Nozinho

Céu azul

De brigadeiro nada!

De menina-moça 

Que chacoalha as tranças e balança a roupa, a saia, a roda

O vestido dança

O balão na mão 

Que também se encanta

Com o vento que toca

Que faz som de andança

De esperança 

De ir mais longe

E voar sem trança

Sem tranca

Pelo céu azul

Azul esperança 

Sem poluição nem mancha

Só nuvem branca

Enfeita o dia da menina

Que liberta o balão e deixa que ele faça seu voo

E sorri na partida

Não volta balão 

que eu te encontro 

um dia

Quem sabe no fim

Da vida

Pra gente

Seguir solto

Sem rumo, sem radar

Num céu azul

De beijinho

De cajuzinho

De doce de leite

De dadinho

Sem brigadeiro

Só passarinho

Voa balão 

Me manda um cartão 

Um postal bobinho

Que me diga ‘estou vivo’

E que a dança no céu é mágica 

Que a liberdade é o caminho

Que não tem muro

Nem espinho

E que a amizade tá no coração.

Vai balão!

Trepadeiras brotam da minha cabeça

Trepadeiras brotam

da minha cabeça.

Uma vasta cabeleira 

esverdeada que se espalha 

por todo chão e toma

a nudez desprotegida

do meu corpo

sem critérios.

Lá fora ouço os carros,

mas dentro de mim

só existe o murmúrio

de águas, de pedras rolando

do farfalhar de árvores.

Dos meus poros saem

terra vermelha.

Dos meus olhos voam

borboletas amarelas.

Da minha boca piam

pássaros de todas as cores.

Eu num canto

observando o ruído da cidade,

seu movimento escandaloso

quase indecente.

Eu florestando. 

Infestando tudo ao

meu redor

com essa natureza 

que me toma.

Com esse musgo

que me abraça e

conforta.

Talvez seja um

chamado,

e eu siga sem 

entender bem 

os sinais.

Controvérsia verde

na cidade grande.

Rir, às vezes, é preciso

Quando me aposentei, imaginei que gastaria o tempo com viagens, passeios e bons livros, mas o minguado soldo rendeu-me um posto cativo no banco da praça — um lugarzinho simpático, rodeado de casas assobradadas dispostas num círculo quase perfeito não fosse à interrupção para a entrada do condomínio.

Dia desses, ainda pela manhã, o buchicho me chamou a atenção. A vizinha da casa três comentava com a moradora da casa quatro o acontecimento da noite anterior:

— Graça, você está sabendo do bafafá que rolou entre a Celinha e o Romualdo da casa dois? — sem dar tempo para a vizinha responder, ela continuou. — Acredita que o Romualdo ganhou uma bolada na loteria e deixou a Celinha sem eira nem beira? Pediu o divórcio e está de mudança, o desavergonhado! — O falatório foi interrompido pelo toque do celular. — Desculpe-me querida! Mais tarde nos falamos.

Graça, indignada com a notícia, correu para a porta da casa cinco, recém-aberta.

— Dona Damaris, a senhora vai ficar de queixo caído com o babado que rolou na noite passada: o Romualdo, da casa dois, ganhou na loteria, abandonou a Celinha e as crianças, comprou uma casa num condomínio de luxo e está de namoro com uma sirigaita dez anos mais jovem do que ele. Não é um absurdo?

Do banco da praça, vi o caso do Romualdo se espalhar feito fogo em pólvora. Ao meio-dia, o pacato vizinho da casa dois se transformara no mais novo milionário, sem escrúpulos, divorciado, amante de uma jovenzinha com idade para ser sua filha e com viagem marcada para Cancún, apesar da alta do dólar.

Os comentários sobre a vida do Romualdo ainda eram a pauta do dia, quando o próprio, cabisbaixo, entrou no condomínio. Estranhei seu ar de derrota ao se sentar ao meu lado. Parecia lhe faltar coragem para mais alguns passos até sua casa.

— Tudo bem, meu jovem? — revolvi puxar conversa. — Tudo bem, nada, Seu Creonte! O Senhor acredita que a Celinha teve um palpite para o Jogo do Bicho — disse que ia dar jacaré na cabeça —, me incumbiu de apostar uma boa grana no tal cascudo e eu, idiota, não lhe dei ouvidos? Resultado: perdi uma bolada e só Deus sabe o que eu ainda hei de suportar até aplacar a raiva da minha mulher! — Sem opção, senão enfrentar a fera, o rapaz não esperou por consolo. Deixou o banco e arrastou-se para casa, sem se dar conta de que algumas vizinhas viram-lhe a cara.

Eu gosto de Legião Urbana

Eu gosto de Legião Urbana.

Com toda a pieguice do Renato Russo. Com as melodias melancólicas das letras e canções. Com os altos e baixos dos diversos álbuns.

Eu gosto de Legião Urbana desde pré-adolescente. Com toda minha juventude imatura. Com toda minha sede de perceber o mundo. Com todos os meus altos e baixos.

Eu gosto de Legião Urbana porque meus irmãos ouviam. E eu gostava de acordar ao meio dia ouvindo A Tempestade, pra mim o melhor disco (será que sou depressiva?).

E porque a sinceridade de um ariano alcançava o coração infantil de uma sagitariana.

Eu gosto de Legião Urbana porque me acompanhou nos desencantos amorosos. Porque me senti quebrada em Mil Pedaços, como até hoje na minha música preferida.

Porque me ensinou que é importante não fazermos do amor algo desonesto.

Eu gosto de Legião Urbana porque no fundo me traz uma esperança. Porque me dá vontade de escrever com Giz minha história. Viver um romance como Eduardo e Mônica. E ir pra Salvador, como um Faroeste Caboclo.

Porque me lembro do meu amigo que morreu aos dezesseis e choro.

Porque quase me afogo, em um dia de vento no litoral.

Porque o tempo às vezes parece perdido.

Porque marcou minha vida em cada parte, me fez querer fazer arte. Ser escritora.

Eu gosto porque me lembra meus pais. E me desperta a vontade de ter filhos. Eu gosto porque me faz triste, mas ao mesmo tempo, viva.

Eu gosto de Legião Urbana porque, meu amor, meu coração é pobre, e “quando o teu estava comigo era tão bom”…

Eu gosto porque me ajuda a traduzir em palavras o que sinto por você, mas não deveria.

Acima de tudo, amor… eu gosto de Legião Urbana porque me lembra de mim mesma, uma menina, tentando entender a vilania do mundo.

Por que não nos permitimos o ócio

De acordo com o autor Byung-Chul Han, o cansaço é uma resposta do corpo para o excesso de positividade e a cobrança que a sociedade impõe. 

Essa sociedade do cansaço produz pessoas mecanizadas e centradas no que é essencial para um sistema capitalista: a corrida pelo lucro. Sendo assim, somos metralhados por algumas crenças que nos impedem de desfrutar de momentos de descanso e lazer, sem nos sentirmos culpados por não estarmos produzindo algo: física ou intelectualmente. Algumas dessas crenças são: 

✓ Busca pelo sucesso; 

✓ Imposição de limites é um retrocesso;

✓ As pessoas são capazes de alcançar tudo, basta esforço;

✓ Comparações; 

✓ Excesso de informações e estímulos; 

✓ O mundo perfeito das redes sociais.

É importante lembrar que somos seres constituídos por diversos aspectos: físico, econômico, social, cultural e espiritual.

O equilíbrio é a chave da saúde e do verdadeiro sucesso. 

Permita-se o ócio  

Amor não é 8 ou 80

Estaciono a moto e me olha snob um cachorro de rua. Achei-o metido e fui para a aula. No intervalo pediu um pedaço do meu lanche, mas tão digno e humilde que me apaixonei. Agora um assovio e o bichinho vem correndo me sujar de lama antes da aula. Eu sou louca por aquele cachorro, se não o vejo ao chegar fico saindo pro pátio no meio da aula, preocupada, e me parte o coração quando corre atrás da moto no fim da noite.

Será que ele entenderia se eu se lhe dissesse que não posso levá-lo para casa? Que ele não seria feliz trancado em 64m² e sozinho o dia todo? Que o preço de estar comigo é abandonar os gramados, as corujas e os macacos que ele persegue, os outros lanches e carinhos que ganha? Sei que passa frio, fome às vezes, que deve ser duro ser sozinho, sem dono, sem rumo, mas como posso fazê-lo entender que é de sua natureza ser livre e é da minha poder estar com ele apenas alguns minutos por noite? Seria preciso que eu de fato o prendesse para ele entender como é bom para ele não ter dono?

Eu o amo, muito. Desejo para ele todas as alegrias possíveis na vida de um cachorro. Penso durante o dia em encontrá-lo e brincar com ele e acordo sorrindo do devaneio. Ele me faz muito bem, e eu cuido e mimo o magrelo tanto quanto não lhe torne cativo. Mas ainda assim ele corre atrás da moto sempre que vou embora.

Erva de Passarinho

Hoje a tristeza me tomou
Presa em seu visgo
desorientada
Raiz fraca, queda certa
O estômago vazio
Sem sal, sem ceia
O coração em desalinho
Seiva bruta deseja

Cessem os adeuses
Podem as folhas secas
Até que a luz se apague
A energia se esvai de
Pouquinho
Partir é perder o brilho
Sol que se apaga
Dia frio

Não seja a tristeza
Minha companheira
Como planta trepadeira
Erva de passarinho
Sugando de mim a seiva
Que me mantém vivo

Te vi ontem

Ontem foi mais um dia comum
Faz tempo que faço minhas coisas sozinha
Sinceramente, não senti sua falta
No máximo, uma melancolia não identificada
Mas eu ainda te vi ontem
Você estava radiante como quando nos conhecemos
Seu sorriso ainda me deixou sem fôlego
E mesmo assim, você não me viu.

Ainda bem.

Não espere as férias para ser feliz

Quando saí de férias do trabalho pela primeira vez, levei a tiracolo uma lista enorme de atividades que eu planejava fazer durante esse período. Naquela época, as férias significavam um dinheiro extra no bolso e tempo livre para fazer coisas que eu julgava necessário fazer e que não encontrava espaço para acolhê-las durante a rotina laboral. Consertar coisas, providenciar outras, organizar documentos e armários e ir a consultas médicas estavam na fila, esperando a vez. A lista era tão extensa que lembro que passava de uma folha de papel. E recordo também de olhar para ela e ter a consciência clara de que o tempo “livre” seria insuficiente para tantas resoluções, o que de certa forma me frustrou logo de início.

Minha família de classe média de pais servidores públicos não tinha a cultura de viajar nas férias. A não ser as idas à cidade natal de ambos, a poucos quilômetros de onde morávamos. Então, eu não sabia lidar com aquelas primeiras férias de mulher trabalhadora. Minha criação e o mundo em que eu vivia haviam incutido em mim que as férias serviam para ganharmos um dinheiro extra (normalmente destinado a necessidades gerais que não tinham relação com lazer) e termos um tempo livre do trabalho. Daquelas férias, o que ficou guardado na minha lembrança foi a matrícula em uma turma de natação que fiz para mim e para Bia. Ela devia ter uns 4 anos e passamos um mês indo à natação juntas, em uma turma mista de adultos e crianças, no meio da manhã. Nós amávamos aquelas aulas e eu percebia o quanto estar comigo naquela atividade a fazia feliz! Foi o melhor daquelas férias inteiras!

Já faz quase vinte anos daquelas primeiras férias. E, felizmente, desde aquela época, sempre tive um trabalho que me permitiu levar a vida com dignidade e que me proporcionou ter periodicamente essas pausas. Mas, de lá para cá, muita coisa mudou.

Com minhas duas meninas ainda crianças, descobri que era possível (e importante) viajar em família nas férias. Sempre haveria uma necessidade que aguardava a vez de ser suprida com o dinheiro extra desse período. Mas por que o lazer da família não poderia reivindicar seu lugar de importância em minha lista financeira e de tempo? Não precisava ser uma viagem para fora do país e nem precisava ser de avião para um lugar famoso. Mas tinha que ser para um lugar novo em que a gente visse coisas que não tinha o costume de ver, que saboreasse novos gostos, que respirasse novos ares, que deixasse o tempo fluir sem consultá-lo no relógio e que, principalmente, convivesse e construísse memórias. Minhas garotas cresceram tão rápido que nem deu tempo de eu perceber que chegaria o dia em que elas não poderiam mais me acompanhar nesses momentos, ocupadas que estariam com suas próprias vidas e compromissos independentes de mim. Mal me dei conta e aportei nessa realidade de praticamente não conseguir mais conciliar nossas agendas de férias juntas.

Ao longo desses anos, as férias passaram de um mero período sem trabalho e destinado a resolver coisas pessoais a um momento aguardado ansiosamente para desfrutar de experiências que o cotidiano de compromissos laborais parecia não permitir. Então, passei a projetar nelas a pesada responsabilidade de renovar minhas energias e me conferir novo fôlego para a jornada seguinte que se iniciaria depois delas. Então, lancei-me a férias aguardadas e planejadíssimas, com viagens com programação intensa, tentando aproveitar cada minuto. Mas a fórmula mostrou-se incompleta também.

Como disse um antigo professor meu: “o mundo não é preto nem branco, é cinza”. Já faz um tempo, então, que percebi que o caminho parece ser seguir pelo centro dessa trilha, transformando esses dois extremos (de lazer quase zero a viagens intensas – e até um pouco exaustivas) em decisões que contemplem a ambos, de cada vez e sem exageros.

Passados todos esses anos, ainda sigo instigada na ilusão de descobrir a fórmula mágica que possibilite a máxima otimização do tempo livre que as férias proporcionam, dividindo-as na tríade resoluções, descanso e lazer. Esta fórmula é tão difícil de ser definida (quiçá impossível) porque nossas necessidades e desejos são dinâmicos e a cada momento são diferentes. Às vezes, peso mais a mão em apenas um vértice desse triângulo e o tripé acaba ficando um pouco desequilibrado. Porque a cada período de férias sou uma pessoa diferente daquela das férias anteriores e em uma fase da vida que me solicita de uma forma distinta. A maturidade também me deixou mais complacente quando a programação sai dos trilhos. Atualmente, aproveito esse “descarrilhamento” do planejamento para ver o que de bom ele me trouxe. O inesperado pode sair melhor do que o planejado. E deixar o universo decidir por você, às vezes, pode ser bom. Afinal, a gente não tem (e nunca vai ter) todas as informações necessárias para a decisão perfeita. Se o controle não é todo nosso, deixá-lo de lado conscientemente, de vez em quando, pode ser libertador.

Sem dúvida que as férias são um oásis no deserto de obrigações. E, por serem uma pausa no ritmo habitual da vida, também podem ser um excelente momento para refletirmos sobre o que somos e o que queremos, possibilitando pensar (ou até agir) em uma mudança de curso, ainda que pequena. É a academia que decidimos retomar, é a visita àquela pessoa especial que nunca mais tínhamos visto, é o ócio que nos permite observar aquilo que está a nossa frente mas que seguia camuflado pelas urgências do dia-a-dia… Contudo, as férias são curtas para a maioria das pessoas. Para muitos, apenas uma ilha de 30 dias no meio do mar de 365. Para aqueles que não usufruem dos direitos trabalhistas em sua labuta, às vezes extenuante e invisível, nem isso. Então, porque esperarmos as férias para sermos felizes e fazermos o que nos faz bem?

Dia desses, saí mais cedo do trabalho para tomar um café com amigos que não via há bastante tempo. No próximo feriado, levarei meus pais para uma cidade que eles sempre quiseram conhecer. Hoje, estive com minha caçula em uma sessão de fotos de formatura que a encheu de sorrisos e a mim de emoção. Neste momento, estou escrevendo, algo que me aquece a alma. Se seu trabalho tem um propósito alinhado com o que você acredita e se você se sente desafiado, valorizado e reconhecido, melhor ainda! Seja feliz enquanto está lá e também ao fim do expediente, quando bater seu ponto, pegar sua bolsa e seguir para casa. A sensação gostosa das férias pode estar na outra esquina, na bilheteria do cinema, na lágrima emocionada ao fim do filme, na mensagem de quem você ama contando sobre uma conquista, no jantar especial no meio da semana, no sono prolongado numa manhã sem compromissos ou simplesmente em um telefonema apaixonado no meio do dia. São as pausas que permitem, de uma vez só, olhar para dentro da gente e, também, enxergar o que há por cima do muro das ocupações, descortinando um horizonte de possibilidades para buscarmos o que nos faz bem em qualquer época do ano.