Microcrônicas de capital #6

Como eram muitas pessoas para receber marmitas já descemos os três do carro, um pegou os agasalhos para distribuir. Juliana me mandou olhar para trás: vinham policiais. Pior: polícia montada! Ai, meu Deus! Vão jogar os cavalos sobre as barracas, se não jogarem sobre as pessoas!

– Quem é a pessoa responsável pela distribuição? Uma voz de quem está acostumado a gritar.

Corajosa pero no mucho, só levantei e mão sem falar nada. Vontade de ligar para minha mãe…

– Tem uma moça grávida na viela atrás do supermercado. Leva lá para ela.

– Sim, senhor.

E foram embora nos cavalos sobre o canteiro central da avenida.

Memória

Jogar todas aquelas coisas fora foi como uma despedida a conta gotas. Tinha de tudo naquele quartinho, desde roupas velhas e fotos até documentos pessoais e um telefone antigo.

Era com dor que fazia aquilo, mas precisava, pois se mudaria para um apartamento muito menor. Não dava mesmo para levar tudo.

Sabia que sua querida avó, onde quer que estivesse, não o culparia pela decisão.

Que o mais importante era guardar na memória a lembrança dos momentos bons que passaram juntos.

E que não foram poucos…

Terminou de juntar tudo e se despediu das caixas.

Uma despedida dolorosa, mas infinitamente menor que perdê-la. Ela que foi seu grande amor, sua maior referência.

(Verdadeiros amores permanecem, para além do tempo e do desgaste de objetos e pequenas paixões, perdidos na imensidão de nossos passageiros pesares)

Mães no Poder

Cheguei no evento em cima da hora. A dificuldade em conseguir um táxi na hora mais movimentada da manhã fez com que eu não chegasse com a antecedência que eu queria. Apesar de estar um pouco preocupada com o horário, estava feliz em contemplar as paisagens daquela cidade cheia de significado para mim e na qual eu tinha pousado na véspera. 

Minha primeira ida à Brasília foi a trabalho, há mais de quinze anos. Depois de várias idas e vindas para participar de grupos de trabalho onde aprendi muito e conheci muita gente bacana, morei na cidade por um ano, quando assumi um novo cargo na mesma empresa.

No caminho do aeroporto para o hotel, lembrei de mim mesma há dez anos atrás, quando embarquei em Brasília para assumir aquele novo cargo. Naquela ocasião, ia morar e desbravar o cerrado como residente. Agora, voltava em outro momento profissional e pessoal bem distinto. Agradeci por tudo que vivi ali e que me conduziu, de certa forma, a esse novo reencontro.

Ofegante, cheguei ao local do evento. Desci as escadas com minha perna direita dolorida mas mantendo a pose de quem estava plena com seu salto elegante. Ao fim do dia, a escolha por essa “elegância” me cobraria seu preço. Todas as escolhas têm um preço.

Tentei passar despercebida, pois me considerava atrasada e me sentei na primeira cadeira vazia que vi. Alguns colegas ainda chegaram depois de mim. O evento demorou um pouquinho para começar e pude ir descansando da correria e entrando no modo observadora-reflexiva. O evento era destinado aos gestores técnicos (no caso, engenheiros ou arquitetos). Com um representante para cada uma de nossas Unidades no Brasil.

À medida que ia me ambientando e olhando o entorno, buscando achar algum rosto conhecido ou identificar alguns colegas com quem converso apenas de forma online, apropriei-me que a maioria esmagadora era de homens entre meus pares. A constatação não foi novidade e era até esperada, o que não a torna menos incômoda.

Quando eu era criança, eu me achava uma menina invencível. E achava que com muito esforço eu poderia chegar onde quisesse. E tambem tinha certeza de que quando eu fosse adulta o mundo seria mais justo para as mulheres. Passados muitos anos, vejo que algumas coisas mudaram, principalmente no discurso. Mas, na vida prática, ainda há muito que se caminhar.

Antigamente, eu me orgulhava em alcançar espaços predominantemente masculinos (como no curso de engenharia, por exemplo, ou quando ia jogar sinuca com meu pai nos bares em que ele frequentava), achando que eu era uma menina-mulher “especial” por isso, por ocupar esses lugares. Hoje, vejo que esse pensamento era fruto de uma cultura que eu tinha aprendido de que as mulheres não podiam mesmo ocupar certos lugares, e, por isso, estar neles era como se eu fosse melhor que as outras. Refletir sobre o que impede as mulheres de chegarem na linha de destino que desejam é uma das coisas que hoje mais me instiga.

Então já faz bastante tempo que troquei esse “orgulho” por inquietacao, ao ocupar esses espaços com presença predominantemente masculina. E não foi espanto também quando se formou a mesa de autoridades para abertura do evento. Ela era toda masculina. Toda.

Por que é tão difícil para as mulheres ocuparem determinados espaços? Cada vez mais, observo um movimento em que trabalhadoras preferem abrir mão de determinadas posições porque as condições muito frequentemente não são favoráveis para elas. Seja pela dificuldade de conciliar com a vida pessoal, com uma carga doméstica e do cuidado
comumente mais pesada para elas (isso já foi até tema de redação do Enem), seja porque as regras do jogo no ambiente corporativo colocam as coisas mais difíceis para elas, como seleções com bancas predominantemente masculinas ou necessidade de uma disponibilidade irrestrita, incluindo jornadas excessivas ou exigências difíceis de conciliar com a rotina familiar, como mudanças frequentes de cidade.

E quem perde com a falta de mulheres no “poder”? Todos. Os filhos, os companheiros e companheiras, os pais, os amigos, os colegas de trabalho, os líderes e liderados, as empresas, as cidades… Que deixam de contar com as habilidades, as ideias, a competência e a sensibilidade delas, tornando o mundo mais empático e inclusivo (e não só para elas). Ainda há muito machismo entre as próprias mulheres, quando dizem, por exemplo, que não gostam de chefes mulheres ou que algumas delas são mais duras que os chefes homens, talvez porque estas não tenham encontrado outra forma de se posicionarem em um mundo corporativo normalmente hostil para elas. Às vezes, a “casca dura” é uma defesa, tal qual o mandacaru do sertão.

Fui mãe aos 21 anos e trabalho “de carteira assinada” desde os 23, quando me formei.
Desde então, minha jornada profissional e todas as decisões que tomo quanto à minha carreira ponderam, antes, sobre quais os impactos dessas escolhas sobre minha família. Às vezes avanço, em outras recuo. Levar minha família em consideração nessas tomadas de decisão me limita mas não me poda. Porque o ser que sou também é formado pela porção da minha família em mim. E a gente é um ser único e integral, com todas as nossas parcelas constituintes. Em uma entrevista recente que fiz para uma banca (toda masculina) em um processo seletivo interno, para contornar o nervosismo habitual que ronda uma situação de avaliação, me imaginei entrando na sala com minhas filhas e algumas amigas incríveis que poderiam e/ou queriam também ter aquela oportunidade. Isso me deixou tranquila porque me lembrou o verdadeiro sentido de eu estar ali e reforçou a força delas em mim.

Mas voltemos ao evento. Gradativamente, fui me ambientando e trocando experiências com meus pares de ambos os gêneros. Nos dias seguintes aos da abertura, troquei o salto por outro calçado mais
condizente com minha condição física naquele momento (uma dor crônica na perna direita que vinha me acompanhando há algumas semanas e da qual eu não “parava” para olhar. Posteriormente, esse descuido também me cobraria seu preço).

Nos dias seguintes, libertei meu estilo pessoal que também inclui um visual feminino e colorido (mas não só ele). Porque tambem não quero ter a obrigação de usar o “dress code” masculino para parecer competente. Há quem pense o contrário de mim, indo ao encontro dos manuais de vestimenta do mundo corporativo que pregam que os batons e esmaltes vermelhos não são recomendáveis. Talvez porque entendem que ao ser “feminina demais”, aquela mulher seria frágil ou incapaz de decisões sérias, encarcerando a feminilidade desde sempre, como se ela fosse uma ameaça (a quem? a que?).

Recentemente, vi a entrevista de uma jornalista de destaque, na qual relatava que demorou a se “libertar” do estilo masculino de se vestir que a obrigavam quando iniciou no jornalismo. Era isso ou ela não teria as oportunidades que teve.

Uma vez, atendi um cliente que normalmente era atendido por um determinado engenheiro que, naquela ocasião, estava de férias. Quando ele me viu, ficou decepcionado e me perguntou se não tinha um engenheiro (homem) para atendê-lo. Qual não foi seu espanto quando eu lhe disse que eu seria a engenheira que o atenderia e que eu estava formalmente substituindo o colega ausente.

Apesar de saber que o nosso valor não está no reconhecimento alheio, é muito cansativo enfrentarmos tantas dificuldades como essas que já deveriam estar superadas há muito tempo. E quanto menos mulheres no poder, mais difícil será mudarmos esse status quo. E todos, todos perdem com isso.

Então, homens e mulheres que entendem que um mundo com equidade de gênero nos beneficia a todos, apoiem e ajudem de verdade (e não só no discurso) as colegas de trabalho de vocês que enfrentam tantas batalhas (fora e durante o trabalho) para estarem ao lado de vocês, lutando nas trincheiras.

Terça à noite

Que dor, que solidão!

Há quanto tempo não me sentia assim?

Hoje minh’alma tá doendo

Tá sangrando

Tá difícil

Uma distância

Um não caber

Um não pertencer

Doendo por não me achar digna

Dilacerando não me ver merecedora

Me colocando abaixo do pódio

Para aquém do último lugar

Doendo o querer e não poder

Querer gritar e não ter voz

Escrever e nada ser suficiente pra me traduzir

O estar e não parecer

Tá doendo ser invisível

Será que esse negócio de realização não é pra mim?

Será que ser cuidada não estava no meu manual de instruções?

Não acredito que precisarei me contentar com o céu que pinto

Mas ainda acredito ser feliz num infinito que ainda nem vislumbrei

Se eu estiver errada e tiver que me contentar com a pontinha azul do céu pela fresta da janela

Tira do meu peito o condor, ele merece além das minhas migalhas

E me contente com lápis e folha de papel…

Voltei para te escrever

Faz meses que não consigo escrever,  muitos projetos ficaram pelo meio do caminho e eu me lembrei de você, a pessoa que nunca leu algo que eu escrevi. Quando era mais nova, era mais fácil escrever sobre amores platônicos e pequenas paixões abruptas. Os dias têm corrido em uma velocidade superior ao que consigo acompanhar, mas meus passos se tornaram mais ágeis.

Eu não sou uma pessoa que desabafa sobre as dificuldades com qualquer pessoa ou para jogar esse fardo em alguém que amo. Por isso eu ainda escrevo. Para dizer o que sinto para desconhecidos que não me conhecem, mas que por coincidência podem se identificar com os causos da minha vida.

Acredito que seguir a vida se torna algo difícil quando seu ponto de partida ainda não está claro, muito menos o de chegada. Já me senti tão perdida no que fazer, nas minhas inseguranças e nos meus sonhos. Mas tenho procurado me achar. 

Preciso fazer isso por mim, pela vida que quero viver, pelos sonhos que nutro e objetivos que preciso alcançar. Não se trata de puro ego. Já desisti de muita coisa para me manter “estável”. No final, não foi suficiente.

Ainda tenho objetivos tão grandes quanto sonhos imensuráveis. 

E o dia de realizá-los está chegando. Vou voltar para te ver.

Literatura da revanche

Cuidado comigo. Porque eu não ando só. O bloco de notas do celular está aí para isso mesmo e cada gatilho eu transformo em ideia. Minha literatura é da revanche. Meu contragolpe é na forma de letras. Mexe comigo para você ver só. Te transformo em personagem e na digitação rápida do teclado você vai sofrer. De você vou rir, debochar, ironizar. sangrar. Aqui é meu reino, meu império, aqui quem manda sou eu. Entre uma frase e outra, darei gostosas gargalhadas. Porque é muito divertido poder dizer tudo sem censura. Você devia experimentar. Ah, mas você não pode, tadinho. Escrever é um dom, não é todo mundo que tem. Lamento. Acesso fechado para você. Sem saída. Você é meu prisioneiro, este aqui é seu labirinto e adivinhe quem é o Minotauro. O lado bom: você vai viver além do tempo, fixado neste texto. Suas ações serão conhecida por pelo menos uma dezena de pessoas. Meus leitores. Isso te assusta ou te consola? E quem sabe se viralizar? Tudo pode acontecer na internet. Sim, porque você vai para a web. E não adianta chamar os advogados. Seu nome eu vou mudar, mas se você ler, vai saber que é você, nesse seu papel ridículo e calhorda. Vou te expor com a sagacidade de quem sabe ler as pessoas como ninguém. Você, minha musa ou muso ao contrário. Todo errado. Que delícia é te pisotear e te ridicularizar nesta tela, simulacro do papel. Eu quero te ver sofrer, se sentir pequeno e inadequado. Quero gerar dor, tristeza, melancolia. MEDO. Quero te ver chorar e tremer, como eu tremi e chorei um dia. Esta é minha revanche!

Microcrônicas de capital #6

Como eram muitas pessoas para receber marmitas já descemos os três do carro, um pegou os agasalhos para distribuir. Juliana me mandou olhar para trás: vinham policiais. Pior: polícia montada! Ai, meu Deus! Vão jogar os cavalos sobre as barracas, se não jogarem sobre as pessoas!

– Quem é a pessoa responsável pela distribuição? Uma voz de quem está acostumado a gritar.

Corajosa pero no mucho, só levantei e mão sem falar nada. Vontade de ligar para minha mãe…

– Tem uma moça grávida na viela atrás do supermercado. Leva lá para ela.

– Sim, senhor.

E foram embora nos cavalos sobre o canteiro central da avenida.

Troquei

Troquei

Troquei a roupa do corpo depois de uma noite debaixo da chuva. E assisti nua a lua brilhando no céu de primavera.

Troquei a inocência de olhos inexperientes diante da vida. Nasceu uma nova mulher, madura e decidida.

Troquei o tempo de correria de um trabalho que me massacrava. Comecei a me dedicar a uma nova oportunidade.

Troquei a falta de perspectiva de uma cidade pequena. E migrei para a cidade grande para trilhar novo caminho.

Troquei de setor, de salário e de rotina. Troquei de lar, de amigos, de roupas e de perspectiva.

Troquei de sonhos, de objetivos, de metas.

Troquei de ares, de dores, de pesares.

Troquei de ressentimentos para alegrias. E troquei de tempo, de sons e de ideias.

Troquei…

Troquei de ritmo. Passei a dançar jazz. Troquei de vestibular, passei das artes cênicas para o jornalismo.

E troquei de estilo. Passei das notícias para a literatura contista. E troquei de escrita. Migrei para a poesia.

Troquei…

Acima de tudo, troquei a lágrima pelo riso. Troquei a tristeza sofrida de um amor magoado pelo abandono por uma nova oportunidade de sentir o coração bater outra vez. Bater outra vez.

Troquei…

A roupa do corpo.

E da alma.

Sobre livros e números

Li um texto que me trouxe um misto de inquietação, “aceita que dói menos” e que atiçou um bicho dormente que mora em mim. A querida amiga Aline Valek, escritora que admiro sem fim, tem uma newsletter chamada Uma Palavra e publicou em 29 de junho de 2024 o texto Neurose com Números.

Quando Aline escreve, é como se eu me olhasse de fora várias vezes. Não temos vidas semelhantes, mas talvez o início dos nossos caminhos seja parecido em alguns pontos e isso me atinge em cheio. Nesse trecho especialmente:

“Nada como circular nas panelinhas intelectuais de São Paulo para se sentir pobre, desinteressante e atrasada! Eu tinha tanta vergonha de não ter tido acesso às mesmas referências que aquelas pessoas consideravam básicas (desculpa, é que eu não sou daqui, eu vim de outra classe social) que cheguei a listar em um caderno todos esses nomes de autores oh-meu-deus-não-acredito-que-você-nunca-leu.”

Aline Valek.

Logo me veio a imagem dos primeiros dias na faculdade, quando contei aos novos amigos que li meu primeiro Machado de Assis na escola pública no último ano do ensino médio e não gostei. Desculpa, Machado, era Helena! E eu precisava de heroínas poderosas para me inspirar. A realidade já era bastante bizarra.

Mamãe fez um esforço para me ajudar a passar no vestibular e comprou um kit de 18 livros de literatura brasileira que vendia com o jornal O Globo, um dinheirão. Li uma parte deles, mas acho mesmo que li o final de todos, o resumo e a moral da história, porque trabalhava e o tempo era escasso.

Aliás, tempo sempre único, um continuum onde coloco em linha reta todas as coisas que preciso fazer. Se entra uma atividade nova, outra precisa sair. Essa coisa do tempo ser a quarta dimensão, hum-hum, Einstein vai precisar me explicar melhor em outra hora. Agora tô com pressa!

Comecei a frequentar uma livraria perto do trabalho que tinha um livreiro com o meu sobrenome. Ele indicava o que estava bombando para uma garota de 20 anos na época, os “trend” da Gutemberg. Conheci Zelia Gattai, Richard Bach (aquele do Fernão Capelo Gaivota, numa versão ainda mais autoajuda), Ana Maria Machado (Young Adult) e Leonardo Boff. Esse, tive a oportunidade de tietar, pegar autógrafo, ler e reler muitas vezes. Foi minha bíblia durante a turbulência de descobrir que o trabalho era desagradável e algumas pessoas também.

Não é que não tenha lido muito na adolescência e na juventude, apenas não li aquilo que se esperava. Mais velha, de tempos em tempos, comprava um livro top da lista de mais vendidos da Veja e lia para ter assunto nas rodinhas de conversa. Nunca era suficiente. Assinava jornal, revista, lia na barca, em pé no ônibus, no sinal. A sensação de não saber morava ali, naquelas páginas que eu carregava na bolsa sem tempo de folhear.

Com o advento do casamento a estante de livros mudou. A pequena biblioteca que parecia desinteressante ganhou novos títulos, uma vida mesclada em lombadas coloridas. Os filhos pequenos adicionaram novas camadas de literatura infantil todos os dias. Pela manhã, os clássicos de Andersen, Grimm, Ruth Rocha e Ana Maria Machado. À noite, livros para acalmar. Até descobrir que eu poderia ler tudo o que quisesse para eles, e que com isso, aquele tempo único que compartilho com todas as coisas prazerosas que faço, poderia ser tanto deles quanto meu. Libertador!

Macunaíma, Hamlet, A falência, Irmãs da Revolução, Dom Casmurro, O Livro do Desassossego, A padaria dos finais felizes (que virou um vídeo no YT), Rei Lear, o Mandarim, Neuroses a Varejo, Pequenas Tiranias… no limite, me preocupo apenas em cortar trechos muito sangrentos para que eles durmam um sono tranquilo. Lemos em voz alta, em família. Às vezes eles leem para mim. Todo mundo pode comentar. A visão das crianças sobre as obras me dão novas perspectivas.

Voltando ao texto da Aline, faço listas para comprar e ler depois. Espero promoções, compro em sebos quando me interesso demais pelo tema e está escasso nas livrarias. Quando chegam, abro alguns e leio vorazmente, outros deixo marinar ainda em sua embalagem original, para manter o cheiro de folha nova preservado. E um dia, estando o alimento pronto, desembrulho, inspiro seu cheiro de vida, e começo a me deliciar lentamente.

Não achei nenhuma fonte segura para esse trecho, mas cito aqui porque ameniza a culpa:

“Se, por exemplo, consideramos os livros como medicina, entendemos que é bom ter muitos em casa em vez de alguns: quando se quer sentir melhor, então vai ao ‘armário dos remédios’ e escolhe um livro. Não um aleatório, mas o livro certo para aquele momento. É por isso que você deve ter sempre uma escolha nutricional!”

Umberto Eco.

Ficar neurótica comparando meus livros lidos com as listas de livros lidos dos colegas, ou invejar sua organização para ler mais livros, ver mais filmes, escrever e publicar, vai me fazer mais feliz?

Nada… leio porque me dá prazer. E sem prazer, não leio nada.

Não saber qual a briga do momento, qual o sucesso do tiktok, qual a série trend, não me fazem menos eu, nem mais, nem menos feliz. Então, dou novamente o braço a torcer. Aline está certa, isso tudo passa! E o bicho dormente que vive em mim e levantou assustado com o cronômetro tiquetaqueando nos ouvidos, foi dormir tranquilo outra vez. Conhece esse bicho? É a ansiedade…

Os médicos do INSS não sorriem

Os médicos do INSS não sorriem. Estão sempre com a cara fechada. Pouco papo, poucas ideias. Se você ousa falar, os foras são cortantes. “Não foi isso o que te perguntei” – eis aí uma das frases que ouvi quando tive a audácia de abrir a boca.

Passei por você hoje, doutora. Você nem me viu. Meu caso era leve: estava só pedindo alta. Queria voltar a trabalhar. Você não me deixou fechar a porta. Zero privacidade. Entre nós, esse plástico gasta do tempo da covid. A minha cadeira posicionada de lado, formalizando que você realmente não quer me ver frente a frente. A posição desconfortável, a porta aberta, o rosto fechado.

Hoje meu objetivo aqui é mais leve. É mais fácil conseguir autorização para voltar a trabalhar do que ficar sem trabalhar, não é mesmo? “Esses vagabundos…”, será que você pensa isso? Porque parece.

Olho suas unhas, enquanto você digita. Tec, tec, tec. Vermelhas. E pela primeira vez, eu pude te ver. Porque assim como nós, pacientes, parecemos todos iguais para vocês, nós também achamos vocês todos iguais. Você é a terceira da sua categoria que eu conheço. O primeiro lá no centro da cidade até que foi melhor. Mas aqui em Copacabana… por Deus… você e o outro médico que me atendeu… Nossa, vocês parecem muito de mal com a vida.

Semblante sempre fechado, fortaleza imperscrutável. Armados. Hoje contei a quantidade de vigilantes. Cheguei a três, quatro. O detector de metal na porta materializa o clima bélico. O portão fechado a chave. Só entra com nome agendado.

É, doutora, um “não” seu pode despertar instintos assassinos, me contam silenciosamente os vigilantes e o detector de metal. A senha escrita a caneta no papel, o telão com uma mensagem de erro, mas funcionando. Atraso de uma hora. Eu só queria voltar a trabalhar e nunca mais vir aqui, doutora. Fica tranquila que, se depender de mim, nunca mais vou pegar senha para ver seu rosto carrancudo. Não triste, mas enfezado. Com raiva do mundo.

Tec, Tec, Tec. As unhas vermelhas me fazem pensar que talvez você seja mais descontraída. Que até sorria. Que talvez tenha um amor. E só para ele reserve o que aqui não tem: semblante aberto, olhar atento.

Vou te falar. A prova pode ser concorrida, mas eu jamais gostaria de ter este emprego. O salário certamente é bom. Mas os sorrisos estão sequestrados por todo o expediente. A humanidade junto com eles. E tudo cinza e enraivado.

Hoje eu vi o que é. De verdade. Porque não é medicina, nem atendimento médico, embora seja feito por médicos. É mero trabalho burocrático: assine-se aqui, diga-se acolá, carimbe-se – ainda que virtualmente…Repartição pública, na pior acepção da palavra

Fico pensando que vocês são médicos, podiam ter um emprego melhor.Aí pensei no dinheiro. Ah, o dinheiro. Eu sei como é. Uma gaiola de ouro. E o tempo passa, né? As vezes rápido, às vezes lento. Mas ao sabor das senhas. E uma hora acaba. E você está livre, doutora. Você pode sorrir, agora. Você pode abrir a cara. Você pode. Mas…será que consegue?

Ou as histórias tristes do dia te perseguem?
O que será fingimento e o que será real?
Você finge que nada disso te abala?
“Realmente não me abala”, vejo você dizendo, com a cara fechada.
Se não te abalasse, doutora, você não precisaria fingir que é brava, séria, durona. Não precisaria fingir que não é… gente.

Ah, esse texto vale para você também, doutor.