Microcrônicas de capital #3

– Não pode usar essa rua de ponto sem autorização, baranga!
– Só estou indo para casa.
– Nesse chic? Tava onde?
– Num casamento.
– E volta para casa de ônibus? Pelamor! Cê mora longe?
– Depois da Avenida mais oito quadras.
– Mona, sofre não! Pega minhas havaianas e põe esse salto na sacolinha, toma!
– Tem alguma coisa aqui dentro…
– É um lanche e um pacote de camisinha. Fica também, tu tem cara de que não se previne. É do interior, né?
Apenas sorri.
– Sabia! Vai com Deus, piranha!

Eu pequena

Ela caminha em minha direção como uma seta disparada por um arqueiro hábil. Caminha em linha reta e inequivocamente me tem como destino. À medida que se aproxima, consigo ver seu vestido de listras amarelas e azuis, dançando na cadência do seu caminhar. Seus cabelos lisos estão presos em um rabo de cavalo que também balança em cadência com o conjunto. Ela tem um leve sorriso que se ancora no pouco que sabe mas no muito que o coração almeja. Os olhos são dengosos e me pedem abrigo.

Quando ela está bem perto de mim, meu coração estremece pois percebe de quem se trata. Aquela pequena figura de pernas roliças e mãozinhas pequenas se abre em um abraço e me enlaça. Começo a chorar silenciosamente pois estou emocionada de tê-la, agora, tão próxima a mim. Compadeço-me daquela criaturinha pequena, frágil e tão virgem de desilusões e expectativas.

Nós gostamos de abraços. Então ficamos imersas nesse aconchego por um bom tempo. O vento sopra, balança as folhas das árvores e mistura nossos cabelos. Sinto seu perfume suave e fresco de criança com banho recém-tomado. Ela está tranquila, entregue a este momento. Não sei o que ela espera de mim. Na verdade, ela também não sabe.

Resgato minhas lembranças para refletir qual conselho darei a ela. Devo alertá-la sobre quais perigos? Qual decisão nossa não deveria ter sido tomada do jeito que foi? Quais sofrimentos poderiam ter sido evitados com uma pequena mudança de curso? Devo entregar a ela o tesouro (ou o fardo) de saber tudo que acontecerá no seu futuro? Mas se eu disser e ela mudar tudo, eu ainda existirei? Existirei do jeito que sou?

Tranquilamente, vamos afrouxando nosso abraço. Ainda estou emocionada mas já consegui secar os olhos e a face. Ela continua me olhando ternamente. Seus olhos me veem com admiração e sinto que ela espera algo. Então, eu digo:

– Sei que não parece mas eu sou você. Continuo sendo você. Às vezes eu também me esqueço disso. Por mais estranho que possa parecer, a maturidade me alertou que preciso me conectar mais com você, com a criança que fui, com a essência que vive camuflada sob as tantas camadas que fui construindo ao longo do tempo. Muito obrigada pelas decisões que tomamos. Elas nos trouxeram até aqui do jeitinho que tinha que ser. E se eu puder lhe dar apenas um conselho, seria o de não se desconectar do que a gente verdadeiramente é. Mesmo com todos os desafios, tribulações e a importância que você dará às expectativas alheias, sua essência deverá ser seu norte. Não se afaste dela. Depois, pode ser muito difícil encontrá-la novamente. Mas, se ainda assim, você se perder dela, sempre haverá um caminho de volta. E sim, nós somos o bastante.

                Seus olhinhos ficaram apertados, como quem se esforça para enxergar o que precisa ser visto. Suas bochechas levemente ruborizadas se movimentaram com seu leve sorriso. Apesar da pouca idade, pareceu entender o que eu dizia. Nosso encontro está chegando ao fim e sinto que chega a hora dela se despedir para retomar seus passos, retornando por onde veio. Pouco a pouco, sua imagem vai se desmanchando no horizonte. Sinto vontade de chamar por ela para que volte e eu possa lhe contar, dessa vez em tom mais leve, sobre as tantas coisas boas que acontecerão. Mas não o faço porque não é necessário, já que ela está e sempre esteve comigo. Grata por tudo, levanto-me e sigo para casa, arrastando na saia longa e colorida os raminhos verdes da grama do parque.

Meu novo ano

Meu novo ano, pensei seria fácil

passar pano bento

lavar os pés dos teus prévios

O  que jurei no velho que se despede

e te recebe com fogos, esquece.

nem chegou a cair umbigo pois

dévio destino ocorreu-me

Lembra do mantra

do arrebento do mar Chuá … Chuá…?

Repeti-o até a língua cansar

e perder de velhos os dentes

O mar nada levou

para as sereias afundarem:

nem a mão que tampa minha boca

nem  a Tal dele transformou-se cinza

o sapato ainda é o mesmo

os calos também ainda me ardem

a caminho das praças de pires nas mãos

Meu novo ano, minhas macambúzias

insurreições não foram solitárias e até deixaram

pálidos muitos cínicos de cheios bolsos

cujos ócios muito rendem

Tombou o valo nas batalhas

me agouram tal mortalha de vivo

mas encontrei na palha do tempo

meu Novo Ano

o mapa do Tesouro de Sierra Madre

já gastei por conta, que a vida é sopro

Na estrada

Na estrada

Eu estou na estrada

Na estrada da vida

Catando cacos pelo caminho

Olhando o céu azul

Pensando no medo do fim

Eu estou na estrada

Correndo a mil

Vendo-a passar em segundos

Quase tocando o ar

Me atirando nesse mar

De areia e pedra

Me misturando, camuflando

Sendo um pouco dela…

Eu estou na estrada

Na varanda da minha alma

Sentindo, vibrando, admirando o horizonte

Na estrada

Na estrada

No percurso como em um filme

Em um trajeto firme

Maravilhando-me com o sol brilhante

Que queima, arrasa a terra

Tentando alcançar inútil o infinito

Que me foge arredio

Ainda assim, eu me arrisco nessa estrada

Ah, eu me arrisco na estrada!

Faz um tempo

Faz um tempo que saí de cena
Acordo a hora que quero
Durmo quando o sono vem
Troquei o dia pela noite
Já dormi amanhecendo
Acordei anoitecendo
Vivi fora do tempo das pessoas comuns
Habitei o incomum
Ouvi a chuva cair
Pintei de madrugada
Estudei às 3 da manhã
Fui ao mercado meia-noite
Vi as luzes dos apartamentos se apagando
E me perguntei quem também estava ali
Desperto em um horário proibitivo
Em uma segunda-feira útil
Para as pessoas comuns…
Já eu
incomum
Exilada de tempos modernos
Afastada
Por assim dizer
Por assim me definirem
Voltei no tempo
Voltei a ser quem há muito tempo não era
Livre

Mara não quer mais se definir pela profissão que tem e nem pelo que faz para pagar os boletos. Quer romper os limites das prisões sem grades e se pergunta como. Autora do livro Os menores bichos do Brasil: https://clubedeautores.com.br/livro/os-menores-bichos-do-brasil-2

Eu mergulho

Em um mar de amor

De fé

De dor

De poesia

Não me basto

Não me completo

Não me findo

Eu mergulho

Afundo fundo

Em minhas águas profundas e serenas

Me busco

Sou enseada

Lagoa

Piscina natural

Rio manso, remanso

E me lavo, me limpo, me levo

Navego

sem fim

Deixo a correnteza agir

Já cansei de fugir

Eu mergulho

Em um oceano de mim

Obra

sob expressão introspectiva

permaneço imóvel

sentimento enigmático

destaca rosto

capto mensagem oculta

sfumare

busco riso

me perco multidão

recrio Da Vinci

na Epístola aos Coríntios

examino-nos

este é o meu corpo

nosso templo em eucaristia

devora a Última Ceia

bebo cálice

ascensão

corpo sagrado

comungo

sobreposta no círculo

redescubro proporções

simetria perfeita

algoritmo exato

calculo razão áurea

renasce obra vitruviana

com vértices grafo

carne pecado

concebo A Virgem

contrasto luz

oculto o visível

pertinente adormeço

acordo o sonho

desilusão

Resenha do livro “Eu sei porque o pássaro canta na gaiola” (autora Maya Angelou)

Deparei-me com esse livro na Bienal do Livro de Fortaleza, em 2022, e o adquiri junto com outras obras. Até então eu nada sabia sobre sua autora, a americana Maya Angelou. Mas fui capturada pelo título avassalador que me fisgou com a promessa de me explicar como alguém privado de liberdade enxergaria o mundo e, de certa forma, floresceria nele . De lá para cá, o nome de Maya surgiu para mim em diversos momentos, inclusive com outro livro dela indicado em um clube de leitura do qual eu fazia parte. Ainda antes de concluir a leitura de “Eu sei porque o pássaro canta na gaiola”, descobri a importância da autora não só na literatura mas também em outras áreas da arte e, também, no ativismo em defesa de inúmeras causas importantes.

O livro demorou um pouco a me cativar após iniciada a leitura. A obra é autobiográfica e confesso que o relato da infância de Maya, a princípio, não me chamou tanta atenção, com sua narrativa detalhada do mundo em que ela vivia enquanto criança, boa parte dele em Stamps, no Arkansas, na companhia de um irmão, da avó paterna e de um tio deficiente. Minha avidez por entender a mensagem que o título do livro me instigava talvez tenha me atrapalhado nessa primeira parte da leitura, onde a tônica era a de uma criação rígida por parte de uma avó muito religiosa, austera e calejada pela segregação racial americana.

Alguns elementos são muito marcantes na narrativa de Maya. Sem dúvida que o racismo é um dos temas mais recorrentes e impactantes, não só na vida dela mas de toda sua comunidade e entorno, ditando os códigos de conduta que levam a muitas das ações narradas no livro e que nos fazem saltar os olhos para tanta injustiça e desigualdade. Da infância de Maya, impossível não se sensibilizar com duas situações, dentre várias, extremamente comoventes. Uma deles é quando a menina precisa de atendimento odontológico urgente e não consegue, em uma primeira tentativa, porque o dentista branco se nega “a colocar a mão dentro da boca de um preto”, ainda que a família de Maya pudesse pagar pelo serviço. E a outra, a do abuso sexual sofrido por ela na infância. Esta narrativa de Maya nos traz um nó na garganta porque relata algo vil e inconcebível e é narrado como se fosse a menina Maya (e não a escritora adulta) a contar, com toda a ingenuidade, incompreensão, medo e culpa que se espera de uma criança.

Fiquei extremamente impactada pela narrativa da Maya adolescente, com sua construção do ser mulher e a busca por seu lugar no mundo, driblando o caos, o preconceito, a escassez de oportunidades e a insegurança familiar. Cada linha lida é um deleite. Não só pelos relatos em si e o tanto de aprendizado que se pode tirar deles mas também pela escrita inteligente e verdadeira, que passeia entre o poético e a crueza. Um dos prefácios da edição que li traz Djamila Ribeiro dizendo que a obra “merece ser lida em doses”, sorvida aos poucos. Precisei pausar minha leitura em certos momentos, descansando o livro aberto sobre mim, longe dos olhos, para de fato tentar enxergar o que me era mostrado. Uma pena a narrativa acabar antes de conhecermos a Maya adulta. Contudo, o prólogo fornecido pelo livro nos dá a dimensão do porquê dela ter se tornado a mulher importante que foi e de como ela floresceu e cantou na gaiola para, depois, libertar-se dela e ajudar outros cativos no mesmo caminho.

A Vida Sempre Acha um Caminho (ou a Flor de Jericó)

Certamente você já se deparou com calçadas com rachaduras de onde saíam umas ramas verdes de plantinhas teimosas que não sucumbiram à rigidez do concreto e irromperam bravamente. A vida em potencial estava ali, encarcerada e confinada mas viva e resistindo. Na primeira brecha, ela desabrochou.

Uma vez, deparei-me com uma frase em um livro de hidráulica que lançava mão de uma citação que dizia que a água sempre acharia um caminho, por isso um livro inteiro dedicado aos movimentos dela e em como a engenharia deveria lidar com ela para tirar todos os proveitos que esse líquido precioso, porém voluntarioso, poderia nos oferecer. Essa frase sempre ficou em minha mente e já faz um tempo em que eu resolvi extrapolá-la, a partir do exemplo das plantinhas que citei há pouco (mas não só delas), de que, na verdade, a vida (e não só a água) sempre achará um caminho.

E para além dos exemplos da natureza, que são inúmeros, o que mais me chama atenção mesmo para o imperativo da vida e de como ela pode resistir a situações extremas, são as experiências da vida humana e de sua insistência em florescer, mesmo quando o cenário parece tenebroso.

Os mistérios do mundo são imensos e eu nem de longe me arriscaria a chegar perto da chave que abre a porta das respostas, caso tivesse esse mapa do tesouro. Mas fico observando, do meu cantinho limitado e deveras protegido, os exemplos que me instigam a questionar o porquê de tanta destruição e irracionalidade no mesmo mundo onde brotam exemplos de resistência e esperança. Mais um paradoxo dessa existência permeada deles.

A despeito das guerras que permeiam esse ano que se despede, sejam conflitos armados em outros territórios ou a nossa guerra da desigualdade e violência diária das cidades brasileiras, é sobre a nossa capacidade de superar as adversidades e de ter esperança que me instiga a refletir. São os voluntários espalhados pelo mundo e que se doam pela vida do próximo (e fazem diferença de verdade nessas vidas) que me mostram que um desejado feliz 2024 pode ser possível, dentro das limitações que as próprias decisões da humanidade impõem.

Os abrigos de pessoas e animais, os voluntários que se voltam para as pessoas em situação de rua ou para os encarcerados, os ativistas pelos direitos das mulheres, dos idosos e das pessoas com deficiência, os que lutam pela população LGBTQIAPN+, os que se dedicam à educação transformadora e inclusiva, os que executam políticas públicas de verdade e mais um tanto de gente que se envolve com causas importantes (às vezes com alcance não tão extenso e visível mas igualmente relevante) e que ajudam a vida a florescer e frutificam toda a potência guardada e ainda não desperta é que me trazem o alento de que um novo (e melhor) 2024 pode ser semeado, regado e colhido.

E se a vida pode renascer coletivamente, o que não dizer da nossa experiência também como indivíduos? No nosso caminhar e nas descobertas que a estrada nos traz para que aprendamos a passar por essa trilha da melhor forma? Às vezes a lição que vem com as adversidades é dura e difícil de ser digerida mas nela pode haver uma brecha, tal qual a da calçada de concreto, para irrompermos em viço e potência.

Conversando uma vez sobre o assunto dessa crônica, uma pessoa me falou na Flor de Jericó, uma planta que teria a capacidade de guardar nela a chama da vida mesmo em situações bem extremas, inclusive parecendo que havia sucumbido, mas que, ao menor sinal de água e sol, ressurgiria em plenitude, como se renascesse. Gosto de nos imaginar como essa flor e pensar em nossa resiliência e insistência, apesar de nossas limitações e fragilidades.

Ainda que a dinâmica do mundo tenha seu ritmo próprio e, muitas vezes, alheio aos nossos desejos, nossa fortaleza pode estar em reconhecer nossa limitação e, mesmo assim, optar por seguir em frente e florescer.  Cientes também de nossa efemeridade apesar da força (outro paradoxo), nos permitir brilhar o mais intensamente possível. Mia Couto disse, em seu livro “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”, que “a vida é fogo e nós somos breves incandescências”. Então, sejamos Flores de Jericó, na medida em que podemos, e no tempo em que nos for permitido “incandescer” por aqui.