Retrovisor

Retrovisor

Tenho olhado muito pelo retrovisor.

Esquecendo o que há à frente?

“São fases”, penso.

As coisas passaram, mas ainda continuo de olho nelas.

Ou no que restou delas.

Em parte, pelas circunstâncias. É quase uma necessidade estar a par.

Afinal, não há carros ou motos sem retrovisor, não é mesmo?

É, eles são fundamentais – mas não são totalmente confiáveis.

Por isso, agora temos as câmeras para ajudar os motoristas nas manobras.

Câmeras e sinais sonoros.

Bip, bip, biiiiiip.

“Assim vai bater”, alertam, estridentes, a quem guia os veículos mais modernos.

Não estou dirigindo um carro, mas sei:

Assim vou bater.

O olhar para o retrovisor tem que ser rápido. À velocidade, não se pode perder grande tempo de olho no espelho sob grande risco de capotar.

Não quero capotar.

Só quero mesmo seguir em frente.

Coração em regime semi-aberto

Quando eu estava conhecendo meu ex, ele me mandou uma mensagem com músicas que gostava. Um dia, nos encontramos e ele me perguntou se eu havia recebido a mensagem. Eu disse que sim. “E você não pensou em responder falando dos seus gostos?”. “Ah…”. Essa sou eu flertando. Perco o timing, me distraio, disfarço os sentimentos. Uma verdadeira catástrofe.

Estou assistindo à série Atypical, protagonizada por um jovem neurodivergente que resolve se abrir para um relacionamento romântico. Confesso que me identifico com o Sam, não pelas questões específicas do autismo, mas pela inabilidade de flertar. Em uma cena, uma garota passa por ele no corredor, na escola, e elogia a sua blusa. Ele agradece e vai embora, deixando-a na expectativa de uma conversa mais longa. Lembrei da situação com o meu ex. Será que existe um tipo de autismo restrito ao campo amoroso? rs

Porque, nas amizades, tudo parece fluir bem (para mim). Na maior parte das vezes, sei reconhecer quando há reciprocidade, se vale a pena manter alguém por perto ou não. No entanto, quando se trata de amor… Posso interpretar um simples “oi” como uma declaração ou perder sinais importantes de demonstração de interesse.

Não vou entrar aqui nos meus traumas do passado ou na idealização romântica. Passo longos períodos solteira e fico muito bem, investindo em outras áreas da minha vida. Mas às vezes bate aquela vontade de me abrir e conhecer novas pessoas, e não sei muito bem o que fazer ou se minhas ações estão sendo coerentes com o meu desejo.

A verdade é que talvez ninguém saiba exatamente como agir nessas situações. Acho que a gente vai descobrindo no caminho. E tá tudo bem. A incerteza dá medo, mas possibilita a descoberta.

Nota mental: se alguém interessante me mandar uma mensagem interessada juro que vou me esforçar pra responder (ou quem sabe eu mesma não dê o passo inicial? – haja terapia).

Comente se você quer saber sobre as próximas aventuras e reflexões! 

Escritec

No ano em que as cidades formavam um tapete de concreto, e o Sol se arrastava sobre um céu cinza, Clarice, escritora e apaixonada por plantas, inclinou-se sobre o canteiro no centro da praça que teimava em respirar. O pó fino do ar invadia seus pulmões, ao mesmo tempo que as dúvidas em sua cabeça.
— Bem, se essa plantinha sobreviver a mais uma semana nesse forno, prometo deixar o Escritec de lado um pouco. Só um pouco, tá? — disse a Data, que piscava suas luzinhas amarelas, como quem dizia “você acredita mesmo nisso?”
O Escritec, metade caderno, metade biblioteca, era seu refúgio de rabiscos e histórias inconclusas. Um pedaço do passado preservado no presente, sem internet nem distrações: a conexão havia sumido faz tempo.
No chão, ao lado, o rádio operacional, relíquia dos dias antes do fim, emitiu alertas anunciando a tempestade de areia iminente. Data acendeu a luzinha de advertência. Clarice tirou o chapéu de palha, enfeitado com folhas secas, sentiu o cheiro da terra quente e partiu, cambaleando, para a entrada do bunker.
Um tropeção e um tombo com direito a um “Ai, dessa vez doeu mesmo!”, ecoou pela praça vazia. O robozinho, com sua voz metálica, comentou, menos sarcástico do que de costume: “Queda detectada. Recomendo mais cuidado e menos teatralidade”.
Rindo, mais sem graça do que irritada, ela escovou, com as mãos, a poeira do
macacão de microfibra desgastado. Antes de fechar a pesada hermética, deteve-se nas folhas vulneráveis sob aquele sol enferrujado. Recomeçar esse mundo?, suspirou, deixando os ombros caírem. Não precisava ser nada muito radical. Só precisava de coragem para insistir e plantar um pé de esperança onde ninguém mais vê futuro.
Em seu recanto, enquanto Data permanecia em um silêncio mecânico, Clarice decidiu guardar suas ideias, mesmo tortas, para as plantas e, talvez, para o Escritec. Com o coração acelerado, segurou firme a caneta do tablet e sussurrou: “Vamos resistir… juntas”.

Me lembrei de você, mas sem saudade

Acordei de manhã cedo, fui procurar uma música no Spotify. Ouvir Home, do New West. Mas quando coloquei o H apareceu a sugestão de Hotel California. Cliquei. Imediatamente fiquei conectada com o nosso passado. Você adorava essa música e sempre cantava.

Já escrevi sobre isso em outro conto.

Lembrei do que vivemos juntos, das nossas viagens, passeios, do nosso dia a dia. Ficamos tanto tempo juntos que já nem sei mais.

Mas também me lembrei das nossas dificuldades.

De quando fomos ao shopping e você me fez passar uma grande vergonha, porque eu comprei um óculos caro com o meu dinheiro. Você dizia que meus gastos eram irresponsáveis, mas no fundo tinha inveja por minha situação financeira ser melhor que a sua.

Me lembrei dos nossos desentendimentos e da sua incurável teimosia.

Hoje, depois de anos de terapia, percebo que eu xis da questão foi que eu me sentia tolhida ao seu lado.

Tanto que após a separação, comecei a me expressar, me expressar, me expressar…

E me tornei realmente quem eu sou: escritora, poeta e uma jornalista de verdade.

Mas percebo que não foi culpa de ninguém. Éramos muito jovens, éramos imaturos.

Precisei me libertar dessa relação para conseguir ser eu mesma. Mas ela foi importante para mim.

Guardei nossas fotos em respeito ao que aconteceu.

Não sei se teria sentido rasgar tudo e jogar no lixo.

Me lembro de você. Me lembro de você até hoje.

Mas sem saudade.

Jornalismo

Jornalismo. Entrei nessa profissão quase que por um acaso. Gostava de escrever, de me comunicar e parecia ser algo compatível com os meus desejos. Mas, ao mesmo tempo, era uma forma de buscar segurança. Já que tudo que eu gostava me ligava à arte.

E arte no Brasil não dá dinheiro…

Comecei a faculdade, os estágios, e fui me envolvendo cada vez mais com essa profissão que se tornou aos poucos uma paixão na minha vida.

Hoje, por meio das minhas matérias que seguem, claro, uma linha editorial e um projeto maior que não é meu, consigo colocar um pouco daquilo que sinto.

Especialmente naquelas que faço sobre aquilo que amo: direitos humanos e cultura.

Sinto um compromisso, quase que uma vocação, de escrever sobre o trabalho de artistas brasileiros que lutam todos os dias para se sustentar e fazer aquilo que eu não tive coragem: assumir a arte como profissão. Como ganha pão.

Os últimos dias foram especialmente difíceis.

Cobrimos uma operação policial, uma terrível operação policial no Rio de Janeiro, que deixou uma centena de mortos.

Fiz uma matéria sobre o falecimento de um cantor e compositor que eu admirava.

E tantas e tantas outras exigiram de mim rapidez, criatividade, concentração. Mas sabe que até que eu gostei?

Finalmente me sinto uma profissional de verdade.

Cada vez mais e mais me envolvo com esta profissão que percebo que agora não escolhi por acaso. Foi como se Deus a colocasse em minhas mãos.

Lembro que quando eu fazia teatro, sempre ouvia a frase: “Deixando a pele em cada palco”.

Pois hoje digo com alegria: “deixo minha pele em cada texto”.

Pornografia

miséria

gente na rua

gente com fome

gente morrendo

sem atendimento

nos hospitais

orfanato

crianças abandonadas

bebê jogados

em caçambas de lixo

lixão

falta de saneamento básico

esgoto a céu aberto

gente meio bicho

meio gente

tentando sobreviver

só mais um dia

a realidade

é um filme

proibido para

menores de 18

Literatura

Lembro que quando era jovem, ainda criança, sempre tive vontade de me comunicar. Uma coisa dentro de mim que me revirava por dentro. Queria expressar minhas ideias para o mundo e contribuir para ele. Queria me singularizar de alguma forma.

Era como se algo me comesse por dentro.

Comecei então a fazer teatro. E cresceu em mim o sonho de ser atriz. Uma vez escrevi assim: “Interpretar é como gerar”. Era isso que eu queria. Eu queria gerar algo.

Algo criativo e profundo.

Mas alguma coisa faltava. Porque no teatro, apesar de me expressar, não era algo meu, e sim, de outro. Que eu acrescentava características minhas, mas não era meu.

Comecei no jornalismo.

E era muito bom. É muito bom.

Mas ainda assim não sou eu. É uma pauta, uma ideia de terceiros, uma linha editorial.

Uma empresa.

Tempos depois, enfim, embarquei na literatura. Embarquei na literatura e me descobri.

E uni um pouco de tudo, meu lado atriz e jornalista. Meu lado escritora, meu lado aprendiz. Meu lado psicóloga. Meu lado filósofa.

E acima de tudo, o que eu sempre quis.

Sou artista!

Vai passar – Dançando na Varanda

A você que já teve ou está tendo uma forte crise emocional, senta, me dá a mão, olha nos meus olhos e ouve: vai passar.

Eu sei que parece que não vai. Sei que você só quer que a dor pare, vá embora e te deixe em paz, porque é insuportável e você não merece isso. Não, você não merece. Você não fez nada de errado. Tá tudo bem. Você é apenas humano. Só você sabe o que sente.

E é legítimo sentir. Mas vai passar. Não lute contra a dor, entregue-se a ela. Não tente represar a emoção, estancar a ferida: transborde, sangre, se desmanche em poesia, dança, canto, abraços, choros e risos. Vai passar e você vai se fortalecer. Acredite. Você não está sozinha.

Conte com quem puder. Confie. Veja o melhor nas pessoas. Veja o melhor em você. Você é forte! Você é foda! Mesmo quando está frágil. Principalmente quando está frágil.

Afinal, você é apenas humano. E isso não é pouca coisa!

(Trecho de Dançando na Varanda, de Nicole Ayres. À venda na Amazon e pelo instagram@sentimentosemcompotas)

Nicole Ayres, 33 anos, carioca, é professora de francês e escritora, Doutoranda em Literatura Comparada pela UFF, participante do coletivo de mulheres escritoras Escreviventes. Possui diversas publicações em coletâneas de contos, poemas e crônicas. Publicou, em 2022, seu primeiro livro solo, intitulado “Dançando na Varanda”, disponível na Amazon. Em 2023, publicou o livro de poemas Cuidado! Frágil! Sagitariana, amante das coisas palpáveis e abstratas, procura fazer o que gosta e gostar do que faz. Não sabe definir bem os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, nem pretende. Divulga seus escritos no Instagram @sentimentosemcompotas