Verão no Rio

Verão no Rio

Quem não tem piscina vai para a praia ouvir a JBL dos outros

Moço, quero um mate e um biscoito globo

Sal ou doce?

Sal, moço

Olha o chorinho

Caetano, o cachorro, vem e lambe meu mate

Só no Rio cachorro toma mate

O mar tá piscininha ou dando caixote?

Quanto tá a cadeira com o guarda-sol, moço? Ó, a gente é carioca, hein

Passa o cara da esfiha com a odalisca e o camelo de fibra de vidro

Só no Rio

Meninas de Ipanema tem aos montes

E os meninos do Rio?

Todos interessados em outros meninos

Tudo bem, não venho na praia para isso

Água gelada

Sol a pino

Gosto de sentar na beirinha d’água

E sempre ando com quem tem medo de a maré subir

Aqui podia ser que nem na Bahia

Alguém vir regar nossos pés

Foi-se o tempo que o pessoal fazia travesseirinho de areia

Você lembra?

Nem cuscuz tem mais na praia

Eu adorava o cuscuz

Vamos ficar aqui, não, que a bandeira vermelha é de alto risco

Passa o helicóptero dos bombeiros

Passa o avião com faixa

O que está escrito?

VERÃO NO RIO

Verão

Verão

Me lembro de você

De nós

Da gente

Suas ideias malucas

Banho noturno de mar

Você nunca foi muito certo mesmo

O ar-condicionado gelado

Aquele sabor de estar com você

E de você não estar em lugar nenhum mais

Você, que sempre escapava

Chamadas perdidas

Eu, perdida

Paradas na estrada

Pega o ônibus na rodoviária e vem me ver

Casa de praia

Sauna

Fecha o portão

O vento balançando o coqueiro

A noite com mil promessas de dia seguinte

À noite

Eu e você

poema de uma face só

quando eu nasci, um anjo cor-de-rosa
com roupa de princesa da Disney
disse: Vai, Nicole! Ser sádica na vida.

a mulher atrás dos óculos coloridos
é fofa, inquieta e debochada
tem poucos e bons amigos
a mulher atrás dos óculos e do batom

mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, e também uma transição
mundo mundo vasto mundo
mais vasto é o meu T

eu não devia te dizer
mas essa lua em Câncer
mas esse vinho rosé
fazem a gente querer mandar todo mundo se

Lenine

Era uma viagem a trabalho a Recife.

Havíamos acabo de retornar ao hotel em Boa Viagem, depois de um dia inteiro em campo. Sol, poeira, almoço apressado, trabalho em pé.

Cansadas, sujas, famintas, paradas no hall do hotel, combinávamos aonde iriamos jantar. Sendo que eu nem queria ir comer com elas.

Então, ele passou.

Minha cabeça girou, acompanhando seu movimento.

Um ímã.

Não era ele?

Lenine.

A partir daí, só pude repetir, para as colegas de equipe: “Lenine. Vocês viram? O Lenine. Le-ni-ne”.

Eu não podia acreditar!

Éramos recém-conhecidas. Eu e elas. Não tinha nem 20 dias que havia começado no trabalho novo. Um cargo em uma subsidiária da maior empresa do Brasil.

Esperava que elas dissessem: “Uau, o Lenine”. Mas… que decepção!

Na verdade, elas, em postura de superioridade, demonstraram, isso sim, um certo desprezo da minha reação.

“Ah, eu não ligo de ver artistas”, disseram.

Como se esse fosse o ponto…

Meu entusiasmo deu lugar à dificuldade de explicar o óbvio.

Se me lembro, ainda tentei argumentar. Mas notei ser inútil.

Como explicar o valor da poesia para desertos?

Subi ao meu quarto. Sozinha, enfim. Pus “Paciência” para tocar no celular.

“Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para”

Conversei comigo mesma. É ruim não ser compreendida. Ser interpretada como alguém bobo, fútil. “Se tem algo que me tira do sério é não ser levada a sério”.

Não conseguia entender como alguém não podia sentir emoção ao ver alguém que escreveu “Paciência”.

“Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa
A vida é tão rara”

Depois de muito pensar a respeito, acabei usando a estratégia clássica que uso sempre em momentos assim: eu ri das colegas. Sim, eu ri. Ri da soberba em se acharem superiores a um poeta.

Hoje o acontecido me veio à lembrança, após ler Socorro Acioli. A cronista pôs em palavras o que então não pude dizer.

“Costumo agradecer, em silêncio, quando escuto uma música bonita. Digo obrigada pelo dom, pelo tempo que o autor dedicou a aprender um instrumento, pelo caminho de cada palavra antes de ser verso e por deixar, naquela canção, um pedaço da alma.”

Obrigada, Lenine. Adorei te ver.

Que venha o novo ano!

Para você que passou o ano esperando

O emprego novo, a casa própria, o aumento de salário

O grande amor

Para você que passou o ano

Sonhando, ansiando, sofrendo

Para você que chorou mais que sorriu

Que acatou mais que protestou

Para você que lutou…

Não espere mais

Faça sua hora acontecer

Não deixe seu desejo morrer

Viva!

O Sabático Literário deseja a todos um 2026 mágico!!

Escritec: Parte 2

Clarice contempla a tela iluminada do Escritec. O único lugar onde ainda consegue preservar algo de si mesma nesse mundo arrasado. Os dedos deslizam a caneta digital em rabiscos que se perdem na pouca luz:


— Vamos resistir… — O ar falhou por um segundo. —…juntos.


Pela janela empoeirada do bunker, ela observa a neblina amarelada misturar-se ao pó fino e seco. A rua soterrada pelas dunas. “Tudo que restou é um silêncio que consome… E eu aqui, presa ao que não quer mais existir.” Registra no Escritec o peso dessa promessa.


Na praça vazia, drones patrulham sem descanso. Os zumbidos se misturam ao assobio da poeira levada pelo vento. As luzes frias de um deles pulsam desconexas, como se travassem, parado acima da inusitada plantinha. “Um contraste de vida em um ambiente exaurido”, ela anota no Escritec.


O zumbido metálico soou irregular: “Plantio… proibido. Contaminação… radiação.”


Atônita, a jovem escritora vê o feixe de luz concentrado incinerar a plantinha
deixando no solo apenas um vestígio carbonizado.


— Mesmo no pouco que ainda resiste, eles ainda querem controlar. — Encara seu robozinho auxiliar inerte no carregador portátil no canto do bunker.
— Persistência é ineficiente. — As luzes amarelas de Data piscam desconexas,
lançando dúvidas não programadas. — Sobrevivência exige desapego.
Clarice aperta a caneta digital, a voz presa na garganta: ” Talvez esse apego seja o último fio que me prende a algo que já morreu.” A mão pesada quase danifica a tela do tablet.
Data responde, as luzes piscantes apagando:
— Em breve, esse fio também se romperá.
O silêncio que se segue pesa no ar.
Na estante torta que sustentava uns poucos livros amarelados, a voz distorcida no velho rádio emite fragmentos desconexos: “… resistência… adiar…sombra…fim…”

Os dedos trêmulos no Escritec tentam captar os sinais. Na tela, os pensamentos tomam forma: “restam vozes… quem as ouve?”… “não houver amanhã… pó do esquecimento.”


O rádio para de transmitir, acentuando o vazio do bunker. Clarice segura uma
pequena pedra coberta de musgo. Um pedaço do mundo antes do caos que ela fez questão de preservar. Um pedaço de verde que insistia em se espalhar desafiando o fim.


— Talvez nem floresça… — murmura. — Talvez seja o último gesto que resiste antes de tudo desabar. Ou o primeiro do fim.


Data permanece mudo, as luzes apagadas.

Lá fora, o zumbido crescente das sentinelas aéreas não deixa esquecer que o controle, implacável, não dava tréguas.

Leia a parte 1 aqui

Andanças Andinas

Ando pelas estradas das cordilheiras,
buscando respostas
para perguntas não feitas.

Pensamentos incessantes,
às vezes intrusivos,
subindo e descendo
as estradas curvas que contornam as montanhas rochosas.

Questionamentos profundos
dessa minha mente caprichosa.

Qual a sanha que trouxe esses povos para os picos andinos?
Quais motivos os fizeram ficar?
O frio, o deserto, um imenso salar?

Poucos animais, pessoas sofridas
e lhamas queridas.
Muitos cachorros soltos nas ruas e na vida,
com donos e com liberdade,
andando e alegrando toda a cidade.

O simples e o essencial,
perto do céu.

Lembrando, a todos os momentos,
o quão pequenos e substituíveis somos
diante do universo.

Dias quentes,
noites geladas,
sorrisos sofridos
dessa gente de pele queimada.

Terra seca de água
e inundada de paz.

A pressa ausente dita os caminhos,
e amizades turísticas
provam que a paz é possível.

Misturados diante da beleza
da natureza,
agradecemos pela bênção de estarmos aqui,
visitando o paraíso.

Pegando emprestado
um pouco da cultura e da energia,
para levar no coração
um pouquinho da Bolívia.