A infecção

Ela nunca imaginou que sua vida seria assim. As doenças incuráveis e a loucura. Mas foi o que aconteceu. “É a aleatoriedade da vida”, poderíamos dizer, para tentar consolá-la. Mas ela finge que não busca mais consolo. “Não, foram escolhas”, retrucaria. Péssimas escolhas. Em meio ao caos da vida. Ao capitalismo, a histórias de vidaContinuar lendo “A infecção”

Asfalto quente cor de sangue

O vento quente balançava os cabelos de Elisa. A caixa em suas costas era pesada e inclinava-a para trás, exigindo que ela se agarrasse com mais força à cintura de João. Ainda tinham muitas entregas até o dia de trabalho dele findar. Como elaentraria em seu plantão à noite, no hospital, aquele tempo sobre duasContinuar lendo “Asfalto quente cor de sangue”

Farol de pipas

Suas palavras tatuaram minha memória, numa época em que eu ainda usava calças curtas e os papagaios eram muito mais interessantes do que as pernas das garotas. Conheci-o em um final de tarde, enquanto a cortina escura do céu sem nuvens substituía o bailado das pipas pelo espetáculo perene dos luzeiros. A brisa estava prestesContinuar lendo “Farol de pipas”

Rir, às vezes, é preciso

Quando me aposentei, imaginei que gastaria o tempo com viagens, passeios e bons livros, mas o minguado soldo rendeu-me um posto cativo no banco da praça — um lugarzinho simpático, rodeado de casas assobradadas dispostas num círculo quase perfeito não fosse à interrupção para a entrada do condomínio. Dia desses, ainda pela manhã, o buchichoContinuar lendo “Rir, às vezes, é preciso”

Dei apenas um tempo

Peguei a mochila velha guardada no canto do quarto. Preenchi com roupas de verão, mas também não esqueci o velho casaco de lã. Precisava me preparar para todas as possibilidades. Chuva forte, sol, garoa, o que fosse. Queria sentir a plenitude de uma nova cidade, com sua natureza, seu patrimônio, sua gente, e até mesmoContinuar lendo “Dei apenas um tempo”

E virou estrelinha

Tentou gritar…não conseguiu. A fala não cabia mais naquele cenário unilateral de um relacionamento. Olhou para a única coisa boa que restava, sua filha Ana. Seus olhos cheios de esperança eram responsáveis por sua resistência. Talvez sem Ana , já teria se desintegrado como uma estrela que morre numa galáxia longínqua e ninguém percebe. PensouContinuar lendo “E virou estrelinha”