pessoas com a minha atitude, isso há mais de 20 anos. Mas, que nada! Sai da minha frente que eu continuo passando, seguindo o rumo da venta como dizem no Ceará ou, na definição do dicionário, obedecendo minha própria vontade.

De tempos em tempos isso me rende um puxão de orelha, um chega pra lá, um mal estar de ter sido mal entendida. Não que eu veja necessidade para tanto, já não sou mais tão insistente, me contentaria com a simplicidade de um “não, obrigado”, mas também devo entender que pessoas diferentes têm reações diferentes. Acho que as parecidas podem reagir diferente uma das outras inclusive.

Quando me sinto cansada das relações, penso o quanto posso ser cansativa. Sempre me metendo a resolver algo que não pede minha solução. Vislumbrando injustiça onde talvez as pessoas estejam se sentindo confortáveis.

Envelhecer me amadureceu? Depende! Envelhecer me deu mais experiência? Sim. Aprendi com elas? Talvez. Provavelmente um monge budista diria que não pratiquei direito, se fizesse as lições direitinho já saberia onde deslizo e reincido. Mas não sou budista, e atualmente penso em fundar minha própria religião. Espiritualidade faz bem, só não estou me encaixando em nenhum movimento no momento. Aí a viagem aumenta: será essa a minha essência?

Esses dias perguntei ao meu marido se minha tão sonhada casa no campo seria um sonho compartilhado. Enfiar goela abaixo do outro o meu desejo pode não ser bom para um relacionamento de longo prazo. Viver frustrado igualmente não parece uma boa opção. Ele me respondeu que sim, mas ainda não chegamos a um denominador comum. Essa definição de vida campestre vem sendo estudada calmamente e, um dia, vamos fazer a conta bater para os dois.

Nesses meus quarenta e tantos anos de vida, minha maior mudança nesta qualidade “voluntariosa” foi aprender a refletir com a pergunta, mesmo que tardia, “estamos juntos nesse caminho?” E quando a resposta não é a esperada, resiliência, bola para a frente. Revejo minhas atitudes e descubro onde mais posso me voluntariar no querer do outro, não apenas no meu, com alguma humildade para entender minhas limitações, com alguma sabedoria para reconhecer que não terei respostas para tudo. E que nem sempre meu caminho é o melhor caminho.

Crédito da Imagem: Pexels

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Publicado por Elaine Resende

Aspirante a escritora, amante das letras, viciada em criatividade fantasiada de texto, foto, desenho, música e escultura de argila. Um dia será boa em pelo menos uma dessas coisas, mas se diverte em seguir tentando.

8 comentários em “Uma palavra para chamar de minha

    1. Pois é, será que a gente cabe numa palavra só?! Rsrsrs… mulheres que são tão múltiplas talvez não sejam tão facilmente capturadas por um único significado. Mas acredito que a sua palavra, aquela que vc olha e se enxerga claramente nela, vc deve ter ouvido muitas vezes em sinônimos variados quando ainda menina… pensa nisso!

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  1. Muitas reflexões surgiram. Qual a minha palavra? Como me veem no mundo? Quais reações minhas atitudes despertam?A cada letra um olhar pra dentro de mim. Sou cansatuca para o outro? Medo dessas respostas. Mas tão necessárias ao despertamento. Viver é um mergulho dentro de si. Simplesmente obrigada pela oportunidade. Espero parte 2.

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