Deixa o novo entrar

Um sentimento de inadequação sempre me invadia quando um relacionamento não dava certo. No que será que eu errei? Poderia ter feito diferente? O que ele não gostou em mim?

Com o tempo, aprendi que o meu gostar não era suficiente para garantir o gostar do outro, que podemos nos pintar de ouro e continuaremos não fazendo diferença na vida de quem não nos quer.

Aprendi que não preciso mudar para agradar ninguém e que o sim é muito claro. Se existe um pingo de dúvida, é não.

Tudo que já nos marcou a ferro quente, nos deixou marcas e cicatrizes também nos ensinou algo. Pessoas também nos ensinam o que não queremos para nós.

Que os finais e as marcas deixadas por todos que nos constituíram como pessoa sirvam de ponte para o recomeço, para o novo atravessar e chegar.

A palavra de ordem é a impermanência. Nada é para sempre, quanto mais tentamos aprisionar nossa felicidade num instante mais ela escapa pelos vãos dos nossos dedos. O que não depende de nós não nos pertence e a atenção plena nos ensina a viver o agora.

Por tudo isso, se o novo bater a sua porta, deixe entrar. Receba com um sorriso, o coração grato, a alma leve. Esquece o que te fizeram no passado, não generalize comportamentos, não coloque as pessoas no mesmo balaio, não finja ser o que não é para agradar e não pense no amanhã, não crie expectativas; principalmente, em relação ao que não depende de você.

Se de alguma maneira o novo te gerar insegurança, ansiedade, dúvidas, desconforto e sentimento de não pertencimento…aguce seus instintos, amplie o campo de visão e esteja alerta se isso não seria um NÃO.

Lembrando, o sim é muito claro e se realmente for ele batendo em tua porta, abra, sem medo, sem reticências e estenda o capacho: SE FOR PRO BEM, PODE ENTRAR E FICAR!

Salve, Mulher

Salve, Mulher

Rainha de onde quiser

Vida de corres, no amor ou no ódio

No ponto de ônibus

Na fila da van

Esperando o uber

Salve

É por você que choram

Bocas famintas em casa

Para você suplicam o peito, o carinho, a cama na hora do sono

Nos conte uma história, faça um cafuné, dê cá sua companhia

Os seus olhos cansados

as pálpebras manchadas dos dias de trabalho e das noites insones

se voltem a nós com doçura

E depois de muitos anos

De dedicado trabalho à família

Entregue seus filhos ao mundo

Seu trabalho cumprido

Aval concedido

– Que deixem o ninho vazio!

– Que deixem o coração partido!

Voltem a ti, com amor e frutos

E a promessa de um tempo feliz

Amém


Crédito da imagem: Dall-e

SOBRE GIGANTES, DESEJOS E SONHOS NOSSOS DE CADA DIA

Eu alimentava um desejo secreto. Desses que a gente não fala pra ninguém. Não porque fosse proibido, mas porque acreditava ser inalcançável. Um sonho de produzir artes. E quando digo artes, me refiro a tudo o que o homem transforma e torna belo por meio de seus sentimentos e habilidades. E por belo me refiro, também, ao que é desconfortável e muitas vezes rejeitado.

Foi assim quando vi pela primeira vez uma colagem. A possibilidade de trabalhar com partes de um todo formando outra arte que não a original me fascinou. Os recortes de tamanhos e formas variadas. As texturas, as imagens ora impactantes, ora ternas, ora afetuosas, reconstruções de realidades. Fiquei encantada e fui capturada pela arte.

E, por me julgar incapaz, nunca imaginei que pudesse fazer algo parecido. Achava a técnica sofisticada, complexa, imaginava que exigia um conhecimento que eu sabia não ter. E pior, não sabia onde poderia aprender.

Aí entra o caos da pandemia. Me vi entre o desespero de sobreviver e proteger minha família e a loucura de acalmar a mente e o espírito. O horizonte de águas estranhas que apareceu na minha janela foi a única alternativa possível para me arriscar em um mundo que pouco conhecia, mas com certeza estranho para o momento.

Não pensei muito. Me atirei na literatura e nas colagens. Como todo começo, tudo é muito sofrível, desnutrido, sem forma definida. Apenas a voracidade de aprender, de treinar, até que o corpo sofra. Por causa da má postura e dos movimentos repetitivos no tablet para fazer as colagens, ganhei uma tendinite. Dias de dor, remédios e, o pior de tudo, a distância do que no momento me mantinha lúcida.

 Depois do temporal o sol ressurge e as águas turvas ficam calmas e translúcidas. É hora de novos mergulhos. Mas agora, com cuidados e equipamentos adequados. E, assim, as colagens foram nascendo, assim como os textos. O pensamento mais organizado. O gosto estético apurado. Me dou conta de que sou capaz de capaz de fazer arte.

E penso que o julgamento alheio é o que nos limita. É da natureza do ser humano fazer julgamentos? Não! Assim como tudo na vida, somos treinados para isso. Julgamos a partir de nossos padrões estéticos pré-estabelecidos. E, no caso das artes plásticas, sobre o que é ou não é belo.

Contudo, como boa libriana que sou, o belo está mais relacionado à estética e à harmonia do que ao conceito de beleza em si. E só quando entendemos isso temos a ousadia de nos lançar em aventuras. Mas é preciso referências, porque ninguém que chegou até aqui, está descobrindo o fogo ou inventando a roda.

É preciso, com justiça, reverenciar quem chegou antes de nós. A metáfora dos anões em ombros de gigantes, atribuída a Bernardo de Chartres, no século XII, expressa: “Descobrimos a verdade a partir das descobertas anteriores”. Posteriormente, Isaac Newton popularizou a metáfora com a frase: “Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes.”

Portanto, tenho orgulho de minhas referências e mais do que isso, respeito-as. A apropriação indevida é grave. Reinvente, reescreva, refaça, mas com a consciência que o gigante que lhe acolhe é generoso, e grande o suficiente para esmagar a mediocridade.

Sou rio e mar

A gaveta entreaberta mostrou a camisola encharcada
E que fora displicentemente guardada
Para um novo uso
O toque gelado eriçou a dor que fingia descansar
Mas que em um átimo retornou à cena para explicações
Reiterada e exaustivamente
Em monólogo
Na ilusão de que ao se explicar
lhe fosse permitido partir
 
Os olhos cerrados ardem
E perguntam se sou só água salgada
E de que poço sem fim ela jorra sem descanso
Discreta ou escancaradamente
Em rio de rímel que percorre os sulcos da face
Do pescoço e do colo
E que se represam na camisola saturada de mim
 
Retiro-a e seu cheiro de maresia inunda o quarto
E despida de quem pareço ser
Encaro-me no espelho, aconselhando-o


Devagar, junto meus pedaços empapados de água e sal
Deito-os na cama fria
E sinto-os, pouco a pouco, escorrer pelos lençóis, tapete e chão
Deslizando pela sala, descendo as escadas, lavando pés estranhos
Alcançando a rua, escurecendo o asfalto
E chegando ao mar
Para o rio que sou, enfim, nele desaguar

Três vezes amor

Em teus versos me perco

Tua beleza, meu espanto

Se digo que vou te amar

Na verdade, já amo

***

Tô pra receber um dinheiro

Vou te comprar a tv

E um casaco maneiro

Pra nunca mais te perder

Mas se a grana faltar

Prometo me esforçar

Pra compensar em versos

Poema não vai faltar

***

Miro alvo

Acerto cupido

Laço amor

Devoro

Tensiono carne

Sinto êxtase

Descanso corpóreo

Descarrego adrenalina

Durmo em plumas

Acordo sintomático

Dores e flores

Corpo e alma

Tenho febre

Repentina

Procuro médico

Diagnóstico difuso

Amor ou trauma?

Carta a minha filha

Maya Angelou, tradução Celina Portocarrero; prefácio Conceição Evaristo – 2ed. – Rio de Janeiro: Agir, 2019.

Um livro com as narrativas de memórias especiais da autora, lições que aprendeu e deseja compartilhar, ora divertidas, ora dolorosas.

Maya Angelou foi ativista pelos direitos civis dos afro-americanos, professora, poeta, escritora, cantora, entre tantos outros lugares que ocupou em sua trajetória. Mas antes de tudo, mulher negra que viveu a dor ainda criança de ser abusada. É dela o livro Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, best-seller mundial, que conta a história da sua vida.

Em Carta para minha Filha, conversa intimamente com cada uma de nós, a filha que nunca teve, a partir de momentos que ela admite não ter contado antes por medo, vergonha ou falta de oportunidade. E já manda o recado: “como não posso desviver a história… tenho esperança de que minhas sinceras desculpas sejam aceitas.” É um processo de se responsabilizar, se perdoar e seguir adiante. Como ela diz, lamentar é fazer com que um animal saiba que tem uma vítima nas imediações.

Dentre minhas crônicas favoritas há uma muito forte, em que narra a violência física que sofreu nas mãos de seu namorado Mark Dois Dedos. Ela sobrevive para contar a história, mas percebemos que ela própria tem dúvidas sobre a razão de ter escapado viva, o que deixa um gosto amargo. Com quem essa mulher contava? Deus? Sua mãe? Uma amiga? Nas entrelinhas, é desamparo o que vemos, e ele pode ser notado em outras histórias, uma marca profunda da dores que sofreu.

Destaque especial para o prefácio de Conceição Evaristo, um deleite para os olhos. E a conexão entre as narrativas dessas duas mulheres grandiosas veio para mim na crônica Filantropia. Maya diz que era a sombra de sua avó, e só consigo me lembrar de Ponciá Vicêncio de Conceição que anda à semelhança de seu avô, ambas mimetizando essas pessoas que são especiais em suas vidas.

Senegal e Marrocos são crônicas incríveis, que despertam todo tipo de sensação, do nojo à vergonha. Gravadas na minha mente, evocam gentileza, honra e humildade. Amei as lições de cada uma e me coloquei naquele lugar de nada sei.

“ O epítome da sofisticação é a absoluta simplicidade.”

Há momentos muito tocantes, tais como quando ela encara o preconceito racial, presente em quase todas as crônicas; ou quando fala do Ser mulher e, especialmente, sobre ser mulher negra com 1.80m de altura. Quando em meio a um surto de culpa não encontra um psiquiatra que possa entender a dor de uma mulher negra. E ainda, quando é bem-sucedida e se destaca em muitas coisas que faz, lá vem a síndrome da impostora! As lições que Maya nos dá nesses momentos são para carregar no peito.

Ela encerra sua carta com poemas e crônicas sobre sua vida cristã. É um livro bonito, com momentos divertidos e outros que nos levam às lágrimas. Apesar de algumas opiniões um pouquinho conservadoras aqui e ali, não vi mal nisso. Parece uma avó conversando comigo e, mesmo que eu não goste da lição, é bom ouvir. E de modo geral, como toda boa avó, é sempre gentil.

Livro bom de ler. Recomendo!                           

Casa de Memórias

Admiro aquelas pessoas que nascem e morrem na mesma casa. Nunca tive uma tenho uma. Tenho várias. Não porque seja proprietária, mas por não ter uma. Filha de pai militar e depois casada com um militar, morei em muitas casas. De cada uma, várias lembranças. Umas boas outras nem tanto.
Em todas elas havia a solidão. Solidão da menina, solidão da adolescente, solidão da mulher. As muitas solidões traçaram meu caminho. Hoje é na escrita e nas colagens que essa solidão é mais necessária. Já não é um incômodo, mas uma necessidade.
A vida ainda é caótica, sem a rigidez de uma rotina de escrita e isso é um problema. Perco prazos de editais, desafios e exercícios de escrita. Mas, por outro lado, sempre me pergunto qual a pressa? Hoje posso me dar ao luxo de não ter pressa e o mais valioso: não aceitar que me obriguem a escrever ou publicar o que não quero.
Pensando sobre essa questão lembrei da Maria Carolina de Jesus. Uma mulher forte, uma escritora rara. Como escrever quando a barriga está cheia de vento? Como escrever quando os filhos gemem de fome? Como escrever quando as contas vencem e o dinheiro escasso? Escrevemos porque a única palavra que não nos abandona é a esperança.
Como disse não tenho uma casa, mas várias com quintais repletos de árvores e frutas, mergulhados no som das brincadeiras e risadas da criança que fui. As festas, os jardins floridos, os móveis escolhidos para o casamento e para o quarto do filho. A cama vazia, as portas fechadas, a partida sem malas. A coragem, o filho pela mão e as lembranças que restam foram ficando pelo caminho.

Fetiches

Os fetiches, as fantasias sexuais, as taras e manias habitam o mais íntimo de todos os seres humanos.

SIM!!! De TODOS os seres!

Imagina, Cláudia! Que absurdo! Jamais me sujeitaria a isso. Sou extremamente religioso(a), minha religião não permite. Isso é coisa de puta. Só cafajeste faz isso com mulher. Blá, blá, blá…

Sinto lhes informar que esses desejos habitam nosso inconsciente e precisam apenas de um gatilho para serem despertados.

Assim como a raiva e a maldade, a crueldade, a vingança, a ira, a gula, o ódio, fomos ensinados a controlá-los e a não demonstrá-los pois é feio, errado.

Existem convenções sociais, regras de convivência, estatutos de diversas instâncias que nos ditam o que fazer e o que não fazer, por isso, recalcamos(escondemos) em nosso inconsciente o que é considerado impuro, errado, aos olhos da sociedade, do senso comum. 

Lembre-se sempre: tudo que foi recalcado volta, em algum momento da vida.

Mas aí, eu te pergunto: por que os programas sensacionalista fazem tanto sucesso? Por que em 99% dos filmes existe uma cena de romance ou sexo, por que flmes de ação, tiroteio, perseguições, terror fazem tanto sucesso. Quem nunca ouviu falar da trilogia do “50 tons de cinza”? 

Por que todas estas fantasias fazem parte da nossa psique e, basta alimentá-las para que elas ganhem força.

Os fetiches estão no campo das perversões, de acordo com Freud. E perversões são práticas sexuais que fogem do padrão pênis/vagina/penetração vaginal.

O fetiche é tornar um objeto inanimado em objeto de prazer: sapato, chicote, cordas, algemas. No fetiche, só se sente prazer se o objeto do fetiche estiver em cena.

Exemplos de práticas sexuais não convencionais são: sadismo, masoquismo, necrofilia, fetiches.

Até as pessoas mais pudicas podem, em alguma circunstância, ver-se tentadas a praticar novas modalidades de sexo, sexo com pessoas do mesmo gênero, em locais inusitados, basta que algo ou alguém desperte nelas esse desejos descartados pelo consciente.

O que costuma acontecer também é a sublimação. Quando desejos considerados impróprios aos olhos da sociedade se transformam em algo aceitável e até sublime: pintura, escultura, encenação, literatura.

Uma pessoa que recalca seus desejos sexuais pode transformá-los em literatura, por exemplo. Assim, usando-se dos personagens, consegue expressar suas fantasias mais secretas.

É de extrema importância considerar que a perversão/comportamento perverso se modifica no decorrer da história e a depender dos valores morais de quem está julgando.

Para a medicina moderna, considera-se perversão quando o comportamento individual de excitação sexual somente se dá em resposta a objetos ou situações diferentes das tidas como normais, e quando esse comportamento interfere na capacidade do indivíduo de ter relações sexuais e/ou afetivas tidas como normais. (KENBERG, 1998).

Para a psicanálise e para mim, o aspecto mais bonito de conhecer e saber tudo isso é que saímos, ou deveríamos sair do papel de pessoas que julgam para nos reconhecermos como parte desse universo.

A partir do momento que sabemos que essas fantasias estão em estado latente dentro de cada um de nós, passamos a ter mais cuidado ao julgar o comportamento do outro, pois sabemos que a linha para que eu me coloque na mesma posição é muito tênue.

E você? Já teve alguma fantasia desperta? Gostou? Colocou em prática?

Permita-se, respeite-se, experimente dentro do que considera aceitável. Reprimir não é o caminho. Nunca!

Conversa de elevador

 Aperta o botão e dispara:

– Você viu a última foto dele?

– Não. Por quê?

– Foto na neve. Ela pendurada no pescoço dele e enrolada na echarpe que eu comprei. A foto seguinte é ela mostrando o sapato Louis Vuitton e dizendo: “Presente do meu amor”.

– Sério?

– Juro! E ele ainda vem me dizer que não consegue pagar a minha parte na divisão dos nossos bens.

– E aí, amiga?

– E aí que eu tô com ódio!

            Elevador chega e entra uma multidão atenta. Todos escutando a conversa das amigas e se entreolhando. Um risinho disfarçado nos olhos de cada um.

            – Aperta o 12 pra mim, faz favor?

            – E você sabe quem é ela, Amanda?

– Uma iludida, amiga, certeza! Ela está achando que ele tem muito dinheiro e é só “postando” foto na praia, viajando, “marcando” restaurante caro. Eu fico só observando. Às vezes me dá vontade de comentar e falar umas “verdades”.

– E qual é a “verdade”?

– Que ele vive “de fachada”, que não tem onde cair morto e que depois que enjoar do relacionamento, vai cair fora.

– Por que você acha que essa sua “verdade” vai ser também a “verdade” deles?

– Como assim?

– Que o que aconteceu na história de vocês vai se repetir nessa nova história?

– Porque ele não presta, amiga!

– Mas, por um tempo, vocês foram felizes, não foram?

Silêncio na cabine. As pessoas olham para o chão, tentando fingir que nada ouvem. A porta abre e entra um casal de idosos.

– Mas eu não me conformo com essa exposição dele, fingindo ser o que ele não é. Você acredita que na semana passada ele veio me pedir para devolver umas taças de vinho que a mãe dele deixou lá em casa para a gente usar em um jantar que oferecemos? Disse que a mãe dele queria de volta. Mas eu aposto que é ela que está querendo.

– E por que o que ele faz da vida dele lhe afeta tanto? Vocês não são mais um casal. Você entende isso?

– É claro que eu sei disso!

– Você sabe. Mas você aceita?

A porta se abre e, apesar da hesitação, algumas pessoas se dirigem para a saída. Precisam desembarcar nos seus andares apesar de quererem continuar a ouvir a história que parece rumar para outro caminho. As portas quase se fecham mas um funcionário do hospital as interrompe bruscamente. Ele entra conduzindo uma paciente em uma maca.

– Amiga, esse seu inconformismo fala mais do seu sentimento do que das ações dele. Você não devia mais acompanhá-lo nas redes sociais. Não está fazendo bem para você.

– Hã?

– Por que você não se afasta das redes sociais deles e tenta focar em você, nas suas coisas, nos seus planos? Um mês sem redes sociais e acho que você vai começar a pensar em outras coisas, nas suas coisas.

– Mas eu tô muito machucada…

– Eu sei…

– Lembra da Luiza?  Ela também me disse para não olhar as redes sociais dele. Está tentando a todo custo me apresentar um amigo dela. Disse que é muito gente fina e tal. Disse que só se esquece um amor antigo com um novo.

A senhora idosa no elevador olhou para ela com jeitinho de quem queria aconselhar, dizer que não era bem assim mas se omitiu pois não era seu costume se intrometer na conversa alheia, ainda que as mulheres não parecessem se importar com a escuta de estranhos. A paciente da maca, que parecia mais lúcida (e talvez fosse) do que todos juntos, não hesitou em se envolver na conversa:

– Faz isso não. Dê um tempo para você ser sua e não de outra pessoa.

Todos do elevador tinham ignorado a paciente desde que ela havia entrado, tentando fingir normalidade com a rotina do hospital. Então foi estranho ouvir esse comentário de quem se fingiu que não estava ali. A senhorinha idosa sorriu e assentiu com a cabeça, concordando. Amanda deixou a lágrima represada finalmente cair e olhou para a amiga, buscando apoio. A amiga pegou sua mão e disse:

– Que tal deixarmos essa visita para outro dia? Vamos tomar um café?

            O elevador chegou no 12º andar. O casal idoso, a paciente, o funcionário e mais outra enfermeira, que tinha subido no andar anterior, desceram. Ficaram apenas as duas amigas que apertaram o botão “T” e começaram a viagem de volta. Amanda nada mais disse e as outras pessoas que entraram depois, no elevador, trouxeram assuntos triviais como o clima, o preço dos combustíveis e o caos do trânsito. Amanda juntou seus pedacinhos e desceu no térreo. O café estava do outro lado da rua.

Te vejo na próxima vida

É provável que nunca me esqueça de você, afinal somos interligados pelo destino.
Eu sei até onde sou capaz de chegar, destinos próximos não me interessam tanto quanto na época que nos vimos pela primeira vez.

Eu me arrependo de muitas coisas, se eu tivesse errado menos a vida teria andado mais rápido e se desencontrado como em todas as outras vidas. Mas te conhecer me fez entender quem eu sou lá no meu íntimo ser.

Dizem que as pessoas não voltam para uma vida com o mesmo rosto da anterior, mas sinto que isso pode acontecer com mais frequência do que imaginamos, você é o melhor exemplo disso.

Espero entender a nossa ligação para te deixar ir em paz. Para que eu possa dormir a noite e olhar para o sol pela manhã. Te vejo na nossa próxima vida.