Garganta ruim. Acordei tarde e rouca. Arli veio fazer minha unha… Disse que eu estava com voz de quem acabou de acordar. Eram 11h30 da manhã. Com um pouco de vergonha, mas também com raiva da impertinência da pergunta, respondi nem que “sim” nem que “não”: “Estou com uma gripe daquelas”.
Mal sabe Arli, mas talvez desconfie…
Que perdi o emprego…
Que estou estudando para algo…
Que por isso não trabalhe e durma até tarde…
Talvez se indague… Como sobrevive?
“Por que as pessoas não cuidam da sua vida?“, pensei, enquanto fingia agitação pela casa, em busca do celular que sumiu porque o app do banco no tablet não abria para fazer o pix.
No futuro, se eu publicar um livro, e ele sobreviver a mim, ao tempo, será preciso nota de rodapé para explicar o que é app, tablet, pix? E banco? A edição precisará explicar também?
“384 anos após a extinção do dinheiro…“, lembro das tirinhas do Dahmer. Mais uma nota de rodapé para os leitores do futuro, para confundir ainda mais a leitura, para fazê-los sofrer como a gente já sofreu tentando entender as referências em francês e latim dos literatos…
Mas divago… Do que fujo?
Na conversa com Arli , que não contei, mas veio aqui pintar minhas unhas de preto, dou minha opinião sincera sobre um assunto que, em outros tempos, eu ficaria calada.
Mas não mais faço isso. Um gesto banal. Penso que deveria escrever sobre o assunto, tão apaixonadamente falei.
Tenho 45 anos e só agora me arrisco a ter voz. Por quê?
São camadas e camadas, como uma cebola. Como a defesa que fiz para Arli.
“Não, o médico está errado“, eu disse a ela.
Relembro o que o médico fez de errado comigo.
Mas disso Arli não sabe.
Não sabe nem desconfia.
Das noites velozes em claro.
Do silêncio da rua.
Da casa bagunçada tal qual meu interior, que arrumo madrugada adentro para recebê-la.
Esse silêncio…
Não é que as pessoas dormem todas ao mesmo tempo? Você não acha engraçado, curioso isso?
Ah, você também está dormindo… Sortudo você. Dormir é uma benção. Por isso Michael Jackson morreu de propofol. Pelo desespero de dormir. Já pensou nisso?
Arli não sabe, mas tem muito a ver comigo.
Eu também estou tentando escapar, Arli. Que nem você, que escapou, lembra?
Já praticamente uma década atrás. Quando você disse:
Vou sair do salão.
Vou atender as clientes em casa.
Aqui ganho pouco.
Estou obrigada a ficar neste lugar, presa, horas e horas. Com clientes ou não.
Meu patrão fica com mais de 50% do que eu ganho.
Pago aluguel pelas cadeiras e pelas toalhas lavadas.
Quero liberdade.
Vou tentar.
Estou saindo.
Você me perguntou se eu queria o serviço a domicílio, mas eu entendi a questão de outra maneira: “você vem comigo nessa aventura?“
Eu hesitei, Arli, eu confesso.
Eu, que já acho as relações de salão muito pessoais, abrir minha casa? Meu mundo?
Acho que falei mais sim porque não sabia dizer não. Porque nunca soube, porque estou aprendendo agora.
Não.
Também falei “sim” pelo tremor da mão. Das mãos e dos pés, que no final das contas, foi o que nos uniu. E que nos mantém, até hoje. Embora ele tenha quase sumido, eu ainda o sinto. Sei que ele está aqui, latente, à espreita.
Você acha que é medo. Pelo menos foi o que você disse uma vez. Não faz muito tempo. Eu nem desmenti. Até deu vontade. Mas o que eu iria dizer? “A questão é mais complexa do que isso”, pensei em começar… Mas até gostei da sua definição. Da sua certeza em dizer o que eu tenho. Me lembrou da certeza que você tem nos benefícios do carvão ativado. O carvão ativado que já salvou você, salvou seus cachorros e que eu deveria ter em casa, por ser muito bom. Remédio milagroso presente em tantas histórias que você já me contou, enquanto faz minhas unhas.
Falamos de amenidades porque se fosse para falar a verdade, Arli, eu ia ter que te contar…
Das doenças
Do surto
Da faca
Do choro
Das lágrimas
Da denúncia
Da explosão
Dizem que existem temas e temas para conversar com a manicure, sabe, Arli?
Sorte a sua.
Pé e mão
