A ilusão está lá fora

A massagem relaxante terminou. Foi deliciosamente aproveitada até o último minuto. O tempo precioso que dediquei a ela (ou a mim?) esperou por semanas mas, felizmente, chegou a vez. Levantei-me sorridente, relaxada, lamentando o término e, para dar forças a mim mesma de interromper aquele momento e retornar ao trabalho, brinquei, dizendo:

            – Vamos lá! É hora de encarar a realidade.

A moça da massagem, contudo, disse:

            – Pelo contrário. A ilusão é que está lá fora, como disse, uma vez, um cliente meu.

A frase dela me tocou como uma música que se escuta ao longe e que traz uma letra e melodia antigas que há tempos você não escutava mas que a deixa feliz. Eu tinha que voltar rapidamente ao trabalho pois o horário de almoço já findava. Mas a música que a frase despertou continuou ecoando. Não houve tempo para que eu lhe perguntasse o que ela interpretava dessa frase do seu cliente, nem se ele havia explorado mais essa questão com ela. Até agora, estou sem saber o que de fato o cliente ou ela interpreta quando dizem a frase. Mas eu, imersa no meu contexto particular, tirei minhas próprias conclusões. Afinal, as lentes que me permitem ver o mundo são personalizadas e exclusivas.

Recentemente, participei de um treinamento de Liderança Sustentável só para mulheres. Foi uma jornada incrível e o maior legado que o momento me deixou foram as histórias que ouvi e as incontáveis reflexões que ele provocou. Muito do que lá foi dito precisa ser ouvido por homens e mulheres e espero que haja outras oportunidades para tal. Por diversas vezes, a palestrante trazia dois vieses para a mesma pergunta. Um viés “de dentro para fora” e outro “de fora para dentro”. Achei interessantíssimo. No viés “de dentro para fora”, ela trazia os elementos internos que moldam nossa forma de ver o mundo e como reagimos a diversas situações conforme nossa bagagem interna. O viés de “fora para dentro” trazia diretrizes relacionadas com a literatura científica e o conhecimento de mundo que a sociedade ergueu (e continua erguendo) para resolver os mais diversos problemas da humanidade. Vamos sempre precisar dos dois vieses, interpretando o mundo com as ferramentas que o conhecimento científico constrói mas decidindo agir, na prática, conforme o que faz mais sentido para cada um, principalmente nas questões que envolvem as relações humanas.

Os dois mundos são absurdamente reais: o de fora e o de dentro. Durante os dias em que o treinamento ocorreu, mergulhei avidamente no mundo interno, tão sedenta que estava em permitir que ele me desse as respostas que eu precisava. Em meio às urgências diárias (algumas nem tão urgentes assim), é difícil ouvir aquela vozinha interna que, dependendo do turbilhão de coisas práticas que a gente precisa dar conta, às vezes é silenciada por nós mesmas, para não “atrapalhar” a “produção” das atividades da vida prática e as nossas próprias expectativas (às vezes irreais).

Esses dias me foram muito inspiradores e saí deles com uma vontade imensa de escrever, algo muito importante para exercitar e fortificar minhas “conselheiras” emoção e intuição, espremidas que ficam (sem, contudo, desistir) pela “conselheira” razão. Eram tantas coisas latentes em meu coração que recorri ao meu bloco de anotações para escrita, buscando inspiração de como canalizar o que queria dizer. Então me deparei com a frase ouvida em um momento tão trivial (como a maioria das minhas anotações para escrita) e que ecoou mais forte após as vivências da experiência recém-concluída.

“A ilusão do mundo externo” não quer dizer que ele não exista de fato ou que tudo que ocorre nele seja falso e deva ser desconsiderado. Pelo contrário. É nele que a gente caminha, realiza, partilha e vive. É nele que a gente se emociona e se indigna, se relaciona e se desenvolve. Isso é indubitavelmente real e o que vivemos nele provoca nossas ações concretas. Mas ele é uma colcha de retalhos de tantas coisas distintas e produzidas externamente, às vezes até inusitadas, que o resultado que ele provoca em cada um, em seu mundo interno, é diferente e muitas vezes imprevisível. Então, o que a gente processa internamente e devolve para o mundo externo é de fato o que mais importa e é o mais real que, de fato, podemos alcançar.    

Quando saí da sala da massagem, naquele dia, a luz branca forte me ofuscou violentamente e rapidamente pôs em prática sua missão de me acelerar novamente, para que eu corresse para as resoluções que me aguardavam. No caminho de volta, alguns olhares me pediam coisas e palavras, decisões e conselhos. Era o mundo externo pulsando apressadamente, como sempre, em um ritmo frenético como o toque de um despertador de celular. Olhei-o com serenidade e, em um passo de cada vez, caminhei tranquilamente até o meu lugar, tal qual me pediu meu mundo interno. E lá fiquei, processando tudo o que via e devolvendo, dentro do possível, as ações e gentilezas que me foram internamente produzidas.

Microcrônicas de Capital #4

Ganhou uma laranja junto com a marmita mas não tinha faca. Eu me ofereci para descascar enquanto ela abria o almoço. A vi se espantar e abrir um sorrisão:

-É feijoada!
Pequeno grande luxo num domingo eu dar serventia a meu canivete, e antes de sair levar um recado à equipe das panelas:

-A comida de vocês é molinha!
Elogioso, pois na rua não há tratamento dentário.

Preciso de um tempo

Preciso de um tempo. Para escrever devagar. Sentir a força e a leveza dos segundos que escorrem pelos meus dedos. E respirar fundo.


Olhar para a vida com detalhes. Tocar superfícies ásperas e sentir gostos adocicados. Apreciar cada instante.


O tempo que mora em versos. Que mora em sons. Quem mora na terra e na água.


Um tempo para contato com a natureza.


Para dormir e acordar sem pressa. Para viver um amor sem desespero. E para provar novos gostos, experimentar paladares.


Um tempo para a família. Para viagens, e para aprender coisas novas. Ou ler um livro nunca acabado.


Um espaço livre de pressão, de apreensão, e de medo.


Quem sabe, um momento de rebeldia, ou de nostalgia até.


Uns instantes para chorar.


Relembrar o passado, ou planejar o futuro.


Saltar de paraquedas. Ou dar umas braçadas em mar aberto.


Fazer tudo aquilo que sempre quis. Realizar sonhos.


Ou um tempo, até mesmo, para não fazer nada.


Preciso deste tempo.


E ele urge. Me cobra loucamente que pare, até para que não enlouqueça.


Preciso de um tempo, acima de tudo, para mim. Um tempo, sem prazo, sem laço, sem tempo, sem fim.

Ânsia

Ânsia

Amanhã eu vou estar com pressa
Dia cheio
Horários tomados
Vácuo preenchido
Não tem espaço
Não deixo espaço
Enche
Limite
Transborda
Sente
Coloca tudo
Diz a voz
Cem por cento de aproveitamento
Vamos para um café?
Agenda (…)
Tempo (…)
Respira!

Ânsia

Claro!
Quando?
Claro(…)

Ânsia

Tempo
Amanhã vou estar com pressa
Mas, amanhã não existe!
Só existe o hoje.
O Amanhã será o hoje

Tempo
Corpo no passado
Alma no futuro
Cabeça longe (…)
Foca.
Respira.
Quando?
Agora!

Selva

O percurso é longo

Felizmente

A poeira da estrada e as nuvens vaporizadas bailam

despreocupadas

Pelas veredas, vou me perdendo

E me encontrando

No oásis dos sonhos conquistados

Descanso o corpo calejado

Que resiste e me serve, abnegado

Sem quase nada cobrar

Na ânsia de olhar para a frente

Não pauso sobre a rocha forte edificada

Nem usufruo do pouso seguro

A pressa me toma de assalto

E me leva para um lugar estranho

No esconderijo da folhagem hostil que me enlaçou

Na selva, me camuflo

E não se sabe o que é selva e o que sou eu

A correnteza me conduz e me abandona em seu leito

Me devolve, resoluta, o turbilhão que não é dela

É meu

Recorro às armas que me são caras

E que me acompanham, vigilantes e gentis

Me perdoam por tê-las esquecido enquanto corria

E se oferecem generosamente

Gratas e mansas

Levantam-me, secam-me e me transmutam de volta

Não mais em selva

Não mais em ilusão

Preparam-me para desfrutar o caminho

Contemplar o que precisa ser visto

Me nutro e retomo

Pés nus sobre relva macia

Corpo presente, alma desperta

É onde quero chegar

Voto de fé

Hoje, observando o discurso de uma pessoa religiosa sobre política, me peguei fazendo uma viagem no tempo e compreendendo o motivo de tudo isso me parecer tão familiar.

A estratégia política de invadir espaços religiosos ou misturar interesses políticos à religião não é nova, mas ela vem ganhando corpo nos últimos anos e isso não é apenas uma caça aos votos. É algo muito maior.

Esse pesadelo atravessou nossa história pela primeira vez no ano de 1549 durante o período da colonização, quando a Companhia de Jesus (os Jesuítas) chegou ao Brasil.

Trazidos pelos europeus, sua missão era catequizar os povos originários, convertê-los ao catolicismo. A partir desse ponto, essa história começa a se desdobrar em inúmeras violências – todas cometidas em nome de Jesus, claro, como já sabemos. Um Jesus trazido e aclamado pelo povo Europeu, povo esse que roubava, matava e destruía.  Mas o ponto principal do meu raciocínio não é esse. Minha intenção aqui é organizar um raciocínio que me levou a  uma ligação entre a política daquela época e a atual, fazendo um paralelo entre as ações ligadas à religião e à fé.

Naquela época, o objetivo era “civilizar” os povos originários, já que estes resistiam ao processo civilizatório e à escravização implementados pelos europeus e escondiam-se em suas aldeias nas florestas, longe do controle dos homens brancos, invasores de nossas terras. Recusavam-se a entregar sua liberdade, a abandonar seus costumes, seus rituais, suas famílias, sua comunidade.

Os Jesuítas partiram então em busca das aldeias indígenas usando o discurso da salvação, a intenção de “protegê-los” da escravização, levando-os para os aldeamentos jesuíticos. Esse movimento facilitava sua conversão cultural  (que nada mais era do que estratégia de controle e domínio). Uma vez dominados, os indígenas poderiam fornecer força militar auxiliar contra tribos mais resistentes, intrusos estrangeiros e escravos rebeldes.

Os Jesuítas não quiseram, por exemplo, fazer o mesmo com os negros, uma vez que estes já haviam sido dominados e escravizados. Diziam que eles, os negros, não tinham alma e os escravizavam, comercializavam como coisas, exatamente como faziam os colonizadores europeus.

Nas tribos mais resistentes, um número incontável de índios foram mortos, muitas crianças foram levadas para longe de suas famílias sob a prerrogativa cristã de educar e salvar aquelas almas. Ao apagar a língua, a fé e a cultura, minavam a força das comunidades indígenas e a estratégia de dominação ganhava força. Havia ali um objetivo político muito claro, que nada tinha a ver com Ele, Jesus. Essas crianças, presas e torturadas por anos, perdiam sua identidade, seu lugar de pertencimento, deixavam de pertencer a uma comunidade organizada e independente, deixavam de resistir ao sistema colonialista e novas gerações iam sendo forjadas compulsoriamente na cultura cristã eurocêntrica enquanto todas as outras eram demonizadas.

Durante os anos do “trabalho” de letramento e catequização praticado pelos Jesuítas – com muita violência, castigos físicos e psicológicos, os índios conheceram um Deus que era salvação e castigo. O mesmo Deus que poderia mandá-los para o inferno com seu implacável senso de justiça, era também o único que poderia salvá-los caso lhe prestassem obediência, afinal, era bom e misericordioso. O mesmo Deus que lhes deu a vida, a natureza e a liberdade, agora, os controlava, aprisionava, castigava. Uma grande dicotomia.

Ora, se só Deus na figura de Jesus pode salvá-los, onde está a responsabilidade do Estado diante desses novos cidadãos civilizados?

Nos dias de hoje, a história se repete com ferramentas e estratégias de dominação mais sofisticadas, atualizadas para os novos tempos. Já não são mais os europeus em posição de domínio liderando projetos de exploração humana e extração de recursos e riquezas. Os personagens atuais são outros.

Um povo cada vez mais pobre e necessitado, carente de cuidados básicos, precisa buscar esperança em algum lugar, precisa ser direcionado, liderado, acreditar em dias melhores.


Mas esses dias melhores não são uma promessa e uma responsabilidade do Estado. São uma promessa de Deus, um Deus que abarca apenas um seleto grupo de escolhidos. Não mais os católicos, dessa vez. Só  Ele é capaz de transformar a vida de seus seguidores através do milagre. Com seus líderes nos púlpitos gritando, clamando e cantando a prosperidade material individual e a cura para todo e qualquer mal como milagres divinos, aliados aos governos em mais uma estratégia de dominação, o Estado vai marchando em direção ao Neoliberalismo, desobrigando-se do comprometimento com o desenvolvimento econômico da classe trabalhadora e abandonando milhões de pessoas à própria sorte.

Vai abrindo espaço para derrubar leis trabalhistas, vai instaurando a pejotização de pessoas pobres através do MEI, vai esquivando-se de trabalhar políticas de saúde para a degradação do sistema e depredação do SUS na busca pela privatização da saúde, vai distanciando-se cada vez mais do seu compromisso com a educação, que volta a ser privilégio de poucos com novas reformas propostas e aprovadas, afastando negros e pobres de qualquer possibilidade de mobilidade social com processos seletivos e editais cada vez mais excludentes, encurralando-os em novos sistemas de escravização.


A segurança, gritam aos quatro cantos, cada um que cuide da sua. É o que traduzem ao apoiar, por exemplo, a organização de golpes, a formação de grupos de justiceiros e armamento de civis. Formam-se novos coliseus.

Um povo que confia no poder divino para a solução de todos os problemas gerados pelo abandono do Estado está ávido pela chegada de um “salvador” ao poder. Entregam, assim, seu voto pela fé.

Todos os pilares da sociedade civil voltam às mãos gélidas dos super-ricos e, quando a classe trabalhadora já não tiver mais força e não puder movimentar-se, volta ao trabalho escravo (em novo formato), ao medo, à escassez, à obediência, ao silêncio.

O ódio e a intolerância disseminados contra os que são, em sua existência, diferentes do que pregam os vieses ideológicos cristãos e contra os que se opõem à conversão, são apenas mais um capítulo da história. Novos fios de colonização. Em nome de Jesus.

Retomar às rédeas

Não gosto muito desta expressão “retomar as rédeas” porque dá ideia de dominação, de mando, de ordem; mas não encontrei outra melhor.
Vivo, recentemente, uma grande virada de chave na minha vida. Pela primeira vez acreditei, de verdade, que eu consigo.
Foram momentos de diversas emoções misturadas: concentração, introspecção, dedicação, decepção, ansiedade, euforia e, finalmente, insights…muitos insights.
Conheci novas pessoas que me apoiaram e incentivaram como se nos conhecêssemos há anos. Fui decepcionada por outras que eu acreditava haver uma fidelidade recíproca.
Foi uma semana de fortalecimento, agradecimento profundo e de retomada de mim mesma.
Reflito há algum tempo sobre como a maternidade atípica me anula como profissional e como mulher (pode ser apenas uma impressão); mas, por vezes, sinto que ainda não alcancei a excelência pelo cansaço, pelas demandas, pela falta de tempo.
Muitas pessoas me perguntam como consigo fazer tantas coisas, ter tantos projetos sendo mãe de uma criança com paralisia cerebral e autista e, saindo do modo automático, comecei a refletir sobre isso.
Em primeiro lugar sou extremamente grata e feliz pela vida que eu tenho.
Em segundo lugar, tenho uma mãe fantástica, de vanguarda, cúmplice e parceira que é meu braço direito, esquerdo, pernas, tudo que possa fazer para permitir que eu me dedique aos meus planos. D. Sílvia fará 82 anos neste ano. Impossível não pensar na impermanência.
Em terceiro, uma filha linda, parceira, que me proporciona momentos de muita cumplicidade, risadas e orgulho pela mulher que está se tornando.
Em quarto lugar, acredito que não são as circunstâncias que determinam minhas escolhas e meu destino, mas como eu lido com elas.
Em quinto lugar, jamais desperdiçaria a chance de crescimento como pessoa com tudo que meu filho me ensina. Tenho pena de quem não evolui tendo um filho neurodivergente.
E por que retomar as rédeas?
Assim como afirmei que as circunstâncias não me limitam e não me determinam, decidi e entendi que a maternidade atípica não me limita. Ela exige mais do meu tempo e da minha dedicação mas, quando há vontade, desejo e determinação, dá-se um jeito.
Muitos acontecimentos vêm confirmando meu bom trabalho com a psicanálise. Estou me amando mais, retomando meu lado mulher e me autorizando ser amada. E decidi retomar o controle dos cuidados comigo mesma, tão negligenciados em detrimento do cuidado com os
outros.
Escrevi há um tempo para o meu site, um texto intitulado: quem cuida de quem cuida?
E hoje, respondo que, precisamos de uma rede de apoio, sim! No entanto, algumas coisas, só nós podemos fazer por nós mesmos.
Neste momento, me sinto profundamente alegre por fazer por mim o que precisa ser feito. E me preencho com o carinho de pessoas que talvez nem saibam que esse texto é um agradecimento a elas.

Farol de pipas

Suas palavras tatuaram minha memória, numa época em que eu ainda usava calças curtas e os papagaios eram muito mais interessantes do que as pernas das garotas. Conheci-o em um final de tarde, enquanto a cortina escura do céu sem nuvens substituía o bailado das pipas pelo espetáculo perene dos luzeiros.

A brisa estava prestes a se torna ventania, não havia embarcações no horizonte e o facho do farol ofuscava a minha visão, cadenciadamente, à medida que girava ao redor do seu próprio eixo.  Juntei o rolo de linha, envolto a uma lata de leite vazia, mas, diferente do costume, não acompanhei os garotos que deixavam o morro do farol em direção à cidade.

Petrificado como a linha banhada em cerol que restara de minha derrocada, me condoí pela figura do mendigo e do seu saco de trapos que cruzaram o meu caminho. Ele tinha um ferimento na perna que aumentava o peso da sua marcha.

            —Senhor, é preciso tratar essa ferida. Por que não vai ao posto de saúde?

            O homem levantou os olhos do chão e estacionou os passos. Fios grisalhos cobriam partes do seu rosto, conforme o vento açoitava-lhe as costas.

            — Deus me livre de tamanho suplício!

            — Tem medo de médicos?

            — Não tenho medo de nada, só não quero que me mandem tomar banho, cortar o cabelo e fazer a barba.

            Minha condição de menino, se identificou com o maltrapilho.

            — Não gosta de banho, não é mesmo? Te entendo, vez ou outra, também fujo dele.

            — Não gosto de nada daquilo que possa me roubar a identidade.

            — Isso quer dizer que o senhor aprecia sua condição de mendigo?

            — Mas é claro! É minha profissão. Na sociedade, há médicos, engenheiros, cozinheiros, lixeiros e mendigos. Sou um deles.

            — Não sabia que mendigo era profissão. Meus pais também não sabem, pois vivem dizendo que, se eu não estudar, posso virar um deles. Eles têm medo de que isso aconteça.

            O homem sorriu.

            — Seus pais estão certos. Ser mendigo é um ofício árduo e muito mal remunerado. Para mim sobram apenas minguadas moedas e o pão que ninguém quis comer.

— Mesmo assim, tem medo de que lhe deem banho e deixe de ser mendigo?

—Essa é a minha missão. Sou um sinal de alerta quanto ao risco da marginalidade. Quem olha para mim, sabe que as margens são estreitas e que bastam poucos, ou apenas um tropeço, para estar do lado de fora delas. A humanidade, menino, caminha impelida pela inércia que a impede de parar para recolher aqueles que ficam à sua margem.

— Mas, senhor…

O mendigo voltou a caminhar.

Ressenti-me. Desejei saber o seu nome e que tropeço lhe lançara para fora das tais margens e onde elas ficavam.

Não tive tempo, como pipa cortada no céu, o mendigo desapareceu e pousou não se soube onde.

Agradecer

A vida é uma caixa de surpresas
Cada vez que acordo
Lembro de como é importante
Agradecer todos os dias

Por todas as coisas
Das pequenas
Das grandes

Agradecer pela oportunidade
De acordar
De poder respirar
De saber que podemos melhorar

Para esta vida
Eu

Quero
Agradecer pelas pessoas que estão aqui com a gente para poder viver nossas realidades

Não sei nada sobre isso

Quero engolir a palavra

Mas ela, danada

foge ligeira de mim

Salta entre os dentes

Da ponta da língua

Para ouvidos desprevenidos

Imprudente!

Não sei nada sobre isso!

Palavra que lasca a pele

Faz verter sangue, riso e suor

É ágil, crossfiteira

Corre para chegar mais longe

Não quer saber de gentilezas

Não dá moleza pra rapadura nenhuma

Mordaz e sagaz

Não se perde no caminho

Que confusão essa menina faz,

Essa palavra que não se controla

Fugitiva

Espevitada

Ri e brinca de dizer a verdade

Quando mente, ninguém sente

Às vezes acha que é tarde

Às vezes acha que é cedo

Às vezes só sente muito

Às vezes faz um gracejo

Quando é tempo de sair?

Não sei nada sobre isso…

Palavra com vida própria

Depois de solta no mundo

Não me pertence mais

Quem recebe sabe dela

Seu signo, contexto

Matéria, esquisitice

Quero engolir a palavra

Mas ela escapa outra vez

Olha pra mim de soslaio

Me manda beijo e abraço

vai ser adulta na casa de alguém

E sobre isso, nada mais sei.