Me beija com esse gosto de cigarro. Hoje quero tudo que faz mal. Vênus em escorpião é isso: amar o que destrói. Me esforço para, com o álcool, apagar qualquer vestígio de você na minha mente. “Hoje eu vou te esquecer. Só por uma noite”. Sem sucesso. Pego os caras pensando que você pode não saber, mas aconteceu. Torço para que você sinta, como a gente sente a morte de alguém por algum sinal aleatório que vem sabe-se lá de onde. Essa pulsão de morte: beber até agir como outra pessoa. Mil promessas neste escuro. Sempre quis assumir outra persona. Sou chata para caralho no meu normal. Se com você fiz jogo duro, com este vou ser fácil. A vingança é um prato que se come frio. “Bom dia. Saudade de você”, escrevo no zap antes de deitar. Capoto, como você diz. Nos sonhos intranquilos inexiste o sofrimento de não ter a sua resposta.
Amor de quatro patas
Theo, Theozinho, Theozão, Teteu, Teobaldo.
Ou outras variações, como amor da mamãe, bichinho de pelúcia, etc. Teve até um dia que chamamos de Teletubbie.
Assim temos apelidado esse cachorrinho que chegou há pouco tempo em nossas vidas e logo se tornou a estrela da casa.
Pequenino e brincalhão, esse york lata veio tímido, e levou dias e dias sem sequer latir. Mas depois de estar mais seguro da conquista de nossos corações, mostrou sua verdadeira identidade canina.
Agora ele late e rosna, brinca de briga, come giz de cera, e até já mordeu a mamãe (eu!) quando ela tirou um osso sujo que ele estava tentando comer no passeio matinal.
Todos os dias, antes de eu sair para o trabalho, ele me olha com cara de pidão, como quem diz, ué, vai me deixar aqui sozinho?
E aprendeu ainda a correr até a janela quando estou chegando, ansioso. Ou então para acompanhar o movimento dos vizinhos do prédio. É um fofoqueiro nato.
Também adora comer besteira. Pedacinho de pizza, esfirra, pão de queijo, pão, biscoito. O que vier ele traça. Verdadeiro apaixonado por carboidrato.
Ah, e tem mais uma.
Ele solta PUM!
Isso mesmo.
Um punzão bem fedorendinho.
E fica com uma cara de quem nem está sabendo do crime que cometeu.
Um levado, sabe?
E assim, entre artes, brincadeiras, e carinhos, esse é o cachorrinho mais bonito do Brasil.
E ninguém me convencerá do contrário disso, ok?
Bruxa
Sou Dian. Mas é Meridian que domina os labirintos da nuvem digital. Meus joelhos estalam quando sento à mesinha de ferro, um lembrete que a gravidade não ignora. Não é peso, é alicerce. Aqui fora, as roseiras nos vasos vigiam, espinhosas e antigas, como eu. O piso rústico arranha a sola dos meus pés; essa sensação me aterra.
Aqui, em meio às folhas da samambaia que giram com o vento, meus dedos entrelaçam o presente e o futuro no teclado do notebook, num rito só meu. A urgência da cidade tenta escalar a grade da varanda, mas aqui, o tempo obedece ao meu ritmo, não ao das notificações.
O clique da cena final do novo livro mal se dissolveu. Antes que o som se esvaísse, um bip-bip estridente explode da mesinha. Meridian, o nome que Artur, meu editor, insiste em usar, treme na tela. O prazo para entrega do manuscrito esgotou e a editora está pressionando, leio nas letras apressadas e mal pontuadas.
O tempo é meu. Sorrio e o deixo esperar.
Minha reação não é descaso, é resistência; O preço para ser inteira e indomável. Eu, que já vi tantas estações, sei que a luta não muda de ritmo. Sou eu que defino a cadência e cultivo o ruído. O mundo agora escuta a minha voz.
Fixo o olhar no reflexo distorcido da janela ao lado. Vejo a sombra que tentam projetar sobre mim: um script velho, um feitiço de invisibilidade para mulheres que envelhecem. É uma coreografia de submissão que conheço bem: fale baixo, ou melhor, fique calada, ocupe menos espaço, desapareça aos poucos. Minha pele, curtida de sarcasmo, rejeita essa aderência. Não me pergunto como quebrar a maldição; simplesmente não a recito.
Lembro-me das tardes em que o convencional tentou me enquadrar, e eu me desviei por rotas que só a matéria conhece. Aprendi a ler a pulsação das coisas: o momento exato de quando o sorriso deve sumir, ou de quando o silêncio deve reverberar. Dizem que sou louca. Chamam de bruxa. Ou, no máximo, teimosa. Eu chamo de visão plena. A memória visceral vibrando na espinha antes que o mundo sequer consiga articular o próximo passo.
Encerro o texto e, com um suspiro que é metade ironia, metade cansaço, eu ligo. “O tempo é meu, Artur”, ratifico.
No instante em que encerro a chamada, a tela pisca com uma nova notificação. Uma palavra apenas, enviada no mesmo segundo: Bruxa.
O parque
Agora
O sorriso da criança, o abraço da mãe, a piscina com os amigos, o resultado do concurso, o presente do namorado… O sorriso da criança, o abraço da mãe, a piscina com os amigos, o resultado do concurso, o presente do namorado…
O sorriso da criança, o abraço da mãe, a piscina com os amigos, o resultado do concurso, o presente… Alice, Alice!
As imagens rodam como se toda minha vida passasse por mim em poucos segundos. Tudo flui misturado, como em um carrossel. Que mais parece uma pintura borrada…
Antes
Há dias olhava para aquele parque em frente a meu apartamento. Era uma daquelas diversões de bairro, com crianças pequenas, famílias, algodão doce, maçã do amor e ferrugem, muita ferrugem. Segurança não era a palavra mais apropriada para aquele lugar. Mas, mesmo assim, inocentes e soltos, todos pareciam se divertir. Da janela do nono andar, eu olhava solitária e curiosa todo aquele movimento. Bateu saudades de um tempo antigo, que de tão distante nem sei se vivi, ou se era apenas fruto do meu desejo inconsciente. Tomei coragem. Deixei para trás, na espreita da noite, marido e filhos.
Queria experimentar a sensação do carrossel e dos carrinhos, o sabor da pipoca doce, o sobe e desce do trem fantasma e da montanha russa. Tudo aquilo que a rotina da vida real não permitia. Sufocada pelo tempo e pelas tarefas, não havia espaço para a aventura, para o perigo de um parque com ferrugens, para brinquedos sem serventia prática, mas que faziam sorrir. Saí sem medo. Ia depois de muitos anos seguir o coração. Ele, somente ele, deveria ser nosso guia nessa vida de tantas obrigações. Mas muitas vezes acaba submetido aos imperativos de uma sociedade tão cheia de receios e preconceitos. Sentia-me um pouco culpada por precisar viver aquilo só. Mas sem medo, que isso não fazia parte do meu vocabulário. Era como se uma força maior me tomasse, puxando-me para aquilo que parecia ser destino.
Ao chegar ao parque, era como se todo um mundo novo se abrisse diante de meus olhos. Como em um palco, descoberto pela cortina do início de um espetáculo. Entre os artistas estavam pequeninos correndo, mães de primeira viagem nervosas, casais de namorados e amigos. Tudo parecia tão colorido e bonito! Como em um filme.
Provei minha pipoca tão desejada. E churros. Pirulito doce. Maçã do amor e cachorro-quente. Tomei refrigerante, suco e cerveja. Tudo aquilo que queria e um pouco mais. Sem censuras, sem preocupações, sem pensar em dieta. Corri para os brinquedos. Na autopista, experimentei o prazer de dirigir sem rumo. Pisei fundo, errei na curva, bati o carro. No trem fantasma, levei susto, dei gritos. No carrossel, rodei mil vezes! Era tanta alegria que mal cabia em mim.
Até que chegou o momento mais difícil: a montanha russa. Era a única que eu temia desde criança. Quando pequena, grudada na barra da saia da mãe, sempre chorava. Mas havia decidido enfrentá-la naquele dia. Era como se precisasse provar para mim mesma que sim, já sou grande, e posso andar.
Ao colocar os pés no carrinho, com o vento nos cabelos soltos, uma estranha e inédita sensação de liberdade me invadiu. Me comeu por dentro. Sim, essa era a verdadeira Alice: a que sai no meio da noite sem pedir licença, que come de tudo, que brinca por todo o parque, e que arrisca. Uma mulher corajosa em pele de menina levada. E me deixei levar pelo sobe e desce e os giros, muitos e muitos giros. A adrenalina era uma brisa leve, suave. Foi um breve momento mágico.
Até que, de cabeça para baixo, fiquei. A engrenagem ruiu.
Não sei por quanto tempo permaneci ali, travada pelo surrado cinto de proteção, as mãos firmes no carro. Lá de baixo, o terror de famílias preocupadas. Não havia ninguém pra mim. Por dentro, vozes ecoavam. Meu marido dizia: não falei que esse parque era inseguro! Minha mãe me acalmava: fica firme que já vamos descer. Senti-me uma irresponsável. Por que cargas d’água uma mulher de quarenta anos, em suas poucas horas
disponíveis de sono, antes do início de uma semana repleta de trabalho, resolve ir a um parque de ferrugens? Uma ânsia de vômito subiu a garganta. Era uma espécie de desespero. E com ele, as imagens.
Agora
O sorriso da criança, o abraço da mãe, a piscina com os amigos, o resultado do concurso, o presente do namorado…
O sorriso da criança, o abraço da mãe, a piscina com os amigos, o resultado do concurso, o presente do namorado… O sorriso da criança, o abraço da mãe, a piscina com os amigos, o resultado do concurso, o presente… Alice, Alice!
As imagens rodam como se toda minha vida passasse por mim em poucos segundos. Tudo flui misturado, como em um carrossel ou como no alto de uma montanha russa enferrujada, que desde criança sempre tive medo de ir. Acho que era sexto sentido. Mas a tentação foi maior. E agora eu estou aqui, sozinha e paralisada. Arcando com as consequências de meus atos. E enfim, as gotas de suor escorrem pela ponta dos meus dedos.
O sorriso da criança, o abraço da mãe, a piscina com os amigos, o resultado do concurso, o presente do namorado…
O sorriso da criança, o abraço da mãe, a piscina com os amigos, o resultado do concurso, o presente do namorado… O sorriso da criança, o abraço da mãe, a piscina com os amigos, o resultado do concurso, o presente… Alice, Alice!
Uma voz me chama, mas não alcanço. Sinto-me tragada pela escuridão da noite. Caio. As imagens rodam como se toda minha vida passasse por mim em poucos segundos.
Tudo flui misturado, como em um carrossel. Que mais parece uma pintura borrada…
* Conto do livro Salto para o Desconhecido, de Carolina Pessôa. Disponível em: https://loja.editoralitteralux.com.br/salto-para-o-desconhecido
Valete
Saudades de você, meu valete
Saudades de ter a sua atenção só para mim
De acreditar que podia por um instante, quem sabe, dar certo
Seu português impecável
Seu bom gosto
Um homem que vai ao teatro, gente
Uma pessoa que ouve Chico Buarque
Que vai a museus
Quanta raridade
Mas você não era para mim
Eu já sabia, a gente sempre sabe
Gastei à toa os 50 reais da consulta do tarot para ouvir o que eu não queria escutar
Aqui não existe nada, nada
Só o etéreo e o desejo
Em alguns momentos, achei que você tinha se aberto para mim
Me enganei?
Eu sei ler as pessoas como ninguém.
Ao menos, eu sempre achei que sabia. Talvez eu tenha desaprendido.
Talvez esse meu superpoder não funcione com você.
Ou eu mesma não queira de fato ver o deserto do real à minha frente.
No momento, acho que você brinca comigo.
Tal qual um gato brinca com sua presa.
Valetes são imaturos.
Um dia do nada você reaparecerá? Ou acabou de vez?
No início, a cada nova mensagem no celular, uma esperança.
Agora, já vejo a matrix: o código por trás de tudo
Sei que não vou correr atrás de você, valete.
A essa hora, você está fazendo o mesmo jogo com outra.
E depois com outra.
E outra.
E outra.
Será que você cansará em alguma hora?
“Só quando for muito tarde”.
Já é muito tarde.
Guardo meu baralho.
Adeus, valete.
Dançar Cura
“Os movimentos de uma pessoa são uma espécie de identidade que a caracterizam como um ser único no Universo”, diz Ju Marconato, bailarina de dança do ventre, criadora do método Dançacura, em seu livro, cujo subtítulo é: transformação pessoal através do movimento.
Pratico dança do ventre desde 2018 e dança contemporânea desde 2022, por recomendação da minha terapeuta na época: “Nicole, você é muito mental. Procure uma atividade que mexa com o corpo, algum tipo de dança, vai te ajudar a lidar melhor com as emoções”. Ela tinha razão.
E olha que sempre gostei de cantar e dançar, mas tem prazeres que a gente perde com as obrigações da vida adulta. Nunca é tarde para recuperá-los. Então, descobri que havia aulas de dança do ventre perto da minha casa. É uma das danças mais difíceis do mundo – que bom que eu gosto de um desafio rs
No início, me prendia muito à técnica. Porque era algo que eu poderia treinar e tentar dominar. A professora me alertava, a mim e às colegas, sobre a importância da entrega. Isso também exige treino e prática, de um jeito um pouco diferente porque a entrega está atrelada à emoção. Como você “sente” uma música influencia na sua “leitura”, na sua interpretação.
A dança contemporânea, mais livre, também me ajudou a me soltar. Hoje eu danço na sala da casa, nos palcos e, claro, na varanda rs (referência ao meu livro, Dançando na Varanda). Já me apresentei várias vezes com o meu grupo, mas somente ano passado tomei coragem para criar um solo (na verdade, dois, um para cada tipo de dança).
O yoga, a dança e a literatura me salvam todos os dias. Me salvam da mesmice da rotina, dos fantasmas que atormentam minha mente, dos problemas reais e imaginários e, principalmente, de mim mesma, pra que eu me renove, aprenda a cair e me levantar, com um sorriso no rosto, como se o erro fosse parte da coreografia.
Além de tudo, meus grupos de dança são grupos de apoio, parcerias importantes, laços valiosos. Sou muito grata às Elmas e ao Corpo Presente. Que nunca nos falte a arte, a imaginação e a dança, na sala ou no salão, com ou sem holofotes, sempre em liberdade.
SEM SALVAÇÃO
nem mulheres
nem meninas
nenhuma a salvo
nesse mundo cão
há sempre predadores
mirando pelas frestas
prometem amor
salvação
fome saciada
enquanto gotas de ódio
brilham em suas presas
invadem nossos corpos
esquartejam nossa alma
sufocam o último suspiro
dentro da mala arruinada
esquecida no porão
imploramos à morte
que nos alcance
Dia Internacional da Mulher Revolucionária
Domingo passado foi Dia Internacional da Mulher, o celebrado, porém frequentemente incompreendido, 8 de março. Penso que há muito erramos na forma de comemorar essa data, especialmente desde que estratégias comerciais se apropriaram dela para transformá-la em mais uma ferramenta de marketing.
Entre as iniciativas mais desastrosas (ou toscas), em 2018 houve a rede de restaurantes que escalou apenas mulheres para trabalhar, afinal “era o dia delas”. Em 2017, em Curitiba, colocaram cílios nos semáforos para deixá-los “mais femininos”. Some-se a isso as clássicas flores e bombons. Nem vou citar o dia da beleza. Não, não é ruim ganhar flores e bombons, ou uma maquiagem bonita; o problema é quando acreditam que somos frágeis e que nossa luta pode ser tratada de maneira superficial.
A data foi oficializada pela ONU em 1975, mas já era celebrada desde o início do século XX. As condições de trabalho das mulheres naquela época eram muito precárias, e as trabalhadoras da Revolução Industrial reivindicavam melhorias e visibilidade para suas causas, ao lado das lutas dos demais trabalhadores. Alguns fatos foram decisivos na escolha dessa data.
Em 1909 ocorreu a passeata de aproximadamente quinze mil mulheres em Nova Iorque Em 1910 foi lançada a proposta da jornalista alemã Clara Zetkin para a criação de um dia dedicado à união das mulheres em defesa de seus direitos. Em 1911, um incêndio ocorrido em um fábrica em Nova Iorque matou 146 trabalhadores, sendo 125 mulheres. Em 1917, durante a Revolução Bolchevique, um protesto reuniu cerca de 90 mil mulheres contra a guerra e a fome.
A luta, que começou contra as jornadas exaustivas (16h de trabalho, 6 a 7 dias por semana) e pela igualdade de direitos entre os trabalhadores (mulheres historicamente ganhando menos que os homens), abraçou a causa de toda a população que ficou entregue a própria sorte por conta da guerra.
Atualmente na Rússia o dia 08 de março é feriado; na China, ao menos meia folga; nos EUA, fazem passeatas.
E no Brasil?
São diversas as manifestações por aqui. Mulheres se reúnem em passeatas nas grandes cidades. O governo também se manifesta. Este ano, a campanha focou na responsabilização dos homens no combate ao feminicídio. Os números são alarmantes, e depositar exclusivamente na mulher a responsabilidade por enfrentar a violência é, no mínimo, covarde.
Mesmo após mais de um século de luta, ainda pedimos justiça, igualdade de gênero, o fim da jornada 6×1 e punição efetiva para agressores. Parece que avançamos pouco e, de fato, avançamos. No mundo corporativo, por exemplo, a presença de mulheres em cargos de liderança ainda é mínima. Uma pesquisa do Insper intitulada Panorama Mulheres 2025, concluiu que, no ritmo atual, a paridade de gênero levaria mais de 160 anos para ser alcançada. No que nos diferenciamos das nossas companheiras do início do século? Hoje temos voz.
A força da mulher revolucionária é o que sustenta o 8 de março. Suas raízes estão no comunismo e no socialismo. E a cada vez que um governo conservador assume o poder, enfrentamos retrocessos na luta. Como diria Foucault: onde há poder, há resistência. Que possamos lembrar de todas que nos antecederam e celebrar esta data com o respeito e a dignidade que seu significado exige. Sigamos sendo resistência. Sejamos revolução.
Em branco
Foi como ficou a minha mente ao perceber que alguém estava tocando a campainha do meu coração. Talvez você não entenda como isso aconteceu,mas acredito que foi simultâneo entre nós.
Existe uma máxima “pessoa certa,hora errada”, vamos aplicar por enquanto. Não canso de pensar na razão de tudo isso, assim como não quero complicar nossas vida de alguma forma.
Você com esse jeito meio mal humorado, acaba me cativando sempre que te encontro. E quando não nos vemos, acabo me vacinando sobre esse meio charme, para depois ser enquadrada por ele novamente.
Gosto de te provocar quando fico te olhando e você não entende o que eu quero. Da sua reação quando chamo seu nome. De como me procurou e encontrou. De como fica quieto e inquieto ao mesmo tempo comigo. E principalmente, quando me olha curioso.
É o que mais gosto em você.
Não existe urgência do seu lado. Do meu, é um talvez. Presente pode se transformar em futuro, se planejado. Vamos planejar o nosso em breve.
Estou viva!
Alice entra na igreja, andando bem devagar, como uma criança que ainda não sabe direito o que está fazendo. Aquele é um território estranho para ela. As duas se encaram.
– Parece que já te conheço – diz Lia.
– Sou só uma mulher andando pelo mundo. Uma mulher que não tem nada demais. Mas que já sofreu muito de várias formas diferentes em todos os quesitos da vida. Mas no amor parece que fui pior. Sofri e fiz sofrer. Amei demais.
– Então, você, é parecida comigo menina. Te olho, e vejo um pouco do que fui ontem. Mas fica tranquila, toda essa dor, essa tristeza, tudo isso passa.
A voz de Lia ecoa pela igreja. Então, ela tira um cordão do pescoço, com um pingente de uma flor de lótus, e coloca em Alice, enquanto diz. “É só um mimo”. E sai.
Alice se vê sozinha diante do altar. E aproveita o silêncio do espaço. Não sabe rezar, mas sente uma estranha paz ali. De repente, como em uma miragem, uma flor de lótus como a do pingente vai se formando aos poucos, acima dos santos. Agora, além de ouvir, será que Alice também via imagens de outro mundo?
A flor de lótus vai sendo montada aos poucos, como em uma tatuagem. E Alice se lembra da sua flor de lótus nas costas. Prende os cabelos. Demoradamente, nossa atenção se volta para a tatuagem dela. E aí toca Alive do Pearl Jam. É, realmente, muito doido essa música dentro de uma igreja, considerando que Alice nem conhece muito Pearl Jam, começou a ter contato a pouco tempo com a banda, apesar de ser um grupo antigo. Digamos que ela deixou de ver algumas coisas por uns anos.
Todos esses elementos de alguma forma mágica parecem se combinar. Igreja, lótus, Pearl Jam, Alice. É tudo uma misturada só, como tem sido a vida dela. A música deve ter entrado por causa da frase “ainda estou vivo”.
Alice se vira para frente com um olhar firme. Ao fundo, a flor de lótus se completa. Ela olha adiante como se estivesse cercada por uma grande plateia, que acompanha sua interpretação de atriz e seu texto de dramaturga. Que viagem doida! Engraçado que Alice sempre teve o sonho de representar e escrever. “É, tem sonhos que realmente nunca morrem”, pensa. Era como se ali, dentro daquela igreja, ela conseguisse realizar um pouquinho daquilo. E diz:
– Como viver? Como amar? Será que tudo se resume a trocas de calor, como na peça Arcádia? Foi pra aprender “isso” que cheguei até aqui? Foi pra aprender isso que cheguei até aqui? Será que eu consigo? Será que um dia vou amar e ser amada na mesma proporção?
Ou será que isso não existe, um sempre ama mais que o outro? Será que vou ter um amor sem fim? Ou será que acabaram as minhas chances?
A igreja não responde Alice. Ela segue refletindo, persistindo.
– “Mas como posso conseguir o saber do coração? Só poderás conseguir este saber vivendo plenamente a sua vida. Tu vives plenamente quando viver também aquilo que nunca viveste”. – Jung.
Será que ele é que estava certo? Será que o amor são apenas duas pessoas imperfeitas tentando viver o novo a cada dia, mesmo em meio às dificuldades, ao tédio, à rotina, ao cansaço? Será que é possível viver plenamente, e viver aquilo que nunca vivemos, com uma mesma pessoa,
toda a vida?
Ela então desafia a plateia imaginária.
– Vocês pensam que sabem a resposta, né? E ficam julgando! Vocês não sabem nada, ou se sabem, é muito pouco. Quem nunca fez uma merda, uma loucura por amor? Que atire a primeira pedra! Aposto que aí existe todo o tipo de caso, ou entre os amigos de vocês, ou na família de vocês. Ouvi falar de gente que se moveu de país atrás do amor. Ouvi falar de traição debaixo do mesmo teto. Ouvi falar até de crime passional! (tiros interrompem Alive).
Silêncio. Alice está com raiva. Muita raiva de si mesma e do mundo. Mas, ao mesmo tempo, tem um amor desesperado dentro de si. E corre pra frente como se fosse abraçar a plateia. Aquele abraço de quem não quer perder. Grande, forte e apertado.
Alive volta e toca em um volume que parece que vai ensurdecer. Alice tem que elevar a voz pra competir. E fala pra Deus, ou seja, lá quem for, e pra sua plateia também. Está no ápice da sua performance. The show must go on, como em Queen.
– EU TO AQUI HEIN. EU AINDA ESTOU VIVA, PORRA. ENTÃO, VIVA!
*trecho do livro À Beira da vida, o primeiro da autora Carolina Pessôa. Mais informações em: https://www.editoraguardiao.com.br/a-beira-da-vida
