Capim-Limão

Decidi que os dias serão capim-limão
Adoro o frescor que vem, sem se preocupar muito
Adoro o cheiro da terra molhada, o barulho da água caindo, a brisa fresca que envolve
Adoro o caminhar leve, distraído
A atenção roubada
As cores que vibram
E, se perguntarem por aí
Onde está minha responsabilidade
Meus compromissos
E minhas inquietações
Faz favor
Diga que deixei de lado por um tempinho
Para tirar as sandálias e fincar o pé nas nuvens

Um café, um encontro

Um café, um encontro

Gosto de conversas com pausas
Silêncios compartilhados
Palavras em teia
Sentimentos à mesa

Gosto da escuta interessada
Depurada
Degustada
De quando se oferece a alma

Gosto da palavra com entrega
Do sabor do que se revela
Do pouco, aos poucos
De integrar a descoberta

Gosto daquilo que se demora
De sorver o instante
E tecer a história
Gosto do gosto do aqui e agora

Trinitas

Perto, longe, dentro e fora

Por Sônia Souza

As portas fechadas e a pintura perfeita indicam que tudo vai bem. ELA está ali, exatamente onde a colocaram, onde outros pudessem ver, cumprindo sua função – na Terra e no Céu.
Por dentro, muitas sombras e súplicas, anseios, esperanças, desilusão
uma energia caótica contida pelas paredes brancas e janelas azuis.
Ali é lugar de todos
E de ninguém
Talvez ELA até resista
Talvez Ela até impressione o estrangeiro que ali se encontre
Mas, quem sabe por um milagre
um vento sopre e abra as janelas e portas
Quem sabe ELA se permita expor
E, em uma tarde de primavera qualquer
Ao som do canto dos pássaros
ELA se sinta livre
Por dentro, por fora, de perto e de longe


A Igreja Matriz

por Lidianne Monteiro

PARTE 1

– Vó, a senhora quer que eu coloque sua cadeira na calçada?

– Ainda não. O mormaço da pista ainda tá muito quente. E eu tenho que terminar a janta do seu tio.

– Tá certo. Mas eu já vou colocar a minha.

– Tu vai é adoecer com esse bafo quente.

                O comentário da avó, diferente dos da mãe, não era uma ordem para não ir.

                Da calçada, vejo o movimento da cidade. A rua que estava vazia, quase de uma cidade fantasma, começa a ganhar vida. As pessoas, assim como a avó, também aguardaram a trégua do sol para começar a desfrutar do convívio em frente à igreja. No caso da avó, ela ainda teria que superar a tarefa de fazer a janta de um tio exigente e desdenhoso dos longos anos da labuta doméstica dela. Porém, em breve, ela estaria sentada na calçada, em seu trono de vime, balançando-se nele e aguardando os demais familiares.  

O sino da igreja chama os fiéis mais uma vez, talvez a última. Quem quiser se salvar que se apresse pois Deus não espera. Alguns atendem ao chamado e caminham apressados com suas roupas de domingo. Moças jovens desfilam perfumadas e de cabelos molhados, reforçando o aspecto de frescor da sua juventude recém inaugurada. As risadas e o olhar cheio de segredos mostram que a salvação ainda não as preocupa, dedicadas que estão a descortinar a vida que mal começou.  

De banho tomado e sentada em meu observatório, vejo primos, tios e agregados chegando, pouco a pouco, e começarem a fincar suas cadeiras na calçada larga em frente à igreja, nos melhores assentos do teatro da vida real. Parecia uma plateia pronta para assistir ao espetáculo grandioso, mas fugaz, de apenas observar, pensar na morte da bezerra e trocar um dedo de prosa despretensioso.

Assim a noite caminha, sem pressa nem urgências, até as pessoas da calçada começarem a bocejar e irem se dispersando, pouco a pouco. Devolvem suas cadeiras para dentro da casa da matriarca, se despedem e voltam para suas casas. Quando a rua também já se mostra cansada dos transeuntes do domingo e a calçada jaz quase vazia, a matriarca se volta para mim e diz que está com sono e cansada. Começamos a guardar de volta as cadeiras que nem todos guardaram pois saíram para fazer um lanche com a promessa de voltar e não cumpriram. Recolhemos as cadeiras silenciosamente para não acordar o avô no quarto ao lado que, diferentemente da avó, dorme cedíssimo, ainda no entardecer. A ele este espetáculo não lhe apetece.

Trancamos as portas e nos recolhemos para dentro de nós mesmas.

PARTE 2

A missa campal de Natal vai começar. Minha filha adulta e eu tentamos achar cadeiras vazias em meio à cidade quase toda já sentada. Não achamos. Conformamo-nos em nos apropriar de um pedacinho de chão para assistirmos à missa em pé. O pequeno sacrifício a mais certamente nos daria mais créditos na aquisição do nosso pedacinho de céu futuro.

Olho para a calçada da avó e ela está vazia. Pelo muro vazado de pergolados de cimento, meus olhos alcançam a área interna em frente à sala. Escura, parece uma casa fantasma, austera e perdida no passado. Não fossem as flores do jardim que sei que existem pois as vejo durante o dia, diria que ninguém reside ali. Minha tia abre o portão e atravessa a rua com sua cadeira de plástico para assistir à missa campal. Fora esses eventos, as cadeiras da área não mais respiram o ar da rua ou da calçada, como outrora. Minha tia nos vê e vem em nossa direção. A missa começa e nos concentramos na salvação.

 


Capelinha

Por Elaine Resende

Capelinha de melão, é de São João…

Das nossas tradições, o que ficou?

As cantigas infantis ressoam na memória, um altar, relicário, família, igreja.

Capelinha, pequenina, azul e branca. Canto e coro, violão, à capela, gospel, o chamado.

Quem é Deus?

Quem socorre a nossa vida nos momentos de dor?

Um homem.

Capelinha, sinônimo de expansão de território, guerras santas, do homem tentando se impor como o mais importante ser da natureza. O homem divino, sobrenatural.

A capelinha adorada, impregnada no nosso subconsciente desde que nascemos e somos batizados, é o instrumento do homem para nos manter na linha.

Se você sai da capelinha e não age como o esperado, é a cela que te abraça. Mas antes, para chegar na capelinha, o homem disse ao outro homem que ficasse na cela, abrisse mão de sua família e de sua natureza.

A capelinha, tão bonitinha, é um instrumento de tortura de tempos imemoriais.

A capelinha é dos caras.


O desafio das três escritoras, sob a mentoria da Psicoterapeuta Claudia Nagau, foi expressar seu ponto de vista sobre a imagem em destaque. O encontro das ideias se tornou uma trindade, não religiosa, não santa, embora poderosa em sua mensagem. Publicação conjunta em 02/02/2025. Criação em 18/01/2025.

O Eu do Instante

Não me pegue
Nem me limite
Sou partícula em expansão
Sou memória, sonho e imprecisão

Me deixe ser eu
Com reta, curva e ondulação
Sou fenômeno, instante
Posso ser o sim e também o não

Sei de onde vim
Para onde vou, não sei
Se aqui me reconheço, fico
Se me aperta e incomoda, sairei

O que me define é amplo
Vasto, profundo e enraizado
A rima, a menina, a trajetória
O rumo, o fruto e o lastro.

Lívia Gomes é psicóloga e gosta de lidar com as palavras desde que as conheceu. Ler, escrever, escutar, falar, entender e ressignificar as palavras é mais que um hobby, é uma necessidade de sua existência.

Apenas mergulhe nisso!

Céu
Em 2024 ela se deixou levar. Como pena leve ao vento. Saltou para o novo, respirou outros ares, deu asas à fantasia. Entregou todo o seu coração, em direção ao céu.

Terra
Mas também caiu tantas vezes. Tropeçou em pedras, se perdeu em tantas metas, e machucou-se. Teve seu coração partido, esfarelou-se em terra.

Fogo
Mas como uma fênix, renasceu tantas vezes. Das cinzas fez-se nova mulher. O que não a matou, fortaleceu. E brilhou em fogo.

Mar
Em 2025 é mar sereno, mas também bravio. Já sabe a hora certa de esperar, e reagir. É toda certeza. O novo ano é de águas profundas, tempo de escrever, nadar e viver sentimentos.

Apenas mergulhe nisso!

Expresso

É como você gosta do seu café e a forma como nosso romance aconteceu.

Já ouviram falar sobre conexão de almas por conta de vidas passadas? Eu acreditei logo que te vi vindo em minha direção tranquilamente naquela quarta-feira chuvosa.

A vida já havia me ensinado sobre o amor e eu o evitei por bastante tempo, por medo de depender de alguém. O que faltava era te encontrar e perceber que quando é para ser, não haverá tal dependência. Falo do amor, como um sentimento universal. Em suas diversas formas e medidas.

O nosso tipo foi e é especial. Me comove e alegra. Me abraça e liberta. Ensina que não é preciso ser todo dia, mas é importante a persistência em nós. Em como somos e nos tornamos. Pois mudamos a cada dia. E talvez, um dia, não gostaremos tanto um do outro.

Por isso, aparecer de vez em quando nos protege de muitas frustações assim como gera outras. Nenhuma é irremediável. Mas todas são computadas em nossa existência conjunta.

Hoje expresso meu sentimento persistente, que ainda faz morada aqui.

Justiça seja feita

Certo, entendi o ocorrido finalmente. Não que eu estivesse em busca de entender coisa alguma, queria mesmo era me ver livre do problema, mas a dúvida não me deixava dormir em paz.

Seis meses antes dessa tarde de inverno – alegre demais para o frio que fazia, ensolarada demais para o humor cinza dos presentes – Têmis e eu demos um tempo. Agora a gente está nessa salinha, coberta de madeira e mármore, para resolver nossa última pendência. A poeira flutua no ar, esvoaçando no rastro dos passantes.

A gente nunca sabe quanto tempo é suficiente para se repensar a relação. Então decidi que não queria que durasse muito. Fomos casadas por seis longos e deliciosos anos, que foram para as cucuias quando começamos a discutir a adoção.

Têmis queria inseminação com doador, eu queria adotar. Não queria um homem entre nós, um esperma doador com um CPF e algum direito sobre uma criança que ele não queria. Ela me garantia que seria anônima, é a lei no Brasil, insistia, queria gestar o bebê e que eu doasse os óvulos, teria a nossa cara. Se fosse menina, se chamaria Sophia…

Sentada na saleta esperando ser chamada, olhei de soslaio sua figura antes altiva, vexada no banco de mogno brilhoso, cabeça baixa, e me peguei pensando onde erramos. Acho que não foi a adoção, foi antes, há dois anos, quando decidimos comprar a casa do condomínio, longe demais do trabalho, com aqueles vizinhos que nos olhavam com uma sentença expedida. E ainda teve aquele incidente com a Fronesis, a  Golden Retriever, que correu atrás de uma borboleta e foi atropelada em frente ao nosso jardim. Têmis ficou em choque, a Golden estava com ela há dez anos… A gente devia ter se mudado na mesma hora, ali tinha um quê de sobrenatural maligno.

Mas talvez ainda não tenha sido isso, não. A gota d’água para mim foi a marca de beijo com batom pink sempre perto do ombro, nos colarinhos das blusas, percorrendo o pescoço. E aquele perfume doce, nojento, que ódio daquele cheiro! Que ódio daquela marca de batom pink que tinha cheiro de flor, peônia. Decidida ao confronto, tudo o que ela me dizia era uma desculpa sem nexo, que não cabia no meu léxico, que não dava para escusar. Aquele batom murchou meu sorriso.

Dona Mocinha, assistente da Têmis, chegou e foi direto cumprimentá-la. É baixinha como seu nome, cabelo branco neve, casaco de flor e óculos de grau, uma belíssima representante da Iris Apfel no Brasil. Reconheci das fotos, nunca tinha vindo ao trabalho da Têmis antes, o tribunal é um lugar assustador. Reconheço o perfume doce, que me revirou o estômago e me fez desistir da gravidez, da adoção e de um pouco mais. A boca, que um dia foi fina, agora era o puro suco do botox, do ácido hialurônico, ou sei lá qual a tecnologia do momento para deixar mulheres com a boca da Angelina Jolie. E lá estava o pink. O beijo, não na bochecha, para não manchar a excelentíssima juíza, foi dado num lugar aleatório qualquer. Dessa vez foi no ombro esquerdo.

Certo, minha cara caiu no chão. Por que não acreditei quando Têmis falou? Não fosse esse batom, que teria sido de nós? Dona Mocinha veio em minha direção e me deu um beijo estranho na bochecha. Fui até o banheiro me limpar. Encarando o espelho, entendi o ocorrido finalmente: aquela senhora decretou o fim de um problema que nenhuma de nós queria enfrentar. A nós, que tudo sobrava, faltava a maior das virtudes, o amor. Entramos na sala e assinamos o divórcio, já posso dormir em paz.

Composição


Não sei compor, meu bem
Não sei tocar violão
Não conheço partitura
E nem mesmo poesia
Não domino a tal métrica
Nem tão pouco melodia
Mas estou de coração
Aqui cantando em livres versos
Que enfrentei dor
Da falta de amor
Da falta de amor
Pouco depois te conheço
Numa feira de rua
E não me esqueço
Logo quis te dar um beijo
Logo quis te dar um beijo
Hoje canto, sabiá
Novo amor a renascer
Nessa vida em que viver
Também é saber sofrer
Deixa ir meu bem
Deixa ir a dor
Essa canção que canto
É pra falar de um novo amor
É pra falar de amor
É pra falar

(Poema do livro Meu Canto, de Carolina Pessôa. Disponível em: https://caravanagrupoeditorial.com.br/produto/meu-canto/)

Kim Jiyoung, nascida em 1982, na Coreia do Sul (mas podia ser no Brasil)

            A autora do livro “Kim Jiyoung, nascida em 1982”, Cho Nam-Joo, e eu nascemos no mesmo ano de 1978. Instigou-me saber o que uma contemporânea sul-coreana minha tinha a dizer sobre a vida de outra mulher, sua personagem Kim Jiyoung, um pouquinho mais jovem que a gente. Da cultura sul-coreana sei pouco. Do universo feminino, bem mais. E a curiosidade em saber como vivem as mulheres na Coreia do Sul, ainda que por meio da ficção, me lançou à leitura, assim como mais de um milhão de leitores no mundo, de suas 172 páginas consumidas em apenas dois dias de um final de semana atípico.

            O livro veio até mim como um presente, logo após eu saber que o Prêmio Nobel de Literatura deste ano havia laureado uma conterrânea da autora (e da personagem Kim), a também sul-coreana Han Kang, nascida em 1970.

            Com tantas referências sul-coreanas surgindo por todos os lados em meu mundo eminentemente “ocidental”, lancei-me a conhecer Kim. Em todo o livro, página a página, a história de Kim foi se delineando e mostrando aonde, talvez, a autora quisesse chegar. Porém, só pude mesmo conhecer o coração de Kim nas últimas páginas, quando a autora arremata o ponto final da costura feita durante todo o livro, trazendo um final surpreendente que, enfim, crava a situação da mulher na sociedade sul-coreana.

A história de Kim me descortinou como os sul-coreanos vivem, com tantas tradições rígidas que impactam nas vidas de todos, principalmente nas das mulheres. Kim (e sua mãe, sua irmã, avó, sogra, amigas…) fazem parte de um sistema onde as mulheres são encaixadas em um papel fixo e limitado, porém basilar para a vida familiar. Há relatos, como o da mãe de Kim, que sacrificou seus estudos para trabalhar desde muito jovem para ajudar a pagar os estudos dos irmãos homens, ocupando claramente um papel inferior dentro do seio familiar, o que me pareceu ser uma prática comum para a maioria das famílias. Depois, na vida adulta, mesmo sem muita instrução formal, foi ela a alavancar as finanças da família que constituiu, com sua inteligência, austeridade e tino para os negócios. Kim e sua irmã também muito cederam para a educação do irmão homem. Porém, progrediram e foram à Universidade. Quando caíram no mundo do trabalho, porém, se depararam com discriminação e assédio, aparentemente normalizado na cultura sul-coreana, segundo o olhar da autora Cho Nam-Joo.

As cenas de assédio, os abusos que ocorrem em todos os lugares, inclusive no trabalho, escancaram a realidade de condescendência para com os assediadores e a desumana e injusta responsabilização das vítimas. Algo tão comum também na nossa sociedade ocidental. As situações são tão extremas e constantes que adoecem as mulheres e impactam nas vidas também dos homens e das famílias, pois precisam lidar com esposas e filhas a beira do colapso.

Kim é uma mulher comum, que vive sua vida como qualquer uma de nós, estudando, trabalhando, preocupando-se com as finanças da casa, com o futuro da filha, com a saúde da mãe, com o casamento, etc. Mas se vê enredada em uma teia estrutural tão rígida e injusta que se vê impotente para rompê-la, numa desesperança adoecedora.  

É sobre Kim, é sobre Cho Nam-Joo, é sobre Han Kang, é sobre a Coreia. Mas podia ser sobre mim ou sobre você. No nordeste do Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo.