Tenho medo
Muito medo.
Mesmo distante
já não consigo
segurar dentro de mim
esse animal selvagem
que é o meu amor.
Tenho medo.
Ele pode te matar.
A mulher e o castelo
Naquele castelo do alto, naquela casa fria sem vida, vivia uma mulher seiva.
Seus galhos se espalhavam como gavinhas pelo castelo.
Apesar de alimentar a todos, ela mesma não se nutria.
Certo dia de sol aberto, pleno, expandiu-se para fora desse lugar frio.
Sob aquele sol poderoso, a mulher seiva se banhou. Alimentou-se a si mesma.
Olhou para o horizonte e descobriu que o castelo não era ela.
Ela era sua própria casa.
No compasso
O cheiro enjoativo de café frio misturava-se ao aroma de livros e papéis acumulados.
Janice digitava no velho computador. De tempos em tempos, espiava o velho relógio na parede. Pelas janelas amplas, um vento dos jardins abertos e arborizados do campus empurrava o ar pesado dali de dentro, trazendo consigo o frescor de folhas e grama recém-cortada.
Eliane, a professora de Ciência da Informação, apareceu na porta na sala dos
professores, de bolsa na mão e um sorriso animado, pronta para encerrar o dia.
– Vem comigo à aula de samba amanhã à noite?
– Eu, rebolando no salão? – riu nervosa. Por dentro, um aperto no peito. Vinte anos lecionando na Pós-graduação, presa ao ritmo maçante de planejamentos e avaliações. Quando tudo ficou tão sem graça?, lançou mais uma nota no sistema.
– É como um grito de liberdade! – A colega mexeu os quadris, simulando um
movimento do samba. – Anda, se anima!
– Hum, parece divertido… – Pendeu a cabeça pensativa. Conferiu o relógio na parede uma última vez e se preparou para encerrar o expediente. –. Vou pensar.
A ideia ecoava enquanto caminhavam pelos corredores do Palácio Universitário. Ia fazer cinquenta anos no fim do mês. Talvez precisasse mesmo de um novo enredo. No estacionamento do campus jogou a pasta no porta-malas do Mobi preto. Mais um sábado corrigindo trabalhos.
– Os ensaios começam às oito. Pensa com carinho! – Eliane jogou um beijo no ar e seguiu requebrando até o seu fusca vermelho.
No trânsito da Avenida Pasteur, uma batida contagiante irrompeu no rádio do carro.
Os dedos tamborilaram no volante provocando um sorriso surpreso. Sambar? A ideia era louca e tentadora. Como seria deixar um novo ritmo transformar suas aulas e sua vida? “Por favor, aproveite a oportunidade”, sussurrou para o retrovisor. “Você só está indo sambar.”
Em casa, largou a pasta no sofá. Diante do guarda-roupa aberto, hesitou entre os blazers sóbrios. No fundo, um vestido colorido esquecido – presente da filha – que nunca teve coragem de usar. Sentiu a textura macia entre os dedos. Trouxe-o junto ao corpo. No espelho, a imagem era outra – mais alegre, confiante. Respirou fundo e deixou a excitação
crescer. “Está decidido”, surpreendeu-se com a firmeza na voz. “Amanhã, vou dançar”.
As cores vibrantes da fachada da escola de dança eram um convite à alegria. Ajustou o vestido colorido. O tecido leve roçou a pele, despertando uma estranha sensação. Inspirou o ar quente da noite carioca e entrou.
Ao cruzar a soleira, sentiu-se uma nota dissonante. O silêncio acadêmico de alunos debruçados sobre projetos de pesquisa deu lugar a uma sinfonia de corpos jovens sincronizados ao ritmo contagiante do cavaquinho. “Talvez isso tenha sido um erro”, deu um passo para trás. Nesse momento, o grito de Eliane cortou o ar:
– Oi! Você veio mesmo! Pessoal, essa é minha amiga da Universidade.
Quis se esconder atrás de uma pilha imaginária de livros. Antes que pudesse balbuciar qualquer coisa, uma voz grave preencheu o espaço:
– Bem-vinda. – O instrutor de dança apresentou-se com um sorriso caloroso. –
Professora universitária? – Estendeu a mão em um forte, mas gentil aperto.
– Linguagem e informação, mas aqui eu me sinto uma caloura novamente – tentou soar descontraída, mas a voz gaguejante traiu a insegurança.
– Pronta para trocar o quadro negro pela pista de dança? – O roçar da barba grisalha fez o rosto dela esquentar, quando ele a cumprimentou com um beijo em cada lado.
O instrutor, Sr. Carlos, um homem de meia-idade deu o sinal com um aceno de mão.
Os tamborins começaram a pulsar, e como em um passe de mágica, os alunos se moveram com uma graça natural, os pés batendo no chão em perfeita sincronia com a batida do samba.
A luz do estúdio de dança refletia nos espelhos, criando um efeito de multiplicação, como se houvesse mais de uma turma dançando ao mesmo tempo.
Do canto do salão, Janice observava hipnotizada os movimentos fluidos da amiga.
Cada ginga, cada passo, parecia contar uma história. Era como analisar um texto vivo, onde cada gesto era uma palavra, cada sequência um parágrafo ritmado.
– Vamos lá, experimente! – Eliane puxou-a pela mão, com gentileza, até o meio da roda. – Não se preocupe em errar; só sinta a música e deixe seu corpo falar.
A princípio, congelou. Anos de postura rígida diante de turmas atentas pesaram em seus ombros. Mas algo dentro dela gritava por liberdade. Com um suspiro determinado, imitou o primeiro passo da amiga. Desajeitado, fora de tempo, mas um começo.
O professor aproximou-se. As mãos em volta da cintura dela, sem tocar, apenas guiando. Seu sorriso encorajador derreteu as últimas barreiras.
– Relaxe os quadris – instruiu. – Deixe a música entrar no seu corpo.
A cada passo, cada erro, cada risada nervosa, sentia as amarras se soltando. O ritmo, antes estranho, começava a fazer sentido. Era como aprender uma nova forma de comunicação, onde o corpo era a linguagem e o movimento a informação.
Quando a música parou, estava ofegante, despenteada e… feliz. Um sorriso genuíno revelava algo que há tempos não se vivenciava em uma sala de aula.
– Parabéns, doutora – Tiago elogiou-a com aquele olhar que a fez corar outra vez. – Você tem um talento natural para o ritmo.
– Obrigada – respondeu, surpresa com o tom rouco da própria voz. “Mente bem, mas é um fofo”, sustentou o olhar dele.
Eliane abraçou-a pelos ombros e sugeriu um café para celebrar sua estreia no samba.
– Café? – o professor interveio, os olhos castanhos encontrando os de Janice. – Isso pede uma caipirinha!
O convite, carregado de intenção, a fez corar. Lançando um olhar urgente à amiga, agarrou-se a seu braço, ansiosa por escapar dali. A gargalhada de Eliane misturou-se ao som dos tambores que ainda ecoavam em seu peito.
– Pelo jeito, parece que a doutora tem outros talentos escondidos.
As semanas passaram em um novo ritmo. Já não se importava com o suor escorrendo pela testa, enquanto o corpo se movia ao ritmo dos tambores. Quando Tiago pedia que cada aluno improvisasse um passo, ela hesitava por um momento. “Vamos lá!”, respirava fundo.
“É só dançar.” Seus pés moviam-se quase que por conta própria. Por um instante, esquecia-se de notas, prazos e currículos.
– Isso, pessoal! – a voz do instrutor ecoava entre os tamborins. – Deixem a música falar por vocês!
No trabalho, o sorriso radiante, o cabelo solto e o vestido florido sob o blazer
vermelho não passaram despercebidos. Os gestos largos e a voz firme e confiante contagiaram a turma.
— “Adorei o novo corte, professora! – uma aluna não pôde deixar de comentar.
Janice sorria, seu entusiasmo aumentava a cada dia. Movia-se pela sala de aula, como se estivesse em um palco onde a dança de ideias fluía em um ritmo de criatividade que envolvia a todos.
Meses depois, após um ensaio intenso, estava prestes a sair quando Tiago a chamou em um canto da sala.
– Oi, algum problema com meus passos?
– Pelo contrário – ele sorriu –, tenho uma proposta.
– Que tipo de proposta? – Sentiu um leve tremor nas pernas. – “Controle-se, mulher, você não é mais uma adolescente.”
– Que tal ser minha parceira em uma apresentação beneficente no Centro de
Convivência da Praia Vermelha? No mês que vem.
– Você quer dizer, nós dois?
– Sim, nós dois. Um número de samba.
– Eu? Mas… eu mal comecei a dançar… – Tentou disfarçar o nervosismo de se
apresentar no centro cultural do campus.
– Você tem algo especial. Uma energia que não se aprende. – o tom pareceu mais grave que o normal, e ela sentiu o estômago dar uma cambalhota. “Céus, quanto tempo faz que não sinto isso?”, pensou, quase rindo de si mesma.
– Eu… eu não sei o que dizer.
– Diga que vai pensar. Quero a minha sambista favorita ao meu lado. – Tiago piscou, a mão roçando o braço dela. O toque, embora leve, arrepiou-lhe todo o corpo.
Em casa, abriu seu currículo Lattes no computador. Artigos, palestras, livros de poesia… “E se eu acrescentasse ‘sambista’ aqui?”, riu sozinha. “Dra. Janice dos Santos, PhD em Linguagem e informação e Rainha da Bateria.” Seus olhos desviaram para o celular. A imagem de Tiago e ela dançando juntos invadiu sua mente. Sentiu o rosto esquentar. “Minha sambista favorita”, repetiu. saboreando cada palavra. “O que dirão meus colegas? Meus
alunos?”. Mas uma voz mais profunda sussurrava: “E se você não aceitar? Poderá viver com o ‘e se’?” Por um momento, viu-se dividida entre o conforto conhecido da academia e a promessa vibrante da pista de dança.
Com um suspiro profundo, começou a digitar: “Tiago, sobre o convite…” Parou, um momento, hesitante. “Cinquenta anos”, pensou. “Cinquenta anos e ainda tenho medo de dizer sim para a vida.” Com um sorriso nos lábios, fitou o cursor piscante. Os dedos pairaram sobre o teclado, prontos para compor o próximo capítulo de sua vida.
Jogo dos Sete
Desde cedo,
somos treinados,
estimulados pelos exemplos
a ver os erros…
dos outros.
Nossa mente vai se moldando,
e a mágica acontece:
Olhamos e logo podemos apontar:
“o que não está certo”
“o inadequado”
“em excesso”
EXAGERADO
“insuficiente”
Erro alheio…
ninguém mais vê?!
Cirurgicamente,
julgamentos rompem
da ponta da língua…
ops,
da ponta dos dedos.
Ah,
veneno disfarçado de cura
e preocupação.
Para alguns,
um verdadeiro combustível,
um whey protein,
uma vitamina diária.
Caro jogador,
desafio você a virar essa chave
e mudar esse jogo.
Na virada,
você precisará aprender
os sete acertos.
Veja tudo o que quiser,
de quem quiser,
e tente encontrar,
no alvo antes julgado,
o que considera “acertado”.
No início,
sua mente vai te enganar.
Ah, se vai.
Mas com o tempo,
você vai conseguir — acredite —
ficar até feliz
com o “acerto” que descobrir.
E um dia,
quem sabe,
Oxalá antes do juízo final,
quando passar por uma esquina qualquer,
das muitas voltas que a vida dá,
consiga se enxergar
mais na Terra
do que no céu.
Quem começa?
Cordel para Arial 14
Todo mundo tem alguma
Coisa pra se preocupar.
Um olho que tremilica.
Uma pereba pra cuidar.
Uma perna que chacoalha
E que nada faz parar.
Tem gente que tem coisa,
Que a gente nem vê de perto
Ziquizira e Urucubaca
Moléstia de nome incerto
Só benzedeira cura
Ao rezar o verso certo
E tem outras que padecem
Se tratar com um doutor
Doença moderna e chique
Hipertensão e o calor
A mulher na menopausa
Não larga o abanador
Mas se ler é o seu problema
Sempre há um jeitinho
Presbiopia, Miopia
Se pegar no comecinho
ainda dá pra remediar
O óculos é o caminho
Quis Deus que na velhice
O ser humano sabido
Ganhasse algo de bom
E de outro fosse perdido
Um dinheiro mesmo pouco
Pra viver bem destemido
Às vezes Ele nos presenteia
Com seu amor sem medida
A memória aos poucos se vai
A cabeça anda perdida
A dor no corpo se espalha
É o jeito de sentir a vida
Deus oferece sem saber
das letras miúdas o desver
desmemória do presente
Para a gente esquecer
Que a vida é brincadeira
E alguém tem que perder
Mas quem dera o Bom Senhor
Num contrato sem receio
Me oferecesse na hora a
Letra grande, sem defeito
Pode até ter paga alta
Se é pra enxergar, eu aceito
Não precisa tanto alento,
Nem promessa, nem louvor,
Só queria ler meus livros
Com prazer e com ardor,
Sem pedir ajuda a lente
Nem ao óculos salvador.
Se Ele ouvir minha prece,
Nem me olho no espelho
Pode levar meus dentes,
De que vale ter cabelo?
Mas, Senhor, ouça o que digo
A leitura é meu apelo.
Irremediavelmente apaixonada
Foram apenas três encontros. Naquele curto período de férias que consegui tirar em minha cidade natal, no interior do estado.
Nesse breve intervalo nos reencontramos. E relembramos nosso passado, refletimos sobre nosso presente… e filosofamos sobre nosso futuro.
Deitada na grama verde do seu jardim, pensei que aqueles dias eram o que havia de melhor no mundo.
E me peguei novamente apaixonada por você, irremediavelmente apaixonada por você, que era o que de melhor eu guardava da minha infância.
Me lembrava sempre de quando éramos crianças, de seu sorriso cativante, de nossas brincadeiras na porta da escola. E de como crescemos juntos. Eu de óculos e você de aparelho. Eu de livros, e você de discman.
E de quando nos separamos, no começo do segundo grau.
Daquela garota loira estúpida que um dia me disseram que era sua namorada.
E de meus sonhos de menina desmoronando com um castelo de areia.
Eu tinha medo dela deitada na grama do seu jardim, olhando para as estrelas, e recebendo seu abraço.
Mal poderia imaginar que quase 30 anos depois, tudo isso seria meu.
Estranho seria se eu não me apaixonasse por você, como na música de Nando Reis.
Irremediavelmente apaixonada por você…
Mas mais estranho ainda seria se toda aquela fantasia fosse realmente real.
Como nos contos de cinderela, ou nas mais belas festas de 15 anos, tudo acabou depois do terceiro encontro. Foi feliz, mas fugaz.
Me espantei quando fiquei sabendo que você já tinha um compromisso, um filho, e toda uma vida. Mas surpresa ainda fiquei com meu próprio espanto. Afinal, pensava eu que você ficaria me esperando?
E pensar que eu esperei.
Esperei por aqueles momentos por tanto tempo em minha vida, e mais uma vez te perdi por desencontros…
[Ah, estranho é (ainda) gostar tanto do seu all star azul. Que combina com o meu preto, de cano alto. Sempre combinará].
Beijo Vermelho
Te olhava com cara de santa
e morria de vontade
de pular no teu colo,
arrancar sua blusa,
abrir suas calças
e beijar suas tatuagens.
Me ardia de desejo
e fingia que estava fria.
Estava longe,
estava na lua
fugindo.
Por que na verdade
queria ser sua.
Falava
mas não escutava.
Só ouvia o coração pulsando,
o sangue correndo,
o corpo esquentando
e uma voz clamando:
teu corpo junto ao meu.
Uma lembrança
e um beijo vermelho
da cor do pecado
que não cometi,
mas morri de vontade.
João dourado e o peixe azul
((Esta é uma história sobre traição e desprezo))
Era uma vez uma menina encantada em peixe azul. E um joão dourado que se exibia luminoso com sua parceira nas águas claras de um mar raso.
Juntos, foram até o fundo. Mergulharam felizes nas limpas águas.
Até que foram surpreendidos pelo peixe azulado, acuado, amuado.
A dourada perguntou. João, o que é este peixe azul?
Ao que ele respondeu: Não é nada.
E seguiram viagem.
Por que é tão difícil ouvir um não?
Ouvir um “não” é, muitas vezes, experimentar uma dor que vai além da negativa em si. Nos relacionamentos amorosos, nas amizades, no trabalho ou até em relações familiares, o “não” pode soar como uma rejeição, uma punição, uma barreira ao nosso desejo. Mas por que isso nos fere tanto?
A psicanálise nos oferece uma lente profunda para compreendermos o que se passa quando escutamos uma negativa. Desde Sigmund Freud, sabemos que o sujeito não é senhor em sua própria casa. Nossos desejos, conflitos e angústias são em grande parte inconscientes. Quando ouvimos um “não”, não é apenas o adulto que escuta: é também a criança que fomos, e que, um dia, diante da frustração, sentiu-se impotente, não amada, ou até abandonada.
No amor, por exemplo, o “não” fere a nossa imagem idealizada de completude. Segundo Jacques Lacan, “amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer” – ou seja, o amor sempre envolve um grau de falta, de desencontro. Um “não” recebido do outro toca essa falta fundamental que estrutura o sujeito, e pode ser interpretado como: “não sou suficiente”. Esse tipo de dor costuma reativar traumas antigos, muitas vezes não elaborados.
No trabalho, o “não” pode ativar o medo da desvalorização. Quando nossas ideias são recusadas ou nossos limites são apontados, a frustração toca diretamente nosso narcisismo. Freud já dizia que o narcisismo é uma defesa primária do eu, e ser contrariado no ambiente profissional pode ser vivido como ataque ao valor pessoal.
Na amizade, a negativa pode provocar ressentimento porque exige o reconhecimento do outro como sujeito separado, com vontades próprias. Segundo Ana Suy, “amar de forma madura é aceitar que o outro não nos pertence”. E o “não” é justamente a expressão mais clara dessa alteridade: o outro não existe para nos satisfazer.
No plano inconsciente, ouvir “não” é ser confrontado com a castração simbólica, conceito central em Lacan. A castração não é uma punição, mas a estruturação do sujeito diante da falta. A negativa mostra que não somos onipotentes, que nem tudo nos será dado, que o desejo é sempre incompleto. Como explica Christian Dunker, “a castração é o que nos humaniza, é a partir dela que aprendemos a desejar”.
É nesse ponto que surgem sentimentos como constrangimento, irritação, revolta ou dor. Não por causa do “não” em si, mas pela ferida inconsciente que ele toca. O “não” nos coloca diante da perda: da fantasia de controle, da ilusão de completude, da idealização do outro como objeto de satisfação.
Por outro lado, essa dor também é uma oportunidade. Uma chance de elaboração psíquica. Ouvir “não” e suportar esse atravessamento é um passo importante no amadurecimento emocional. Como diz Dunker, “a frustração é o motor do desejo”, e é a partir da falta que construímos novos sentidos.
Aceitar o “não” sem ruir é um sinal de autonomia. É reconhecer que o outro é um ser separado, com seus próprios limites e desejos, e que isso não é um ataque a nós. É aprender que nem toda negativa é rejeição, que o amor não exige fusão, que amizade não é submissão, que trabalho não é palco de vaidade.
Na escuta clínica, muitas vezes o “não” precisa ser reabilitado como possibilidade de liberdade — tanto de quem o diz quanto de quem o escuta. Porque quem aprende a ouvir “não” já não precisa viver na ilusão de que o mundo gira em torno de seus desejos.
Como disse Ana Suy:
“Nem tudo que o outro faz tem a ver com você. O outro é um mistério, e aceitá-lo como tal é o início do amor real.”
Cláudia Nagau
Referências:
• Freud, S. (1914). Introdução ao narcisismo. Obras completas.
• Lacan, J. (1958). O seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud.
• Dunker, C. I. L. (2015). Estrutura e constituição da clínica psicanalítica.
• Suy, A. (2020). A gente mira no amor e acerta na solidão. Editora Planeta.
• Suy, A. (2022). Amor: um ensaio sobre o risco de amar. Paidós.
Apple Watch – Um relato contracultura hegemônica colonizadora da pós-modernidade
Não, obrigada!
Eu não quero contar os meus passos todos os dias e estabelecer mais uma meta, uma competição comigo mesma. Prefiro seguir sentindo meus passos, meus movimentos, meu corpo e minha mente, o sol e o vento batendo em meu rosto, quem sabe a chuva; observando meus semelhantes, atenta ao que se passa na vida cotidiana que me rodeia, agradecendo a sorte e o privilégio de ter mobilidade.
Eu não quero, afixado ao meu corpo, um aparelho que atravessa meus sentidos e coloca minha mente em alerta sem pedir licença, vibrando, comunicando novas mensagens, novos e-mails, novas notícias, o tal número de passos; adoecendo.
Quero que meu corpo seja livre de tudo o que posso libertá-lo, que seja meu espaço seguro, minha morada.
Quero que minha mente desacelere, crie, sonhe meus próprios sonhos; quero cuidar para que ela não esteja sobrecarregada, que não adoeça, e que não libere em meu corpo os hormônios do tal progresso, do tal desenvolvimento,, que causam ansiedade, estresse tóxico e dependência.
Não, eu não quero pesar minha comida ou ingerir pós milagrosos que prometem um corpo saudável e perfeito e entregam apenas a riqueza de milhões de dinheiros à mais uma indústria, a do bem-estar. A seus criadores-manipuladores-de-mentes-perdidas no estereótipo do corpo perfeito-saudável, que atende à construção social do belo, enquanto suas mentes seguem adoecidas, inflamadas, em colapso. Nada disso é saúde. Tudo isso é engano.
Agradeço a oferta, mas prefiro sentar à mesa com minha família e alimentar nossos corpos e almas, apreciar o momento, partilhar a comida de verdade, temperada com amor, preparada com afeto, livre dos venenos preparados pela indústria, criados para adoecer lentamente, afinal, se acometem nossos corpos com doenças rápido demais, não seremos capazes de gerar lucro e produzir riquezas por prolongado tempo. Adoecendo devagar, todos ganham: a indústria alimentícia, a indústria da saúde, a indústria farmacêu[1]tica, a vida sintético-capitalista.
Não, eu não quero que meu corpo e minha mente sejam colonizados por narrativas e normativas que não partem de mim, de minha humanidade, do que me faz sentido, do que me diz baixinho ao pé do ouvido: é, essa sou eu de verdade. Recuso-me a ser mais uma vítima do estado de coisas, recuso-me ao estado de coma induzido a que o desenvolvimento submeteu a humanidade. Ainda que me recuse, estou presa a ele, nadando contra a uma vasta correnteza.
Da nação dos três poderes independentes, liderada pelos 3 poderes paralelos¹, escolho liderar eu mesma meu corpo, minha mente e minha alma, regida pelos poderes que me conectam à minha natureza, a humanidade: o poder do amor em sua forma mais ampla; o poder do sentir; o poder de decidir. Decidir, principalmente, estar consciente, não me perder de mim. Ser buscadora e aprendiz. Decidir como aplicar os poderes que me regem em prol da minha comunidade. Partilhar, dividir, trabalhar juntos, amar a todos, cuidar das crianças e dos mais velhos, ouvi-los, aprender com eles; proteger os mais vulneráveis, não permitir que ninguém tenha fome ou sede, ou que à alguém falte morada.
Sem contar os passos. Sem o relógio que vibra distrações, cortisol e dopamina – por mais antagônico que isso pareça -, me afastando de quem sou.
Não, eu não quero que meus olhos vejam beleza na Times Square, onde todo o asfalto, todo o concreto iluminado com luzes e cores artificiais e toda a poluição impedem a Terra de existir, de respirar. Quero ver beleza no passarinho que pousa na minha janela pela manhã, e depois de novo, no fim da tarde, entoando seu canto e voando livre pelo ar. O mesmo ar, eu respiro. Quero ouvir a beleza do barulho de um riacho correndo, das crianças brincando no quintal. Quero falar a língua que falavam minha mãe e minhas avós e aquelas que vieram antes deles. Quero sentir o cheiro da terra molhada toda vez que a chuva vier. Quero esperançar a estação de cada fruta para dar todo o valor que a natureza merece, honrar seus ciclos, agradecer pelo alimento, sentir uma saudade frustrante da fruta doce da estação que passou e ficar feliz feito criança com a fruta doce da estação que vai chegar – por mais antagônico que isso pareça.
Às vezes, a gente precisa dar uns passos atrás.
[1] Nomeio aqui por poderes paralelos aqueles que aparecem como líderes na pós-modernidade neoliberal brasileira, a saber: as big techs, o mercado financeiro e o agronegócio.
