É por amor

É por amor que você acorda de madrugada para preparar a merenda do seu filho na escola, ou o almoço no trabalho.

É por amor que você fica em um emprego ruim de salário ou benefícios, mas que te preenche no seu sentido de bem-estar social.

É por amor que você perdoa alguém que agrediu uma pessoa que você ama. Afinal, o agressor pode ser uma pessoa também importante pra você, nessas incoerências da vida.

É por amor que você busca um ente querido na cadeia, mesmo que saiba que ele é culpado.

É por amor que você empresta dinheiro, mesmo inseguro.

É por amor que você se rasga, se entrega, se arrisca. E quando se dá conta, está no IML segurando a mão de alguém que está com medo e você acha que pode ajudar, mas na primeira oportunidade que tiver, vai te despedaçar sem dó.

É por amor que nos dedicamos às pessoas, nos entregamos a elas, damos sucessivos votos de confiança, mesmo sabendo que em algum momento elas vão nos decepcionar.

É por amor que damos passos inseguros, mas tentamos recomeçar a vida a dois, mesmo depois de vários traumas.

É por amor que atravessamos vários cansativos quilômetros, para estar perto de nossos familiares.

E se é por amor, por amor mesmo, vale à pena, vale à luta, vale o risco, vale a alma.

Mesmo que não consigamos enxergar. Que dê raiva do outro. Ou até de si mesmo.

Não existe amor sem entrega. E entrega, ah, a entrega…

Ela é sempre incerta, e por tantas vezes, ingrata.

Tenha consciência, tenha paciência.

A vida é inexata.

(Jamais se arrependa do amor que você deu. Ele não foi só ao outro, ele foi por você, tentando ser um bom sujeito)

Te avistei novamente, Amor!

Se não fosse pela algazarra do fundo do ônibus, eu teria perdido a chance de te ver. De esquecer realmente o seu rosto, já que nem seu nome eu sei. 

Me senti absurdamente feliz e com aquele sentimento de paixão à primeira, segunda e terceira vista.

Te vi e você me viu. Te procurei e seus olhos me acharam. 

Eu quase sorri.

Achei que poderia ser demais. 

Minha vontade era manter a sua expressão facial como meu calmante, como energético e como estimulante.

Pode ser loucura da minha cabeça, mas eu acho que nossos meio-sorrisos se encontraram. Pelo menos duas vezes.

Imagino como seja o tom da sua voz, mas devo me surpreender quando finalmente te ouvir.

Por enquanto, fico apenas com a foto mental e a expectativa de te ver de novo.

Busca

Busco sem cessar
Aquilo que fui chamada para gerar
Ainda não sei o que será
Mas sinto que perto está

Quero crescer
Não se pode o tempo perder
Temos esse poder
De fazer alguém florescer

Creio que vou conseguir
Pois o que mais sei é resistir
A dor física não vai me impedir
De um novo futuro construir

Temos sempre um Senhor
Que peleja em nosso favor
Com Ele vou seja aonde for
Para anunciar o seu amor

Precisei

De um tempo pra pensar
De muitas noites de sono
De colo, de carinho
De amigos, de amores
De provar novos sabores
E remédios pra tantas dores…
E precisei me curar

Precisei
Aprender dizer não
E precisei ser forte
Negar desejos
Assumir ensejos
Virar-me do avesso
Recomeçar do chão

Precisei amor, acima de tudo
Bloquear, desamar
Esquecer, recusar
Ser firme, ser dura
Ficar muda
Me amar

AMOR DE CARNAVAL

“Amor de carnaval desaparece na fumaça, saudade é coisa que dá e passa… “
A marchinha de carnaval diz assim, mas eu conheci um rápido amor de carnaval que deixou uma saudade pra sempre.
Paul era o seu nome. Americano, turista, mal falando o Português e conseguindo se comunicar melhor em Espanhol.
Eu, recém saída da adolescência, exibindo em meus 18 anos uma vontade louca de encontrar um amor.
Éramos uma turma de 10 amigos, dançando e desfilando pelas ruas do Rio.
As escolas de samba se apresentavam ali perto e o samba nos embalava e enchia de alegria.
De repente alguém tocou no meu braço. Olhei e vi um rapaz muito bonito me pedindo uma informação, ou será que tanta beleza era só eu mesma que via? Tentando se comunicar comigo, experimentou o inglês, mas eu não era boa nisso e acabamos no Espanhol, um pouco aportuguesado.
Paul, logo entrou na nossa turma e se tornou amigo de infância de todos nós.
A noite, pelo menos para mim parecia ter horas a menos que o normal, pois foi tão curta. Pulamos carnaval, sambamos, conversamos e nos divertimos muito.
O dia amanheceu e com ele trouxe a despedida. Um abraço apertado, um beijo rápido e o nosso encontro acabou.
Naquela manhã Paul voltou para sua Terra e nunca mais nos vimos.
Até hoje, muitos anos depois, ainda guardo esta lembrança linda de um breve AMOR DE CARNAVAL.

AMOR DE CARNAVAL

“Amor de carnaval desaparece na fumaça, saudade é coisa que dá e passa… “
A marchinha de carnaval diz assim, mas eu conheci um rápido amor de carnaval que deixou uma saudade pra sempre.
Paul era o seu nome. Americano, turista, mal falando o Português e conseguindo se comunicar melhor em Espanhol.
Eu, recém saída da adolescência, exibindo em meus 18 anos uma vontade louca de encontrar um amor.
Éramos uma turma de 10 amigos, dançando e desfilando pelas ruas do Rio.
As escolas de samba se apresentavam ali perto e o samba nos embalava e enchia de alegria.
De repente alguém tocou no meu braço. Olhei e vi um rapaz muito bonito me pedindo uma informação, ou será que tanta beleza era só eu mesma que via? Tentando se comunicar comigo, experimentou o inglês, mas eu não era boa nisso e acabamos no Espanhol, um pouco aportuguesado.
Paul, logo entrou na nossa turma e se tornou amigo de infância de todos nós.
A noite, pelo menos para mim parecia ter horas a menos que o normal, pois foi tão curta. Pulamos carnaval, sambamos, conversamos e nos divertimos muito.
O dia amanheceu e com ele trouxe a despedida. Um abraço apertado, um beijo rápido e o nosso encontro acabou.
Naquela manhã Paul voltou para sua Terra e nunca mais nos vimos.
Até hoje, muitos anos depois, ainda guardo esta lembrança linda de um breve AMOR DE CARNAVAL.

Me dê meu chocolate, minhas rosas e meus direitos!

Neste ano, o Dia Internacional da Mulher me trouxe um sentimento incômodo que ainda não consegui nominar com precisão (sentimentos são precisos?). Talvez até o final deste texto que ora inicio, eu encontre um punhado de palavras que façam jus ao que vem me habitando nesses dias.

Estou ficando velha. O algoritmo da rede social não para de me enviar vídeos sobre maquiagem para peles maduras. E o pior é que eu assisto ao vídeo que puxa outro, depois outro e mais um… Ou seja, eu mesma dei “cabimento” e deixei a rede social me lembrar o que o espelho já me disse mas que eu, conscientemente, lhe faço ouvidos moucos. À parte desse recorte sobre as peles maduras e os artifícios para deixá-la mais jovial, como um pêssego recém-colhido, a velhice (ou maturidade) me tem trazido inquietação para repetições e mesmices que rondam o Dia Internacional da Mulher. Os mais jovens dirão que sou cringe por conta da frase a seguir (acho que os mais jovens mesmo nem usam essa palavra porque, se usarem, são mais cringes do que aqueles aos quais eles queriam se referir). Mas preciso dizê-la: estou com “ranço” das homenagens às mulheres que apenas reforçam o quanto somos amorosas, dedicadas e meigas. Ou, pior, que somos “guerreiras”. E nos presenteiam, ao fim, com rosas ou chocolates. Lá estou eu no começo da fila para receber meus mimos. Quero todos. Sou mesmo amorosa (às vezes). E não queria precisar ser guerreira. Mas o que eu queria mesmo…. não se providencia e se entrega em uma homenagem de meia hora (ou um post na rede social) com um script repetido ou “inovado” pelo discurso via chat GPT…

Quero todas as homenagens e reconhecimentos para as mulheres. Hoje. Todos os dias. Quero que o marco de resistência do nascedouro da data nos lembre a todos que o Dia Internacional da Mulher não e só para os empresários venderem rosas e chocolates. Comprem nossas rosas, chocolates, maquiagem e perfumes que adoramos. Mas reflitam e, principalmente, ajudem a mexer no vespeiro da estrutura da sociedade que oprime e cerceia os direitos e oportunidades para as mulheres.

O mesmo conhecido que publica homenagens à esposa nas redes sociais é aquele que lhe atribui a total responsabilidade pelos afazeres domésticos, impedindo-a de construir algo individual fora do seio familiar. A mulher que publica uma frase de homenagem às mulheres é a mesma que cria sua filha dizendo o que ela não pode fazer em contraste com a criação do filho homem, onde o céu é o limite. A empresa que faz a propaganda de que “as mulheres podem estar onde elas quiserem” é a mesma que não tem política concreta de equidade de gênero e que segue com uma maioria esmagadora de homens em posições de comando. A empresa moderninha que divulga uma seleção para escolha de mulheres (para aumentar a quantidade delas em seu quadro) é a mesma que vai remunerá-la menos para executar a mesma atividade feita pelo colega homem. A sociedade com números recordes de feminicídio e que diz que as mulheres não devem se considerar culpadas mas sim vítimas e que, por isso, não devem se envergonhar é a primeira que julga a vítima e a põe, via de regra, em posição de quem quer tirar algum proveito na vitimização. O homem que diz que sua companheira é livre para terminar o relacionamento é o mesmo que abandona os filhos quando a companheira, de fato, resolve seguir sua vida sem ele. O gestor que é compreensivo com a mãe trabalhadora que precisa se ausentar para cuidar de um filho doente é o mesmo que critica o subordinado homem que faz o mesmo porque, se a criança tem mãe, por que o pai é que tem que cuidar dela? Quando publicam matérias enaltecendo mulheres em papéis importantes de comando, ao invés de exaltarem o feito, para mim, soa como se isso fosse extraordinário, quando, na verdade, deveria ser normalizado.

O machismo não prejudica apenas as mulheres.

Este texto não é uma cruzada contra os homens nem contra ninguém. É mais um desabafo em cima de um recorte dos problemas estruturais que oprimem às mulheres desde sempre e que, no Dia Internacional da Mulher, são camuflados de rosa e adornados com bombons.

Pronto, falei.

Infelizmente não consegui definir as palavras certas para cravar meu sentimento. Vou ficar devendo essa. Agora peço licença a vocês que me leram até agora e, de mãos dadas com meu cansaço, indignação e inquietação, vou comer meu chocolate enquanto espero o próximo Dia Internacional da Mulher para voltar a enviar mensagens de homenagem às irmãs. Esse ano não vai dar.

Espelhos (in)finitos


Foi nesse labirinto de imagens dentro de imagens que ela paralisou
As imagens levavam a uma descida íngreme, vertiginosa
Ao seu lado, pessoas desciam de forma rápida, desatentas, quase hipnotizadas
Seria eu Alice
Perdida e achada
Em discretos Intervalos de mim mesma?
O último minuto passou em horas (…)
Como pode me iludir, senhor tempo!?
Coragem
Decidi voltar
Na contramão
No contrafluxo
No contra tudo
Causando estranheza e indiferença no caminho
Solidão!
Ei, uma luz
Céu azul
Árvores
Espaços
Chão
Escuto um som forte
Das entranhas
Até então esquecido
Seja bem-vinda
De volta!

Explode

Numa madrugada de quinta
Acordo suavemente
E me pergunto
Quantas horas faltam?
Para pedir demissão deste emprego
Mudar da cidade
Voltar para as aulas de teatro
Ousar tentar uma nova carreira
Ou finalmente ter um filho
Em uma madrugada fria
Me espanto
Com os rumos da vida
E os desencantos
Os sonhos que foram pra frente
E os que se tornaram pesadelos
Poderia ter sido diferente?
Ainda da tempo de mudar?
Neste madrugada, o sono não bate
E são tantas perguntas
Que explode o peito

Hoje é dia de Rock, bebê!

Havia um tempo que Mirella se sentia mal. Dor nas costas, nos joelhos, nos cotovelos, na planta do pé, na raiz da vida. Uma árvore na floresta urbana sendo carcomida pelos cupins.

Exagero!

Mirella era uma boa vida, classe média burguesinha, burguesinha, burguesinha… só no filé. Se vestia com as marcas da moda e nem comprava nos tempos de outlet, era sempre a roupa da estação. Gostava da exclusividade, tinha carro, mas preferia ter motorista particular. Performava uma simplicidade estudada, para se sentir menos deslocada em alguns dos seus locais habituais. Na vida, dançava bem qualquer música, mas preferia rock.

Naquele dia, as dores típicas da idade (que não aparentava, glória ao combo santo academia+proteína+botox) estavam prostrando suas intenções. A noite tinha show da sua banda favorita, não ia faltar, comprou os ingressos com seis meses de antecedência. Vestiu a jaqueta de couro e foi se aconselhar com seu oráculo.

A mãe era apenas vinte anos mais velha que a filha. Ostentava a beleza das mulheres vaidosas por vocação e mistério divino. Crescida em outros tempos, conhecia as maravilhas que um bom chá e um pouco de oração podem fazer.

Mirella foi para o trabalho desatenta, pensando no chá com oração e… no que estava pensando mesmo? Esqueceu. Entrou no escritório batendo os saltos da bota preta no piso flutuante, quando foi pega por uma tontura sabe-se lá vinda de onde. Repassou o café da manhã, acreditou seriamente que a última dieta deveria ser a causa de seus problemas. Tomou um café preto com açúcar e umas nozes que estavam na marmita. Precisava de açúcar, devia ser isso.

Abriu a mochila, pegou o laptop e, cadê a fonte? A cabeça ainda girava, lembrou do chá com oração, da falta de açúcar no café, da tontura, agora a bateria. Se o dia continuasse assim, precisaria de um exorcismo. Catou o mouse na bolsa, tentou lembrar de algo, que não era a fonte, mas que era importante para esse dia. Deixa pra lá! Foi quando num movimento muito rápido sentiu as mãos formigarem e uma dor no pulso que a fez se encolher.

Estava morrendo!

O sangue não circulava direito, por isso esquecia as coisas e as extremidades formigavam, e tinha a tontura. Foi a primeira a chegar no trabalho, morreria sozinha em meio a divisórias navais cor de sorvete derretido. Interfonou para a portaria do prédio, antes que faltasse o ar e não pudesse mais falar.

Os bombeiros do prédio chegaram rapidamente, notaram sua palidez e já estavam prontos para chamar o SAMU quando Mirella demonstrou uma melhora súbita. Não tinha mais o aspecto cadavérico de antes, agora parecia muito com ela mesma todos os dias. Estava bem! Seria essa a lua de mel antes da morte?

Mandou um recado para o chefe pelo app de mensagens, recolheu suas coisas e foi para o hospital. De jeito nenhum ela iria para o céu naquele dia! 13 era seu número de sorte, e julho é o mês do rock. Ninguém tinha direito de morrer nessa data!

Uma médica de óculos fundos, pele um pouco flácida, e cabelos presos que gostariam de estar soltos, pergunta a Mirella quando começaram os sintomas. Ela não consegue responder, irrompe num choro nervoso, fungando, engasgando e falando palavras incompreensíveis sobre morrer, rock, árvore solitária e cupins.

É a Menopausa.

O choro estacou num corte seco. Limpou o rosto na barra da saia, chocada. É o que? A médica parecia pronunciar em câmera lenta: M E N O P A U S A. Arrastava a palavra, a língua em repouso, os lábios batendo e se abrindo num grande AAAAAA. Menopausa. Os olhos arregalavam acompanhando sem entender. Era jovem demais para isso.

Milhares de exames e um calmante depois, recebe no celular a mensagem da mãe: “filha, não esquece! toma chá de amora, é ótimo para curar esse calor que você tá sentindo. Lembro bem da minha menopausa, foi terrível. Hahahaha, bem vinda ao clube!” Mirella sentiu o ódio subir a cabeça, a onda de tontura, a vontade de gritar e jogar o celular na parede. Era esse o chá! Estava em choque, por isso não lembrava?

E a oração? – pergunta para a mãe. Recebe de volta: “hatha yoga, para acalmar”. Ah! Outra mensagem da mãe apita no celular: “e o show, vc ainda vai?” Tarde demais. O calmante deu um soninho bom, ela não se sentia relaxada desde… Não deu tempo de agradecer a mãe pela ajuda. Dormiu como um bebê.

Malhar


Ano novo. Tô aqui tentando correr atrás do prejuízo. Agarrei-me como pude às promessas feitas e contratei um plano que permite malhar em várias academias. (Para os 30 menos, malhar é o mesmo que treinar. Rsrs)

Meu cérebro acha que a inscrição na academia é suficiente para melhorar a saúde, meus músculos, não. Eles sabem que precisam trabalhar se quiserem ver os benefícios da atividade física.

Nesse início tá mais difícil. A demanda constante dos filhos pré-adolescentes é a desculpa perfeita para não entrar na rotina de treinos. Quando a gente quer, qualquer coisa serve pra se enganar.

Um mês já se foi. Consegui me manter firme nessa busca. Todo dia recito o mantra: “só por hoje vou malhar”!