Perto, longe, dentro e fora
Por Sônia Souza
As portas fechadas e a pintura perfeita indicam que tudo vai bem. ELA está ali, exatamente onde a colocaram, onde outros pudessem ver, cumprindo sua função – na Terra e no Céu.
Por dentro, muitas sombras e súplicas, anseios, esperanças, desilusão
uma energia caótica contida pelas paredes brancas e janelas azuis.
Ali é lugar de todos
E de ninguém
Talvez ELA até resista
Talvez Ela até impressione o estrangeiro que ali se encontre
Mas, quem sabe por um milagre
um vento sopre e abra as janelas e portas
Quem sabe ELA se permita expor
E, em uma tarde de primavera qualquer
Ao som do canto dos pássaros
ELA se sinta livre
Por dentro, por fora, de perto e de longe
A Igreja Matriz
por Lidianne Monteiro
PARTE 1
– Vó, a senhora quer que eu coloque sua cadeira na calçada?
– Ainda não. O mormaço da pista ainda tá muito quente. E eu tenho que terminar a janta do seu tio.
– Tá certo. Mas eu já vou colocar a minha.
– Tu vai é adoecer com esse bafo quente.
O comentário da avó, diferente dos da mãe, não era uma ordem para não ir.
Da calçada, vejo o movimento da cidade. A rua que estava vazia, quase de uma cidade fantasma, começa a ganhar vida. As pessoas, assim como a avó, também aguardaram a trégua do sol para começar a desfrutar do convívio em frente à igreja. No caso da avó, ela ainda teria que superar a tarefa de fazer a janta de um tio exigente e desdenhoso dos longos anos da labuta doméstica dela. Porém, em breve, ela estaria sentada na calçada, em seu trono de vime, balançando-se nele e aguardando os demais familiares.
O sino da igreja chama os fiéis mais uma vez, talvez a última. Quem quiser se salvar que se apresse pois Deus não espera. Alguns atendem ao chamado e caminham apressados com suas roupas de domingo. Moças jovens desfilam perfumadas e de cabelos molhados, reforçando o aspecto de frescor da sua juventude recém inaugurada. As risadas e o olhar cheio de segredos mostram que a salvação ainda não as preocupa, dedicadas que estão a descortinar a vida que mal começou.
De banho tomado e sentada em meu observatório, vejo primos, tios e agregados chegando, pouco a pouco, e começarem a fincar suas cadeiras na calçada larga em frente à igreja, nos melhores assentos do teatro da vida real. Parecia uma plateia pronta para assistir ao espetáculo grandioso, mas fugaz, de apenas observar, pensar na morte da bezerra e trocar um dedo de prosa despretensioso.
Assim a noite caminha, sem pressa nem urgências, até as pessoas da calçada começarem a bocejar e irem se dispersando, pouco a pouco. Devolvem suas cadeiras para dentro da casa da matriarca, se despedem e voltam para suas casas. Quando a rua também já se mostra cansada dos transeuntes do domingo e a calçada jaz quase vazia, a matriarca se volta para mim e diz que está com sono e cansada. Começamos a guardar de volta as cadeiras que nem todos guardaram pois saíram para fazer um lanche com a promessa de voltar e não cumpriram. Recolhemos as cadeiras silenciosamente para não acordar o avô no quarto ao lado que, diferentemente da avó, dorme cedíssimo, ainda no entardecer. A ele este espetáculo não lhe apetece.
Trancamos as portas e nos recolhemos para dentro de nós mesmas.
PARTE 2
A missa campal de Natal vai começar. Minha filha adulta e eu tentamos achar cadeiras vazias em meio à cidade quase toda já sentada. Não achamos. Conformamo-nos em nos apropriar de um pedacinho de chão para assistirmos à missa em pé. O pequeno sacrifício a mais certamente nos daria mais créditos na aquisição do nosso pedacinho de céu futuro.
Olho para a calçada da avó e ela está vazia. Pelo muro vazado de pergolados de cimento, meus olhos alcançam a área interna em frente à sala. Escura, parece uma casa fantasma, austera e perdida no passado. Não fossem as flores do jardim que sei que existem pois as vejo durante o dia, diria que ninguém reside ali. Minha tia abre o portão e atravessa a rua com sua cadeira de plástico para assistir à missa campal. Fora esses eventos, as cadeiras da área não mais respiram o ar da rua ou da calçada, como outrora. Minha tia nos vê e vem em nossa direção. A missa começa e nos concentramos na salvação.
Capelinha
Por Elaine Resende
Capelinha de melão, é de São João…
Das nossas tradições, o que ficou?
As cantigas infantis ressoam na memória, um altar, relicário, família, igreja.
Capelinha, pequenina, azul e branca. Canto e coro, violão, à capela, gospel, o chamado.
Quem é Deus?
Quem socorre a nossa vida nos momentos de dor?
Um homem.
Capelinha, sinônimo de expansão de território, guerras santas, do homem tentando se impor como o mais importante ser da natureza. O homem divino, sobrenatural.
A capelinha adorada, impregnada no nosso subconsciente desde que nascemos e somos batizados, é o instrumento do homem para nos manter na linha.
Se você sai da capelinha e não age como o esperado, é a cela que te abraça. Mas antes, para chegar na capelinha, o homem disse ao outro homem que ficasse na cela, abrisse mão de sua família e de sua natureza.
A capelinha, tão bonitinha, é um instrumento de tortura de tempos imemoriais.
A capelinha é dos caras.
O desafio das três escritoras, sob a mentoria da Psicoterapeuta Claudia Nagau, foi expressar seu ponto de vista sobre a imagem em destaque. O encontro das ideias se tornou uma trindade, não religiosa, não santa, embora poderosa em sua mensagem. Publicação conjunta em 02/02/2025. Criação em 18/01/2025.