“O que você deixou de ser quando cresceu?”

O domingo corria apressado enquanto eu tentava inutilmente impor a ele um ritmo de leveza que eu própria nem tenho. O fim de tarde era morno, com as estruturas pesadas de concreto dos viadutos da cidade expurgando todo o calor que receberam ao longo do dia. Em um deles, uma frase de letras inconstantes cravou-me a atenção e me desviou dos pensamentos derradeiros do fim de semana que se ia. Sentada no banco do passageiro e sentindo o vento quente que invadia o carro, pus-me a pensar na pergunta estampada no viaduto e que me trouxe à baila uma reflexão há muito não revisitada:

“O que você deixou de ser quando cresceu?”, inquiria-me um pensador anônimo que passou por ali antes de mim e me jogou a inquietação que certamente deveria ser sua também.

Naquele momento, lembrei-me do poema da escritora chilena Gabriela Mistral, primeira pessoa latino-americana a ganhar um premio Nobel de literatura. Conheci esse poema inserido no prefácio de um livro que li recentemente sobre liderança feminina e que o trouxe justamente para ilustrar sobre os sonhos não realizados das mulheres.  Fiquei impressionada com a forma lírica e ao mesmo tempo crua com a qual a desilusão dos anseios inocentes da infância é retratada. O poema se chama “Todas íbamos a ser reinas” (em uma tradução livre: “Todas íamos ser rainhas”). Nele, a autora nos mostra a convicção inocente de quatro meninas de que, um dia, seriam rainhas e chegariam ao mar. Elas repetem tanto esse anseio, do alto dos seus sete anos e municiadas com tranças no cabelo, que ancoram sua fé na ilusão de que esse mantra as conduzirá à concretização dessa vontade. Para as meninas de Gabriela, ela própria estando incluída, não restava dúvida alguma sobre o alcance desse objetivo. Não apenas seriam rainhas e desfrutariam de todas as benesses da realeza como também teriam a consagração de transpor montanhas e quaisquer outros obstáculos para chegarem ao mar, um destino final que denota, na minha interpretação, redenção e inúmeras possibilidades. Contudo, o crescer e a dureza da realidade que as encontrou se sobrepuseram aos desejos com tal imperativo que nenhuma delas se tornou rainha e tampouco chegou ao mar. A que mais próximo do mar esteve foi aquela que se apaixonou por um marinheiro já desposado pelas águas e que um dia partiu para nunca mais voltar, tal qual como na música “En el muelle de San Blás” (tradução livre: “No cais de San Blás”), da banda mexicana Maná, que faz outra referência à desilusão feminina, tendo também o mar como cenário de fundo. Para além do que todas essas meninas deixaram de ser e de ter na vida adulta, o que já era delas e foi perdido no percurso? No que se tornaram, afinal, ao fim da jornada?

Ainda imersa nessa lembrança do poema de Mistral, cheguei ao meu destino do domingo fim de tarde. Na casa da amiga querida, regadas a café e bolo, conversas triviais povoavam a sala de estar enquanto nos enxergávamos na história da outra e nas últimas notícias que cada uma contava sobre si. Vez ou outra, algumas cenas da nossa amizade de mais de vinte anos vinham à tona. Estamos juntas desde a adolescência e, ainda hoje, após tantas lutas, ainda nos damos as mãos para tentarmos superar as montanhas e chegarmos ao mar. Entre conversas despretensiosas, deparo-me com sua foto sorridente de criança-sereia em um mural de cortiça, junto a outras fotos e enfeites coloridos. Entre adornos os mais diversos, a foto da amiga-criança me sorri, inocente. A vivacidade no seu olhar e a alegria da sua faceirice enevoam todos os outros enfeites que parecem ter desbotado, só para não correrem o risco de ofuscá-la. No sofá listrado, a amiga-criança exibe sua combinação de vestido verde e rosa, em uma posição em que repousa o antebraço sobre a cabeça, em total descontração e segurança convicta de sua invencibilidade pueril. Conhecendo-a hoje e vendo toda a transformação que se deu em nela (e em mim) durante todos esses anos, cheguei a titubear se ela era a mesma pessoa da foto. A princípio, eu achei que a foto fosse da sua filha quando criança. Quem me alertou de que a foto era dela foi a minha própria filha. Para ela, talvez por não ter acompanhado tão de perto todas as mudanças que se processaram na minha amiga, tenha sido mais fácil identificá-la. Talvez eu esteja tão preenchida pelo o que nós nos tornamos que tenha tido dificuldade em enxergá-la na leveza da criança que ela (e todas nós) fomos um dia. Mas ambas, a criança e a adulta, estavam ali, na minha frente, separadas pelo tempo e por todas as marcas, visíveis ou não, que ele deixou.

Não lembro o que eu respondia quando me perguntavam o que eu seria quando crescesse. As respostas mais comuns normalmente estão relacionadas a profissões. Recordo que quando criança eu achava que seria professora e, por vezes, ensaiava dando aulas para minhas bonecas. Até fiz uma funcionária da minha casa de aluna-cobaia. Com minha didática de estudante de jardim de infância, a aluna logo se evadiu, ocupada com seus afazeres de trabalhadora adulta. Na infância, adorava inventar jogos e brinquedos com cola e papel jornal e desenhava tudo o que eu via pela frente, indo mostrar, orgulhosa, todas as “obras” ao meu pai.  Depois, na adolescência, passei a devorar os livros da estante dele e comecei até a escrever alguns poemas. Cogitei seguir várias profissões e acabei por me decidir por uma da área de exatas que é a que exerço, feliz, e que acho que faz jus também ao meu “lado” lógico e racional. O apreço pela criatividade da infância eu pratico nos meus hobbies e até no trabalho, quando penso em formas diferentes de executar as atividades ou gerenciar as equipes. O exercitar da criatividade, na vida adulta, é sempre um oásis revitalizador na minha rotina, energizando-me. Observo que algumas outras coisas da infância ficaram um tempo esquecidas e essa ausência minou alguns desejos que parei de acreditar que conseguiria realizar. Eu também pensava que “seria rainha e chegaria ao mar”. Esse reinado sonhado por mim já mudou de cenário diversas vezes desde a infância. Já foi dourado de idealizações, no início, depois completamente apagado e esquecido, afugentado pelas agruras da vida e, enfim, renascido de cores vibrantes e reais, com suas pinceladas de sombras, o que o deixa ainda mais bonito. Também fui surpreendida com reinados com os quais nem sonhava, assim como a personagem-autora Lucila do poema (nome verdadeira de Gabriela Mistral).

Da criança e adolescente que fui conservo as brincadeiras bobas, o riso frouxo quando estou muito cansada, a paixão pela leitura e pela escrita, a simplicidade em ser e no viver, o gosto pelos desafios e um pouco da fé de que eu conseguirei vencê-los, um quê de romantismo, o choro fácil quando vejo alguém chorar, emocionando-me com a emoção dos outros, o amor pelos animais… No percurso, perdi e tento resgatar diariamente a leveza, boa parte da fé na minha invencibilidade, o cultivo legítimo ao ócio e ao descanso, o otimismo e a esperança de que algumas coisas mudem. Eu me tornei uma pessoa tal e, para isso, abri mão, em parte, de quem já fui um dia. É natural. E não é de todo mal. Será que alguém conseguiria juntar o que há de bom em todas as fases que vivemos para costurar da melhor forma essa colcha de retalhos nos quais nos tornamos? Eu sigo tentando alinhavar essa colcha da melhor forma, consciente das perdas que a caminhada me causou. E grata pelos ensinamentos delas.

Aproximo-me da varanda do apartamento da minha amiga-criança-adulta. Olho para o horizonte e apuro a vista entre prédios na tentativa de enxergar o mar de Fortaleza. Não consigo vê-lo mas sei que ele está lá, atrás de algum obstáculo. À esquerda, sua foto de criança-sereia a chama para juntas serem rainhas mas não sei se ela entende o chamado. Seguimos a conversa e observo minha filha, com toda a segurança dos seus 22 anos, orientando-a com projetos e dicas práticas de futura arquiteta sobre uma obra que será iniciada, apoiando-a em mais um passo para conquistar a vida que minha amiga merece e precisa ter. Atrás de nós, outras meninas virão com seus sonhos de rainha. Espero que cheguem ao mar e nele se regozijem, plenas de desejos realizados. E que nenhuma fique para trás, no cais, como a noiva esquecida em San Blás.

Referências:

1)      Gabriela Mistral, Poema TODAS ÍBAMOS A SER REINAS.

2)      Lucelena Ferreira, MULHERES NA LIDERANÇA, Editora Matrix, 2020, 1º Edição.

3)      Música “En el Muelle de San Blás”, disponível em https://youtu.be/teprNzF6J1I

Travessias

Eu dirigiria por toda uma noite, cruzaria cidades e estados, para ir sempre em frente. A máquina, o zumbido do motor, a estrada escura cortada pelas luzes cegantes de outros faróis. Eu, a estrada, o carro, a noite negra. 

Um brilho incandescente pálido, a recordação de que há vida nas caixas de concreto estanque, que se acordam e se deixam adormecer.

Enquanto um corpo vivo se deixa induzir pelas imagens provocativas da tela a sua frente, outro adentra voraz a cozinha, aplacando a fome de aventura com o alimento que nunca sacia.

Um gato salta do muro para o chão com um miado agudo. O uivo do cão solitário no quintal. Que vida triste a de cão.

A estrada me faz pensar porque estamos nessa, para onde vamos. Minha máquina possuída pela minha emoção, pulsando ritmada, tum-tum, tum-tum. Para onde estamos indo?

Para qualquer lugar. Para outro, para o distante, para a vida nova que começa na média, na beira da estrada, na poeira do nascente, na cidade cálida do interior que me recebe de braços abertos.

Eu sou apenas uma viajante, errante, que dirigiria toda uma noite, que cruzaria cidades, que iria em frente.

Em busca da pergunta que jamais saberei a resposta, em busca da vida que se ilumina no caminho.

MUNDO

O mundo é uma mistura de tudo que existe
Meu sonho é viajar para todos os lugares que existem,
Dos mais famosos
Aos mais remotos

Quero ver a vida
Em todas as distinções
E com todos os significados que já existem
Ressignificar cada crença
É entender o propósito
De tantas diferenças e belezas

Vou pôr a minha vida em uma mala
E só com ela irei andar
Com amor em todas as palavras que escreverei
Contando para as próximas gerações
O quanto o mundo é grande
Lindo
E como o mundo é mundo.

Texto presente em meu primeiro livro ” Ilha do Amor: Entre Sol e Chuvas”.

Troca de roupa

Troca de roupa 

Todo mundo dizia 

Que chegava a época 

Onde as coisas não cabiam 

Não é que não servissem

Longe dessa inverdade

Mas era algo desconfortável 

Sei lá 

Um incômodo 

Eu bem que tentei limpar a lente 

E por um tempo 

até achei que estivesse tudo no lugar

Mas eis que o botão da roupa explode

E deixe a mostra

uma parte curiosa, pronta para espiar

Essa forma

Esse molde

Essa conversa

Essa cara de pão de ontem

Vazio

Eu quero a cor

A nova forma

O pão fresco

O botão que fecha confortável 

Quero de tudo um pouco

Como nas lojas de biscoitos onde provamos antes de comprar

Quero o suco 

Quero a gargalhada 

Quero o improvável 

Bem aqui

Agora 

Para quem chega 

Divirta se

Para que troca a roupa. 

Surpreenda se

E para mim

Apenas 

Seja

Presença

Se puder escolher um caminho em tua vida, escolha se emocionar.

Escolha a experiência que te levará para além; afora de tuas margens concretadas.

Sempre.

Para longe dos sentimentos diários e atitudes orquestradas.

Opte por aquela viagem que sonhou, muito antes de poder viajar.

Retire da estante o livro que te desafia. 

Pés no chão; sinta teu peso sobre eles. Inteiros sobre a superfície áspera, macia, fria ou quente.

Permita-se ser massageado. Massagem relaxante, tailandesa, tântrica … um carinho, qualquer.  

Caminhe até o mar como se fosse a tua primeira vez; pode ser a última.

Olhe nos olhos de teus amigos; e também nos dos estranhos, na rua.

Enxergue-os.

Perceba-se presente e refletido. Sinta a humanidade compartilhada, mais do que a categoria retórica.

Abrace teu animal, respire com ele, exista com ele/por ele.  

Ame aquele/a homem/mulher que te surpreenda e te acolha. Não o/a previsível ou especular.

O/a que te faça gargalhar, chorar, se estranhar, se arrepiar, gozar, sonhar – sem que vc tenha a mínima ideia dos porquês.

Ele/ela pode estar a teu lado, há anos, décadas … busque, na memória, o primeiro brilho no olhar. 

(Re)descubra a intimidade de ser, de estar, de amar – dois, íntegros e completos.

Ouça uma criança a contar suas estórias. Ouça, de verdade.

Sinta o perfume de tua mãe; bem de pertinho. Sinta-se renascer.  

Ao vento, entregue teus desejos, tuas lágrimas e tua solitude – respire a brisa; envolva-se no movimento do invisível. 

Em unidade, permita-se a liberdade de simplesmente ser – essência e existência.  

Encontre-se com o pulsar da vida ao amanhecer, expandindo-se; mas também ao anoitecer, retraindo-se.

Leia poesia, com o coração – mais do que com o cérebro.

Aliás, esqueça-se do latifúndio cerebral várias vezes por dia. É um favor que faz à tua alma.

E sei lá … traga-me outras opções … e me chame para partilhar tuas novas perspectivas.

Prometo me emocionar. Não será nada difícil … aprende-se, quando se dispõe, se desarma, se vive.

Salto para o desconhecido

A sombra projetada de seu próprio reflexo contra a água lhe dava medo. Via-se pálida, com escuras olheiras, a pele seca. Era jovem, mas sentia-se velha, cansada.

Antes do momento final, sentou-se e refletiu. Sentia dentro de si uma forte pulsão de morte.

Estudou tudo isso no curso de psicologia. Mas nem a graduação, nem a pós, nem o mestrado a ajudaram. O que carregava dentro de si era uma mistura de profundo desejo de viver, combinado com uma angústia que a devorava.

Além dos cursos, buscou ajuda médica. E religiosa. E terapêutica. E nada adiantou.

Nada adiantou.

Alternando crises profundas de alegria e tristeza, chegou a pensar em bipolaridade, depressão, dupla personalidade. Ninguém a diagnosticou.

Até que decidiu partir para medidas mais fortes. Injetava drogas na veia, participava de orgias, rituais pagãos, automutilação. Dançava noite adentro movida a ecstasy. Tinha inúmeros parceiros sexuais. Vivia vidrada. Vivia uma vida verdadeira. Cheia de adrenalina.

Partiu para a carreira musical.

Cantava com a alma, emoção, e o sucesso logo apareceu. Sua arte era recebida com identificação, trazia sentido para a vida de outras pessoas.

E então, enfim, encontrou o seu. E começou a melhorar.

Aquilo que os especialistas falavam nunca a curou, mas seus próprios instintos a levaram para o caminho certo.

Sentiu-se alerta, cheia de energia, vital, plena. E queria mais, e mais. E sempre alcançava.

Até que aos 45, a mão gelada novamente a puxou. Tornou-se vazia, sem nenhum motivo externo aparente. A carreira estava no auge, mas a apatia fez a voz parar.

Ficou rouca. E sem emoção. Estava em profunda crise existencial.

Sentada ali, contra seu próprio reflexo semimorto, decidiu chegar logo ao fim.

Iria jogar-se naquelas águas, deixar a correnteza a levar.

Para longe, para o desconhecido.

Salto para o desconhecido.

E começou a chover…

A água deixava sua roupa transparente, tornando possível ver o bico dos seios. Já se sentia nua, então tirou o vestido de vez.

Queria estar em contato com a natureza da forma mais pura.

Sentiu, além da chuva, o vento gelado por sua pele. E então uma estranha sensação a tomou. Era como uma corrente elétrica.

Como a muito tempo nada sentia, admirou-se e olhou para dentro de si, atenta. A eletricidade subia dos pés a cabeça.

Fechou os olhos.

Saltou.

Saltou para o desconhecido.

Um desconhecido frio, veloz, tortuoso.

Perdeu o fôlego. Foi empurrada contra as pedras, arranhou todo o corpo.

Mas de súbito, quando tudo parecia a encaminhar para o final, foi impedida da desistência pela própria força que a havia feito se jogar.

Não era uma pulsão de morte.

Era uma pulsão de vida.

Mas precisava muitas vezes morrer para renascer. Só pelo prazer da aventura. Foi assim quando começou a faculdade de psicologia. E quando tornou-se cantora.

Era esse seu processo interno. Fazia parte de quem ela era, como uma pedra fundamental. Precisava correr riscos, por loucos que parecessem, para enfim ter algo a mostrar para o mundo.

E nossa, como o mundo precisava!

E naquele que parecia ser seu último mergulho, agarrou-se em galhos. Puxou com toda a força que lhe restava. E por incrível que pareça não era pouca.

Conseguiu colocar a cabeça para fora e respirar, bem fundo. Olhou para tudo que a cercava com novos olhos. E lutando contra a correnteza, subiu em uma pedra, de onde saltou em direção a margem, para dar um novo rumo para a sua história.

Para o desconhecido, outra vez. E sempre. Salto para o desconhecido.

E além.

(Virou escritora).

Texto do livro Salto para o Desconhecido. Autora: Carolina Pessôa. Editora Penalux: https://www.editorapenalux.com.br/catalogo-titulo/salto-para-o-desconhecido

Sob o Sol

Um dia o filho cresce 
Faz amizade
Entra na rede social
Anda de bicicleta
Conhece alguém

Um dia o filho cresce
Encontra seu próprio caminho
E vai embora

Um dia a casa cresce
Muita vida para acomodar
300 metros, 200 metros
Pra que 100?
50 é suficiente

Um dia a casa cresce
Grande demais
Vamos embora?

Um dia o passado cresce
Um rastro dos nossos passos
Tão GRANDE
Que a gente tem mais história pra contar
que história pra viver

Um dia o passado cresce
E é a gente
que vai embora


Crédito da imagem:  Foto por Rahul em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Receitas de Família

Chá de capim-santo com bolacha água e sal:

Dia quente e de ócio

Com primos-irmãos

O vento quente e empoeirado do sertão

O corpo de criança que não se cansa das brincadeiras do dia

Mas que sucumbe à dor do ventre na noite sem fim

“O que comeu? O que aconteceu?”

A avó com olhar reconfortante

E só o seu amor já é suficiente para que o amanhecer se apresse

O sol desperta com aroma perfumado de bebida viva

O chá quente e doce da folha recém-colhida no quintal

A bolacha salgada e crocante energiza

E a saliva se forma na cobiça pelas guloseimas proibidas

Para a convalescente

esperar a melhora

Que vem pelas mãos mágicas

calejadas

imprecisas mas certeiras

da avó

Nata salgada no pão sovado

Meses de espera

Tempo em que a avó aguarda e guarda

com paciência

Colherada a colherada

a nata do leite fresco diário

Que chega à porta da casa ainda no escuro da madrugada

No portão, o leiteiro com seu tonel de alumínio

Atrás dele, a igreja ainda fechada e a praça deserta

O sal e frio conservam o espesso creme

a nata mais apetitosa que pode existir

Guardada pela avó

Feita por ela

Só para mim

Para escorrer fartamente pelo pão macio

E anunciada assim que me vê chegar:

“Tem nata para você”

Sorvete de nata e goiaba

Barulho de chuva em um dia raro de folga

Vento frio corre pela casa

Balançando a rede malemolente

As horas se arrastam com preguiça

Depois do cansaço de dias

De anos

Da vida

Na xícara, o sorvete de nata e goiaba

O favorito

Sentada na rede e escutando notícias quaisquer

Só para não se sentir sozinha

O que é raro

Mas que hoje, só hoje, é bom

Na língua, o contraste entre o doce cítrico e granuloso da goiaba

e o salgado leitoso da nata

O arrepio do creme gelado potencializado pelo frio lá fora

A cortina fechada eclipsando o dia

A rede atraindo o corpo entorpecido pela farta refeição

E o sono tímido que chega devagar

Sem hora para partir

Café com cuca de banana

Uma pausa na lida

No isolamento da pandemia mundial

A casa iluminada pela limpeza recém-concluída

ou pausada

O aroma doce do bolo assando transcende a cozinha e preenche toda a casa

Toda a vizinhança

Convida as meninas que se aproximam para saber se já é hora

A música volante ancora na cozinha e dá o tom festivo de uma tarde comum

De esperança

Mesa posta para três meninas-mulheres

Cuca com as bananas maduras antes esquecidas na fruteira

Agora estrelas

A maciez rosada da polpa aquecida

A farofa doce e crocante, dourada, convida

O sabor cremoso e aveludado do recheio derrete na boca

O dulçor leve da combinação acalma o desassossego

O café fumegante e cheiroso invade as narinas

E se amalga com a cuca em combinação conciliadora

Sem disputa nem hierarquia

Em um encaixe perfeito

Canja de galinha

Mal a tarde caía e a canja quentinha descansava na mesa posta

O prato solitário sinalizava uma refeição atípica

Nutrir a nova mãe não requeria convenções

Não era jantar ainda

Mas se a bebê estava nos braços de Morfeu

não se podia esperar

o corpo exaurido da mãe sorvia a comida quente

revigorante e sem segredos

Para se refazer do desgaste da gestação

E do puerpério

E do porvir

Era a comida de outra mãe

Agora avó

Só ela conhecia esse mundo no qual a nova mãe embarcou

Ela sabia o que precisava ser feito

E lançava seu olhar de cumplicidade

Enquanto a nova mãe resguardava o corpo

e a alma

na fluidez da refeição

e da vida

Macarrão al dente com molho a escolher

Somos forasteiras

Aprendendo a viver longe das nossas raízes

E dos nossos

Procurando formas de viver

E de amar a cidade

Os cabelos molhados

Os corpos cansados

Depois de nadar na cidade seca

O jantar quente e saboroso nos espera

Feito por quem a gente nem conhece

Mas no lugar que a gente elegeu

como preferido

A massa al dente de toda quinta-feira

A escolha dos molhos e combinações

“O meu ficou bom”

“O seu melhor”

“Semana que vem quero igual ao seu”

Mãe e crianças cansadas rumam para casa

À espera da próxima quinta

Para nadar juntas

Jantar juntas

Conviver entre si

e com a cidade candanga

Que não é nossa

Porque é de todos


Texto selecionado para a Antologia “Meu Sertão”, da Revista Projeto Auto Estima, publicado no final de Julho/22, em versão resumida.


Crédito da imagem:  Foto por Karolina Grabowska em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Ruídos

Externo …
Busca, a mim, a tempestade
Espreita a ventania
E se abrem as frestas, fendas, fissuras
… na alma …
O olhar não mais me conduz
Contradiz … contrapõe … opõe-se
Confronta minhas certezas
Uma a uma. Todas
Reivindica um lugar, um espaço, um tempo
Inexistentes
… na pele …
Pulsam as frestas, fendas, fissuras
Feridas … vazios
Expulsa, a mim, a tempestade
… interna.


Crédito da imagem:  Foto por Debbie Pan em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

ENTREGA

Amava sem medida

e encontrava nos olhos cinzas

O descaminho que ardia o coração

Confiava no inconfiável

Que os dias eternos tornariam simples aquele amor atravessado (…)

E um dia olhou o mar

E entregou aquilo tudo

Não podia se medir nem se encontrar

Nos rastros na areia a promessa de um passado

Te amarei para sempre como se tivesse, sempre, te amado


Crédito da imagem:  Foto por Porapak Apichodilok em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”