Duas da Tarde. Faltam 3 horas para te ver. Numa sequência de dez dias de espera. Penso, enquanto espero, na velocidade do tempo e no ritmo da vida. Na demora para aquilo que tanto desejamos. E no ritmo veloz quando alcançamos o que queremos. Mas já são duas da tarde. Agora, faltam apenas três horas de mais de 200 que aguardei, pacientemente. Ou nem tanto. Ainda dá tempo de sonhar? Não sei. Olho para o relógio: restam 3 horas.
Na demora do tempo que não passa, penso. Penso em você, penso em mim. Penso em nós. E projeto, como uma menina boba. Planejo ingenuamente o que falaremos um pro outro, nossos beijos e carícias. Arrisco mais um pouco e chego a sonhar com um compromisso, um anel e quem sabe até algo mais. Mas nossa, ainda faltam 3 horas!
Fecho os olhos. E quase sinto seus lábios no meu. A textura da sua pele e seu perfume. Seu sorriso e seus olhos mirando os meus. E sua expressão alegre ao me ver. Seria recíproco esse sentimento? São apenas mais 3 horas…
E me ponho a mastigar palavras. Anoto sentimentos, rabisco na tela. Tento trazer a beleza deste momento para a arte. Literatura, ou apenas tentativas de escrito de uma menina boba, ainda aprendendo sobre o amor ou a paixão? Olho para o relógio, persistente, que não me defende e diz. Calma, ainda faltam 3 horas.
Começa a chover. Gotas caem pela janela de vidro. E o céu torna-se mais escuro. A natureza se transforma, lenta, mas definitiva. Como quero que seja nosso encontro, daqui há 3 horas.
As lembranças vão longe, como pipa no céu. Lembro-me do meu primeiro beijo. E da primeira noite de amor. Da adrenalina das primeiras conquistas e descobertas… Sinto que a cada uma delas, ganhei maturidade, mas nem tanto. Continuo uma tola buscando um grande amor. Este que, quem sabe, encontro em três horas.
E uma infinidade de silêncio, angústia e ansiedade me envolve. Centro e oitenta minutos de pura solidão. Um silêncio angustiante que nada preenche. Três horas de puro pensamento. Leve, solto… Como esse texto no papel. Três horas de fluxo de pensamento.
Café para Dois
Sentada,
olho ao longe pela janela.
O cheiro de café invade —
é um misto de força
e conforto.
Alguém se aproxima…
— Já quer pedir?
Me viro
e encontro um sorriso simpático.
Prontamente respondo:
Claro!
Café para dois, por favor.
A moça olha o lugar vazio à minha frente…
Estou ali há mais de quinze minutos…
Como quem duvida do que ouviu,
ela confirma:
— Para dois?
Sim, respondo.
Sempre.
Ela se afasta,
e cenas invadem minha mente:
namoro,
casamento,
filhos,
dias tensos,
dias felizes,
momentos marcantes…
outros esquecidos.
Tantas coisas…
Tantas.
Ela volta.
Ainda não convencida,
olha o lugar vazio
e sorri como quem pensa:
“Endoideceu…”
Coloca uma xícara à minha frente,
titubeia com a outra,
mãos quase errantes.
Olho por sobre o ombro dela e sorrio
Recebo um sorriso lindo de volta.
—Desculpa, amor, me atrasei!
A moça se espanta.
— Ah, meu café…
Ele se inclina,
e me beija.
— Que bom que pediu para dois.
Olho para a moça,
ainda incrédula,
e com um certo ar travesso, respondo:
Para dois, sempre.
Franco-brasileiro
As crianças na escola ao lado ensaiam a quadrilha.
Não as vejo. Mas sei que estão lá. Pelo som.
É quase junho.
Não sei se faz sol ou chove.
Minha confusão mental.
A velocidade vertiginosa das exigências corporativas.
Neste apartamento, o toque do Teams.
Na escola, Gilberto Gil, Andar com Fé, gritos, palmas
O comando da professora ao microfone
“Ummmmmmmm”. As crianças entendem o comando. Eu não. Palmas.
A escola é franco-brasileira.
Nada barata. Mas ainda assim não de elite. Classe média alta.
Penso que os pais ficarão felizes ao ver a apresentação, os filhos.
Pais que, como eu, a esta hora, dançam outro tipo de quadrilha, em algum escritório ou home office. Qualquer.
Comandam ou são comandados?
Sofrem? Ou fazem alguém sofrer?
Normal.
Os empregos são todos iguais.
É um pior que o outro.
Não tem eldorado.
Assim como não tem príncipe encantado.
Pote de ouro ao fim do arco-íris.
Coelhinho da Páscoa.
Papai Noel.
Só as festas. De todas esses coisas que não existem.
Caipira existe.
Existe?
As crianças parecem se divertir.
Às vezes suspendem a música no meio. Então, acho que não deu certo. Teve esporro?
O-RI-EN-TA-ÇÕES
Lembro de mim, pequena, introvertida, corcunda na foto do jornal da escola.
Corcunda aos nove anos que nem meu pai.
Meu pai que só me ama se eu não pedir dinheiro a ele.
Meu pai não me ama.
E eu odiava festa junina.
Não tenho dúvidas de que alguma criança ali também está a sofrer.
CA-LA-DA
O mundo pré-formatado não tem espaço para nós, criança.
Está chegando junho. Andem, andem, temos que dançar quadrilha. Fazer festa. Junina. Mostrar para os seus pais como o dinheiro deles tem sido bem gasto aqui.
Dancem, dancem.
Porque, muito em breve, vocês nunca mais vão dançar. Ainda mais com um par.
Alegrem-se, alegrem-se.
Porque muito em breve este artigo, a alegria, será raro.
Sincronizem os movimentos, porque já já quero vocês aqui, sob meu jugo, trabalhando como um time, mesmo se odiando, fingindo alegria.
SORRIAM,
É tudo um treinamento, no final das contas.
O sinal da escola, o apito da fábrica, agora o Teams.
O bedel.
O professor.
O diretor.
Os colegas.
Os amigos.
O poder coercitivo.
E no meio….
Nós.
Nós?
EU TERIA
Eu teria velado seu sono
Passado noites sem dormir
Teria aceitado seus erros
Suas imperfeições
Teria abraçado suas causas
Me afogado em suas lágrimas
Te carregado no colo
E sonhado seus sonhos
Teria vivido sua vida
Esperado sua viagem pro outro lado do mundo
Teria sofrido, teria chorado, teria calado
Teria te amado
Se você não fosse
Oceano sem fim
Mar bravio, travesso
Ou forasteiro em terra nova
Sem rumo, sem garantias,
E certezas
Apenas fiel a si
Deixe a correnteza levar
O sol empurrou para longe o aguaceiro do dia anterior. Mas eu sabia: aquele céu limpo era só um intervalo. Chuva de verão sempre volta. Enquanto me arrumava para levar a filha ao colégio, vesti o meu uniforme de carioca despreocupada: short jeans, blusa sem mangas e chinelos de dedos.
A sombrinha dobrável foi um impulso de última hora. Não que me importasse em chegar molhada, mas havia os olhares das outras mães. Impecáveis, como se a chuva respeitasse compromissos.
Na metade do caminho, a água desabou sem aviso. O vento ameaçava virar o
guarda-chuva do avesso. Minha filha, de capa vermelha transparente, parecia uma pequena aventureira. Ria enquanto segurava o capuz inflado por cima dos cachos. Quem me dera enfrentar o mundo com essa leveza.
Enquanto caminhávamos, tudo parecia se dissolver em água: o homem apressado segurando a pasta encharcada; a senhora equilibrando sacolas e guarda-chuva; crianças rindo e pulando nas poças. Cada um lidava com a chuvarada à sua maneira. E eu? Arrastava meus chinelos escorregadios e tentava não pensar no desconforto da roupa grudando na pele.
Quando faltavam poucos metros até o portão da escola, meu pé afundou em uma poça disfarçada de buraco. O chinelo ficou para trás. Minha filha gargalhou alto ao me ver equilibrando-me em uma perna só: “Mãe-saci!” Eu ri também, mas por dentro uma irritação crescente. A sombrinha escorria água pelo meu rosto como se quisesse apagar os últimos resquícios de paciência.
Estranho… Nada de carros em fila dupla ou crianças uniformizadas correndo pela calçada em frente à escola. O portão estava fechado, trancado com cadeado. Apertei a campainha e espiei pelas grades enquanto o porteiro se aproximava devagar.
— Não viu o aviso no grupo da escola? — apontou para o celular. — Cancelaram as aulas por causa da previsão de tempestade.
Fiquei ali parada, sem saber se ria ou gritava. As mensagens no grupo… Sempre as mesmas: mães exibindo as conquistas dos filhos como troféus. Qualquer coisa importante se perdia no meio daquela enxurrada de palavras.
Minha filha olhou para mim por baixo do capuz vermelho, as sobrancelhas erguidas em triunfo silencioso: “Eu sabia que ia dar errado.” Um sorrisinho maroto escapou no canto da boca.
Suspirei fundo e engoli o palavrão que subia pela garganta. Um táxi passou direto por nós, levantando uma onda que nos fez recuar para o canto da calçada. A água fria e lamacenta escorreu pelas minhas pernas enquanto eu tentava decidir o que fazer a seguir.
— Pelo menos não tem dever de casa hoje — ela disse, com aquela sabedoria
infantil que só as crianças têm.
Fitei-a por um instante, e algo dentro de mim desmoronou — não a frustração, nem o cansaço, mas talvez aquele peso invisível que carregamos sem perceber. Dei uma gargalhada. O som se perdeu no barulho da chuva. Toquei-lhe a ponta do nariz gelado com meu dedo enrugado. Ela sorriu, como se soubesse que eu havia aprendido algo que ela já sabia há tempos.
— Vamos? — perguntei.
Ela apertou minha mão com força. Atravessamos a rua em direção à lanchonete da esquina. O chinelo perdido ficou para trás, junto com a escola vazia. Só a chuva incessante insistia em cair sobre nós.
Aprendi
Aprendi que muitas vezes nada vai mudar. E que mais importante que insistir, é saber aceitar e ter paciência.
Aprendi que presentes não são promessas. E que não se deve esperar mais do que as pessoas podem dar.
Aprendi que tudo é questão de tempo. Apesar de tantas vezes a sensação é de que demora para passar…
Aprendi que não devemos ter vergonha daquilo que somos. E que nos assumir é questão de compromisso com nosso próprio eu.
Aprendi que não devemos julgar os sentimentos dos outros, especialmente o amor. E que não se deve ter ciúme do outro, mesmo sendo tão difícil.
Aprendi que o silêncio pode ser nosso melhor amigo. Mas que devemos saber a hora de gritar. E dizer NÃO!
Aprendi que, por mais clichê que pareça, nunca é tarde para amar. Para sonhar. E para realizar.
E aprendi, antes e acima de tudo…
Que escrever é fácil, meu amor.
(Quisera saber de tudo isso mais jovem. Quisera ser capaz, de agora mais madura, conseguir tirar as palavras do papel)
Zap
Antigamente, dizem, eram os escritores, a folha em branco e o escrever à mão.
Então, veio ela, a máquina de escrever, e os escritores passaram a sentar-se à mesa, graves, para redigir seus textos.
Depois, chegou o computador e lá vemos o escritor e a batida figura do sofredor em frente à outrora folha, agora tela, mas, sempre, o branco.
Um cursor que pisca.
O estereótipo do que é ser escritor.
O imaginário.
Que pensa no escritor no masculino.
Um homem.
Nunca uma mulher.
Embora existam tantas escritoras
Ainda que menos de uma dezena vencedora do Nobel.
O Nobel… um prêmio criado por quem ganhou a vida com a pólvora.
A Clarice… que redigia com a máquina de escrever no colo… Para ficar próxima dos filhos.
Inventei ou será verdade?
Eu, que hoje escrevo no aplicativo de mensagem.
Sem som.
De mim para mim mesma.
Perdendo tudo num toque errado.
Sem oportunidade de undo.
Única chance.
Contemporânea?
Fugaz…
Deixar ir
O amor deixou marcas em mim
Tatuagens desenhadas em mim
Como as lembranças que você deixou
No fundo de minhas memórias
E que preciso deixar ir
Preciso deixar ir
Sua presença pendurada naquela parede
E nos álbuns que colecionávamos
Teu cheiro até mesmo na poeira da casa
E em tudo que sonhávamos construir
Tudo isso que eu
Preciso deixar ir
Ah, preciso deixar ir
Promessas quebradas
E um porta-malas
Com apenas o que restou
São sobras materiais calculáveis
E todo o resto
Ah, todo o resto
Preciso deixar ir
Ah, eu preciso
deixar
Resposta a Rupi Kaur
Amar é fazer sentir-se segura?
Aceite o meu amor,
sou grata,
e só.
Não precisa retribuir,
não precisa se esforçar,
não precisa projetar nada
Como uma promissória
disfarçada de afeto.
Essa pergunta
não pode ter resposta
Não há garantias
além do agora,
do instante.
Nem você pode construir
seu castelo
com a minha mão de obra.
Posso deixar de te amar
no próximo dia,
ano,
década,
ou até mesmo nunca.
Não sei,
não sabemos.
Por isso,
só por hoje,
aceite meu amor.
E não espere promessas —
é tudo o que temos:
o agora,
já que o amanhã
pode nem ser…
Erros acertos
Quero escrever tudo errado.
Ser hoje dadaísta.
E amanhã também.
Para horror dos que me olham do alto
Achando que eu não sei
Quando, na verdade, não me importo
Já que tamanho cuidado é mero disfarce de exercício de poder vazio.
Improdutivo.
Elitista.
Segregador.
Velho.
Já escrevia em 1925 (!), Oswald de Andrade:
Pronominais
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.
1925!!!
Há cem anos.
Direto do túnel do tempo.
Eu, que sempre me orgulhei do meu bom português
Na boa, tô mais com a juventude
que escreve tudo em minúsculas
Estão livres
A juventude…
Q td abrevia
Estão livres
A juventude, com seu dialeto próprio
Livres
Que os obsessivos compulsivos do português se roam
Abro espaço pro erro proposital
Autoral
