Com que maternidade você sonha?

O solo está contaminado. As águas estão contaminadas, os rios estão mortos. O ar está contaminado.

Não há mais tempo.

Você precisa dormir oito horas e, pela manhã, corre contra o tempo espremido entre despertar, cuidar da higiene, do café da manhã e do deslocamento para o trabalho. Lá, fica por nove horas e, exausta – física e mentalmente, com sorte, leva mais ou menos uma hora para chegar em casa. Sem tanta sorte, talvez duas.

Ao chegar, lhe restam três horas para organizar o jantar, cuidar da casa, da roupa, da higiene pessoal, da alimentação, talvez relaxar um pouco; talvez fugir um pouco. Talvez você não vá para casa, talvez precise ir ao supermercado ou estudar, encontrar os amigos, praticar uma atividade física ou qualquer outra coisa que lhe dê na telha com esse pequeno espaço de vida e pouca liberdade que lhe restam viver.

Com que maternidade você sonha?

Esse sonho é seu? Ou antes mesmo de aprender a caminhar entregaram-lhe uma boneca e a fizeram fantasiar a felicidade nas brincadeiras de mãe e filha?

Esse sonho é seu, ou você foi socializada para (brincar de) fazer comidinha, cuidar da casa e das bonecas, cuidar do jogo de chá e das panelinhas, ser doce, bonita e comportada, ao invés de brincar de voar e salvar o mundo como super-heróis? Ou mesmo de se aventurar nas motos e carrinhos, nos experimentos, na natureza, nos esportes e nas pipas que voam alto no céu?

Como disse Lya Luft, “a infância é um chão que pisamos a vida inteira”. O brincar e o fantasiar são solo fértil na construção de nossa subjetividade, são lugar de memória e sentido, orgânico ou tomado pelos agrotóxicos de nossas relações com o mundo.

Esse sonho é seu ou lhe disseram a vida toda que mulher feliz é aquela que tem marido e filhos, que a felicidade está na família, no outro, e que este deve ser o centro da sua vida, de seus sonhos, seu desejo, seu instinto, seu maior objetivo, ainda que para isso você precise suportar violências? Afinal, você também é capaz de transformar uma fera em um príncipe e, para isso, você precisa ser sábia e paciente.

Ou será que essa fantasia de filme de princesas desmoronou em seu convívio familiar real, possível e talvez disfuncional, e você precisa consertar tudo isso erguendo seu próprio castelo,  tendo sua própria família, seu sonho de menina que foi sonhado para você antes mesmo que você pudesse se perceber?

Com você vai ser diferente. Só assim você pode preencher esse vazio, viver a fantasia para a qual foi programada, viver esse tal amor incondicional e instintivo pelo outro, que antes mesmo de chegar ao mundo carrega todo o peso de suas projeções em troca das doses diárias de amor, medo, angústia, cansaço, inconsciência, impaciência e culpa, possíveis nas três horas de vida que lhe restam todos os dias.

Com que maternidade você sonha?

Corpo, mente e espírito. Somos uma tríade complexa, dicotômica. Desejos acima da mente cegam-nos a razão.

Quem vai dar a essa vida frágil, inocente e sensível uma existência saudável em um mundo colérico?

A escolarização é laboral. Horários, rigor, prazos, metas, autoritarismo, números, notas. Sentem-se em silêncio! Sintam em silêncio! Aqui não é lugar para brincadeiras! Ora, mas que são crianças senão brincadeira, alegria genuína, encantamento, descobertas, liberdade?

Crianças ansiosas, incompreendidas, invalidadas, deprimidas, reprimidas, expostas, agredidas, desreguladas, medicadas.

A infância foi fatiada e resta pouco tempo para ser criança, para brincar, sonhar e ser livre fora das caixinhas padronizadas que a elas foi destinada dentro da tão sonhada maternidade.

Depois do sonho vivo e concreto, muitas são abandonadas de variadas  formas; emocionalmente, intelectualmente, fisicamente. Vítimas de tantos tipos de agressão dentro e fora dos lares e das escolas, expostas a todo tipo de sofrimento, responsabilizadas pelo fracasso de escolhas que nunca fizeram.

Crianças são silenciadas, desrespeitadas, abandonadas, agredidas, torturadas, violentadas, mortas. To-dos-os-di-as.

O solo está contaminado. As águas estão contaminadas, rios estão mortos. O ar está contaminado. Nós estamos contaminados.

Estamos sendo lentamente envenenados. Estamos lentamente envenenando.

Não há mais tempo.

Nos restam o capitalismo, o neoliberalismo, o antropoceno. Nos restam as guerras, a intolerância, o negacionismo, os preconceitos, o retrocesso.

Com que maternidade você sonha?

O poeta triste


Carrega lágrimas contidas
Que jorra em versos
Pequenas notas de uma lida triste
Que persiste, arrasta-se
Escreve para colocar pra fora
Vomitar sua dor
Expressar o amor
Ou a sua revolta
Esse poeta que insiste
Em transformar vida em poema
Que canta em suas vozes
Seu próprio arrebate existência
Que coloca em outros
Seus próprios temores
Que é um eu tímido
Mas que não se cala

Poema do livro “Meu Canto”, de Carolina Pessôa. Disponível em: https://caravanagrupoeditorial.com.br/produto/meu-canto/

Eu quero o amor


Eu quero o amor
O amor das noites insones
O amor do desejo na carne
O amor do exagero e da alegria
Eu quero o amor
O amor que traz paz, mas
também medo
O amor do desespero
Do prazer e da luxúria

Eu quero o amor
Que mira e atira
Que mata e que cura
O amor da insanidade
O amor que é só loucura

Eu quero o amor que te faz renascer
Aquele que é pra valer
Que é doce,

mas tortura…
Eu quero o amor

(Este poema faz parte do livro Meu Canto, quinta obra de Carolina Pessôa e a primeira de poesias. Para adquirir acesse: https://caravanagrupoeditorial.com.br/produto/meu-canto/)

Desafino

“Elaine desafinou de novo.”

Muitos risos. Recomeçaram a música mais uma vez (de muitas) e Elaine não encontrou o tom.

– A culpa é dessa música, não consigo cantar tão agudo.

Baixa um tom.

– Agora tá grave demais, não consigo cantar tão grave.

“É criança, quando crescer a voz firma.” Seus tios violeiros continuaram tocando enquanto seus primos riam.

***

Elaine foi até a recepção do jornal deixar seu currículo, o atendente comentou da beleza em seu timbre de voz. Ela se apressou em dizer “sou desafinada, não consigo cantar”.

“Mas pra ser locutora serve!”

Não serve também, falta volume na voz, constatou com o passar do tempo.

***

Elaine comprou um violão. Desde criança queria um violão, tocar as músicas num tom que sua voz se encaixasse. Tentou aprender, mas o dedilhado era terrível.

“Tenta mais uma vez, Nani!”, era o incentivo recebido constantemente dos amigos que tocavam.

– Não acerto! Não importa o que eu faça, sempre erro.

Deixou a ideia de lado e foi crescer na profissão. A arte era passatempo, não sua vida, pensou. Embora desistir fosse doloroso, encapou o violão.

***

Muitos anos depois, filhos em criação, profissão estabelecida, Elaine volta ao violão. O mesmo violão de 20 anos antes. Tudo é moderno, é fácil afinar as cordas, é fácil entender as cifras das músicas, só não sabe como começar.

Pede ajuda à sogra, uma violeira afinadíssima. Ela ensina e Elaine se esforça para aprender. Toca a mesma música diversas vezes, erra e recomeça, até distinguir a melodia. Uma música. Uma música. Uma única música.

– Será que consigo outras?

Fácil, extremamente fácil, como canta Jota Quest: 4 acordes básicos, uma música nova. Os mesmos acordes, outra levada, uma música diferente. Os aplicativos de música permitem testar todos os tons que ela quiser. Sobe e desce, compra um capotraste, desliza nas cordas.

Elaine desafinou de novo. Ri de si mesma, não importa mais. A arte é sua vida e o show tem que continuar.

Microcrônicas de capital #7

Mãe, vamos ali ver os macacos? Perguntou o mais velho.

– Não filho, hoje o zoológico está fechado. Vamos só comprar a pipoca.

– Ele é um criminoso? Perguntou o mais novo.

– Não, bocó! Ele está preso porque é um animal! Atravessou o irmão.

– É por ele estar preso que você acha que ele é um criminoso, filho?

– Não, é porque ele parece muito triste. Cometer um crime deve ser coisa de quem tem o coração morto.

Reencontro

As vozes ecoam em uníssono
Harmoniosas e melódicas
A cantiga não é daqui
É de antes de mim, de nós

Elas se dão as mãos
E a energia que vem delas me preenche
Vibra em cada pelo eriçado do meu corpo
As saias coloridas dançam no ritmo da brisa fresca
e me convidam para nunca mais deixar de ser parte

Meus olhos descansam e me levam para outro lugar
Onde mulheres de outro tempo estão ao meu lado
Suas mãos repousam em minha cabeça
e delas saem raízes que me fincam ao solo fértil
Da minha cabeça brotam tronco, folhas
e muitas, muitas flores coloridas
que se erguem até onde não mais se consegue ver
Percebo que todo esse emaranhado de vida
prospera com a seiva que vem de todas elas

E das que virão

A cantiga cessa
E essa imensa paz também finca suas raízes
Fortes e potentes para reiniciarem um novo ciclo
Abro os olhos, sorrio, levanto e sigo

Meu Canto

Meu canto

Meu canto é (des) encanto
É samba de despedida,
dor de partida
Meu canto é um lamento,
Santo

Meu canto
É lágrima que cai
Tristeza que se esvai
É diáspora
Sangue

Meu canto
É meu corpo em versos
É luto e luta
Resistência e persistência
É mulher em essência

Meu canto
É música cheia de mágoa
Um choro
Um coro
Um pranto

Meu canto
Tem gosto de saudade
E entoo com vaidade
Porque vem do poeta
Com alma que grita,
MINHA VERDADE

Meu Canto é o quinto livro da jornalista, escritora e atriz Carolina Pessôa, sendo o primeiro de poesias. À venda em: https://caravanagrupoeditorial.com.br/produto/meu-canto/

Preferido

A solitude é minha amiga de anos, nós nos damos bem e a vida segue nesse ritmo. Começando um novo ciclo, aconteceu algo que meu coração já estava desacostumado, uma nova paixão. E dessa vez, mútua.

Minha linguagem do amor se classifica em palavras de afirmação, toque físico e presentes. Ainda não havia encontrado um ser que se encaixasse tão bem nesses quesitos, mas há um tempo descobri você. Minha paixão avassaladora.

Talvez este texto nunca chegue até você. Talvez nós nunca vamos ter a coragem de nos assumir um para o outro, mesmo que nossos olhares nos entreguem por inteiro. Isso é bom e ruim, mas você ainda não tem ideia que escrevo sobre esta droga lícita que é a paixão por você.

Ao longo da vida de escritora, registrei todas as pequenas e grandes paixões. Revisito meus “eus” do passado e compreendo o que cada pessoa significou ou ainda significa, normalmente mantemos contato. A amizade é uma das minhas paixões também, mantenho quem eu amo por perto mesmo que não fale muito.

Então, sinta-se lisonjeado. Você é meu preferido.

Por enquanto.

Prazer, Elaine!

Encerrei mais uma aula de fim de semana inteiro. Experimentei estar novamente com um grupo de colegas de profissão, discutindo a aplicação dos nossos conhecimentos. Alguns colegas muito jovens, professores muitas vezes mais jovens que eu. Tudo muito dinâmico, muito intenso, muito.

A aula anterior tinha deixado uma marca dolorida na pele, um hematoma de confusão entre vida real e vida aparente digital. Aquilo que vendemos nas redes não pode ser o mesmo que vendemos nas salas, eu imagino. Quem se apresenta para a gente é um ser humano. Colegas de profissão. Somos iguais, não?

A experiência de viver na era das redes sociais é, para mim, a mesma de viver de aparências no século passado. As fotos mais bonitas, o pescoço esticado e sem rugas, a família sorridente de dentes clareados, os cabelos no lugar, a roupa de grife comprada no brechó ou herdada do parente abastado.

Criamos personas para nos representar. Sou Elaine, prazer! Esposa amorosa, filhos bem-educados, casa limpa e arrumada. Sou Elaine, prazer! Profissional responsável, arquiteta há 15 anos, servidora pública, cumpridora dos meus deveres. Sou Elaine, prazer! Escritora de livros infantis, de contos e crônicas voltados ao ativismo, pró mulheres, diversidade, questões raciais e direitos iguais. Sou Elaine, prazer! Filha, irmã, amiga, estudiosa, comprometida, briguenta, opiniosa. Não, não sinta prazer em me conhecer assim.

Não sou nenhuma delas, não importa onde tenhamos nos encontrado. Sou todas. E não sou perfeita como nesse retrato que pintei, nem sempre o que digo e escrevo vai te agradar.

Cansei de só conhecer você por aquilo que você me apresenta. Cansei de me apresentar somente como uma dessas vertentes de desenho bem delineado e retificado. As redes sociais cansam demais. Ver hoje um professor se emocionar e se abrir com a gente, desde o salário às dores de não conseguir pagar o aluguel, desde o sucesso de estar num lugar de alto padrão até seus projetos mais lindos, me deu um panorama muito grande da pessoa que ele é. E eu gostaria de conhecer a todos assim. Como humanos, integrais. Estar com ele foi como passar cânfora no hematoma.

Somos iguais na nossa humanidade. E sinto que houve uma conexão profunda de todos os colegas presentes nesse fim de semana. Baixamos nossas máscaras e nos mostramos reais, sem ressalvas. Experimentei uma oportunidade de me sentir acolhida, de enxergar além da rede, da tela, da aparência.

Na próxima aula de fim de semana inteiro, juro, estarei mais aberta às falas de cada um, vou escutar com atenção, e quando me apresentar, bem, você já me conhece…

Asfalto quente cor de sangue

O vento quente balançava os cabelos de Elisa. A caixa em suas costas era pesada e inclinava-a para trás, exigindo que ela se agarrasse com mais força à cintura de João.

Ainda tinham muitas entregas até o dia de trabalho dele findar. Como ela
entraria em seu plantão à noite, no hospital, aquele tempo sobre duas rodas era o único em que poderiam ficar juntos naquele domingo de sol.                

Faltavam três meses para o casamento deles e o dinheiro extra daquele domingo seria valioso para ajudar a concluir as compras para a casa que estavam prestes a alugar. Não haveria festa para familiares e amigos. A festa deles seria a dois, na casa nova, na primeira noite de casados. Elisa já tinha planejado tudo: um jantar romântico, o quarto arrumado, o vestido mais bonito dela que, depois, daria lugar à camisola toda de renda feita pela avó, mãe e irmãs. Três gerações costurando o novo momento dela. Não precisavam de outra festa.

Com Elisa na garupa de João, conseguiam ser mais rápidos e fazer mais entregas. Era uma parceria de sucesso. A mãe de João tinha preparado o almoço dos dois que estava na caixa de isopor, junto com as entregas dos clientes. O cardápio de hoje era o prato preferido dela. A sogra a conhecia tão bem! Lembrou-se da primeira vez em que a viu, quando foi fazer um trabalho de escola na casa do colega de classe, junto com outros amigos. Alguns anos dividindo as carteiras escolares da mesma sala e a paixão entre eles foi crescendo junto com o envelhecer dos pais, da escola e deles próprios.

Pararam para que ela descesse e entregasse o almoço para um senhor de meia-idade que já os esperava na porta. Ele agradeceu gentilmente e estranhou a entrega feita por um casal. Perguntou por que eles faziam entrega em dupla e ela resumiu que eram noivos, precisavam do dinheiro para casar e, juntos, ganhavam mais e ainda podiam desfrutar da companhia um do outro.

O cliente ofereceu uma gorjeta e pegou o celular para fazer um pix. Elisa rapidamente informou a chave pix dela e o cliente se pôs a fazer a transferência. Ele errou algumas vezes o número que ela fornecera e, querendo se desculpar, brincou, dizendo: “Parece até que hoje eu tô com TDAH”. Elisa sabia o que era TDAH. Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade. Após a conclusão da transferência, ela agradeceu e se despediu, sem nem conferir qual o valor depositado. Subiu na moto
e o capacete começou a incomodá-la, parecendo sufocá-la. Mas não podia
dispensá-lo naquele momento. As lágrimas escorriam timidamente e João,
conduzindo sua moto rumo à outra entrega, nem percebeu. TDAH, para Elisa, não era brincadeira. Era sua condição permanente, diagnosticada por uma psiquiatra que ela conheceu no hospital e que ofereceu gratuitamente as consultas que resultaram no diagnóstico, depois que ouviu um relato sofrido de Elisa ao fim de um plantão.

O diagnóstico era recente e Elisa ainda estava se adaptando à medicação. Mas já sentia uma diferença considerável. Conseguia se planejar melhor para realizar suas tarefas de rotina, se concentrava mais facilmente quando precisava ler algo, não se sentia mais tão exaurida ao sair do trabalho e estava sonhando em cursar uma faculdade, assim que pudesse abrir mão do dinheiro dos plantões noturnos. Todos os dias ela agradecia a Deus pela oportunidade que a psiquiatra havia lhe dado.

A médica continuava a acompanhá-la gratuitamente, pois havia se compadecido da história de vida de Elisa, repleta de situações de vergonha e sentimento de desencaixe num mundo diferente do que ela sentia internamente. Mas o diagnóstico não foi indolor e nem redentor de imediato.

Demorou um pouco até que Elisa entendesse que muito possivelmente o TDAH era a origem do seu desconforto e que as sensações que a acompanhavam ao longo da vida não eram decorrentes apenas de uma fase da vida, como os pais pensaram, mas sim resultado do transtorno que ela tinha herdado de algum familiar. Saber do porquê dela ser como era estava paulatinamente dando o conforto de entender melhor a si mesma. Mas a dor não deixa de existir porque foi explicada. Então o comentário do cliente fez sangrar a ferida em cicatrização lenta.

O rímel que tinha passado nos olhos pela manhã estava se desmanchando. Ela tinha a preocupação de não passar rímel quando sabia que iria se emocionar. Foi assim no jantar de noivado dela, no casamento da irmã, quando o avô faleceu… Mas não havia se programado para chorar naquele domingo de entregas sem fim. “Dane-se o rímel, o choro, e esse controle que não é meu”, pensou. Tratou de acalmar o coração e se concentrar na paisagem que corria tão apressada quanto os desejos do coração dela.

Repentinamente, em meio ao sol torrencial da cidade praiana, uma chuva vermelha se fez sobre eles. Grossas gotas pintaram os capacetes, as roupas, os cabelos. Apenas a caixa de isopor, que já era vermelha, desdenhou da torrente. Foi tudo tão rápido que, ainda sem entender, pararam no semáforo, também vermelho, que estava há poucos metros de onde foram alvejados pelas gotas. Elisa tratou de verificar se não estavam feridos. Seria sangue deles a espirrar em ambos?

Seria sangue de outra pessoa? Seria sangue, afinal? Por segundos, o pânico tomou conta deles, apesar de não estarem sentindo nada que indicasse que estivessem feridos. Mas de onde teria surgido essa “chuva”? Um motoqueiro parou do lado deles e apontou para algo jogado no meio do asfalto, há alguns metros atrás. Em um primeiro momento, Elisa não conseguiu raciocinar nada lógico que vinculasse o que via no asfalto ao que havia acabado de acontecer.

“É tomate! É molho de tomate!”, gritou o colega motoqueiro. E mostrou novamente a caixa de molho de tomate jogada não se sabe por quem no meio do asfalto. Foi o próprio motoqueiro que, em um descuido, passou a moto por cima da caixa, amassando-a e explodindo o conteúdo dela sobre eles. O motoqueiro companheiro de entregas também estava tão pintado de molho de tomate quanto eles, iguais as pizzas que entregavam pela cidade. Todos caíram na risada.

Elisa e João encontraram um bom lugar à sombra para estacionar e verificarem o quanto estavam sujos e se poderiam prosseguir daquela forma. Nesse momento, Elisa checou o celular e viu a notificação da gorjeta que o cliente anterior havia creditado em sua conta. Foi de mil reais! Elisa não acreditou no que via e a primeira coisa que pensou foi que o senhor devia ter se equivocado e colocado alguns zeros a mais na transferência. Mas a observação contida no crédito dizia: “O valor da gorjeta é mil reais mesmo. Me emocionei com a história de vocês. Boa sorte”!

Elisa mostrou a João e contou a conversa com o cliente, inclusive a
menção ao TDAH. “Incrível como o ser humano ainda me surpreende”, pensou Elisa.

Eles se abraçaram e choraram de gratidão. Com aquela gorjeta poderiam encerrar as entregas depois da última encomenda que já estava com eles. Subiram na moto e antes de acelerarem, Elisa disse para João:- Da próxima
vez, ao invés de me preocupar se devo ou não usar rímel, é melhor me preocupar em sair com um guarda-chuvas para molho de tomate! Aceleraram e o barulho do motor se misturou às gargalhadas deles. E partiram rumo à próxima entrega.