Ruas nuas

Saio pelas ruas nuas da cidade
Ruas tristes, sem vida
Onde estão as crianças correndo?
Onde estão as matriarcas nas janelas
vigiando as filhas das vizinhas e não suas filhas sempre castas?

Saio pelas ruas nuas do bairro
Com meu cachorro a passear
Só encontro carros  
E lixo em latões revirados
Pelas calçadas espalhados

Corpos estirados
Dormindo nas calçadas
Ruas tristes
Árvores cortadas
Fios emaranhados
Vidas emboladas
Encolhidas em suas casas

Corro pelas ruas
Todas nuas
Sem gente

As árvores me falam  
Que o tempo passa devagar
Mas passa para todos
Para elas dias são como brisas
Passam levemente
Quando se dão conta
Estão diferentes
Uma hora frondosas
E noutras estão nuas
Como as ruas

Passeio pelas ruas
Pensando
Se alguém me observa
Como eu observo as coisas
Se alguém passa por essas ruas
Com o mesmo sentimento
De que estão nuas
Despidas da vida
Que outrora aqui passava

Ruas são as veias da cidade
Entupidas de carros,
vazias de amor

Onde estão os casais se beijando apoiados nos muros?
Pulsam lentamente
Reflexo de uma sociedade agonizante.

Salvemos as ruas.
Ocupemos as ruas!

Precisamos vestir as ruas de alegria
Preencher os espaços sociais
Convivência de diferentes
Ensinar crianças a pular amarelinha,
Brincar de garrafão e pique bandeira.
Bento-que-bento-é-o-frade!

Precisamos deixar a vida escorrer pelas ruas.

Atrás da Porta


Oito horas da noite em ponto. Toca a campainha do meu apartamento: 304. Meu coração bate acelerado. Sei que é você.
Corro até a porta e vejo seu rosto pelo olho mágico. Inquieto e curioso, parece olhar para mim do lado de dentro.
Recuo assustada.
Uma mistura de sensações toma conta de mim no que parece ser uma eternidade, mas provavelmente é um milésimo de segundo. Ansiedade, medo, desejo, adrenalina. Tudo junto, ao mesmo tempo.

Nos conhecemos há pouco mais de um mês e tivemos dois rápidos encontros. Você precisou viajar para visitar a família e ficou algum tempo longe.
Tentei contato contigo algumas vezes, mas as respostas foram monossilábicas.
Fiquei frustrada. Saí com outros.
Mas dentro do meu coração, um nome ecoava. O seu.
E de noite perdida em sonhos, lembrava-me de cada parte de seu rosto.
Até que fiquei sabendo de seu retorno e não resisti: te chamei.
O que, para minha surpresa, gerou uma conversa e a marcação de um novo encontro.

A campainha toca outra vez. Não dá tempo para ficar relembrando nosso curto passado. O presente está atrás da porta e tem nome: Marcelo.

Pântano

Um pântano viscoso permeado de armadilhas em espiral, que rodopiam incessantemente. Dança traiçoeira seduz e sorrateiramente envolve com seus ágeis tentáculos, até que seja impossível escapar desse embalo perturbador.

Lá o sol aparece de forma tímida, somente quando é insistentemente invocado. E sua aparição efêmera praticamente não interfere na composição daquele estado. As bússolas não funcionam. Na há aonde ir.

Sinos simbilam em um cadenciamento desconsertante. Ecoam velhas vozes escondidas que se agarram com suas mãos pegajosas. Dor latejante. Dor complexa. Gargalha sem pudor. Sem um fio de misericórdia. Atordoa, maltrata, cala.

Ah! Aguilhão afiado. O olhar se perdeu. Caiu. Submergiu. Medos semeados brotam trazendo silêncio e cinzas. Tão petulantes riem um riso febril, entorpecedor. Tecem teias invisíveis e traiçoeiras.

Um lamento antigo vagueia trôpego sem destino certo. Solitário, chora contido. Chora cabisbaixo, ansiando por um novo destino, por uma metamorfose.

É bem certo que as estações sempre mudam. Poderá um dia o pântano ser transmutado.

Ansiedade

É o que eu sinto ao acordar todos os dias.
Ao sair para o trabalho.
Ao andar pela estrada.
E ao respirar fundo.

Pode ser falta de exercício mas nunca será por não ter o que fazer,
Será que eu ainda consigo respirar tranquilamente?

A vida é feita de escolhas,
Mas será que estamos preparados para escolher o nosso trajeto?
Será que uma decisão tem que ser a mesma pelo resto da vida?

Sou uma mente curiosa,
Cansada,
Enlouquecida
E ansiosa.

Sou a alma procurando um abrigo
Buscando a resposta
Do que está por vir.

Nem tão crescida assim

Luci acordou muito cedo naquela manhã, como na maioria dos dias. A claridade atravessava a cortina de voal e dançava sobre sua cama. Ainda sonolenta, ouviu o canto dos passarinhos lá fora e sorriu. Perguntou-se se estariam nas árvores ou em alguma gaiola dos vizinhos. Embora fosse maravilhoso ouvi-los, angustiava-se com a segunda alternativa.
Como devia ser triste viver aprisionado. E, ainda assim, cantavam…
Ouviu o barulho do chuveiro. Alguém acordara antes dela? O alarme do celular sobressaltou-a. Nem precisava mais dele para acordá-la. Estava aposentada e podia levantar quando quisesse. Além disso, a luz do sol e a cantoria dos bem-te-vis faziam o mesmo trabalho. Hábito de tantos anos acordando cedo para trabalhar.
– Seis horas, vó? – Júlia saiu do banheiro, vestida em seu roupão de banho rosa, com o cabelo ainda pingando e o cheiro de shampoo de frutas vermelhas invadindo o quarto.
– Sim. Seis horas em ponto. Chama logo a sua mãe. Vocês dormiram muito tarde ontem. Vão se atrasar.
– Não se preocupe com a gente, vó! – ela se exasperou. – Para com essa mania de controlar tudo. Nem sei pra que põe alerta no celular. Pode voltar a dormir, dona Luci!
Deveria mesmo dormir até mais tarde e deixá-las cuidarem da própria vida, pensou consigo mesma. Júlia tinha completado 15 anos. Estava mais independente, sem paciência.
Ainda a enxergava como uma criança e se assustava com essas reações.
– Olha como essa menina fala comigo – reclamou quando a filha enfiou a cabeça na porta de seu quarto, a caminho do banheiro.
– Você nunca foi adolescente, mãe? – Suzana perguntou com a voz rouca de sono.
Luci balançou a cabeça e respirou fundo. Imagina se ia admitir que tinha sido uma garota rebelde e respondona. Engoliu a repreensão que acabara de receber. Das duas. Depois dos sessenta, percebeu que o tratamento delas mudara um pouco. Talvez a culpa fosse sua por tratá-las como crianças.
Sentada na cama, abriu o Kindle e continuou a leitura do romance que havia
começado ontem. Estava apertada, mas não queria interditar o único banheiro do apartamento. Deu um tempo para as duas se arrumarem. Logo desistiu e fechou o livro. A mente ainda estava processando este novo papel na vida delas.
Será que esta fase adolescente ia demorar muito a passar? Que saudade sentia de abraçar e cheirar a neta. Tão cheia de não-me-toques. De vez em quando, Júlia permitia algum contato físico. Aceitava cafuné, cheiro no pescoço e, às vezes, até a chamava para dormir agarradinha. Suzana estava sempre correndo, do trabalho para a faculdade. Elas tinham uma vida própria e já não precisavam tanto de sua assistência.
Lembrou-se do dia em que Júlia engatinhou, depois ficou de pé e começou a andar, segurando nas coisas. Ligou para a filha e contou a proeza. Ainda não havia celulares que tirassem fotos e gravassem vídeos. Suzana chorou por ter perdido este momento tão especial, que fora reservado para a avó. Sempre tão focada no trabalho, desde cedo. Queria ter sido mais presente, mas a vida lhe exigia trabalhar para sustentar a casa.
Foi Luci quem curtiu cada momento com Júlia. O primeiro dentinho. O primeiro tombo da bicicletinha. A ida para a escolinha. Ela já sabia, naquela época, que logo a neta iria crescer e a deixaria fora de sua vida. Ainda assim, não foi aquele tipo de avó à moda antiga.
Não fazia bolos nem quitutes. Bolinhos de chuva, de vez em quando. Não contava histórias para dormir, mas adorava ficar deitada, ao lado dela, cantarolando baixinho, até adormecer.
Às vezes, Júlia a chamava de mãe. Ela ficava repetindo: “É vovó!”.
Os pensamentos foram interrompidos com os gritos de “Tiau, vó!”, “Tiau, mãe!”.
– Deixa que eu fecho a porta! – gritou de volta – Boa aula, bom trabalho!
Mãe e filha desceram as escadas apressadas. Atrasadas. Luci acompanhou, pela varanda do apartamento, quando entraram no carro. Hoje esqueceram de acenar para ela.
Voltou para dentro. Finalmente tinha o banheiro só para si. O apartamento todo, aliás. Mas não ia voltar a dormir, como Julia recomendou. Como uma autêntica avó moderna, tinha seus compromissos e afazeres. Trocou-se rapidamente e saiu para a aula de Pilates perto de casa.
No caminho de volta, passou no hortifrutti e trouxe frutas e legumes. Depois de uma chuveirada, tomou café coado puro e com panqueca de banana e aveia. Tinha alguns e-mails para responder e contas a pagar no aplicativo do banco. O restante da manhã trabalharia no blog sobre a vida após a meia idade.
A expressão “no tempo de minha avó” soava estranha para ela, escreveu no rascunho de um novo post. Seu tempo era hoje! Tempo de aprender os segredos da tecnologia responsável, de despertar em sua neta a consciência ambiental, e outras coisas fundamentais neste mundo conectado.
Depois de um tempo, interrompeu a escrita e foi preparar o almoço. Legumes
assados na airfryer e macarrão ao alho. Enquanto cozinhava, ouvia uma entrevista no podcast sobre “avoternidade”. A voz da terapeuta ecoou no seu fone sem fio: “Só aprendemos a ser pais e mães depois que somos avós”. Uma faísca acendeu! Será que era porque, com os filhos crescidos, a gente se avaliava e percebia que dava para ter feito melhor?, perguntou-se.
A terapeuta continuou a reflexão, e ela se flagrou concordando. “Parece que o
carinho que não demos aos filhos quando eles cresceram fica estocado e implora para ser esgotado nos netos, antes que eles também alcem voo.” Será que estava exagerando na dose de amor? Suzana outro dia brincou: “Ser avó é melhor que ser mãe, né?” E ela, sem pestanejar, respondeu: “Milhões de vezes melhor!”. Sem peso na consciência! A experiência a fizera mais paciente, flexível, leve. Ser avó a reinventou!
Não sabia se estava preparada para o dia em que a filha resolvesse ir embora. As duas vieram morar com ela desde o divórcio. Lembrou-se da discussão acalorada que antecedeu a mudança. Suzana expulsando o ex-marido, enquanto Júlia chorava, agarrada à boneca de pano. Sentiu-se impotente, dividida entre o desejo de protegê-las e a necessidade de deixá-las seguir os próprios caminhos.
Ficava admirando-a se arrumar para sair, no final de semana. Escovava os longos cabelos castanhos, maquiava-se e colocava uns enormes brincos de argola. Ela era uma mulher ainda jovem e muito bonita. Logo encontraria um novo parceiro.
Júlia já pensava em intercâmbios fora do Brasil e planejava morar sozinha, depois da faculdade. Daqui a pouco, a casa ficaria vazia. Sem som alto para mandar abaixar. Tudo arrumadinho no lugar. Cesto de roupa vazio. Fogão brilhando. Nenhuma toalha molhada sobre a cama. Nem tênis espalhados pelo chão. Silêncio. Nem vozes, nem gritos, nem risadas.
Ninguém para cobrir durante a madrugada.
A entrevistada no podcast divagava sobre a onda de idosos redescobrindo o mundo:
“Mercado de trabalho, universidades, academias, cursos de arte… uma busca frenética para preencher o vazio, para provar que ainda existem, que a vida não acabou!”. Engoliu em seco essa constatação. Manter-se ocupada evitava a lembrança de que a solidão podia bater à porta a qualquer momento.
Terminou o preparo do almoço e voltou ao rascunho. Aproveitou as ideias do
podcast e as elucubrações de sua mente. Publicou o post no blog, compartilhou-o nas redes sociais e respondeu a alguns comentários. E lá se foi mais uma manhã de uma avó aposentada que não queria voltar para a cama e dormir até tarde….
A campainha tocou. Julia esqueceu a chave outra vez. Não precisava mais buscá-la na escola, como antes. Já andava de ônibus, sozinha, há algum tempo. Ela entrou em casa dançando, jogando os longos cabelos cacheados de um lado para o outro. Misturava passos de balé, sapateado e jazz, em uma coreografia surreal. Cantava, imitando Magal: “Vooó, eu te amo! Vooó, eu te amo, meu amor! Vooó, eu te amo! O meu sangue ferve por você!”.
Por um momento, Luci teve a impressão de que ela era criança novamente. E seguiu atrás rebolando o melhor que conseguia. As dores na coluna se ressentiram, mas as ignorou.
Júlia ligou a câmera do celular e filmou a avó grisalha, de short e camiseta, rodopiando pela sala. Uma cena hilária, mas gratificante.
– Não vai postar isso, hein! – Caiu na gargalhada. Aquela alegria contagiante era a sua terapia.
Não demorou muito tempo, porém, para a casa revelar a presença de uma
adolescente. Havia vestígios de Júlia em todos os cantos. O All Star jogado no meio da sala, livros e cadernos esparramados na mesa da sala, o cheiro adocicado de seu perfume no ar.
– Que bagunça, Júlia! Quanta roupa espalhada! Que inundação neste banheiro!
Deixou a mochila no chão outra vez! Essa menina é fogo! – exclamava, em um misto de irritação e ternura.
– Eu vou arrumar tudo depois! Relaxa, dona Luci! Não tem episódio novo da sua série, não? – o sorriso travesso escondia a irritação.
Luci pensou nas palavras da terapeuta, no podcast. Não queria se tornar uma idosa sozinha e triste. Talvez até fosse um daqueles passarinhos que cantavam, pela manhã. Mas não os sozinhos nas gaiolas. Pensando melhor, deu-se conta de que a bagunça da neta era a presença viva e real dela em sua vida. Melhor do que casa vazia e arrumadinha.
Júlia já estava crescida e não precisava tanto de ajuda, suspirou satisfeita. Podia conviver com sua bagunça temporária. Puxou o sofá retrátil da sala e se espichou para assistir ao novo episódio de Star Trek Discovery. Despreocupada, apertou o play do controle remoto.
Mal iniciou o episódio, o grito veio lá do quarto:
– Vó, tô cheia de fome! Fez a batata frita que eu pedi? Podia fazer um suco de
morango, né? Cadê aquela minha camiseta azul? Vó, costura esta bermuda para mim?
Nem tão crescida assim…

Sou Denise Gals, professora, escritora e mediadora de leitura. Passei da metade da vida há alguns anos. O tempo é passageiro. Não quero perder tempo com coisas que não me ajudem a ser alguém melhor. Não sou perfeita e não preciso ser.

Quero que a segunda metade de minha vida seja para aproveitar o máximo os momentos. Viver sem arrependimento, apreciar o que é importante e me concentrar nisso.

Estou aqui para escrever sobre saúde e bem-estar, estilo de vida, projetos de escrita e leitura, sobre como se redescobrir, experimentar e prosperar após os 60 anos.

Nunca serei mãe

Soa um pouco pesado essa frase: nunca serei mãe. Mas refletindo sobre o tema, me dei conta de que é a mais pura verdade. Além de já estar com a idade um pouco avançada para isso, falta pra mim suporte e o mais importante: um parceiro para esta empreitada.

Nunca verei minha barriga crescer. E a emoção de ter uma criança indefesa em meus braços.

Ver as primeiras lágrimas de alguém. E seus primeiros passos na vida.

Acompanhar seus aprendizados. E suas decepções também.

Poder ver nos olhos de outra pessoa, um pouco de meu olhar. E transcender.

Posso projetar essa ausência em outros. Meu irmão mais novo, meu sobrinho.

De nada vai adiantar.

Porque não é carnal, não e visceral, não é um ser que saiu de mim. Do meu ventre. Que corre em suas veias, meu sangue.

Refleti sobre tudo isso ao conversar com um amigo que me disse: “minha filha é a pessoa mais importante da minha vida”.

Já ouvi isso antes, de outros homens e mulheres. E durante um tempo, contestei. Afinal, não deveria ser você mesmo a pessoa mais importante de sua vida? Ou então, não deveríamos elencar a pessoa mais importante, e sim várias, com o mesmo grau e valor?

Mas hoje eu entendo que é impossível questionar essa frase. Primeiro porque amor não se mede, e cada um sabe de si. Segundo porque, como entenderei, se jamais vivi e viverei a beleza deste momento?

A médica disse que a cada dia é mais improvável que aconteça….

xxxxx

Porém mais importante que esta conclusão, é todo o caminho ao qual ela leva. Tanto para o bem, como para o mal.

Bate tristeza? Sim. Mas ao mesmo tempo, um sentimento enorme de liberdade.  Às vezes, uma verdade pode ser dura, mas liberta.

Como me disse este mesmo amigo, sentado na mesa do bar: “Aceita que dói menos”.

Ditado bobo, mas real.

Posso não ser mãe de uma criança. Mas posso ser irmã, tia, amiga, filha. Posso ser jornalista, escritora, atriz, poeta. Posso ser mulher, posso ser menina, posso ser uma amante da vida. E posso tentar fazer um pouco de tudo aquilo que eu desejo (dentro é claro de uma perspectiva realista).

A verdade, é que existem emoções e experiências sobre as quais nunca conseguirei aprender. E quem consegue?

Na verdade, nem preciso me cobrar por isso.

Apart hotel

Ele voltou do passeio com a cadela e tomou a decisão que adiava há um ano e meio: tirou o corpo da esposa da sala.


Ela gostava de homens narigudos. Calvos. De gengiva preta. E brochas.
O nariz dele era dos grandes. E foi o que a atraiu.
Ele era estranho. Só aparecia na piscina do prédio quando o sol já tinha ido. Ou sábado à noite. Sempre sozinho. Sempre olhando pro nada.
Sua fama entre a equipe de limpeza do prédio não era das melhores. Seu apartamento era dos mais fétidos. Ele, porém, parecia não notar. Os vizinhos reclamavam. Mas a culpa recaía sobre os dois cachorros que moravam junto com seu dono.
Ninguém imaginava que, embaixo do piso, um corpo permanecia.


Foram casados por nove anos e, então, acabou.
Por responsabilidade dela, dizia.
Primeiro, morou num muquifo em cima de um restaurante popular na Glória. Propriedade de um amigo.
Dividia os 20 metros quadrados com seus cachorros, lagartixas, baratas e suas plantas.
Num impulso, comprou o apartamento do qual se arrependeu.
Mas agora era tarde.
Condomínio nas alturas, potenciais compradores que desistiam da aquisição logo após a visita.
Ele não sabia – ou fingia não saber – que o cheiro da esposa atrapalhava.
Logo o dela, tão cheirosa em vida.
Alguém que sabia que, para se perfumar, era preciso entrar na nuvem da fragrância – e não borrifar o líquido tão perto da pele a ponto de o álcool escorrer.
Ela, morta
Ele, na piscina, em horários improváveis. Então, aconteceu


Dizem que são as mulheres que escolhem. E nesse caso foi verdade.
Ela escolheu dar uma chance para o narigudo da piscina.
Primeiro, começaram a se cumprimentar
O destino ajudou, com encontros aleatórios e inesperados na rua.
Puxou a ficha do rapaz com as meninas da limpeza.
E foi assim que, quando eles começaram a conversar, ela já sabia mais da metade do que ele contou
Seu nome
Profissão
Estado civil
Os nomes dos cachorros, companheiros fiéis
Como não havia sido sua esposa


Ele era lerdo pra esse lance de paquera.
Fazia tanto tempo…
O tempo que a guitarra não tocava, por o pai ter partido
Ele sempre falava em divã
Mas não deitava em um
(Embora precisasse)
Foi ao cinema com ela, que o convidou depois de um final de semana na piscina
Há quanto tempo não entrava numa sala escura…
Teria uma nova chance?
Mereceria?


Ela andava cansada de performar.
Se a ex dele descansava morta sob o piso, ela, por sua vez, tinha já visto a morte de perto – e sobrevivido – por circunstâncias que não cabe aqui explicar.
O trabalho, os pais idosos, a mãe confusa, o pai senil, o supermercado, a casa lotada de roupas pouco usadas, os treinos, as aulas de tamborim, os amigos pedindo ajuda, os riscos e os seguros
Ela se esforçava para estar sempre ocupada
A louça para lavar, a máquina sempre batendo, as refeições saudáveis da semana por preparar, a prontidão por atender qualquer pedido amigo, a corrida, as pílulas para dormir e acordar
Conversando, descobriram que tinham coisas em comum
A mesma profissão
A mesma insônia
Além do ódio
O ódio pelo mesmo bairro
O fato de buscarem estar sempre ocupados
Fugitivos?
De quê?


Ela gostava de ele ser narigudo e ocupado, com horário para tudo.
Menos tempo para ela
Menos uma tarefa
Mais um item da lista riscado
Um crush arranjado
Fora de apps, à moda antiga
Ele gostava de se sentir desejado
E ter com quem conversar
Depois de tanto tempo sozinho


E foi, então, para dar uma chance ao recomeço, que ele deu ghosting logo após o primeiro beijo.
Ela achou que era um sinal de que aquele relacionamento não ia dar certo.
Mas o que não sabia é que ele faltou ao trabalho, tirou o piso, picou o corpo, encheu uma mala, saiu pela rua e… voltou muito mais leve. Respirou fundo o ar.

Envelhecer

Envelhecer não acontece com o passar dos anos.

Pelo menos dentro da gente, envelhecer tem um tempo para querer acontecer. Pra dar as caras.

Chega de vez e assusta, transforma.

Assusta porque transforma.

Envelhecer causa estranheza em que tá dentro mais do que quem vê de fora.

A beleza, aquela já conhecida, faz que vai embora. A saúde cambaleia, tropeça e pede ajuda. A vida ganha contornos que hora se invertem, hora se reforçam.

Alguns caminhos se abrem e outros a gente fecha. Por escolha. Decisão.

Os desejos se expressam com força lá dentro e ganham nossa atenção. Mais gentileza e aceitação, menos desculpas e mais perdão.

A gente cresce que não cabe em si, naquela antiga definição. E fica amostrada e exibida, contemplante do processo e da renovação.

Envelhecer não retrata só os anos vividos, mas explora o que vem de novo, o que quer acontecer.

É a pressa dos passos firmes, do saber onde pisar, pra onde ir e para que ir. É um novo jeito de caminhar.

Tratar com leveza o que precisa de ajuste, e fazer do retoque um mantra, em sons de agradecimento e de prece.

É se amigar com a culpa, questioná-la ou entendê-la, mas se afastar da autocomiseração.

Envelhecer é calmaria diferente, redefinida. Carrega a potência de uma ebulição latente, que não apressa o tempo mas não quer perder a hora. Quer viver o agora.

É viver de, viver para, viver com, viver apesar e viver além.

Envelhecer sem se re-conhecer é quase morrer.

Olhar e não se ver por fora, ensina que é preciso mudar a direção do olhar, buscar o que vem de dentro, de onde tudo brota.

Vim para a cidade grande

Essa história começou há quase 20 anos. Com uma mochila nas costas, muitos sonhos e pouca grana, vim pro Rio de Janeiro estudar.

Em universidade grande, pública. No início estranhei. Os alunos em sua maioria eram mais novos. Levei 3 anos para passar no vestibular. Escolhi um curso concorrido: jornalismo.

Mas logo conquistei amigos. Alguns poucos tenho até hoje. E vieram os primeiros estágios, as primeiras pequenas vitórias.

Até que, pouco depois de já formada, passei no primeiro concurso. Uma grande conquista, pois fui primeira colocada.

Mas era cadastro de reserva e nunca me convocaram.

Não desanimei.

Fiz outras provas e logo passei num segundo concurso, que estou até hoje.

Sou concursada. Alcancei minha independência. E a casa própria.

Olhando pra trás, de nada me arrependo. A cidade grande me deu tudo (ou quase). Sinto o cheiro, o gosto e o tato de cada cantinho deste local que escolhi viver.

E sinto até hoje o encanto de quem atravessou a ponte com tantos projetos na cabeça.

Me tornei também escritora. E as baladas deste local e de tantos outros que tive oportunidade de passar me inspiram.

Acima de tudo, me tornei quem sou. E serei muito mais.

(Já trabalho em novas ideias)

Pra sempre na luta

Carol

Flash mob na madrugada

Tivemos um dia de trabalho exaustivo. Eu e Paulo trabalhamos na mesma empresa, em equipes diferentes. A primeira vez que nossos olhares se cruzaram foi durante um almoço – daqueles bem barulhentos e desorganizados, onde todos falam, mas quase ninguém se escuta.
Era uma mesa enorme e eu cheguei atrasada. Todos já estavam sentados, e o único lugar disponível ficava bem em frente a ele. Fui me aproximando da cadeira e sentindo aquele olhar sobre mim, me escaneando em detalhes. Baixei os olhos, disse uma saudação discreta em volume baixo e me sentei. Não lembro muita coisa desse dia. Apenas a sensação de estar sendo avaliada por aquele homem que eu nunca tinha visto e não sabia o nome.
Entrei na empresa há meses, mas o trabalho em home office faz com que a gente desenvolva alguns relacionamentos sem nunca ver a outra pessoa, se ela assim desejar. Passamos a ser um nome numa lista, num e-mail. Apenas uma voz durante reuniões com a câmera fechada. As pessoas têm direito à privacidade, mas, ao menos uma vez, poderiam nos brindar com sua imagem e seu sorriso.
No nosso caso, isso não foi necessário, pois a empatia e a conexão foram imediatas. Eu, novata, precisava de ajuda para identificar o responsável por um novo projeto. Como não conhecia ainda as pessoas e suas funções, escolhi um nome ao acaso para me ajudar. O nome Paulo me chamou atenção por ser nome do meu primeiro namorado, meu primeiro amor. Nome que eu não pronunciava há anos, desde que nos separamos. Pensei que poderia ser uma pessoa agradável, mas depois percebi que eu apenas queria pronunciar aquele nome mais uma vez. A conversa, na verdade uma troca de palavras, foi objetiva, curta e por escrito. Não tive a chance de pronunciar o nome que me despertou saudades.
Embora tenha achado sua atitude muito seca, sempre que precisava de alguma ajuda eu recorria ao Paulo, que respondia de forma objetiva, mas a cada resposta, se mostrava mais simpático e divertido.
Um dia tomei coragem e abri minha câmera na esperança de que ele fosse recíproco. Aproveitei que eu estava bem vestida e maquiada e podia me mostrar para o colega misterioso sem passar vergonha. Quem trabalha em home office sabe dos perigos de abrir a câmera sem fazer uma verificação para confirmar que se está ao menos vestida e penteada. O mínimo para uma convivência respeitosa.
Ele não correspondeu à minha expectativa. Apenas usufruiu da minha imagem e me deixou ainda mais curiosa. Mas, ao menos escutei sua voz, que não me despertou mais curiosidades. Pelo contrário, me fez pensar que ele seria jovem demais.
Os dias foram correndo e o volume de trabalho aumentado. E as trocas de mensagem entre nós cresceu na mesma proporção. O tom estava cada vez mais descontraído e começamos a estabelecer uma amizade e até uma cumplicidade, pois estabelecemos uma rede de apoio entre nós, cada um colaborando com sua expertise. Eu com minhas habilidades de design e ele com sua intimidade com a tecnologia. Mas não passou disso. Até este almoço.
Passado um tempo da minha chegada, o homem que estava sentado à minha frente e que me observava insistentemente, me perguntou se eu não iria escolher o prato. Minha coluna gelou, a boca secou e a língua travou. Eu, que sou tagarela, não consegui emitir um som em resposta àquela pergunta. Não por não saber o que queria comer, mas por susto, vergonha e outro sentimento que não consegui identificar naquele momento. Euforia, talvez.
Era ele, o Paulo. E eu só consegui sorrir com o canto da boca e abaixar os olhos, mais uma vez.
Passei um tempo sem falar diretamente com ele, pois não conseguia encará-lo, pois eu queria observar cada centímetro daquele rosto anguloso, a abertura do sorriso e o brilho dos olhos. Quem desenha sabe como os detalhes são importantes. Mas eu temia que as outras pessoas descobrissem que, naquele momento, eu era um turbilhão de sentimentos duvidosos.
Finalmente, o almoço acabou e voltamos ao escritório. No caminho, na confusão de pessoas e risos, ele encostou em mim. O dorso da sua mão passou raspando no meu quadril por um segundo. O tempo necessário para riscar o desejo e acender todo o meu corpo. Fingi que não senti.
A tarde transcorreu normalmente, com a insensatez de uma equipe presa a um escritório. Cada um em sua mesa, todos vidrados em seus lap tops e com seus fones que os afastam ainda mais do mundo real e os faz afundar no virtual, apesar do corpo estar no presencial. O híbrido sem sentido.
Ao final do dia, meu chefe me encarrega de elaborar um projeto imenso e complexo. Sem opção, aceito. Mas imediatamente me preocupo, pois necessita de desenvolvimento tecnológico que não domino. Começo a fazer o trabalho e, de repente, me dou conta de que estou sozinha no escritório. A hora passou e todos foram embora.
Fecho tudo e corro para casa onde tomo um banho relaxante e preparo meu jantar, na companhia de meus gatos. Minha rotina é leve e gostosa. A música me acompanha pelas horas e as tarefas são realizadas cada uma em seu dia da semana correspondente. Tudo se encaixa e funciona.
Após eu e meus gatos estarmos alimentados e termos cumprido nossos rituais noturnos, resolvo revisar o novo projeto para planejar o dia seguinte de acordo com minhas novas necessidades. Assim que abro o lap top vejo a mensagem de Paulo. Toda a eloquência que nos faltou durante o almoço, no momento que finalmente estivemos frente a frete, estava presente nessa conversa noturna. E me dei conta de que era a primeira vez que nos falávamos fora do horário de expediente. Perguntei-me qual seria o motivo dele estar on-line, mas não tive coragem de verbalizar a dúvida e a guardei numa das quinhentas caixinhas abertas em minha cabeça.
Num determinado momento me deu conta de que Paulo poderia ter a solução para algumas questões do novo projeto que envolviam tecnologia. Tomei coragem e perguntei se ele poderia me ajudar, e ele prontamente se disponibilizou. Assim transcorreram dois dias com sessões pontuais de ajuda e conversas bobas, que escondiam um desejo de entender o que estaria passando na cabeça dele. Impossível descobrir. Ele parece mais fechado que um cofre de banco suíço.
Na véspera da primeira apresentação do projeto, estávamos em nossa conversa noturna que se tornara cotidiana, faço algo que me tira do prumo. Não sei exatamente o que fiz, e o trabalho de dias sumiu. Desintegrou-se num piscar de olhos.
Vendo meu desespero, Paulo tenta me acalmar e me orientar, mas entro em pânico.
Ele me ensina um mantra e pede para que eu sincronize a respiração com a emissão de cada sílaba do mantra. Ficamos repetindo por alguns minutos, até que o interfone toca. Me assusto mas peço para ele aguardar, e, para minha surpresa, era ele quem estava na portaria esperando para subir.
O pânico volta e de uma forma avassaladora. Fico confusa, com medo e lisonjeada ao mesmo tempo. Ele se preocupa comigo! Mas… e se for um tarado paranoico¿
Ele entra e vai direto ao lap top, correndo contra o tempo. Demora, mas consegue identificar o que ocorrera e ainda reverter o estrago. Depois de uma hora e de eu ter dado tantas voltas na minha pequena sala que daria o percurso de maratona, ele terminou o salvamento do trabalho quase perdido. Bem a tempo de me ressuscitar, pois eu já estava na vala dos esquecidos.
Depois de tanta tensão, abrimos uma cerveja para relaxar e nos demos conta de que já era madrugada. E o silêncio reinou. Nos demos conta de que todos os assuntos que usávamos para esconder nossos sentimentos, já haviam se esgotado. Nos olhamos e baixei a cabeça. Reconhecendo que é o momento. Aquele momento que alguém precisa tomar a iniciativa. E que, se não tomar, essa história pode ser apenas uma história sem fim.
Segundos que parecem séculos. Pensamentos que se atropelam na velocidade da luz.
Até que resolvo sair dessa situação da forma que eu sei: colocando uma música. Baixinha, pois já era madrugada. Ele me puxou para perto dele e começamos a dançar. Não sei dizer quantas músicas foram. Mas, aquele tempo que há minutos atrás se arrastava, passou a correr. Queríamos que ele parasse, mas não tem tecnologia para isso ainda. E ficamos nesse flash mob, um musical quase silencioso, madrugada adentro.

A carioca Alessandra Carreiro faz aqui sua estreia como escritora, publicando pela primeira vez um de seus escritos. Apaixonada por leitura, costuma fazer resenhas dos livros que lê em seu perfil @alessacarreiro. Mãe do Breno, tem como hobby as artes plásticas como pintura e colagem, além da costura, que a levou ao desenvolvimento de sua própria marca, a @womn-rio, voltada para o público feminino. Graduada em Publicidade e Propaganda, com MBA em Marketing e cursando Neurociência e o Comportamento Humano, é especialista em branding e atualmente trabalha com patrocínios culturais e corporativos.