Era uma casa muito…

Certamente você não sabe

 na minha casa habitam cinco sapos que cricrilam

dezenove porcos que relincham,

três vagalumes que conversam em inglês e um quarto que só sabe espanhol,

duas periquitas que constroem pontes,

nove crianças-bolinhas descendo colinas.

Na floresta, é o lobo que tem medo de chapeuzinho

linguiça é feita de abobrinha. Imagina fazer linguiça de berinjela?! Jamais!

Na minha casa, uma música toca

tum tum tum pararatibum

a gente dança, fazendo rodopios de mãos dadas

agitando o corpo no ritmo da onda do mar.

Na minha casa os habitantes podem morar por muitos anos

ou serem despejados sem aviso prévio.

Ninguém quer um intruso sem graça!

Ora, se chegou, se aprume e conte uma piada!

ha ha ha! hi hi hi!

Veja que ele já passou. Ele mesmo, esse seu amigo.

Passa rápido e leva os habitantes da minha casa-cidadela-habitada.

Vai-te embora, cretino!

E leva essa piada ruim pra longe daqui.

Certamente, você não sabe

Na minha casa não tem porta nem janela

Nem sacada, nem mansarda

Alpendre para a rede, peitoril para debruçar

A minha casa vai para onde eu quero

E onde você estiver, podemos nos encontrar nela

Meu endereço não consta em nenhuma música rimada

A minha casa não é engraçada,

ou talvez,

talvez,

talvez

seja

Sabe onde ela fica?

Que bom, porque eu não vou contar!

paixão de verão

paralelepípedos tropeços

subimos ruas

arrastando bloco

entre confetes serpentinas

adentro cortejo

marchamos carnaval

corpos vibram tambor

somos par em fantasia

dançando música

micropartículas cintilam

pele arde sol

aquela febre de verões

mergulho boca

sabor glicose

farto sede

anzol fisga peixe

pescador eufórico

esquece molinete

presa se perde cardume

marcham cinzas

paixão de verão

azedume

A Substância

Fui ao cinema acompanhando minha caçula de 18 anos em mais uma escolha dela pelo gênero de terror. Confesso que não é meu estilo de filme preferido. Mas saí no meu domingo à tarde aberta a provar essa experiência. E sim, foi uma experiência!
Sempre que vejo obras (livros ou filmes) capitaneados por mulheres e, mais
ainda, quando estas obras trazem à baila temas do universo feminino, sinto-me tocada a escrever sobre elas e, talvez, plantar mais uma sementinha que pode vicejar em reflexões para mim e para quem me lê. Além de contribuir, ainda que num raio de influência bem limitado, com a divulgação do que as mulheres fazem de relevante por aí, no mundo da escrita e do entretenimento.
A Substância, filme de 2024 da diretora francesa Coralie Fargeat, deixou-me
reflexiva por dias, revendo mentalmente elementos do filme que reforçavam a ideia principal da diretora que, a meu ver, era tocar na ferida do padrão estético surreal exigido para as mulheres, na objetificação dos corpos femininos jovens e no descarte que os corpos das mulheres maduras sofrem.
E por falar em ferida, se você tem asco de ver o corpo humano em sua rudeza
orgânica, com agulhas perfurando feridas adentro e com foco ampliado em costuras de carne, o filme pode lhe causar muito desconforto. Por essas escolhas, a obra é considerada “body horror”, ao trazer cenas que exploram o corpo humano com uma proximidade tal que beira ao grotesco.
Para além de impactar o público com os “horrores” dos nossos corpos, a
diretora se utiliza desse artifício para contrapor a crueza biológica do corpo com a estética perfeita e inalcançável que a sociedade impõe às mulheres. Foi muito interessante ver as cenas da deslumbrante Sue (Margareth Qualley) deixando os homens embasbacados por onde passava para, na cena seguinte, vermos a crueza de como ela conseguia essa aparência às custas da mulher madura e “descartada”
Elizabeth (Demi Moore), jogada no frio chão do banheiro por dias. Estas são as
personagens principais do filme. Uma é a matriz, a versão original, envelhecida mas bela (Elizabeth). A outra é seu “outro eu”, a versão jovem e bela de Elizabeth (Sue).
Os homens são retratados de forma bem caricata, aparecendo ora como
assediadores ou animais (Harvey – Dennis Quaid – é asqueroso na cena comendo camarões), ora abobalhados com o esplendor da beleza delas ora cruéis ao julgar os corpos tidos como dispensáveis.
De fato que teve muito sangue e gosma, corpo humano com suas secreções e textura de carne à mostra e corpos disformes. Todos esses elementos se juntaram ao cerne da questão principal acerca dos corpos femininos e de como a sociedade os vê e os classifica. O filme expõe que qualquer forma de se tentar alcançar esse padrão absurdo só causa mais dor e sofrimento. Seja na carne. Seja na alma.

Sem dar spoiler, uma cena muito impactante mostra o desvario que ambas as
mulheres chegaram para cumprir com seu compromisso midiático. Ainda que estivessem tomadas pela loucura que a situação extrema as impôs, jogaram na cara das pessoas o terror fruto do alto preço que lhes foi cobrado. E os “credores” se aterrorizam com o que veem, ingenuamente acreditando que não fazem parte daquilo tudo. Mas fazem.
Como terror não é meu estilo preferido, eu cortaria algumas cenas que me
pareceram exageradas, inclusive amenizaria o horror da sequência que desencadeia o final do filme. O filme tem mais de duas horas de duração. Acho que poderia ter sido mais enxuto. Mas, se fosse, será que teria passado o recado que queria? Só assistindo para responder.

Recondução

Por anos, escrevi sob meu nome verdadeiro mesmo tendo um pseudônimo que me deixasse a vontade. Hoje, sinto o chamado da escrita me inundando depois de um tempo sem conseguir escrever. A partir de hoje, quem escreve e escreverá, será Gaia. A força e chama que compõe o meu ser literário.

Passei por períodos de estresse crônico nos últimos dias e horas, a vontade de jogar tudo para o alto apareceu e quase aconteceu. Me esqueci de como me reconecto comigo quando sento para escrever, é o momento em que realmente encontro com minha versão original.

Reconduzir, Recomeçar, Ressignificar. São palavras que usarei neste processo. Serão pilares para me reerguer e me entusiasmar novamente. Minha solitude tem estado inquieta, é hora de acalmá-la.

É hora de fechar um ciclo.

E

Iniciar outro.

Serenata de amor

Ontem o motorista do uber me disse, durante o caminho, que sua mãe o subornava com serenatas de amor quando ele era criança.

E me lembrei que minha irmã guardava embalagens do bombom na sua agenda. Devia ser de alguém especial, até hoje não sei. O mistério parece mais interessante.

E do serenata de amor que enfim ganhei do meu primeiro namoradinho, quando chegou minha vez.

E daquele que esperei tanto, mas nunca recebi…

E me lembrei também do serenata de amor que dividi com meu atual namorado na saída do mercado na última semana.

E do quanto minha melhor amiga adorava comer um desses bombons quando estava de tpm.

Achei engenhoso a mãe do motorista usar o “recurso” para ludibriar o filho de fazer bagunças. Se para cada pirraça a minha me dessem um serenata, haja glicose!

E naquela conversa dentro do carro, quase me vi voltando no tempo, para um passado talvez mais romântico, com serenatas e sem cerimônia para amar. (Ou seria apenas uma idealização minha?)

E pensei por fim em quantas vezes um bombom, um simples chocolate ao leite, pode ser sinal de afeto tão grande e ao mesmo tempo tão fugaz.

(Assim como serenatas de amor, que não fazemos mais, mas que permanecem vivas em nossos corações melancólicos)

A infecção


Ela nunca imaginou que sua vida seria assim. As doenças incuráveis e a loucura. Mas foi o que aconteceu.

“É a aleatoriedade da vida”, poderíamos dizer, para tentar consolá-la. Mas ela finge que não busca mais consolo. “Não, foram escolhas”, retrucaria. Péssimas escolhas. Em meio ao caos da vida. Ao capitalismo, a histórias de vida de pobreza e tristeza. Quem poderia culpá-los?

Mas o que importa isso agora?
Importa a mãe na cadeira de rodas. O aspecto cadavérico do pai, que não se importa com a mãe. A internação psiquiátrica da irmã. E o seu próprio sofrimento. Mental e físico.

No shopping, entre vitrines brilhantes e passos rápidos dos consumidores, na lentidão dos passos da mãe, sonhou: e se as coisas tivessem sido diferentes?

Se o pai não tivesse se infectado.

Se a mãe hoje andasse.

Se não tivesse faltado oxigênio no parto.

Se o pai não tivesse sido mandando embora.

Ou se ele tivesse simplesmente buscado outro emprego em vez de voltar para o interior.

Nada disso teria acontecido?

Infelizmente não.

Poderia ter acontecido aqui mesmo. Agora. Está acontecendo inclusive neste momento com milhares de pessoas. Não é um caso único.

Ainda assim… O nó na garganta.

“Mas nada teria acontecido se você tivesse andado na linha”. A acusação ecoa no não dito. Esse lugar etéreo.

“Andei na linha a vida inteira: trabalhei, te sustentei, paguei todos as suas contas”. Ouço a réplica muda, que nunca existiu. Afinal, nunca falamos sobre isso. Os interditos.

Deu tudo errado.

Seu negócio não foi pra frente.

Chegou um momento em que você não tinha mais nada.

E você juntou o que tinha… uma mudança que coube num Palio, já pra mais da metade da vida.

E você veio.

Você já devia estar se sentindo mal.

E foi a melhor coisa que você fez.

Porque você ia morrer lá e sozinho. No fim de mundo que você nasceu.

Acho que faz uns 24 anos.

“Agora eu já posso ir embora. O seu pai voltou “, ouvi de quem eu amava.

E me senti digna de pena.

Ele só estava longe.

Ele nunca me deixou faltar nada.

Mas era melhor ter faltado e a gente estar juntos, sabe?

Foi o que eu queria ter dito pro garçom que queria deixar a filha pra ir pra Nova Zelândia tentar a vida.

Naquela noite, que eu ainda lembro.

Passando mal, com dor, do lado de alguém que também não se importava. Repetindo. Comigo mesma essa mesma história.

Âncora Emocional

Belinda e Dani se encontraram para um café da tarde em uma nova cafeteria recém-inaugurada. As amigas conversavam sobre um assunto muito pesado quando a atendente se aproximou para anotar os pedidos.

— Dani, não aguento mais! Rodolfo fez de novo.

— Não acredito! E você não fez nada? Deixa eu ver essa marca… Oh, que horror.

— Essa não é a primeira vez. Olha aqui! Tenho mais cicatrizes hoje do que quando era criança, ralando o joelho na terra no subúrbio.

— Não entendo esse comportamento dele. Era sempre tão gentil…

— Pois é… Conquista todo mundo por onde passa, mas quando a gente chega em casa, o tratamento é esse.

— Será que a dieta tem afetado o temperamento dele?

— Não mesmo! Conversei com a médica que o acompanha, e ela disse que eu preciso ser firme e conseguir um especialista.

— Sério?

— Sério!

— E por que você continua investindo nele, amiga? Achei que ele tinha chegado há pouco na sua vida!

— Olá, boa tarde! Meu nome é Helena e vou anotar seus pedidos. — Seus olhos denunciavam que havia ouvido toda a história.

Belinda escolhe um café preto, puro, sem açúcar e sem adoçante. “Essa aí já perdeu a alegria de viver…”, pensou. Dani escolhe um cappuccino com creme extra e um cookie para acompanhar. “Sabe aproveitar os bons momentos.” Helena virou de costas e ainda conseguiu ouvir mais um pouco.

— Quando ele tá calmo, é amoroso demais. Me deixa tão feliz… Os momentos de fúria é que me fazem questionar esse carinho. Quero dar mais uma chance para ver se descubro de onde vêm esses rompantes. Dizem que ser abandonado pela mãe muito cedo acaba acarretando nisso…

— Isso é desculpa, amiga! Até nisso vão culpar a mãe? Você não pode se render àqueles olhos castanhos bonitos depois que ele te trata pior que uma cadela de rua!

Helena sabia bem como era esse tipo de homem que maltrata mulher. Ela queria falar com a moça do café puro que conhecia um grupo de apoio, que tinha saída. Mas decidiu não se precipitar; quando levasse o café para a mesa, tentaria abordar o assunto.

— Não fala assim! Eu sei que ele me ama, só não tem noção da própria força. Até quando ele quer me dar um beijo é atrapalhado e me machuca.

— Você não existe, Belinda! Se fosse eu no seu lugar, já teria posto ele pra fora de casa há muito tempo! Quando eu vou poder te visitar de novo na sua casa, amiga?

— Por enquanto está difícil. Prefiro não expor ninguém a esse constrangimento.

Quando Helena retorna com os cafés, as amigas mudaram de assunto, e ela ficou sem saber como falar. Anotou seu telefone no cartão do restaurante e entregou a Belinda, insistindo que ela ligasse caso precisasse conversar. Belinda agradeceu, sem entender, e prometeu voltar.

Duas semanas depois, as amigas se reencontram no café. Helena reconheceu a moça do café puro e hematomas. Quando chegou à mesa para anotar os pedidos, conseguiu ouvir a conversa logo no início:

— Belinda, como você está? Botou Rodolfo pra correr, amiga?

— Ah, eu te falei! Desde que o especialista começou a ir à nossa casa, o comportamento dele é outro. O especialista disse que eu sou a âncora emocional do Rodolfo…

— Que balela! — exclama Helena, tomada de revolta, e continua: — Desculpa atrapalhar, moça, mas não acredita nessas conversas. Isso é manipulação emocional.

— Como assim? Não, menina! Você entendeu errado, vou te explicar. Como âncora emocional dele, eu devo ser sempre firme, e ele vai prestar atenção e me ouvir quando eu disser que passou dos limites!

— E homem lá sabe de limites?

Dani cobriu a boca com a mão, incapaz de falar. Belinda olhou perplexa para a atendente.

— Homem? De que homem você está falando?

— Rodolfo, seu namorado, que anda te deixando cheia de marcas roxas. Se eu soubesse onde você mora, teria chamado a polícia pra ele.

Belinda explode em risos, e Dani também.

— Não, moça, Rodolfo é o cachorro vira-lata que adotei na feira…

Lição de amor

Vários amigos me disseram que eu precisava ter um gato. “São bichinhos super carinhosos”, “Vão te fazer muita companhia”, “Não dão trabalho nenhum”.
Essa e outras mensagens de incentivo eram ditas a exaustão. E eu continuava reclamando de solidão, mas sem fazer nada para que isso mudasse.
Até que um dia, depois de ficar uma semana de cama, com alguma virose qualquer e sem ninguém para ajudar (só quem mora sozinho sabe), eu acordei decidida: adotaria meu gato!
Comecei a procurar pela Internet instituições para adotar. Fuxica aqui, fuxica ali, e eis que esbarrei com: Branquinha! Sim, era esse o original nome da gata branca que eu amei à primeira vista. Uma mistura de coelho com Mingau da Magali, sei lá.
Passada uma entrevista e alguns dias de espera, ela chegou: minha filha! De cara eu a adorei e fiz brincadeiras, tirei fotos, e dei todo o tipo de besteiras para comer (sim, sou dessas). Mas o que eu menos esperava, aconteceu: a gatinha não se adaptou à minha casa.
Passava dias isolada num cômodo, não se alimentava e não interagia. Desesperada, chamei uma veterinária do tipo top, que atende em casa, na linha comportamental. Uma psiquiatra de gatos (sim, isso existe).
Feito os exames, ela me informou que Branquinha não tinha nada físico, apenas ansiedade por não estar se adaptando a moradia. E recomendou fluoxetina para a felina.
Mas nada dela se adaptar. Nada… Os dias passavam, passavam, e a situação parecia cada vez mais difícil.
Decidi então, depois de muito pensar e bem chateada, devolvê-la. Afinal, não poderia aprisionar comigo alguém que sofria.


((Parece triste né? Mas com Branquinha aprendi uma importante lição, que vai ficar pra vida toda: Amar, nem sempre é estar junto)

** Esse texto foi selecionado na Off Flip 2024, categoria Poesia.

Microcrônicas de capital #8

Fui resgatar o cachorro da vala. Ele estava machucado e com medo, foi agressivo quando o peguei. Me mordeu, doeu. Mesmo quando percebeu que eu o tirava de lá ele rosnava: tinha uma pata quebrada e eu o machucava sem eu saber.

Nunca sei quando minha boa intenção está tocando na ferida de alguém.

Querido amigo,


Com você, posso ser eu mesma, sem máscaras ou amarras. É como se, na sua presença, eu pudesse dançar nua sob a luz da lua, sem a obrigação de agradar, sem a necessidade de ter ou ser algo que não sou. Com você, eu simplesmente sou. Rimos juntos até a barriga doer, até faltar o ar. E quando a dor chega, sei que posso contar com seu colo, com seu abraço silencioso que diz tudo o que as palavras não conseguem. Conversamos com a alma, olhando nos olhos, compartilhando silêncios e confidências. E é nesse espaço de confiança que posso chamar você de amigo de verdade, aquele que conhece meu coração e ainda assim, escolhe ficar. Obrigada por ser esse amigo tão raro, com quem posso ser plenamente, inteiramente, verdadeiramente eu.

Sei que ainda estamos no processo de construir nossa amizade, mas sinto que, para as almas, o tempo não tem a mesma importância que tem para o mundo lá fora. A profundidade do que compartilhamos transcende dias, meses, ou anos. Te amo de forma pura, de alma para alma, sem expectativas, sem cobranças, apenas com essa verdade que sinto em mim. É raro encontrar alguém com quem podemos nos conectar dessa forma, onde a essência fala mais alto que qualquer outra coisa. Obrigada por ser essa presença na minha vida.

Ass: Tua amiga que te ama!