O sonho da cobertura

Sonhei que morava em um apartamento de cobertura. Mais de duzentos metros quadrados apenas de sala, a varanda – um deck de madeira tão grande quanto a sala, com vista para o Morro do Corcovado – um espetáculo à parte.

Tinha ainda um auditório para grandes eventos. Eu sonho grande!

Falo com uma pessoa que me assessora:

Cuidou dos detalhes do evento?

E eis que a pessoa me responde:

Cuidei de tudo, do jeito que a senhora mandou. A senhora é muito rica!

Veja só.

Virei para quem admirava minha mansão e respondi:

Rica não, empregada pública!

Orgulho do caminho que escolhi até em sonho!

A cápsula

Eu achava estranha toda essa mania de autocuidado.

Essa modinha de bem-estar mental, revistinha de autoajuda, livro do Augusto Cury, blogueirinha psicóloga, life coach, malhação na Smart Fit, pilates, aula de tecido. Sempre pensei: por que as pessoas não conseguem ser felizes e ponto final?

Via a vida como uma linha reta. Talvez tivesse herdado isso da minha mãe. Fiquei pensando sobre o assunto, quando veio de repente uma nova golfada.

E uma nova golfada.

Estava no banheiro do trabalho. Faltavam 10 minutos para a próxima externa.

A porta do banheiro parecia tremer. E meu corpo começou a suar.

Será que esse papo de se cuidar era real?

(Trecho do romance A Cápsula, de Carolina Pessôa. Disponível aqui.)

Peace of Mind (Paz de Espírito)

Já faz algum tempo que estou com essa música na cabeça, do New West. Retrata uma separação dolorosa, como muitas que já vivi, não somente amorosas.

Na letra, momentos tristes, como “You broke my heart, broke it again and put my health under stress” (Você partiu meu coração, partiu de novo e colocou minha saúde sob pressão), mas também frases que remetem ao objetivo de superação e a vontade de mudar: “I’m just accepting that I’m gonna have to start something new” (Estou apenas aceitando que vou ter que começar algo novo).

Durante muito tempo achei que, em um determinado momento, com a vida mais ajeitada, chegaria minha Peace of Mind. Até que percebi, fazendo terapia, que isso nunca aconteceria totalmente. Como a minha psicóloga disse certa vez, ao apontar que viver seria correr atrás de um sol, do qual você, quanto mais chega perto, mais se distância.

Neste dia, escrevi assim no meu caderninho: É o mundo que a gente tem. A vida é isso, tudo mundo e misturado, não tem somente momento bom ou ruim.

Não pretendo aqui ser pessimista, ou realista em excesso. Minha ideia é apenas refletir sobre como deixamos de olhar para as coisas boas, por estarmos tão focados nas ruins, esperando que elas acabem, para aí sim ver o brilho da luz do sol.

E desta forma, ficamos postergando o sofrimento, ou adiando a felicidade.

Passei por momentos muito difíceis nas relações amorosas, e quando aparentemente tudo se acalmou, comecei a ter muitos problemas de saúde na família. E próprios também.

E alguns dias ainda me pego, “no auge da minha esperteza” (contém ironia), me perguntando se esse inferno não vai acabar.

Mas percebo, aos poucos, com muita reflexão, que a minha vida não está ruim, muito pelo contrário. Tem algo super difícil acontecendo, mas isso não apaga a beleza dos outros momentos.

Estou cercada de amor por todas as partes, sendo apoiada nos meus desafios, e podendo ajudar, dentro da realidade, aqueles que amo.

Ainda na música, para todos aqueles que me fizeram sofrer, ou ainda fazem, só tenho a dizer: But I hope you found yourself under all of that mess (Mas espero que você se encontre sob toda essa bagunça).

Ainda neste contexto, tenho tido discussões em redes sociais sobre a importância da aceitação e do perdão. Pesquisas comprovam, segundo especialistas, que isso faz bem, não somente para o outro, mas para quem realiza o ato.

Sinto-me no direito de não perdoar. Independentemente do que as pesquisas científicas possam dizer. Crimes, na minha opinião, são para ser punidos, e nada mais.

Já sofri violência de diversos tipos. E me sinto preparada para lidar com essa dor, por maior ou pior que seja. Sou uma pessoa realizada, e avancei muito, apesar de tudo.

Mas perdoar, eu não perdoo. Não perdoo nem criminoso, nem assediador, nem cafajeste. E isso é um direito meu, do qual ninguém tem nada a ver com isso.

Fico pensando em quantas mulheres já perdoaram, baixaram a guarda, e agora estão na lista dos casos de vítimas de feminicídio.

Fico pensando em o quanto essa neura de atitude cristã nos coloca em perigo, nos rebaixa, e nos faz aceitar o inaceitável.

Religião ou doutrina não deveriam ser para isso.

Vi recentemente, ainda nas redes sociais, uma influenciadora defender o perdão dado pela protagonista do livro Tudo é Rio ao marido, que cometeu um ato brutal contra ela e seu filho.

Qual o sentido disso, não sei. Mas cuidado se for tentar fazer isso na vida real, você pode ser a próxima vítima.

Com essa patifaria literária, eu não me junto. Podem falar à vontade sobre o número de vendas dessa obra, que pra mim não significa nada.

Perdi vários dias pensando se esta jovem, caso um dia apanhe na cara do namorado ou marido, vai defender as mesmas ideias.

Ah, mas se Deus perdoou…

Cara, eu não sou Deus, e nem estou tentando ser.

E acredito sim, ao contrário do que esse pessoal da autoajuda, na minha opinião um pouco irresponsáveis, dizem, que é possível viver uma vida boa, mesmo com mágoas e rancores. Uma coisa não elimina a outra.

Psicologia sem consciência social também não funciona.

Ou como na letra de Peace of Mind:

I’m moving forward and looking back I have no regrets

Estou seguindo em frente e, olhando em retrospectiva, não tenho arrependimento algum

But just in case you were thinking about me on a Saturday night

(Saturday night) I’m doing just fine

Mas no caso de você estar pensando em mim em um sábado à noite

(Sábado à noite) estou muito bem

Sim, estou bem!

(escute Peace Of Mind aqui)

O pancadão levou a melhor (e eu fiquei sem saber o final da fofoca)

Uma tarde de outono agradável. Não posso dizer o mesmo do clima no ambiente.

Gosto do apartamento em que moro. A vista, no entanto, não é lá muito bonita. Nada de jardim ou árvores, pois ficam no lado oposto do prédio. Vejo apenas janelas alheias.

Na pequena varanda, onde passei a manhã, sentada na rede, vi-me obrigada a ouvir um funk pancadão no último volume que vem do bloco em frente ao meu.

Agucei os ouvidos para escutar as cenas finais do filme a que estava assistindo. Sem sucesso. Entrei, fechei a porta da varanda e pus a tevê no último volume. Inútil. Fiquei sem saber se a Valéria largou o Bruno e reatou com o sem-vergonha do Victor. Vou ter que rever o episódio outro dia. Sem as batidas do pancadão cortando o clima…

E aquela história de que “a minha liberdade vai somente até o momento em que se inicia a liberdade do outro”? Não conta? Acho que se deveria acrescentar um novo item à lista de Direitos Humanos: “Toda pessoa tem o direito ao silêncio dentro da própria casa.”

A casa é o meu espaço.

Quero silêncio para ler um livro, escutar a música de que gosto, conversar com os amigos, assistir a meus filmes…

O fato é que o barulho de alguns torna a vida dos outros um inferno. Já imaginaram se os vizinhos que não conseguem desfrutar o silêncio de seus lares ligassem um bom aparelho de som, bem na janela, direcionado para o vizinho barulhento? E então tocassem, a todo volume… música clássica?

Seria um castigo e tanto para o amante do pancadão, he he. E olhe que eu gosto de funk. De vez em quando, a minha Princesinha se acaba de dançar aqui na sala também. Mas nada de estourar os ouvidos da vizinhança, que isso fique bem entendido.

E por aí, a sua liberdade vai até onde começa o funk do vizinho ou vocês têm a sorte de viver em paz?

Resenha – A tempestade (Kate Chopin)

Na coletânea intitulada “Damas ferozes: contos feministas que
atravessaram eras”, organizada pela editora Wish, agora vinculada à
DarkSide, autoras de língua inglesa como Virginia Woolf, Charlotte Perkins
Gilman (“O papel de parede amarelo”), Kate Chopin e Katherine Mansfield
expressam o ponto de vista das mulheres do fim do século XIX ou início do
século XX em relação a seu papel na sociedade, maridos, filhos, racismo,
saúde mental e outros temas.

As histórias se inserem em vários gêneros: algumas tratam de situações
cotidianas, num fluxo de consciência, outras flertam com o satírico, o
horror, o suspense, o policial e o erótico.

Hoje vou destacar um conto da Kate Chopin muito interessante e ousado
para a época. Ele se chama “A tempestade” e o mote é bastante simples:
numa noite de tempestade, enquanto o marido e o filho fazem compras
na rua, Calixta acaba presa em casa com o charmoso vizinho, sr. Alcée,
com quem já teve um romance no passado.

Resultado? Os dois acabam não resistindo à tentação e dormem juntos.
Porém, na manhã seguinte, a tempestade passa, o vizinho parte, o marido
retorna com a criança e tudo fica perfeitamente bem.

Não quero aqui incentivar o adultério (risos), mas um conto cuja
protagonista pode se entregar livremente ao seu desejo, sem nenhum julgamento moral por parte do narrador, merece ser louvado e, claro, só
poderia ter sido escrito, com tamanha sensibilidade e sutileza, por uma
mulher.

Vou deixar aqui alguns trechinhos das cenas sensuais para atiçar também
o desejo de vocês, leitoras e leitores, a ponto de procurarem o conto e a
coletânea:

“O contato do corpo de Calixta, quente e palpitante, quando ele a puxou
para seus braços sem pensar havia despertado toda a antiga paixão e o
desejo por sua carne.”

“Quando ele tocou os seios dela, eles se entregaram a um êxtase trêmulo,
convidando os lábios dele. Sua boca era uma fonte de deleite. E quando
ele a possuiu, pareceram desmaiar juntos na própria fronteira do mistério
da vida.”

Só para você

Engoli a teia
e caminhei com as aranhas no bolso
sem fazer alarde.

Te chamo pra contar meu pesadelo,
sobre os limites do corpo
e do mundo:

choveu demais aqui

e há uns timbres em minha voz
que só pra você posso cantar,

sopram você

(sabiá,
sabe lá).

O que mais da história segue
logo logo se apagará dos livros.

Nota de pesar

Nota de pesar:

Nota para expressar

Luto

Sentimento de morte

Fim de um plano,

Um projeto de vida

Nota de pesar!

Tristeza, decepção

Fim de um ciclo

Solidão

(Nota de pesar)

Pra tentar viver

Não por você

Mas apesar

Nota de pesar…

E pensar

Que foi tudo

Ilusão

(Notinha mixuruca. Como o peso do teu amor)

**Este poema faz parte do livro Meu Canto, de Carolina Pessôa, publicado pela Editora Caravana. Mais informações em: https://caravanagrupoeditorial.com/livros/meu-canto/