Crônica de um dog

De manhã ela demora a acordar, e eu espero com fome. E quando levanta, ainda meio lerda, me entope de carinho. Puxa, e minha barriguinha?
Me sacudo e argumento, mas ela não entende o que eu digo…
Aí corro em direção ao meu prato e ela, me chamando com vozinha e de nomes estranhos, com montes de “inhos” e “ãos” no final, coloca um negócio marrom pra mim.
Que eu como né?! Mas queria mesmo era um pão de queijo…
E macarrão, pedacinho de pizza, ovo cozido e batata!
Ainda não foi hoje, mas eu ei de conseguir.
Aí depois ela coloca um colar meio apertado no meu pescoço e me leva num lugar cheio de gente e bicho. São uns animais estranhos, que ficam falando comigo como se eu fosse um deles.
Eu sou gente ué. Tenho carteira de vacinação, quartinho e até brinquedos. Eles pensam que eu sou cachorro, mas ela já disse que eu não sou, que eu sou neném.
Aí me leva de volta para casa e começa a se arrumar. Lá vou eu, ficar sozinho de novo.
Acho que vou no Conselho Tutelar. Ainda sou muito pequeno, isso é maus-tratos.
Mas de repente escuto um barulho e entra um rapaz alto que dá um beijo nela, na minha frente. Arghhhhh!
Isso é impróprio para a minha idade, vou pra sala.
Mas ele também é que nem ela. Quer ficar me pegando, me apertando, e falando como se eu fosse um bobinho.
E de vez em quando fica me chamando para brincar de briga. Otário! Não pode comigo. Não consegue nem cinco minutos, porque eu sou muito mais valente.
Eles vão ficar em casa hoje. Acho que é aquele dia que eles dizem que é final de semana.
Eu não entendo muito bem porque eu não trabalho.
Ela sempre diz que eu sou desempregado e dou muita despesa, que tenho vida mansa. Mas se eu sou criança, como é que vou trabalhar?
Outro dia desses vi que ela estava pesquisando preço de creche. Deve ser pra mim. E depois, irei pra escola. Quero ser jogador de futebol, artista e Youtuber!
E talvez escritor também, porque eu sou muito bom nas crônicas, como vocês podem perceber.
Bem, acho que é isso, está me dando soninho e já está na hora de pular na cama e curtir meu edredom.
Ah não, hoje ele vai dormir aqui, com o pé na minha cara. Me recuso, vou ficar na sala mesmo!
Ai, tem dias que sou tratado que nem cachorro. Inacreditável…

O sonho da cobertura

Sonhei que morava em um apartamento de cobertura. Mais de duzentos metros quadrados apenas de sala, a varanda – um deck de madeira tão grande quanto a sala, com vista para o Morro do Corcovado – um espetáculo à parte.

Tinha ainda um auditório para grandes eventos. Eu sonho grande!

Falo com uma pessoa que me assessora:

Cuidou dos detalhes do evento?

E eis que a pessoa me responde:

Cuidei de tudo, do jeito que a senhora mandou. A senhora é muito rica!

Veja só.

Virei para quem admirava minha mansão e respondi:

Rica não, empregada pública!

Orgulho do caminho que escolhi até em sonho!

A cápsula

Eu achava estranha toda essa mania de autocuidado.

Essa modinha de bem-estar mental, revistinha de autoajuda, livro do Augusto Cury, blogueirinha psicóloga, life coach, malhação na Smart Fit, pilates, aula de tecido. Sempre pensei: por que as pessoas não conseguem ser felizes e ponto final?

Via a vida como uma linha reta. Talvez tivesse herdado isso da minha mãe. Fiquei pensando sobre o assunto, quando veio de repente uma nova golfada.

E uma nova golfada.

Estava no banheiro do trabalho. Faltavam 10 minutos para a próxima externa.

A porta do banheiro parecia tremer. E meu corpo começou a suar.

Será que esse papo de se cuidar era real?

(Trecho do romance A Cápsula, de Carolina Pessôa. Disponível aqui.)

Peace of Mind (Paz de Espírito)

Já faz algum tempo que estou com essa música na cabeça, do New West. Retrata uma separação dolorosa, como muitas que já vivi, não somente amorosas.

Na letra, momentos tristes, como “You broke my heart, broke it again and put my health under stress” (Você partiu meu coração, partiu de novo e colocou minha saúde sob pressão), mas também frases que remetem ao objetivo de superação e a vontade de mudar: “I’m just accepting that I’m gonna have to start something new” (Estou apenas aceitando que vou ter que começar algo novo).

Durante muito tempo achei que, em um determinado momento, com a vida mais ajeitada, chegaria minha Peace of Mind. Até que percebi, fazendo terapia, que isso nunca aconteceria totalmente. Como a minha psicóloga disse certa vez, ao apontar que viver seria correr atrás de um sol, do qual você, quanto mais chega perto, mais se distância.

Neste dia, escrevi assim no meu caderninho: É o mundo que a gente tem. A vida é isso, tudo mundo e misturado, não tem somente momento bom ou ruim.

Não pretendo aqui ser pessimista, ou realista em excesso. Minha ideia é apenas refletir sobre como deixamos de olhar para as coisas boas, por estarmos tão focados nas ruins, esperando que elas acabem, para aí sim ver o brilho da luz do sol.

E desta forma, ficamos postergando o sofrimento, ou adiando a felicidade.

Passei por momentos muito difíceis nas relações amorosas, e quando aparentemente tudo se acalmou, comecei a ter muitos problemas de saúde na família. E próprios também.

E alguns dias ainda me pego, “no auge da minha esperteza” (contém ironia), me perguntando se esse inferno não vai acabar.

Mas percebo, aos poucos, com muita reflexão, que a minha vida não está ruim, muito pelo contrário. Tem algo super difícil acontecendo, mas isso não apaga a beleza dos outros momentos.

Estou cercada de amor por todas as partes, sendo apoiada nos meus desafios, e podendo ajudar, dentro da realidade, aqueles que amo.

Ainda na música, para todos aqueles que me fizeram sofrer, ou ainda fazem, só tenho a dizer: But I hope you found yourself under all of that mess (Mas espero que você se encontre sob toda essa bagunça).

Ainda neste contexto, tenho tido discussões em redes sociais sobre a importância da aceitação e do perdão. Pesquisas comprovam, segundo especialistas, que isso faz bem, não somente para o outro, mas para quem realiza o ato.

Sinto-me no direito de não perdoar. Independentemente do que as pesquisas científicas possam dizer. Crimes, na minha opinião, são para ser punidos, e nada mais.

Já sofri violência de diversos tipos. E me sinto preparada para lidar com essa dor, por maior ou pior que seja. Sou uma pessoa realizada, e avancei muito, apesar de tudo.

Mas perdoar, eu não perdoo. Não perdoo nem criminoso, nem assediador, nem cafajeste. E isso é um direito meu, do qual ninguém tem nada a ver com isso.

Fico pensando em quantas mulheres já perdoaram, baixaram a guarda, e agora estão na lista dos casos de vítimas de feminicídio.

Fico pensando em o quanto essa neura de atitude cristã nos coloca em perigo, nos rebaixa, e nos faz aceitar o inaceitável.

Religião ou doutrina não deveriam ser para isso.

Vi recentemente, ainda nas redes sociais, uma influenciadora defender o perdão dado pela protagonista do livro Tudo é Rio ao marido, que cometeu um ato brutal contra ela e seu filho.

Qual o sentido disso, não sei. Mas cuidado se for tentar fazer isso na vida real, você pode ser a próxima vítima.

Com essa patifaria literária, eu não me junto. Podem falar à vontade sobre o número de vendas dessa obra, que pra mim não significa nada.

Perdi vários dias pensando se esta jovem, caso um dia apanhe na cara do namorado ou marido, vai defender as mesmas ideias.

Ah, mas se Deus perdoou…

Cara, eu não sou Deus, e nem estou tentando ser.

E acredito sim, ao contrário do que esse pessoal da autoajuda, na minha opinião um pouco irresponsáveis, dizem, que é possível viver uma vida boa, mesmo com mágoas e rancores. Uma coisa não elimina a outra.

Psicologia sem consciência social também não funciona.

Ou como na letra de Peace of Mind:

I’m moving forward and looking back I have no regrets

Estou seguindo em frente e, olhando em retrospectiva, não tenho arrependimento algum

But just in case you were thinking about me on a Saturday night

(Saturday night) I’m doing just fine

Mas no caso de você estar pensando em mim em um sábado à noite

(Sábado à noite) estou muito bem

Sim, estou bem!

(escute Peace Of Mind aqui)

O pancadão levou a melhor (e eu fiquei sem saber o final da fofoca)

Uma tarde de outono agradável. Não posso dizer o mesmo do clima no ambiente.

Gosto do apartamento em que moro. A vista, no entanto, não é lá muito bonita. Nada de jardim ou árvores, pois ficam no lado oposto do prédio. Vejo apenas janelas alheias.

Na pequena varanda, onde passei a manhã, sentada na rede, vi-me obrigada a ouvir um funk pancadão no último volume que vem do bloco em frente ao meu.

Agucei os ouvidos para escutar as cenas finais do filme a que estava assistindo. Sem sucesso. Entrei, fechei a porta da varanda e pus a tevê no último volume. Inútil. Fiquei sem saber se a Valéria largou o Bruno e reatou com o sem-vergonha do Victor. Vou ter que rever o episódio outro dia. Sem as batidas do pancadão cortando o clima…

E aquela história de que “a minha liberdade vai somente até o momento em que se inicia a liberdade do outro”? Não conta? Acho que se deveria acrescentar um novo item à lista de Direitos Humanos: “Toda pessoa tem o direito ao silêncio dentro da própria casa.”

A casa é o meu espaço.

Quero silêncio para ler um livro, escutar a música de que gosto, conversar com os amigos, assistir a meus filmes…

O fato é que o barulho de alguns torna a vida dos outros um inferno. Já imaginaram se os vizinhos que não conseguem desfrutar o silêncio de seus lares ligassem um bom aparelho de som, bem na janela, direcionado para o vizinho barulhento? E então tocassem, a todo volume… música clássica?

Seria um castigo e tanto para o amante do pancadão, he he. E olhe que eu gosto de funk. De vez em quando, a minha Princesinha se acaba de dançar aqui na sala também. Mas nada de estourar os ouvidos da vizinhança, que isso fique bem entendido.

E por aí, a sua liberdade vai até onde começa o funk do vizinho ou vocês têm a sorte de viver em paz?