As sem palavras de amor

Nenhuma palavra de amor foi proferida
Na sombra da noite estrelada sem versos
Nenhuma delas foi dita
Da tinta dos escritores, nem das rimas dos poetas
Sequer cancionistas a disseram
Não há bocas não há bocas
Não foram proferidas pelas ruas, pelas travessas, ou em tímidas cartas de
amor
Nenhuma palavra foi dita, pichada em um muro, cantada por entre murmúrios de um bêbado
Ninguém disse “saudade”, porque
Hoje não há palavras de amor
Porque o amor está em falta
Não veio na entrega do leite e do pão
Ele está escasso e caro
Não vale a carne do mês
O amor está em falta nas calçadas, nas canções, nas casas, nas confecções
Por aqui, resta tecer meus reclames revoltosos
De falta de amor
De falta de
De falta
Falta

*Texto selecionado no concurso de poemas Turmalina 2024

Teatro

Tem uma música do Humberto Gessinger que diz assim

Se eu pudesse, ao menos, te levar comigo lá
Pr’o alto da montanha, num arranha-céu
Pr’o alto da montanha, num arranha-céu
Sem final feliz ou infeliz…atores sem papel

Atores sem papel
Essa frase mexe comigo e me faz parar para pensar
O que são atores sem papel?
Gente sem fala decorada.
Sem jeito determinado ou esperado de ser.
Sem script para seguir.
E por que isso é importante?
Porque cada vez vejo mais gente – e me incluo nisso – se obrigando a desempenhar papéis.
Longe de mim falar de verdadeiro eu.
Sabemos que somos muitos.
E que esse lance de verdadeiro eu não existe.
Somos um amontoado de eus.
Porém, o que me incomoda é o ter que ser de um jeito para agradar o outro.
Na pesquisa Great Places To Work, tem uma pergunta:
Você pode ser quem é na empresa em que trabalha?
Em geral, ao ver uma questão como essa, imediatamente remetemos à aceitação de orientação sexual.
Mas acho que vai muito além.
Será q onde você trabalha você pode ser mais quieto?
Ou mais sério?
Ou, ao contrário, você pode ser mais descontraído?
Ou há uma persona mais valorizada? Alguém está querendo fazer de você um clone dela?
Manter um personagem gasta muita energia, que poderia ser melhor aproveitada de muitas outras maneiras
E manter um personagem pra sobreviver ou atender as expectativas do outro é uma violência.
Assim, digo: que possamos todos ser atores sem papel.
A menos sem os papéis que nos violentam e nos dizem que não somos adequados tão qual somos
Gente foi feita pra brilhar – e não pra se travestir de outra coisa pra agradar os outros.
E pra citar outro artista… Chamo (com a voz feminina sensual) L7, me espera (se você não conhece, saiba sua filha gosta). Pois tem uma música dele que diz:
“Você tá vivendo mesmo ou isso é só atuação?”

Reescrita

Você foi um erro desde o primeiro olhar.

Desde a primeira interação, você era o que eu menos precisava e ainda bem que esse ciclo vicioso terminou.

Você foi como uma droga e a abstinência sempre foi minha pior inimiga. Sofri com comparações relacionadas a você sobre minhas conquistas e fracassos. Tudo isso aconteceu em silêncio. 

Mesmo que para mim você tenha tido algum significado, quanto menos lembro e sei sobre sua vida, melhor eu fico. Enfim, essa é a última das poucas vezes que escrevi sobre você. 

Daqui para frente existe apenas a minha reescrita pessoal. Acabou.

Você perdeu e EU GANHEI.

Microcrônicas de capital #3

– Não pode usar essa rua de ponto sem autorização, baranga!
– Só estou indo para casa.
– Nesse chic? Tava onde?
– Num casamento.
– E volta para casa de ônibus? Pelamor! Cê mora longe?
– Depois da Avenida mais oito quadras.
– Mona, sofre não! Pega minhas havaianas e põe esse salto na sacolinha, toma!
– Tem alguma coisa aqui dentro…
– É um lanche e um pacote de camisinha. Fica também, tu tem cara de que não se previne. É do interior, né?
Apenas sorri.
– Sabia! Vai com Deus, piranha!

Eu pequena

Ela caminha em minha direção como uma seta disparada por um arqueiro hábil. Caminha em linha reta e inequivocamente me tem como destino. À medida que se aproxima, consigo ver seu vestido de listras amarelas e azuis, dançando na cadência do seu caminhar. Seus cabelos lisos estão presos em um rabo de cavalo que também balança em cadência com o conjunto. Ela tem um leve sorriso que se ancora no pouco que sabe mas no muito que o coração almeja. Os olhos são dengosos e me pedem abrigo.

Quando ela está bem perto de mim, meu coração estremece pois percebe de quem se trata. Aquela pequena figura de pernas roliças e mãozinhas pequenas se abre em um abraço e me enlaça. Começo a chorar silenciosamente pois estou emocionada de tê-la, agora, tão próxima a mim. Compadeço-me daquela criaturinha pequena, frágil e tão virgem de desilusões e expectativas.

Nós gostamos de abraços. Então ficamos imersas nesse aconchego por um bom tempo. O vento sopra, balança as folhas das árvores e mistura nossos cabelos. Sinto seu perfume suave e fresco de criança com banho recém-tomado. Ela está tranquila, entregue a este momento. Não sei o que ela espera de mim. Na verdade, ela também não sabe.

Resgato minhas lembranças para refletir qual conselho darei a ela. Devo alertá-la sobre quais perigos? Qual decisão nossa não deveria ter sido tomada do jeito que foi? Quais sofrimentos poderiam ter sido evitados com uma pequena mudança de curso? Devo entregar a ela o tesouro (ou o fardo) de saber tudo que acontecerá no seu futuro? Mas se eu disser e ela mudar tudo, eu ainda existirei? Existirei do jeito que sou?

Tranquilamente, vamos afrouxando nosso abraço. Ainda estou emocionada mas já consegui secar os olhos e a face. Ela continua me olhando ternamente. Seus olhos me veem com admiração e sinto que ela espera algo. Então, eu digo:

– Sei que não parece mas eu sou você. Continuo sendo você. Às vezes eu também me esqueço disso. Por mais estranho que possa parecer, a maturidade me alertou que preciso me conectar mais com você, com a criança que fui, com a essência que vive camuflada sob as tantas camadas que fui construindo ao longo do tempo. Muito obrigada pelas decisões que tomamos. Elas nos trouxeram até aqui do jeitinho que tinha que ser. E se eu puder lhe dar apenas um conselho, seria o de não se desconectar do que a gente verdadeiramente é. Mesmo com todos os desafios, tribulações e a importância que você dará às expectativas alheias, sua essência deverá ser seu norte. Não se afaste dela. Depois, pode ser muito difícil encontrá-la novamente. Mas, se ainda assim, você se perder dela, sempre haverá um caminho de volta. E sim, nós somos o bastante.

                Seus olhinhos ficaram apertados, como quem se esforça para enxergar o que precisa ser visto. Suas bochechas levemente ruborizadas se movimentaram com seu leve sorriso. Apesar da pouca idade, pareceu entender o que eu dizia. Nosso encontro está chegando ao fim e sinto que chega a hora dela se despedir para retomar seus passos, retornando por onde veio. Pouco a pouco, sua imagem vai se desmanchando no horizonte. Sinto vontade de chamar por ela para que volte e eu possa lhe contar, dessa vez em tom mais leve, sobre as tantas coisas boas que acontecerão. Mas não o faço porque não é necessário, já que ela está e sempre esteve comigo. Grata por tudo, levanto-me e sigo para casa, arrastando na saia longa e colorida os raminhos verdes da grama do parque.

Meu novo ano

Meu novo ano, pensei seria fácil

passar pano bento

lavar os pés dos teus prévios

O  que jurei no velho que se despede

e te recebe com fogos, esquece.

nem chegou a cair umbigo pois

dévio destino ocorreu-me

Lembra do mantra

do arrebento do mar Chuá … Chuá…?

Repeti-o até a língua cansar

e perder de velhos os dentes

O mar nada levou

para as sereias afundarem:

nem a mão que tampa minha boca

nem  a Tal dele transformou-se cinza

o sapato ainda é o mesmo

os calos também ainda me ardem

a caminho das praças de pires nas mãos

Meu novo ano, minhas macambúzias

insurreições não foram solitárias e até deixaram

pálidos muitos cínicos de cheios bolsos

cujos ócios muito rendem

Tombou o valo nas batalhas

me agouram tal mortalha de vivo

mas encontrei na palha do tempo

meu Novo Ano

o mapa do Tesouro de Sierra Madre

já gastei por conta, que a vida é sopro

Na estrada

Na estrada

Eu estou na estrada

Na estrada da vida

Catando cacos pelo caminho

Olhando o céu azul

Pensando no medo do fim

Eu estou na estrada

Correndo a mil

Vendo-a passar em segundos

Quase tocando o ar

Me atirando nesse mar

De areia e pedra

Me misturando, camuflando

Sendo um pouco dela…

Eu estou na estrada

Na varanda da minha alma

Sentindo, vibrando, admirando o horizonte

Na estrada

Na estrada

No percurso como em um filme

Em um trajeto firme

Maravilhando-me com o sol brilhante

Que queima, arrasa a terra

Tentando alcançar inútil o infinito

Que me foge arredio

Ainda assim, eu me arrisco nessa estrada

Ah, eu me arrisco na estrada!

Faz um tempo

Faz um tempo que saí de cena
Acordo a hora que quero
Durmo quando o sono vem
Troquei o dia pela noite
Já dormi amanhecendo
Acordei anoitecendo
Vivi fora do tempo das pessoas comuns
Habitei o incomum
Ouvi a chuva cair
Pintei de madrugada
Estudei às 3 da manhã
Fui ao mercado meia-noite
Vi as luzes dos apartamentos se apagando
E me perguntei quem também estava ali
Desperto em um horário proibitivo
Em uma segunda-feira útil
Para as pessoas comuns…
Já eu
incomum
Exilada de tempos modernos
Afastada
Por assim dizer
Por assim me definirem
Voltei no tempo
Voltei a ser quem há muito tempo não era
Livre

Eu mergulho

Em um mar de amor

De fé

De dor

De poesia

Não me basto

Não me completo

Não me findo

Eu mergulho

Afundo fundo

Em minhas águas profundas e serenas

Me busco

Sou enseada

Lagoa

Piscina natural

Rio manso, remanso

E me lavo, me limpo, me levo

Navego

sem fim

Deixo a correnteza agir

Já cansei de fugir

Eu mergulho

Em um oceano de mim