Uma Medalha e um Picolé

Maio é mês das mães, das noivas, da coroação de Nossa Senhora, e também
meu aniversário. Desde pequena adoro celebrar o dia, receber as pessoas,
abraços, beijos, carinho e presentes. Bolo (que eu prefiro comer no dia
seguinte, não conta pra ninguém!), docinho, salgadinhos, pipoca… tudo que me remete a aquele lugar na infância.
Maio é um mês fresco de outono.
Esse ano decidi comemorar de um jeito diferente. Convidei o marido para uma corrida de rua. Destreinada que estou, peguei leve, apenas 2,5 km. Ele é mais ousado, treinou para os 6km. Fomos na antevéspera do meu aniversário. Ao final, uma medalha e um picolé. Era uma manhã linda de outono, num circuito quase artístico, pois emoldurado pelas obras de Niemeyer, com uma neblina que foi se dissipando aos poucos para revelar a cidade maravilhosa.
Maio tem suas próprias peculiaridades.
Pensei na vida, em quantas vezes eu fiz um esforço gigantesco para entregar o projeto no prazo, corri pela cidade para não perder o ônibus, caí de cara no
chão para conseguir alcançar a barca. Como eu queria que tivesse uma
medalha e um picolé no final de cada desafio. Se não tivesse medalha, apenas
o picolé já dava um refresco.
Maio é o mês de conscientização contra o assédio moral.
Lembrar de todos os empregos pelos quais passei até chegar aonde estou, em ser respeitada independentemente do meu gênero ou orientação sexual, nos assédios que eram considerados normais há 20 anos e hoje são impraticáveis.
Isso me faz pensar que temos evoluído, somos um pouco melhores. Ainda não para a medalha, mas merecemos o picolé.
Maio é um mês de chuvas.
E as chuvas castigaram um estado que já estava castigado por um governo desrespeitoso da natureza, que prioriza o agronegócio, e que resolveu usar o
tempo – esse bem tão precioso – para discutir leis que não contribuiriam para a redução dos impactos ambientais, mas ao contrário, aumentariam os danos de uma natureza devastada. Aos que estão em mutirão, arriscando as próprias vidas, minha pequena homenagem, uma medalha para vocês! Aos políticos, de vocês, esperamos mais respeito.
Maio é mês das mães.
Eu sou mãe e sempre achei que aos 50 anos seria muito sábia, muito vivida,
muito entendida de tudo. Mas na véspera dos meus 50 sei que não entendo muito de nada. Que não sou muito sábia, talvez vivida, talvez experiente. E não sei citar filósofos. Não sei mesmo. Mas posso dizer que sou feliz.
Maio é o mês do meu aniversário. E Urano entrou em conjunção com Júpiter.
Soube que vai ser um ciclo de desafios. Espero conseguir atravessá-los e que
a vida me trate bem. Ninguém é de ferro, nem super-heroína, não peço muito
não. Só pra, de vez em quando, receber uma medalha e um picolé. Porque
desistir não faz parte do meu vocabulário. Mas com recompensa é mais
gostoso!

Para minha estrela

Eu aprendi do jeito mais difícil que é solitário quando ficamos sozinhos no mundo. Quando você se foi,eu demorei a perceber e depois perdi meu chão. 

Lembro de todas as nossas aventuras, segredos e confidências. Gostaria de ter mais lembranças físicas. Eu te guardo na memória e te escrevo com amor recheado de saudade.

Muito obrigada por me trazer ao mundo,minha Rosa. Muito obrigada por me dar mais uma mãe que me ama tanto quanto você me amou. Espero que você esteja bem no mundo espiritual e saiba que eu te amo muito.

Microcrônicas de capital #5

Já almoçou? – Gritei com a cabeça fora da janela do carro. Ele fez “não” com a mão. Eu fiz “vem cá” com a mão. A Juliana pegou uma marmita na caixa térmica quente, eu peguei uma garrafa de água na caixa térmica fria.

– Vocês não são macumbeiros não, né?

Pelo silêncio e minha cara de Nazaré calculando o volume do cilindro o Lucas, que dirigia, atravessou:

– Não somos de nenhuma igreja nem centro. Somos só amigos, e passamos aqui toda semana.

– Eu vi que seu carro nem tem adesivo. Vocês são iguais a gente: invisíveis.

Pé e mão

Garganta ruim. Acordei tarde e rouca. Arli veio fazer minha unha… Disse que eu estava com voz de quem acabou de acordar. Eram 11h30 da manhã. Com um pouco de vergonha, mas também com raiva da impertinência da pergunta, respondi nem que “sim” nem que “não”: “Estou com uma gripe daquelas”.
Mal sabe Arli, mas talvez desconfie…
Que perdi o emprego…
Que estou estudando para algo…
Que por isso não trabalhe e durma até tarde…
Talvez se indague… Como sobrevive?
“Por que as pessoas não cuidam da sua vida?“, pensei, enquanto fingia agitação pela casa, em busca do celular que sumiu porque o app do banco no tablet não abria para fazer o pix.
No futuro, se eu publicar um livro, e ele sobreviver a mim, ao tempo, será preciso nota de rodapé para explicar o que é app, tablet, pix? E banco? A edição precisará explicar também?
“384 anos após a extinção do dinheiro…“, lembro das tirinhas do Dahmer. Mais uma nota de rodapé para os leitores do futuro, para confundir ainda mais a leitura, para fazê-los sofrer como a gente já sofreu tentando entender as referências em francês e latim dos literatos…
Mas divago… Do que fujo?
Na conversa com Arli , que não contei, mas veio aqui pintar minhas unhas de preto, dou minha opinião sincera sobre um assunto que, em outros tempos, eu ficaria calada.
Mas não mais faço isso. Um gesto banal. Penso que deveria escrever sobre o assunto, tão apaixonadamente falei.
Tenho 45 anos e só agora me arrisco a ter voz. Por quê?
São camadas e camadas, como uma cebola. Como a defesa que fiz para Arli.
“Não, o médico está errado“, eu disse a ela.
Relembro o que o médico fez de errado comigo.
Mas disso Arli não sabe.
Não sabe nem desconfia.
Das noites velozes em claro.
Do silêncio da rua.
Da casa bagunçada tal qual meu interior, que arrumo madrugada adentro para recebê-la.
Esse silêncio…
Não é que as pessoas dormem todas ao mesmo tempo? Você não acha engraçado, curioso isso?
Ah, você também está dormindo… Sortudo você. Dormir é uma benção. Por isso Michael Jackson morreu de propofol. Pelo desespero de dormir. Já pensou nisso?
Arli não sabe, mas tem muito a ver comigo.
Eu também estou tentando escapar, Arli. Que nem você, que escapou, lembra?
Já praticamente uma década atrás. Quando você disse:
Vou sair do salão.
Vou atender as clientes em casa.
Aqui ganho pouco.
Estou obrigada a ficar neste lugar, presa, horas e horas. Com clientes ou não.
Meu patrão fica com mais de 50% do que eu ganho.
Pago aluguel pelas cadeiras e pelas toalhas lavadas.
Quero liberdade.
Vou tentar.
Estou saindo.
Você me perguntou se eu queria o serviço a domicílio, mas eu entendi a questão de outra maneira: “você vem comigo nessa aventura?“
Eu hesitei, Arli, eu confesso.
Eu, que já acho as relações de salão muito pessoais, abrir minha casa? Meu mundo?
Acho que falei mais sim porque não sabia dizer não. Porque nunca soube, porque estou aprendendo agora.
Não.
Também falei “sim” pelo tremor da mão. Das mãos e dos pés, que no final das contas, foi o que nos uniu. E que nos mantém, até hoje. Embora ele tenha quase sumido, eu ainda o sinto. Sei que ele está aqui, latente, à espreita.
Você acha que é medo. Pelo menos foi o que você disse uma vez. Não faz muito tempo. Eu nem desmenti. Até deu vontade. Mas o que eu iria dizer? “A questão é mais complexa do que isso”, pensei em começar… Mas até gostei da sua definição. Da sua certeza em dizer o que eu tenho. Me lembrou da certeza que você tem nos benefícios do carvão ativado. O carvão ativado que já salvou você, salvou seus cachorros e que eu deveria ter em casa, por ser muito bom. Remédio milagroso presente em tantas histórias que você já me contou, enquanto faz minhas unhas.
Falamos de amenidades porque se fosse para falar a verdade, Arli, eu ia ter que te contar…
Das doenças
Do surto
Da faca
Do choro
Das lágrimas
Da denúncia
Da explosão
Dizem que existem temas e temas para conversar com a manicure, sabe, Arli?
Sorte a sua.

Doce reencontro

Gosto de acordar de madrugada para ver a vida passar.

Olhar para as ruas quase vazias, com a vida pulsando aos poucos.
E ver o despertar do dia, lento…e mágico.
Gosto de acordar de madrugada para não fazer nada.
Sentir a tranquilidade de um dia sossegado, leve, sem pressa.
E quase poder tocar na vida, que tímida, ainda adormece.
Gosto de acordar cedo para respirar um pouco.
Escapar da correria do dia a dia. Tudo anda tão acelerado.
E apreciar o espetáculo da natureza pela janela.
Gosto de acordar cedo para estar comigo mesma, em silêncio, num doce reencontro.

E gosto também de te ver dormir. Suave e tranquilo.
E por breves instantes, sentir que nosso amor parou no tempo, e que estaremos para sempre nessa breve delícia de estarmos juntos na mesma cama.
Ah, como a madruga nos engana…
Ainda assim, gosto de acordar cedo.

Despedidas Breves

Minha amiga vai se aposentar.

É uma amiga de trabalho, uma nova amiga, recente na convivência que nem mesmo diária é, afinal, somos empregadas em uma empresa moderna, com direito a trabalho remoto e tudo mais.

Ela decidiu se aposentar depois de um longo período pensando a respeito. É uma artista, com lindas pinturas, numa temática que me enche de orgulho.

Desde que me contou seus planos, tenho tentado convencê-la a desistir dele. Ela é muito jovem, eu digo; há perdas salariais grandes, eu reforço; você pode deprimir em casa, me esforço. 

Mas não é isso. 

Se minha amiga se aposenta, com quem eu vou conversar? Para quem vou falar da ultima série coreana que vi? Como vou debater o machismo nas comunicações internas da empresa, mesmo quando se esforçam pela diversidade? Como vou fazer na hora do almoço, quando falamos sobre nossas famílias, e discutimos as tradições mineiras às quais fomos submetidas? Quem vai me ajudar com um pouquinho de sensatez (ou a queimar o sutiã na fogueira?) quando ela não estiver lá? Como vamos reclamar da temperatura glacial da sala? 

Pequenas perdas.

Ontem li um texto da psicanalista Ana Suy que dizia assim:

“A gente vive se desprendendo daquilo que éramos, daquilo que nos ligava ao outro e de partes de nós mesmos.

O amor é, então, irmãozinho do luto: aquilo que fica quando quase tudo vai – e transforma esse quase e esse tudo em outra coisa.”

A gente nem sabe que ama até perder. Recentemente padeci meu luto de deixar uma vida construída ao longo de seis anos em outro estado para trás. Chorei muito a partida e escrevi poemas de dor e solidão. 

Também não tem muito tempo, uma grande amiga contou sobre seu processo de luto quando nos mudamos de cidade. Ela sentia falta dos nossos cafés, das tardes de estudo, da capacidade de abraçarmos mutuamente nossas estranhezas e nossas descobertas. Eu sei, amiga, agora sei exatamente pelo que você passou.

Hoje, quando reencontrei minha amiga que vai se aposentar, perguntei de novo: você está certa disso? E ela sorriu, mais feliz que criança na praia. 

Foi quando assumi em voz alta o sentimento que achei mais verdadeiro: é inveja o que sinto. Queria estar me aposentando também. 

Olhando em retrospecto, quando decidi escrever sobre esse sentimento, entendo melhor. É a dor da perda. E vou precisar viver com ela, até sentir outra coisa nesse lugar. Mas esse é um acerto de contas que preciso fazer comigo mesma.

Eu sei que minha amiga estará a um WhatsApp de distância, mas isso não me impede de sentir sua falta desde já. 

E meu desejo de verdade é que você, minha amiga, receba o melhor sempre. 

Carpe diem! Aproveita sua vida. 

Carnavrau

Terça-feira de carnaval. Saí de casa no horário do almoço do porteiro porque não queria ver nenhum rosto conhecido. O vizinho sentado na portaria atrapalha meus planos. Há fila no mercado que fica em frente à praça onde o bloco toca marchinhas de carnaval. Cruzo com os foliões. Só esse samba enredo já deve ter mais de 20 anos com certeza. O pensamento é o gatilho para lembrar antigos carnavais. Repassei as memórias, tentando achar as raízes para nunca ter encontrado, nesta festa, essa alegria tão fácil às outras pessoas.


Ia dizer que minha família não gosta de samba. Mas lembro que tinha um LP que acho que era de samba lá em casa. Martinho da Vila? Me recordo vagamente de uma capa. Mas não consigo lembrar de nenhuma manhã em que se colocou um samba para tocar. Meus pais preferiam Roberto Carlos. Disso eu tenho certeza. Mas botar um samba para tocar, alguém dançar, sambar alegre, com um copo de cerveja na mão ? Isso com certeza não tinha.
Meus pais não bebiam. Até já vi meu pai beber socialmente, mas ele passava mal, coitado. Na nossa geladeira não tinha cerveja e acho que nunca vi meu pai ou minha mãe com um copo de bebida na mão. Meu pai trabalhava muito. Com certeza terça de carnaval ele tava trabalhando, como estavam os trabalhadores do Zona Sul em frente à Praça São Salvador. Carnaval não é para todos. É, vai ver não era pra gente. E eu fiquei com isso até hoje. Vai ver foi isso.


Apesar de criança, não lembro de curtir carnaval. Meio como os trabalhadores do mercado. Mas meu pai nos levava no viaduto que fica ao lado do Sambódromo para espiar a festa. Disso eu lembro. Naquela época o viaduto ficava aberto. E podia-se parar o carro. Nosso Fiat 147, caixinha de fósforo. Ou seria o fusquinha? A gente era pobre. Não miserável. Mas não classe média. Morávamos no subúrbio. Não sei se já tínhamos saído da favela nessa época. Também não lembro do que a gente via. Só lembro do viaduto. Hoje em dia eu passo nesse viaduto todo dia para ir ao trabalho. Eu moro perto desse viaduto, do lado bom. Quem diria.


Não lembro de vestir fantasias quando criança. Nem de brincar carnaval. Pular e jogar confete e serpentina. Lembrei agora que tinha bate-bola e eu tinha medo. Ah, era na favela, com certeza. A gente ainda não tinha se mudado pro apartamento perto da favela, de escada, em que a gente morava no quarto e último andar.


(Olha eu me fazendo de vítima. Querendo mostrar como sofri. Eu tinha um teto, meu pai não bebia, quem tem pai alcoólatra ou que gastava tudo com bebida iria adorar ter minha vida. Por que me sinto triste?)


Não sei se era assim mesmo minha infância, tenho que perguntar pra minha mãe. Ela dizia que quando jovem gostava de Clara Nunes. Clara Nunes é samba, não é? E gostava de carnaval. Quando jovem. Eu acho que ela dizia. De minha parte, não lembro de ser vestida de fantasias. De ser autorizada a brincar. Me lembro mais daquela manhã em Jundiaí em que minha mãe passava uma roupa de ombreiras, social, marrom, para eu ir brincar no parque. Mas, antes, com ar grave, anunciou que meu pai estava nos deixando, porque ia morar com outra mulher. Acho que ela disse que ele não gostava mais da gente. Ela disse ou eu estou inventando? Existem memórias falsas, não é? Talvez eu esteja inventando, né? Para fazer um drama e chorar no carnaval. Eu sempre choro e fico triste no carnaval. Meu Deus, por que não troco esse disco? A terapia é semanal, são 20 miligramas de remédio diários, por que isso não está funcionando?


Já tentei fugir desta festa, fazer esses dias mais felizes. Viajar. Quando eu achei que tinha resolvido minha vida, eu prometi a mim mesma que nunca mais passaria um carnaval no Rio. E cumpri minha promessa. Até desistir de fugir em fevereiro de 2020, quando não encontrei a paz nem em um quarto de hotel de frente para o mar. Nada a ver com pandemia. Problemas que cabem em um livro. Só sei que eu desisti. Nem ver mais os carros alegóricos na Presidente Vargas eu vou mais, desde que roubaram meu celular ali e levaram junto um pouquinho da minha alegria de ver o carnaval. Too sweet for rock’n’roll. Too silly for carnival.


Hoje em dia eu sonho com um futuro diferente. Um tentar de novo. Por isso eu tava tentando estudar, até vir aqui escrever esse texto, para ver se ele me ajuda, a tirar isso do peito, para ver se eu consigo, a partir dessas lembranças, perdidas em um texto sem coesão, às vésperas de uma decisão importante, para ver se eu posso viver diferente, da próxima vez. Quem sabe…

A ilusão está lá fora

A massagem relaxante terminou. Foi deliciosamente aproveitada até o último minuto. O tempo precioso que dediquei a ela (ou a mim?) esperou por semanas mas, felizmente, chegou a vez. Levantei-me sorridente, relaxada, lamentando o término e, para dar forças a mim mesma de interromper aquele momento e retornar ao trabalho, brinquei, dizendo:

            – Vamos lá! É hora de encarar a realidade.

A moça da massagem, contudo, disse:

            – Pelo contrário. A ilusão é que está lá fora, como disse, uma vez, um cliente meu.

A frase dela me tocou como uma música que se escuta ao longe e que traz uma letra e melodia antigas que há tempos você não escutava mas que a deixa feliz. Eu tinha que voltar rapidamente ao trabalho pois o horário de almoço já findava. Mas a música que a frase despertou continuou ecoando. Não houve tempo para que eu lhe perguntasse o que ela interpretava dessa frase do seu cliente, nem se ele havia explorado mais essa questão com ela. Até agora, estou sem saber o que de fato o cliente ou ela interpreta quando dizem a frase. Mas eu, imersa no meu contexto particular, tirei minhas próprias conclusões. Afinal, as lentes que me permitem ver o mundo são personalizadas e exclusivas.

Recentemente, participei de um treinamento de Liderança Sustentável só para mulheres. Foi uma jornada incrível e o maior legado que o momento me deixou foram as histórias que ouvi e as incontáveis reflexões que ele provocou. Muito do que lá foi dito precisa ser ouvido por homens e mulheres e espero que haja outras oportunidades para tal. Por diversas vezes, a palestrante trazia dois vieses para a mesma pergunta. Um viés “de dentro para fora” e outro “de fora para dentro”. Achei interessantíssimo. No viés “de dentro para fora”, ela trazia os elementos internos que moldam nossa forma de ver o mundo e como reagimos a diversas situações conforme nossa bagagem interna. O viés de “fora para dentro” trazia diretrizes relacionadas com a literatura científica e o conhecimento de mundo que a sociedade ergueu (e continua erguendo) para resolver os mais diversos problemas da humanidade. Vamos sempre precisar dos dois vieses, interpretando o mundo com as ferramentas que o conhecimento científico constrói mas decidindo agir, na prática, conforme o que faz mais sentido para cada um, principalmente nas questões que envolvem as relações humanas.

Os dois mundos são absurdamente reais: o de fora e o de dentro. Durante os dias em que o treinamento ocorreu, mergulhei avidamente no mundo interno, tão sedenta que estava em permitir que ele me desse as respostas que eu precisava. Em meio às urgências diárias (algumas nem tão urgentes assim), é difícil ouvir aquela vozinha interna que, dependendo do turbilhão de coisas práticas que a gente precisa dar conta, às vezes é silenciada por nós mesmas, para não “atrapalhar” a “produção” das atividades da vida prática e as nossas próprias expectativas (às vezes irreais).

Esses dias me foram muito inspiradores e saí deles com uma vontade imensa de escrever, algo muito importante para exercitar e fortificar minhas “conselheiras” emoção e intuição, espremidas que ficam (sem, contudo, desistir) pela “conselheira” razão. Eram tantas coisas latentes em meu coração que recorri ao meu bloco de anotações para escrita, buscando inspiração de como canalizar o que queria dizer. Então me deparei com a frase ouvida em um momento tão trivial (como a maioria das minhas anotações para escrita) e que ecoou mais forte após as vivências da experiência recém-concluída.

“A ilusão do mundo externo” não quer dizer que ele não exista de fato ou que tudo que ocorre nele seja falso e deva ser desconsiderado. Pelo contrário. É nele que a gente caminha, realiza, partilha e vive. É nele que a gente se emociona e se indigna, se relaciona e se desenvolve. Isso é indubitavelmente real e o que vivemos nele provoca nossas ações concretas. Mas ele é uma colcha de retalhos de tantas coisas distintas e produzidas externamente, às vezes até inusitadas, que o resultado que ele provoca em cada um, em seu mundo interno, é diferente e muitas vezes imprevisível. Então, o que a gente processa internamente e devolve para o mundo externo é de fato o que mais importa e é o mais real que, de fato, podemos alcançar.    

Quando saí da sala da massagem, naquele dia, a luz branca forte me ofuscou violentamente e rapidamente pôs em prática sua missão de me acelerar novamente, para que eu corresse para as resoluções que me aguardavam. No caminho de volta, alguns olhares me pediam coisas e palavras, decisões e conselhos. Era o mundo externo pulsando apressadamente, como sempre, em um ritmo frenético como o toque de um despertador de celular. Olhei-o com serenidade e, em um passo de cada vez, caminhei tranquilamente até o meu lugar, tal qual me pediu meu mundo interno. E lá fiquei, processando tudo o que via e devolvendo, dentro do possível, as ações e gentilezas que me foram internamente produzidas.

Microcrônicas de Capital #4

Ganhou uma laranja junto com a marmita mas não tinha faca. Eu me ofereci para descascar enquanto ela abria o almoço. A vi se espantar e abrir um sorrisão:

-É feijoada!
Pequeno grande luxo num domingo eu dar serventia a meu canivete, e antes de sair levar um recado à equipe das panelas:

-A comida de vocês é molinha!
Elogioso, pois na rua não há tratamento dentário.

Preciso de um tempo

Preciso de um tempo. Para escrever devagar. Sentir a força e a leveza dos segundos que escorrem pelos meus dedos. E respirar fundo.


Olhar para a vida com detalhes. Tocar superfícies ásperas e sentir gostos adocicados. Apreciar cada instante.


O tempo que mora em versos. Que mora em sons. Quem mora na terra e na água.


Um tempo para contato com a natureza.


Para dormir e acordar sem pressa. Para viver um amor sem desespero. E para provar novos gostos, experimentar paladares.


Um tempo para a família. Para viagens, e para aprender coisas novas. Ou ler um livro nunca acabado.


Um espaço livre de pressão, de apreensão, e de medo.


Quem sabe, um momento de rebeldia, ou de nostalgia até.


Uns instantes para chorar.


Relembrar o passado, ou planejar o futuro.


Saltar de paraquedas. Ou dar umas braçadas em mar aberto.


Fazer tudo aquilo que sempre quis. Realizar sonhos.


Ou um tempo, até mesmo, para não fazer nada.


Preciso deste tempo.


E ele urge. Me cobra loucamente que pare, até para que não enlouqueça.


Preciso de um tempo, acima de tudo, para mim. Um tempo, sem prazo, sem laço, sem tempo, sem fim.