Sou da década de noventa, como os queridinhos da banda Hanson. Escutei boy bands, frequentei baladinhas, fui no show do Sandy e Junior.
Na minha cidade, no interior, a moda era ir à Discoteca do Vip’s aos sábados, levando um carimbo no braço para marcar a entrada. Lá dancei com um menino pela primeira vez, aos nove anos.
Também era costume frequentar o Parquecentro Shopping, cheio de jovens na entrada fazendo sabe-se lá o que, provavelmente doidos para beijar na boca. E ir na Expoagro assistir aos shows e usar as melhores roupas.
Mas eu gostava mesmo era de Legião Urbana. E de ir pegar fitas na videolocadora para assistir no fim de semana, no videocassete. Rotina que eu tinha desde nova, com a minha mãe, que alugava filmes infantis.
Com mais ou menos 16 anos consegui comprar meu primeiro CD, do Cazuza. Com o dinheiro de um cachê que ganhei pela primeira vez.
Acho que eu pensava que ia ser diferentona, ou algo assim. Afinal, quem na minha geração que ouvia Cazuza?
Não lembro muito bem se a razão era essa. Afinal, já faz algumas décadas… (não entregarei minha idade)
Voltando ainda mais no tempo, quando era criança, brinquei com mola maluca, boneca patinadora e a pinturinha. Cheguei até a ter um carro e uma cozinha da Barbie.
E troquei papéis de carta, colecionei figurinhas do “amar é”, joguei minigame e aquaplay, detetive e banco imobiliário, baralho, dominó e batalha naval. No videogame nunca tive muito espaço, ele sempre estava na mão dos meus irmãos viciados. Até hoje não sei jogar, deixo para os mais experientes.
Fui também do tempo dos patins, apesar de nunca ter levado muito jeito.
Fiz ainda jazz, natação e tentei o vôlei, mas não por muito tempo, devido à completa falta de talento.
Frequentei aulas de teatro, que me ajudaram a me tornar a pessoa que sou hoje. Lá tive contato com a arte de falar, a leitura de textos e emoções profundas, e fiz amigos.
Também tive muitos sofrimentos e dores, que eu poderia dizer: “faz parte”. Mas a verdade é que não deveriam nunca fazer. Os ambientes artísticos precisam ser mais saudáveis.
Ouvi esporros, perdi fins de semana e feriados, e tinha que aturar o lema “ensaiar até morrer” como uma coisa natural. E tudo sem receber nenhum tostão, em nome da arte pura e simples.
Tudo muito pesado para um menor de 18 anos.
Pelo menos, nos tempos atuais já sabemos usar as palavras “tóxico” e “abusivo”.
Tudo o que sou hoje seja talvez uma reunião meio maluca desses e de tantos hábitos, que perdemos aos poucos, substituindo por muitos outros. (Alguns traumatizaram, mas tive bons momentos, não posso negar)
Trocamos de pele…
Hoje temos ansiedade, depressão e pânico. E figuramos no topo da lista dos transtornos psicológicos. Somos motivo de preocupação em destaque até na Organização Mundial de Saúde.
Além disso, enfrentamos números crescentes de obesidade, câncer, tabagismo e feminicídios.
Mas também temos o super Spotify, streamings de todos os tipos, redes sociais e smartphones para nos entreter. Aplicativos e whatsapp para pedir de tudo um pouco. Piscou os olhos, e o jantar está na mesa.
Telas e mais telas…
Somos os mais “informados” do mundo, sem contar as fake news, é claro.
E temos a tão sonhada velocidade em nossas mãos.
A velocidade que atravessa o tempo, aproxima e distancia, ajuda, mas também atrapalha.
Infelizmente, nem mesmo com ela, conseguimos voltar no tempo para aquilo que era mais sagrado naqueles tempos: nossa inocência.
(Esse texto não é sobre bens materiais)
