Jogar todas aquelas coisas fora foi como uma despedida a conta gotas. Tinha de tudo naquele quartinho, desde roupas velhas e fotos até documentos pessoais e um telefone antigo. Era com dor que fazia aquilo, mas precisava, pois se mudaria para um apartamento muito menor. Não dava mesmo para levar tudo. Sabia que sua queridaContinuar lendo “Memória”
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Farol de pipas
Suas palavras tatuaram minha memória, numa época em que eu ainda usava calças curtas e os papagaios eram muito mais interessantes do que as pernas das garotas. Conheci-o em um final de tarde, enquanto a cortina escura do céu sem nuvens substituía o bailado das pipas pelo espetáculo perene dos luzeiros. A brisa estava prestesContinuar lendo “Farol de pipas”
Conversa de elevador
Aperta o botão e dispara: – Você viu a última foto dele? – Não. Por quê? – Foto na neve. Ela pendurada no pescoço dele e enrolada na echarpe que eu comprei. A foto seguinte é ela mostrando o sapato Louis Vuitton e dizendo: “Presente do meu amor”. – Sério? – Juro! E ele aindaContinuar lendo “Conversa de elevador”
Rir, às vezes, é preciso
Quando me aposentei, imaginei que gastaria o tempo com viagens, passeios e bons livros, mas o minguado soldo rendeu-me um posto cativo no banco da praça — um lugarzinho simpático, rodeado de casas assobradadas dispostas num círculo quase perfeito não fosse à interrupção para a entrada do condomínio. Dia desses, ainda pela manhã, o buchichoContinuar lendo “Rir, às vezes, é preciso”
Saudade
Hoje eu acordei mais velha. Trinta e dois. E lembrei das aulas de teatro da adolescência. Um dia, o exercício era montar uma cena em que todos os sons tinham que ser expressos por números. E uma aluna inventou uma campainha que tocava: “trinta e dooois”. Morremos de rir! Naquela época, eu nem imaginava comoContinuar lendo “Saudade”
A Beleza do Mundo
Dia desses comprei um vestido novo para Internet. Dessas compras por impulso, em que você não mede muito as consequências: o que fala mais alto é o desejo, puro e simples, quase carnal. O vestido era preto e branco, com leves estampas coloridas. Na modelo, tinha um caimento suave, nem muito justo, nem muito folgado.Continuar lendo “A Beleza do Mundo”
Dei apenas um tempo
Peguei a mochila velha guardada no canto do quarto. Preenchi com roupas de verão, mas também não esqueci o velho casaco de lã. Precisava me preparar para todas as possibilidades. Chuva forte, sol, garoa, o que fosse. Queria sentir a plenitude de uma nova cidade, com sua natureza, seu patrimônio, sua gente, e até mesmoContinuar lendo “Dei apenas um tempo”
E virou estrelinha
Tentou gritar…não conseguiu. A fala não cabia mais naquele cenário unilateral de um relacionamento. Olhou para a única coisa boa que restava, sua filha Ana. Seus olhos cheios de esperança eram responsáveis por sua resistência. Talvez sem Ana , já teria se desintegrado como uma estrela que morre numa galáxia longínqua e ninguém percebe. PensouContinuar lendo “E virou estrelinha”
O vestido branco, fio por fio
Ela enfim comprou o tão sonhado vestido branco. Passou semanas envolvida em tecidos, rendas e modelagens. Um mais bonito que o outro. Mas não bastava ser belo, precisava ser perfeito. Como seus sonhos. Aqueles em que estava ao lado de seu príncipe encantando, celebrando a mais bela das uniões. Aqueles em que enfim, depois deContinuar lendo “O vestido branco, fio por fio”
VADE- MÉCUM
(Jovina Benigno, destaque na Antologia “ +HUMOR” , Prêmio Selo Off Flip de Literatura 2023) Poseidon, o caçula dos cinco, três dias sem vir em casa, ela lembra : “ filho quando cresce ganha asa”. – tivesse ele ao menos trabalhando, nem que fosse de arranjo, sem carta assinada. dela as divindades não tinham do queContinuar lendo “VADE- MÉCUM”
