Gratidão


Acredito que 2025 esteja sendo o ano mais difícil da minha vida. Tenho tido problemas de família, problemas de saúde, problemas psicológicos.
Mas ao mesmo tempo, tem sido um ano de tantas conquistas! Mudei para uma nova casa, conheci novas amigas, e tenho convivido com uma pessoa muito especial, que me conquista todos os dias.
Fiz uma palestra lotada de gente. Recebi a oportunidade de escrever um quadro no meu trabalho de um assunto que amo.
Percebi, em meio a todas as dificuldades, que precisamos ter a força de um guerreiro, mas sem perder a leveza de uma flor ao vento. Que precisamos lutar como leões por aqueles que amamos, contra todas as adversidades. Mas também mantendo a doçura necessária para cultivarmos nossas relações, e conquistarmos novas.
Por todos esses aprendizados e vivências, digo: gratidão a Deus.
Gratidão a minha família e aos amigos.
Gratidão por todos os dias vividos, pelas alegrias alcançadas e pelas tristezas
superadas.
Em alguns dias, cheguei a pensar que morreria de tanta dor.
Gratidão por ter conseguido resistir.
Gratidão por me permitir recomeçar.


((Às vezes, me pego pensando se mereço tanto…))

Hídrica Onírica

Sonhei que eu bebia muita água,
muita água,
muita água mesmo,

que éramos amigos
e você até conhecia meus pais,
até conhecia minha casa,
entrava
por um portão de ferro azul escuro
que não era tão azul escuro,
nem assim tão de ferro,
e muito menos
minha casa,

mas no fundo

eu sabia que era

porque ali estávamos seguros,
porque eu te dava um beijo
sem medo nenhum
e sem qualquer esforço

você aceitava

passar as próximas
quarenta e sete noites de verão
naquele mesmo lugar

comigo,

tomando todas as chuvas,
desde a primeira
até a quadragésima sétima.

A gente bebia muita água,
muita água,
muita água mesmo,

abrindo a boca pro céu
quarenta e sete vezes,
até que

na quadragésima oitava vez,

no quadragésimo oitavo copo,
na quadragésima oitava tempestade
da noite de n° 48 você me dizia

e se a gente nunca mais acordar?

e eu te dizia

e se a gente nunca mais se afogar?

Beatriz Ras é da zona norte do Rio de Janeiro e é graduada em psicologia pela UERJ. Autora de Rasgalume (2019), Nove Casas (2022) e Exoterra (2025), tem poemas publicados em zines e antologias no Brasil e na Argentina.

Morde e assopra

Diana se deitou no sofá. A casa parecia silenciosa demais. O choro, contido até o momento, desabou silencioso. Ficou ali, por um bom tempo, até a dor no peito diminuir. Pela primeira vez, em anos, havia pensado em si mesma. Tinha iniciado a busca por um espaço próprio longe de interferências alheias. A que preço, meu Deus.

Uma brisa de outono entrou pela vidraça entreaberta do janelão. Cruzou os braços, com frio. Olhou o computador ligado e se lembrou da conversa com Mara, no sábado: “Escrever um romance, a esta altura da vida? Quem disse que você pode?”. Naquele momento, sair do apartamento dela pareceu uma ótima decisão.

Preparou um chá de camomila e voltou à escrivaninha. Em uma folha de papel, começou a esboçar ideias para um provável romance. Rabiscou um mapa mental com possíveis ramificações da história.
A chamada de Mara interrompeu-a. Nem se dera conta de quanto tempo esteve sentada trabalhando. Ainda eram seis da tarde, mas sentia-se exausta.

“Sim, estou bem instalada, Má… Já arrumei tudo no lugar… Sim, o apartamento é lindo… Estou bem sozinha… Pode vir me visitar… Vou aparecer, sim… Também te amo.”

Morde e assopra. Guardou os papéis e desligou o computador. Depois de uma chuveirada, foi carregar o celular e viu a notificação da mensagem de Hugo na caixa postal. Lembrou-se da insinuação de Mara de que o havia abandonado. Não queria dar falsas esperanças a ele antes de uma conversa definitiva. Desligou o celular sem ouvir a mensagem.

Começou a chover. Diana fechou a janela de vidro do quarto. Comeu o último pedaço da pizza e depositou as caixas vazias na lixeira do corredor. Escovou os dentes, forrou a cama com um lençol de algodão azul e recostou-se na cabeceira. Estava em sua casa.

Ficou lendo até tarde um dos romances de Lucy Diamond, A casa dos
novos começos. Encantou-se pelas personagens e se identificou com cada
uma. As protagonistas lidavam com o coração partido e buscavam a própria felicidade motivadas pelo apoio das amigas. Pensou em Luci e em como as duas se ajudavam mutuamente. E em como Mara a manipulava, fazendo-a duvidar de sua capacidade de produzir qualquer coisa sozinha.

Encolhida sob a colcha de algodão cru, presente da mãe, anos antes,
ficou ouvindo os pingos de chuva no vidro da janela. Deixou as lágrimas
molharem o travesseiro. Pela primeira vez, em anos, sentiu-se sozinha.

Obra citada: Café & romance
Autora: Denise Gals
Publicado por Editora Pedregulho — 2023

Mais informações:
https://a.co/d/8x0dxlS

O Artefato

Um grupo de homens sem idade
brincava próximo à praia
quando encontrou aquele artefato.

Não faziam a menor ideia do que se tratava.
A princípio, ficaram distantes —
com medo mesmo de se aproximarem.

Parecia frágil e singelo, mas...
algo não estava certo.

Decidiram chamar o ancião para opinar.
Chegando mais perto,
o ancião ficou paralisado.

— Nossa... há quantos anos não ouvia,
nem via nada parecido...

Um dos homens se aproximou e perguntou:
— Isso é perigoso?

Ao que o ancião respondeu, pausadamente:
— Muito...

Espanto entre todos.

Outro homem, inquieto, perguntou:
— Mas ele é capaz de matar? De ferir?
O que essa coisa faz?

O ancião virou-se e disse:
— Essa coisa pode prender sem amarras,
frustrar sem promessas,
cegar sem vendas,
matar sem desferir um único golpe...

Mas também pode representar sonhos,
esperança
e felicidade —
na mesma vida
e para a mesma pessoa.

Silêncio se fez presente novamente.

Até que um dos homens,
com a voz embargada, perguntou:
— Mas como pode ter essa simples coisa
tanto poder?

O ancião abaixou os olhos e disse:
— Todas as vezes que projetamos no outro
toda a responsabilidade da nossa imperfeição...
somos caçadores e caça,
santos e demônios.

Depende de quem olha.
Depende de quem vê.

Então os homens agradeceram
e foram embora,
sem mais perguntas —
deixando a coisa ali.

Respeite seu corpo

Dia 3 de outubro fiz uma cirurgia. Foi a primeira vez que passei por um procedimento como este. Tenho um problema de saúde delicado, que demanda cuidados, por isso fui submetida à operação.

Senti medo. Pedi a Deus por dias que desse tudo certo. Apesar de ser algo simples e rápido, como marinheira de primeira viagem fiquei bastante preocupada.

Depois disso, de trinta a quarenta dias de recuperação. Não posso pegar peso, fazer atividade física ou ficar muito tempo em pé. Precisei tirar uma licença do trabalho e descansar.

Durante este tempo, comecei a pensar a vida. E no quanto precisamos aprender a respeitar os limites do nosso corpo. É preciso saber esperar, aquietar, respirar.

Tenho vindo de uma rotina frenética nos últimos tempos. Com altos e baixos em vários setores da vida. E acredito, que mesmo com todo o nervosismo da cirurgia, tudo isso que aconteceu foi bom pra mim.

Em paralelo a isso, pouco antes da operação, mudei de casa e de bairro. Conheci uma nova pessoa, muito especial, que tem me acompanhado. Passei mais tempo com a minha mãe.

Aproveitei para ler. Ouvir música. Dormir. Desacelerar.

E agora, escrever.

Um tempo de paz, sinto me reencontrando aos poucos. Sendo generosa comigo mesma.

Aconselho a todos, mesmo em meio às dificuldades do dia a dia, tentarem experimentar algo semelhante. A vida às vezes é tão veloz, que mal temos condições de nos permitir nos afastarmos das obrigações e das lutas diárias.

E tudo isso muitas vezes retorna na forma de doenças diversas, físicas ou
psicológicas.

Pense mais em si mesmo. Se dê o amor que você merece.

Por que você escreve?

Semana passada fui convidada a responder uma pergunta que eu julgava saber a resposta. “Por que você escreve?”

Não tive palavras na hora.

Para me ajudar a responder, pedi ajuda às sábias escritoras que vieram antes de mim.

Cecília Meireles me disse em versos:

“Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.”

Clarice Lispector trouxe o gênero para a discussão:

“Sou uma mulher que escreve porque, para mim, escrever é como respirar, faço para sobreviver”.

Conceição Evaristo me falou de sonhos:

“O ato de escrita, para mim, é um ato necessário, vital, mas que eu nunca pude me dedicar totalmente, porque, ao mesmo tempo, também tem o apelo da vida, tem o cotidiano, mas eu ainda sonho um momento que vou poder parar para só escrever.”

Lygia Fagundes Telles ressaltou o papel do escritor:

“tem de vencer o medo para escrever esse medo. E resgatar a palavra através do amor, a palavra que permanece como a negação da morte.”

Virginia Woolf fala sobre conversas inacabadas:

“Aquele laço sobre o qual falei, mulheres e ficção, a necessidade de chegar a uma conclusão em um assunto que evoca toda sorte de preconceitos e paixões.”

Maria Gabriela Llansol me traz alento e apoio:

“_____ escrevo,
para que o romance não morra.
Escrevo, para que continue,
mesmo se, para tal, tenha de mudar de forma,
mesmo que se chegue a duvidar se ainda é ele,
mesmo que o faça atravessar territórios desconhecidos,
mesmo que o leve a contemplar paisagens que lhe são tão difíceis de nomear.”

E eu?

Escrevo porque estou viva e preciso respirar, porque as histórias estão povoando minha cabeça por tempo demais, porque sou mulher e preciso vencer meus medos, porque quero. Escrevo porque QUERO.

Hoje é o dia em que minha criança interior me saúda por nossa vida. É 12 de outubro, dia nacional da literatura. E a criança que sonhou um dia escrever revistas em quadrinhos, hoje tem muitas razões para celebrar.

Adolescência

Ao longo dos anos a minha alegria foi se perdendo junto com a minha autoconfiança. Posso afirmar que tive uma verdadeira era de identidade, assumindo de tempos em tempos personalidades diversas que não se encaixavam no meu ideal de vida.

A morte da cada personagem – chamo assim as personalidades – me trazia mais angústias, mais tristezas e eu não conseguia reunir forças para criar uma nova personalidade e ter novamente a esperança de me encontrar.

É extremamente difícil viver sem entrar em acordo com o meu próprio corpo.
Esta não sou eu. Nunca quis ser assim. Como assumir um corpo que não combina com a minha personalidade?

A resposta que encontrei foi tentar de certa forma adaptar a personalidade a esse corpo e, com isso, me tornei mais infeliz ainda.

O que eu desejava infinita e verdadeiramente era adaptar o corpo às minhas personalidades, transformando-o em uma massa disforme, vulnerável e volúvel.

Casa com alma bagunçada


Mais que preferências na decoração, nossa casa carrega histórias espalhadas
em cada canto.
Os tapetes sumiram quando minhas duas meninas vieram morar comigo. Eu amo tapetes pela casa. A filha, não.
Esparramadas no sofá, assistíamos a filmes de todo tipo. A pipoca se misturava com o chão, e a sala virava acampamento de sábado à noite. A Princesinha brincando com amoeba, misturando corantes em cima do tampo de vidro da mesa de jantar.
Pela manhã, o cenário era outro: um rastro de bolsas, mochilas, mantas com pingos de ketchup, livros empilhados e roupas largadas nas cadeiras.
Vinte anos depois, vejo a minha neta, ja crescida, plantando ervas e flores na
varanda, terra para todo lado. Não há mais massinha e lápis de cores sobre a mesa.
Mas as bolsas e mochilas continuam morando na sala.
Nunca gostei de bagunça, mas aprendi a enxergar afeto nela. São as migalhas de pizza, os pedaços de amoeba na mesa, os quadros de artesanato que me dão alegria maior que qualquer obra de arte cara. E são nossos os rostos sorrindo nas telas que minha neta pinta e que estão por todas as paredes.
Essa bagunça é só nossa. Quando as meninas estão fora, arrumo tudo no lugar.
Até estranho o silêncio. Mas logo elas chegam, começa a algazarra, e a vida volta a ocupar cada centímetro. Não abro mão da minha reclamação diária por um pouco mais de ordem. Elas arrumam, organizam, por vinte e quatro horas… até tudo voltar ao seu normal.
Desisti de pedir “não repare a bagunça” para as visitas. Prefiro oferecer café
quente, água gelada e risada garantida.
No fim das contas, descubro que essa casa cheia de quem mora nela, bagunçada e viva, é o lar que escolhi. Aprendi a amar o caos e, vez ou outra, sinto falta dele quando tudo está em ordem. Porque fundo, já sei: o que transforma uma casa em lar é a alma bagunçada que nela vive.

Você

Você tinha cabelos esvoaçantes e gostava de sorrir quando as gotas da chuva escorregavam em seu corpo. Você que me acenava de longe com suas florzinhas saltitantes. Que no sol a pino brilhava como prata nova, mas que ao entardecer se banhava com o laranja do fim do dia.

Você que deitava cedo na pele escura da noite e ao primeiro sinal da luz matutina já estava desperta. Seus sons me acalmavam e me conectavam com o semblante divino do Amor. Daquele que é o Amor.

Você que nutria amizades invisíveis e silenciosas, mas tão intensas. Que viajava o mundo com seus mistérios. Que espalhava sua essência para transformar quem estava perto ou distante. Pura generosidade herdada de quem a criou.

Eles a levaram. Deveras precocemente. Eu ainda tinha tanto a admirar. Tanto a aprender. Tanto a contemplar. Mas você se foi…

 Do Retorno ao Lar Supremo 

Não é o fulgor do sol que guia,

nem o clarão argênteo da lua que ilumina,

nem tampouco o ardor do fogo que consola —

mas sim o chamado do Inefável,

que ressoa nas dobras silenciosas do coração:

“Retorna.”

Os sendos terrenos fatigam a alma,

as veredas pedregosas maceram os pés;

mas há uma morada onde a dor não penetra,

onde o tempo se dissolve em eternidade,

onde o espírito repousa em beatitude inexaurível.

Nesse domínio não há regresso,

porque não há exílio.

Não há sombra,

porque não há esquecimento.

Ali subsiste apenas o fulgor do Ser,

presença que é amor,

amor que é presença.

Bem-aventurado é aquele

que ouve a convocação sagrada

e se entrega ao invisível absoluto.

Pois, ao adentrar a morada suprema,

reencontra o próprio âmago,

reencontra o Eterno,

reencontra o Lar primordial.

E então se revela o Mistério:

voltar para casa

é jamais tornar a perder-se.