Lista de fim de ano

Muitos textos dessa época começam com a mesma frase: então é Natal, o que você fez? E de repente, chuá, deságua sobre você um delicioso sentimento de culpa de não ter cumprido a famigerada lista de fim de ano.

Existe até um meme em que a pessoa corta todos os zeros que teria a mais na poupança, e troca o destino final da viagem por outro mais acessível. Eu faço planos grandiosos, mas aprendi a seguir a máxima do maridão: o reino de Deus chega sem avisar!

Calma, não é uma crônica religiosa, nem um texto de autoajuda, coisa na qual não sou especialista. Estou aqui como cúmplice de cada um de vocês na criação das listas de ano novo e, para tal, que tal utilizar algumas regras do mundo dos negócios a nossa vida pessoal? Enganei todo mundo, autoajuda, aí vamos nós!

Antes de tudo, pense no que você gostaria de ter feito esse ano e não teve tempo ou dinheiro para fazer. Era algo que realmente causaria grande impacto na sua vida? Se é relevante, algo que você sabe que faria total diferença, mantenha em vista por enquanto.

Meu exemplo: eu gostaria de fazer uma viagem de trinta dias pela Ásia com a família. Podem chamar de dorameira, eu aceito, mas o sonho veio dos meus filhos, da leitura dos mangás e animes, dos jogos e filmes. Um sonho deles que me fez mergulhar há dois anos na cultura oriental. É relevante? Sim. Pronto, item mantido.

Na lista de desejos tudo deve ser bem específico Eu quero ir a três países, aproximadamente 10 dias em cada um, durante a florada das cerejeiras. Quando colocar seu desejo no papel, escreva tudo relacionado a ele. Se você quer entrar numa academia, veja quais as academias mais se adequariam a sua rotina. Tem que ser perto de casa ou do trabalho? Horário das 6h às 22h, ou poderia ser um studio com hora marcada? Zumba na praça? Musculação, pilates, ambos? Pensar em detalhes nos faz entender melhor o que queremos.

Uma questão que mudou a forma como lido com meus compromissos é a data, o prazo, o tempo no qual vou realizar minha atividade. Uma amiga chama para um café. Se você for carioca como eu, vai responder: vamo marcá! E acabou-se aí o compromisso. Um ano depois vocês se reencontram e falam de novo sobre o café e, rufem os tambores, o vamo marcá ressurge feito fênix. Uma boa lista se concretiza no tempo e espaço. Pergunta para a amiga: quer tomar um café quarta-feira às 17h comigo? Aquele que fica em (coloque aqui o nome) ou “lá em casa!” e se prepare para recebê-la. Marcado? Sim. Se surgir um imprevisto, você tem um compromisso anterior, e não vai desmarcar a menos que o imprevisto seja realmente importante. Se remarcar, tenha a nova data para oferecer.

Nem todo compromisso envolve dinheiro, mas sempre envolve uma parcela do tempo e, diz o ditado, tempo é dinheiro. Para mim, tempo é vida. E vida vale mais que todo dinheiro que a gente possa ganhar. Mas não ignoro a importância dele no mundo em que vivemos. De volta ao meu sonho: não deu para concretizar esse ano porque o dinheiro não era suficiente. Já disse que sonho grande? Sonhos que envolvem muitos recursos financeiros podem ser mais difíceis de sair do papel, ou necessitar de um planejamento que leve mais de um ano. Entrar para academia mais badalada do bairro pode ser caro para suas finanças nesse momento, mas se juntar com amigos para ir à academia ao ar livre na praça mais próxima é de graça. Tem vergonha? Afaste o sofá na sala e tá aí, sua academia particular.

Se o item da sua lista for realmente relevante para você, deixe que sua família saiba disso. Não para usarem como instrumento de cobrança, mas para te servirem de apoio, especialmente quando as coisas parecerem desandar bem na sua frente. A gente cansa de tentar. Tem trabalho, transporte, relações, estudo, cachorro, gato e papagaio para cuidar, casa para limpar, comida para fazer, aniversário para comparecer. Ter uma lista (além de tudo isso) para dar conta me deixa cansada em pensamento. Não faça uma lista de coisas impossíveis, que não cabem na sua vida. Faça uma lista que você possa alcançar porque seu cérebro vai dar pulos de alegria quando você ticar um item.

Essas dicas eu tirei de uma sigla em inglês chamada SMART, que em português significa mais ou menos isso: específico, mensurável, atingível, relevante e temporal. Conheci num evento SEBRAE de formação de empreendedores e depois passei a aplicar no trabalho. É bom demais. Como disse o instrutor, uma meta Smart, para fazer sentido de verdade, tem que vir do coração.

Então, é natal, e o que eu fiz da minha lista de 2023? Muitas coisas, muitas mesmo. Todas? Não. Alguns dos meus itens dependiam de outros contextos e de outras pessoas para se realizarem. A academia tem sido uma batalha, assim como a perda de peso, mas ambas são relevantes para mim e já estão em primeiro lugar na lista de 2024. Sobre o reino de Deus chegar sem avisar, é um lembrete que a previsibilidade da vida não está em nossas mãos. Fazer lista é bom, ter projetos é bom, mas ter jogo de cintura para o inesperado é melhor ainda.

Feliz lista de realizações em 2024!

Microcrônicas de capital #2

Avenida comercial, tanto camelô e gente nas calçadas que fica difícil ver o chão: mais de um tropeçou no corpo até que alguém diagnosticasse “é o calor” associando o 36°C no termômetro do poste da esquina com o rubor e suor. Nessa certeza tratou logo de tirar-lhe o moletom.

No bolso: um cartão vale-passagem do ônibus, o crachá da empresa e um vidrinho de dipirona.

Seja apaixonada por você

Acho que o amor é o combustível para tudo na vida, e não estou falando do amor romântico. Sabe o que te faz bem, o que voce saber fazer melhor e aonde quer chegar com um desejo, isso é se amar.

Em um mundo que vive em telas e que a comparação está em voga, se autoconhecer e se desenvolver em prol de si é o maior ato de amor próprio. Às vezes será doloroso, às vezes será satisfatório, essas sensações são parte de um processo de longo prazo para você se tornar sua melhor versão.

Eu estou nesse processo, você também pode estar e procurar por si no meio de uma multidão de padrões, é um ato de amor. E vamos seguir assim, nos amando em primeiro lugar.

A árvore (in)visível

Ela estava ali 

plena

Enfeitada e colorida 

luzes e bolas

Afinal

Natal

Época em que os corações mais esperançosos 

Aguardam 

Dádivas e retribuição 

Aquela inspiração 

Que enche a vida

De um ar meio mágico 

A árvore

Impossível não ver!?

Impossível não sentir!?

Eis que 

para triste espanto

(ao menos meu)

Ela passa aos olhos da indiferença 

Nem olhares 

Nem olhar

A árvore 

Ela somente existe

Como mero elemento 

Mais um

Menos um

Tanto faz

Inevitável pensar 

Ela e eu

Parecidas

Naquele lugar

Apesar de estarmos 

Não somos

Chovia intensamente lá fora

Chovia intensamente lá fora. Eu queria fazer um fluxo de pensamento. Mas meu cérebro estava travado, empacado, ao lado do Caminho do Artista, atrás de um copo com um cigarro velho. Na TV baixinho notícias de desgraças diversas, toda uma lista de “bondades” e bobagens que o jornalismo nos oferece cotidianamente. Uma bala perdida em uma comunidade, o lançamento de um prêmio qualquer ou o resultado do PIB.

Desço as escadas, pego um café, e tomo um chá. Preciso despertar, mas ao mesmo tempo manter a calma. Ser escritor é difícil, mas é a única coisa que penso que sei fazer. Vejo um sutiã atrás da almofada em cima do sofá e me lembro de roupa acumulada pra lavar. Um vento frio atravessa a janela. O gato mia agudamente, esqueci a ração desde ontem. Esqueci também de pensar no último amor perdido, o que por si só já é um alívio, se não me lembrasse agora.

Pego o celular, confiro mensagens, nada de novo. Tento voltar para o computador, não está fácil. Abro a janela para ventilar as ideias, os respingos caem, desisto. Fico no escuro do fim da tarde. Tento pegar o Caminho, mas é chato tanta meta. A Tv me distrai com mais uma morte violenta, me lembro da do meu pai na porta de casa em um dia de jogo de futebol. Torcidas desorganizadas.

O estômago ronca, hora da fome. Sinto medo de eu ser apenas um relógio biológico, minha pretensa sabedoria escorrendo nada criativa. Seria um corpo robótico?

Enfim, como, bebo, renovo o cigarro do copo. Me lembro de velhos amigos. Da família distante. Do meu diagnóstico. Não quero sofrer, preciso ser prática. Ponho então a roupa na máquina. Faço exercícios físicos, limpo uma mancha de extrato de tomate na tolha de mesa. E me ponho inesperadamente a escrever sobre tudo isso, em uma espécie de exercício de páginas matinais, só que no fim da tarde. O texto é confuso, como se vomitado por uma criança com verminose. Será que é isso mesmo que me faz feliz?

São muitas perguntas sem respostas. Enquanto isso, escuto A Tempestade, do Legião Urbana. Tudo em uma hora.

E chovia intensamente lá fora.

Microcrônicas de capital #1

Sempre no mesmo horário, no mesmo ponto de ônibus, mas o dela passa antes do meu. Tem quinze dias acordei feliz e sorri dizendo “Bom dia!”. Ela só fechou a cara e abaixou a cabeça. Fiquei na minha. O ônibus dela passou, ela entrou. Depois passou o meu.

E nunca mais ela esteve naquele ponto de ônibus. Não sabia que um “bom dia” causava transtorno, desculpe!

Adeus,23. Olá,24.

Eu sempre fui adepta a aniversários, de gostar de receber e guardar as mensagens deste dia, de esperar por uma festa surpresa e de ser um dia especial que espero ansiosamente.

Quando completei 23 anos, eu era uma pessoa muito diferente do que sou hoje, acredito que a cada aniversário, um novo ano pessoal se inicia e aos quase 24, vejo que eu precisava tomar decisões para estar firme por aqui.

Eu sempre vivi numa bolha, você pode considerar isso até bom porém essa proteção me custou memórias, conhecimentos e habilidades essenciais que eu poderia ter gastado menos tempo ao conquistá-las.

Aprendi na marra e por estar buscando novos horizontes que a solitude pode ser uma amiga importante, que a minha zona de conforto não é necessariamente confortável, que eu entendi depois de muito tempo quem eu sou,verdadeiramente.

Aquela que ama Advérbios quando escreve,

Aquela com muitos sonhos no papel,

A que está sempre aprendendo mais,

A que sente saudade de quem a mais amava,

Uma vida preciosa que começou ontem, vive o hoje e planeja um grandioso amanhã.

Uma história que ainda está em andamento, 23.

Seja muito bem-vindo, 24.

Deixa o novo entrar

Um sentimento de inadequação sempre me invadia quando um relacionamento não dava certo. No que será que eu errei? Poderia ter feito diferente? O que ele não gostou em mim?

Com o tempo, aprendi que o meu gostar não era suficiente para garantir o gostar do outro, que podemos nos pintar de ouro e continuaremos não fazendo diferença na vida de quem não nos quer.

Aprendi que não preciso mudar para agradar ninguém e que o sim é muito claro. Se existe um pingo de dúvida, é não.

Tudo que já nos marcou a ferro quente, nos deixou marcas e cicatrizes também nos ensinou algo. Pessoas também nos ensinam o que não queremos para nós.

Que os finais e as marcas deixadas por todos que nos constituíram como pessoa sirvam de ponte para o recomeço, para o novo atravessar e chegar.

A palavra de ordem é a impermanência. Nada é para sempre, quanto mais tentamos aprisionar nossa felicidade num instante mais ela escapa pelos vãos dos nossos dedos. O que não depende de nós não nos pertence e a atenção plena nos ensina a viver o agora.

Por tudo isso, se o novo bater a sua porta, deixe entrar. Receba com um sorriso, o coração grato, a alma leve. Esquece o que te fizeram no passado, não generalize comportamentos, não coloque as pessoas no mesmo balaio, não finja ser o que não é para agradar e não pense no amanhã, não crie expectativas; principalmente, em relação ao que não depende de você.

Se de alguma maneira o novo te gerar insegurança, ansiedade, dúvidas, desconforto e sentimento de não pertencimento…aguce seus instintos, amplie o campo de visão e esteja alerta se isso não seria um NÃO.

Lembrando, o sim é muito claro e se realmente for ele batendo em tua porta, abra, sem medo, sem reticências e estenda o capacho: SE FOR PRO BEM, PODE ENTRAR E FICAR!

Salve, Mulher

Salve, Mulher

Rainha de onde quiser

Vida de corres, no amor ou no ódio

No ponto de ônibus

Na fila da van

Esperando o uber

Salve

É por você que choram

Bocas famintas em casa

Para você suplicam o peito, o carinho, a cama na hora do sono

Nos conte uma história, faça um cafuné, dê cá sua companhia

Os seus olhos cansados

as pálpebras manchadas dos dias de trabalho e das noites insones

se voltem a nós com doçura

E depois de muitos anos

De dedicado trabalho à família

Entregue seus filhos ao mundo

Seu trabalho cumprido

Aval concedido

– Que deixem o ninho vazio!

– Que deixem o coração partido!

Voltem a ti, com amor e frutos

E a promessa de um tempo feliz

Amém


Crédito da imagem: Dall-e

SOBRE GIGANTES, DESEJOS E SONHOS NOSSOS DE CADA DIA

Eu alimentava um desejo secreto. Desses que a gente não fala pra ninguém. Não porque fosse proibido, mas porque acreditava ser inalcançável. Um sonho de produzir artes. E quando digo artes, me refiro a tudo o que o homem transforma e torna belo por meio de seus sentimentos e habilidades. E por belo me refiro, também, ao que é desconfortável e muitas vezes rejeitado.

Foi assim quando vi pela primeira vez uma colagem. A possibilidade de trabalhar com partes de um todo formando outra arte que não a original me fascinou. Os recortes de tamanhos e formas variadas. As texturas, as imagens ora impactantes, ora ternas, ora afetuosas, reconstruções de realidades. Fiquei encantada e fui capturada pela arte.

E, por me julgar incapaz, nunca imaginei que pudesse fazer algo parecido. Achava a técnica sofisticada, complexa, imaginava que exigia um conhecimento que eu sabia não ter. E pior, não sabia onde poderia aprender.

Aí entra o caos da pandemia. Me vi entre o desespero de sobreviver e proteger minha família e a loucura de acalmar a mente e o espírito. O horizonte de águas estranhas que apareceu na minha janela foi a única alternativa possível para me arriscar em um mundo que pouco conhecia, mas com certeza estranho para o momento.

Não pensei muito. Me atirei na literatura e nas colagens. Como todo começo, tudo é muito sofrível, desnutrido, sem forma definida. Apenas a voracidade de aprender, de treinar, até que o corpo sofra. Por causa da má postura e dos movimentos repetitivos no tablet para fazer as colagens, ganhei uma tendinite. Dias de dor, remédios e, o pior de tudo, a distância do que no momento me mantinha lúcida.

 Depois do temporal o sol ressurge e as águas turvas ficam calmas e translúcidas. É hora de novos mergulhos. Mas agora, com cuidados e equipamentos adequados. E, assim, as colagens foram nascendo, assim como os textos. O pensamento mais organizado. O gosto estético apurado. Me dou conta de que sou capaz de capaz de fazer arte.

E penso que o julgamento alheio é o que nos limita. É da natureza do ser humano fazer julgamentos? Não! Assim como tudo na vida, somos treinados para isso. Julgamos a partir de nossos padrões estéticos pré-estabelecidos. E, no caso das artes plásticas, sobre o que é ou não é belo.

Contudo, como boa libriana que sou, o belo está mais relacionado à estética e à harmonia do que ao conceito de beleza em si. E só quando entendemos isso temos a ousadia de nos lançar em aventuras. Mas é preciso referências, porque ninguém que chegou até aqui, está descobrindo o fogo ou inventando a roda.

É preciso, com justiça, reverenciar quem chegou antes de nós. A metáfora dos anões em ombros de gigantes, atribuída a Bernardo de Chartres, no século XII, expressa: “Descobrimos a verdade a partir das descobertas anteriores”. Posteriormente, Isaac Newton popularizou a metáfora com a frase: “Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes.”

Portanto, tenho orgulho de minhas referências e mais do que isso, respeito-as. A apropriação indevida é grave. Reinvente, reescreva, refaça, mas com a consciência que o gigante que lhe acolhe é generoso, e grande o suficiente para esmagar a mediocridade.