Escritec

No ano em que as cidades formavam um tapete de concreto, e o Sol se arrastava sobre um céu cinza, Clarice, escritora e apaixonada por plantas, inclinou-se sobre o canteiro no centro da praça que teimava em respirar. O pó fino do ar invadia seus pulmões, ao mesmo tempo que as dúvidas em sua cabeça.
— Bem, se essa plantinha sobreviver a mais uma semana nesse forno, prometo deixar o Escritec de lado um pouco. Só um pouco, tá? — disse a Data, que piscava suas luzinhas amarelas, como quem dizia “você acredita mesmo nisso?”
O Escritec, metade caderno, metade biblioteca, era seu refúgio de rabiscos e histórias inconclusas. Um pedaço do passado preservado no presente, sem internet nem distrações: a conexão havia sumido faz tempo.
No chão, ao lado, o rádio operacional, relíquia dos dias antes do fim, emitiu alertas anunciando a tempestade de areia iminente. Data acendeu a luzinha de advertência. Clarice tirou o chapéu de palha, enfeitado com folhas secas, sentiu o cheiro da terra quente e partiu, cambaleando, para a entrada do bunker.
Um tropeção e um tombo com direito a um “Ai, dessa vez doeu mesmo!”, ecoou pela praça vazia. O robozinho, com sua voz metálica, comentou, menos sarcástico do que de costume: “Queda detectada. Recomendo mais cuidado e menos teatralidade”.
Rindo, mais sem graça do que irritada, ela escovou, com as mãos, a poeira do
macacão de microfibra desgastado. Antes de fechar a pesada hermética, deteve-se nas folhas vulneráveis sob aquele sol enferrujado. Recomeçar esse mundo?, suspirou, deixando os ombros caírem. Não precisava ser nada muito radical. Só precisava de coragem para insistir e plantar um pé de esperança onde ninguém mais vê futuro.
Em seu recanto, enquanto Data permanecia em um silêncio mecânico, Clarice decidiu guardar suas ideias, mesmo tortas, para as plantas e, talvez, para o Escritec. Com o coração acelerado, segurou firme a caneta do tablet e sussurrou: “Vamos resistir… juntas”.

Me lembrei de você, mas sem saudade

Acordei de manhã cedo, fui procurar uma música no Spotify. Ouvir Home, do New West. Mas quando coloquei o H apareceu a sugestão de Hotel California. Cliquei. Imediatamente fiquei conectada com o nosso passado. Você adorava essa música e sempre cantava.

Já escrevi sobre isso em outro conto.

Lembrei do que vivemos juntos, das nossas viagens, passeios, do nosso dia a dia. Ficamos tanto tempo juntos que já nem sei mais.

Mas também me lembrei das nossas dificuldades.

De quando fomos ao shopping e você me fez passar uma grande vergonha, porque eu comprei um óculos caro com o meu dinheiro. Você dizia que meus gastos eram irresponsáveis, mas no fundo tinha inveja por minha situação financeira ser melhor que a sua.

Me lembrei dos nossos desentendimentos e da sua incurável teimosia.

Hoje, depois de anos de terapia, percebo que eu xis da questão foi que eu me sentia tolhida ao seu lado.

Tanto que após a separação, comecei a me expressar, me expressar, me expressar…

E me tornei realmente quem eu sou: escritora, poeta e uma jornalista de verdade.

Mas percebo que não foi culpa de ninguém. Éramos muito jovens, éramos imaturos.

Precisei me libertar dessa relação para conseguir ser eu mesma. Mas ela foi importante para mim.

Guardei nossas fotos em respeito ao que aconteceu.

Não sei se teria sentido rasgar tudo e jogar no lixo.

Me lembro de você. Me lembro de você até hoje.

Mas sem saudade.

Jornalismo

Jornalismo. Entrei nessa profissão quase que por um acaso. Gostava de escrever, de me comunicar e parecia ser algo compatível com os meus desejos. Mas, ao mesmo tempo, era uma forma de buscar segurança. Já que tudo que eu gostava me ligava à arte.

E arte no Brasil não dá dinheiro…

Comecei a faculdade, os estágios, e fui me envolvendo cada vez mais com essa profissão que se tornou aos poucos uma paixão na minha vida.

Hoje, por meio das minhas matérias que seguem, claro, uma linha editorial e um projeto maior que não é meu, consigo colocar um pouco daquilo que sinto.

Especialmente naquelas que faço sobre aquilo que amo: direitos humanos e cultura.

Sinto um compromisso, quase que uma vocação, de escrever sobre o trabalho de artistas brasileiros que lutam todos os dias para se sustentar e fazer aquilo que eu não tive coragem: assumir a arte como profissão. Como ganha pão.

Os últimos dias foram especialmente difíceis.

Cobrimos uma operação policial, uma terrível operação policial no Rio de Janeiro, que deixou uma centena de mortos.

Fiz uma matéria sobre o falecimento de um cantor e compositor que eu admirava.

E tantas e tantas outras exigiram de mim rapidez, criatividade, concentração. Mas sabe que até que eu gostei?

Finalmente me sinto uma profissional de verdade.

Cada vez mais e mais me envolvo com esta profissão que percebo que agora não escolhi por acaso. Foi como se Deus a colocasse em minhas mãos.

Lembro que quando eu fazia teatro, sempre ouvia a frase: “Deixando a pele em cada palco”.

Pois hoje digo com alegria: “deixo minha pele em cada texto”.

Pornografia

miséria

gente na rua

gente com fome

gente morrendo

sem atendimento

nos hospitais

orfanato

crianças abandonadas

bebê jogados

em caçambas de lixo

lixão

falta de saneamento básico

esgoto a céu aberto

gente meio bicho

meio gente

tentando sobreviver

só mais um dia

a realidade

é um filme

proibido para

menores de 18

Literatura

Lembro que quando era jovem, ainda criança, sempre tive vontade de me comunicar. Uma coisa dentro de mim que me revirava por dentro. Queria expressar minhas ideias para o mundo e contribuir para ele. Queria me singularizar de alguma forma.

Era como se algo me comesse por dentro.

Comecei então a fazer teatro. E cresceu em mim o sonho de ser atriz. Uma vez escrevi assim: “Interpretar é como gerar”. Era isso que eu queria. Eu queria gerar algo.

Algo criativo e profundo.

Mas alguma coisa faltava. Porque no teatro, apesar de me expressar, não era algo meu, e sim, de outro. Que eu acrescentava características minhas, mas não era meu.

Comecei no jornalismo.

E era muito bom. É muito bom.

Mas ainda assim não sou eu. É uma pauta, uma ideia de terceiros, uma linha editorial.

Uma empresa.

Tempos depois, enfim, embarquei na literatura. Embarquei na literatura e me descobri.

E uni um pouco de tudo, meu lado atriz e jornalista. Meu lado escritora, meu lado aprendiz. Meu lado psicóloga. Meu lado filósofa.

E acima de tudo, o que eu sempre quis.

Sou artista!

Vai passar – Dançando na Varanda

A você que já teve ou está tendo uma forte crise emocional, senta, me dá a mão, olha nos meus olhos e ouve: vai passar.

Eu sei que parece que não vai. Sei que você só quer que a dor pare, vá embora e te deixe em paz, porque é insuportável e você não merece isso. Não, você não merece. Você não fez nada de errado. Tá tudo bem. Você é apenas humano. Só você sabe o que sente.

E é legítimo sentir. Mas vai passar. Não lute contra a dor, entregue-se a ela. Não tente represar a emoção, estancar a ferida: transborde, sangre, se desmanche em poesia, dança, canto, abraços, choros e risos. Vai passar e você vai se fortalecer. Acredite. Você não está sozinha.

Conte com quem puder. Confie. Veja o melhor nas pessoas. Veja o melhor em você. Você é forte! Você é foda! Mesmo quando está frágil. Principalmente quando está frágil.

Afinal, você é apenas humano. E isso não é pouca coisa!

(Trecho de Dançando na Varanda, de Nicole Ayres. À venda na Amazon e pelo instagram@sentimentosemcompotas)

Nicole Ayres, 33 anos, carioca, é professora de francês e escritora, Doutoranda em Literatura Comparada pela UFF, participante do coletivo de mulheres escritoras Escreviventes. Possui diversas publicações em coletâneas de contos, poemas e crônicas. Publicou, em 2022, seu primeiro livro solo, intitulado “Dançando na Varanda”, disponível na Amazon. Em 2023, publicou o livro de poemas Cuidado! Frágil! Sagitariana, amante das coisas palpáveis e abstratas, procura fazer o que gosta e gostar do que faz. Não sabe definir bem os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, nem pretende. Divulga seus escritos no Instagram @sentimentosemcompotas

Gratidão


Acredito que 2025 esteja sendo o ano mais difícil da minha vida. Tenho tido problemas de família, problemas de saúde, problemas psicológicos.
Mas ao mesmo tempo, tem sido um ano de tantas conquistas! Mudei para uma nova casa, conheci novas amigas, e tenho convivido com uma pessoa muito especial, que me conquista todos os dias.
Fiz uma palestra lotada de gente. Recebi a oportunidade de escrever um quadro no meu trabalho de um assunto que amo.
Percebi, em meio a todas as dificuldades, que precisamos ter a força de um guerreiro, mas sem perder a leveza de uma flor ao vento. Que precisamos lutar como leões por aqueles que amamos, contra todas as adversidades. Mas também mantendo a doçura necessária para cultivarmos nossas relações, e conquistarmos novas.
Por todos esses aprendizados e vivências, digo: gratidão a Deus.
Gratidão a minha família e aos amigos.
Gratidão por todos os dias vividos, pelas alegrias alcançadas e pelas tristezas
superadas.
Em alguns dias, cheguei a pensar que morreria de tanta dor.
Gratidão por ter conseguido resistir.
Gratidão por me permitir recomeçar.


((Às vezes, me pego pensando se mereço tanto…))

Hídrica Onírica

Sonhei que eu bebia muita água,
muita água,
muita água mesmo,

que éramos amigos
e você até conhecia meus pais,
até conhecia minha casa,
entrava
por um portão de ferro azul escuro
que não era tão azul escuro,
nem assim tão de ferro,
e muito menos
minha casa,

mas no fundo

eu sabia que era

porque ali estávamos seguros,
porque eu te dava um beijo
sem medo nenhum
e sem qualquer esforço

você aceitava

passar as próximas
quarenta e sete noites de verão
naquele mesmo lugar

comigo,

tomando todas as chuvas,
desde a primeira
até a quadragésima sétima.

A gente bebia muita água,
muita água,
muita água mesmo,

abrindo a boca pro céu
quarenta e sete vezes,
até que

na quadragésima oitava vez,

no quadragésimo oitavo copo,
na quadragésima oitava tempestade
da noite de n° 48 você me dizia

e se a gente nunca mais acordar?

e eu te dizia

e se a gente nunca mais se afogar?

Beatriz Ras é da zona norte do Rio de Janeiro e é graduada em psicologia pela UERJ. Autora de Rasgalume (2019), Nove Casas (2022) e Exoterra (2025), tem poemas publicados em zines e antologias no Brasil e na Argentina.

Morde e assopra

Diana se deitou no sofá. A casa parecia silenciosa demais. O choro, contido até o momento, desabou silencioso. Ficou ali, por um bom tempo, até a dor no peito diminuir. Pela primeira vez, em anos, havia pensado em si mesma. Tinha iniciado a busca por um espaço próprio longe de interferências alheias. A que preço, meu Deus.

Uma brisa de outono entrou pela vidraça entreaberta do janelão. Cruzou os braços, com frio. Olhou o computador ligado e se lembrou da conversa com Mara, no sábado: “Escrever um romance, a esta altura da vida? Quem disse que você pode?”. Naquele momento, sair do apartamento dela pareceu uma ótima decisão.

Preparou um chá de camomila e voltou à escrivaninha. Em uma folha de papel, começou a esboçar ideias para um provável romance. Rabiscou um mapa mental com possíveis ramificações da história.
A chamada de Mara interrompeu-a. Nem se dera conta de quanto tempo esteve sentada trabalhando. Ainda eram seis da tarde, mas sentia-se exausta.

“Sim, estou bem instalada, Má… Já arrumei tudo no lugar… Sim, o apartamento é lindo… Estou bem sozinha… Pode vir me visitar… Vou aparecer, sim… Também te amo.”

Morde e assopra. Guardou os papéis e desligou o computador. Depois de uma chuveirada, foi carregar o celular e viu a notificação da mensagem de Hugo na caixa postal. Lembrou-se da insinuação de Mara de que o havia abandonado. Não queria dar falsas esperanças a ele antes de uma conversa definitiva. Desligou o celular sem ouvir a mensagem.

Começou a chover. Diana fechou a janela de vidro do quarto. Comeu o último pedaço da pizza e depositou as caixas vazias na lixeira do corredor. Escovou os dentes, forrou a cama com um lençol de algodão azul e recostou-se na cabeceira. Estava em sua casa.

Ficou lendo até tarde um dos romances de Lucy Diamond, A casa dos
novos começos. Encantou-se pelas personagens e se identificou com cada
uma. As protagonistas lidavam com o coração partido e buscavam a própria felicidade motivadas pelo apoio das amigas. Pensou em Luci e em como as duas se ajudavam mutuamente. E em como Mara a manipulava, fazendo-a duvidar de sua capacidade de produzir qualquer coisa sozinha.

Encolhida sob a colcha de algodão cru, presente da mãe, anos antes,
ficou ouvindo os pingos de chuva no vidro da janela. Deixou as lágrimas
molharem o travesseiro. Pela primeira vez, em anos, sentiu-se sozinha.

Obra citada: Café & romance
Autora: Denise Gals
Publicado por Editora Pedregulho — 2023

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