Passagem de amar

O amor despertou.

Ao abrir os olhos, levantou-se feliz.

Banhou-se em imersão numa banheira de águas quentes e calmas

Cheia de sorrisos, perfumes e flores:

Peônias e tulipas, suas favoritas.

Vestiu-se de beleza, luz e alegria

Saiu para te encontrar.

Puro

Sensível

Inteiro

Capaz de perceber tudo o que havia em ti e amar-te maior.

Expandiu sem medo.

Encontrou imensidão de desejo em liberdade

Movimento e dança

Música e poesia.

Belo

Sublime

Solene.

Você estava lá

Molhou os pés nesse mar

Desviou o olhar

Abriu alas e deixou o amor passar.

Uma surpresa daquelas

Tive uma surpresa hoje, uma daquelas surpreendentes. Como um dia comum sai de casa tomando todos os cuidados para fazer diversas coisas e resolver alguns problemas, o isolamento para mim teve diversos efeitos em relação às minhas emoções, fiquei mais sensível o que pode ser uma coisa legal levando em consideração todo o histórico extremamente engraçado de todas as minhas amizades.

Eu lembro basicamente como conheci cada amigo que tenho, ás vezes até a data eu marco no calendário para ser aquela pessoa que manda um textão no dia, é fato que gosto de escrever desde sempre e principalmente para quem gosto. Hoje tinha tudo para ser um dia comum, mas eu sabia que ia acabar esbarrando em você em alguma hora ou em algum lugar sem perceber.

Meu coração acelerou de repente enquanto procurava por algo e de relance vi você, quase não reconheci, pensei que fosse uma miragem e segui em frente. Depois vi você caminhando em minha direção como se eu fosse a única pessoa no caminho. Seu abraço foi casa e sua voz se tornou música em meus ouvidos.

Uma das mais belas

Volte sempre…

Se me faz ser melhor,

ver o mundo com cores vibrantes,

acordar com um sorriso,

enxergar o sol na noite,

volte sempre…

Se é tormenta e calmaria,

me acende e me acolhe,

me excita e me entende,

me abraça e me devora,

volte sempre…

Se é momento e atemporal,

dessa vida e de muitas outras,

se faz perto estando longe,

é sagrado e profano,

volte sempre…

Se é certeza e inquietação,

amor e paixão,

sorriso e suspiro,

gemido e gozo,

volte sempre…

Se me beija e desvenda minha alma,

me dá medo e prazer,

me acalenta e me nina,

acolhe meu sono e me desperta,

volte sempre…

…este é o teu lugar, dentro de mim. 

Kindred: Laços de Sangue. Octavia E. Butler. Tradução de Carolina Caires Coelho. São Paulo. Editora Morro Branco, 2019. 432 p.

“Todas as lutas são, essencialmente, lutas por poder.”

Dana perde o braço que foi engolido pela parede no último retorno para casa. Precisa explicar para a polícia que não foi Kevin que a machucou. E então, inicia o relato de quando os eventos mais estranhos transformaram sua vida.

O ano é 1976. Ela é uma escritora que acaba de se mudar com seu marido Kevin para uma nova casa. Durante a arrumação dos livros na sala de estar sente uma vertigem e, ao abrir os olhos, está em uma floresta, onde um pequeno menino ruivo se afoga num rio. Dana não pensa duas vezes: se lança nas águas para salvar a criança. Alguns segundos depois, está na sala de sua casa novamente, molhada e suja de lama, e a criança não está mais com ela.

Assustada com a experiência inexplicável, antes que pudesse se recuperar completamente, Dana sente outra vertigem e agora está num quarto com uma cortina em chamas. Ela descobre que o menino cresceu, se chama Rufus, e que toda vez que sua vida se encontra em perigo, ela é convocada ao seu tempo para salvá-lo, um laço que atravessa os limites conhecidos da física. O tempo não é um continuum linear e único para Dana, que está agora no longínquo ano de 1815.

A vida do casal possui as facilidades permitidas para aquela geração: geladeira, carro, TV, máquina de escrever, uma cama confortável. Quando recebe o chamado de Rufus, ela volta a uma era em que a escravidão existe e sua pele escura passa a ditar as regras de como se comportar num século diferente, num estado americano escravagista. As facilidades agora estão reservadas às pessoas brancas. Para Dana resta dormir numa esteira no chão, comer as piores comidas ou a sobra da refeição da casa grande e trabalhar muito.

O tempo não passa para Dana e Rufus na mesma velocidade. A cada chamado, um Rufus mais velho se revela, enquanto em seu próprio tempo, para Dana, passaram-se apenas alguns segundos, minutos ou, quando muito, dias. Seria ela uma bruxa poderosa? Uma fada que concede vida longa ao seu protegido? Uma mutante? Ou uma Deusa africana?

“Eu era a pior guardiã possível que ele podia ter, uma negra para cuidar dele em uma sociedade que via os negros como sub-humanos, uma mulher para cuidar dele em uma sociedade que via as mulheres como eternas incapazes. Eu teria que fazer tudo o que pudesse para cuidar de mim mesma.” (p. 110)

Dana não controla seu poder, em minha visão simplista, talvez porque não acredite nele. Suas viagens ocorrem quando Rufus está em perigo e, por isso, imagina que o poder seja dele. Vive para protegê-lo em nome de uma linhagem familiar que culmina em sua própria existência. Então voltamos à clássica questão de viagem no tempo, ou o paradoxo do avô: se você mata um antepassado, sua existência é apagada?

O livro mostra como era a vida das pessoas sequestradas na África e levadas a trabalhar forçosamente nos Estados Unidos; o tratamento precário, desigual e desumano que recebiam. Nenhum direito era concedido e, ainda que houvesse, nenhum direito era respeitado. Pessoas livres que cruzassem um território onde a escravização ainda imperava poderiam facilmente ser sequestradas e escravizadas novamente. Uma realidade triste para a qual a maioria das pessoas negras e seus descendentes ainda aguarda por reparação, pelo pedido de perdão, pelo reconhecimento de um erro brutal.

“Estranhamente, pareciam gostar dele, desdenhá-lo e temê-lo, tudo ao mesmo tempo. Isso me confundia, porque eu também sentia a mesma mistura de sentimentos por ele. Achava que meus sentimentos eram complicados, porque ele e eu tínhamos uma relação muito esquisita. Mas, na realidade, a escravidão de qualquer tipo criava relacionamentos estranhos. O feitor me despertava emoções menos conflituosas e mais simples quando aparecia brevemente. Pensando bem, era tarefa do feitor ser detestado e temido, enquanto o senhor mantinha as mãos limpas.” (p. 368)

Octavia diz que decidiu escrever sobre o poder porque era algo que ela tinha muito pouco. Criou dessa forma narrativas poderosíssimas! Em Kindred, nos leva a experenciar como era ser mulher negra em dois tempos distintos, sofrer preconceito e ser menosprezada. Ela deu voz ao que muitos não querem ouvir nos tempos atuais. Além disso, para os leitores de seus livros e ensaios, é fácil identificar o quanto de Dana é a própria Octavia. Há trechos do livro em que sua personagem é criticada pelas outras pessoas negras, que a veem como alguém que não tem orgulho de sua origem. Uma preta-branca, que lê livros e fala com mais educação que o povo que a mantem como escrava. Entendo sua dor.

Ressalvo apenas que é preciso ler o livro com olhos de 1976, antes de tudo. Sua personagem é casada com um homem branco que, a princípio, não expõe nenhum preconceito de forma direta ou consciente, mas que o faz sem perceber. Dana se empenha em dar a ele o letramento racial mínimo necessário, corrige seus erros, mostra a ele a implicação do que é ser uma pessoa negra e de como a vida dele é privilegiada em relação aos demais. Me parece que Kevin se esforça em aprender, mas deixo isso para você responder.

O livro é incrível do início ao fim, mantem o suspense e a ação na medida certa. Não à toa, virou série e estreou nos EUA em dezembro de 2022, ainda sem data prevista no Brasil. Mas recomendo mesmo a leitura. Deixe-se ser tragado por esse vórtice vertiginoso de viagem no tempo.

Sobre chaves, chaveiros, portas e ressaca (muita ressaca)

Alice acordou de ressaca. Física e moral. Mais uma vez se atirou em um sentimento forte. E dessa vez, a queda parecia pior que das outras. Estava estava ficando velha, e quanto mais se arriscava, piores as dores. E mais forte o efeito colateral da cerveja para esquecer.

Ela era supersticiosa com chaves, tinha uma coleção delas. Cada uma correspondia a uma possibilidade de amor. Pegou a mais recente, tirou do chaveiro e jogou no lixo. Mais uma que não dava certo. A décima terceira. Seu chaveiro estava ficando cada vez mais vazio e gasto.

Era como um gato de sete vidas, mas elas estavam acabando. Provavelmente arrebentaria em breve. E a cada chave perdida, mais difícil encontrar uma nova para confiar.

“Leva tempo. E tem o luto em respeito a um companheiro que se foi” – ela pensou. Mas ao mesmo tempo, uma vozinha falou no seu ouvido: “Não desiste, você merece ser feliz”. E ela respondeu: “Por que é tão difícil despedir-se de quem faz parte da nossa história?”

Seu coração estava retorcido.

Ela chora. E mergulha a cabeça na pia do banheiro. Para acordar. Tenta tirar a maquiagem, mas percebe que pegou acetona em vez de removedor. Tudo bem, vai assim mesmo, de qualquer jeito.

Pensa acima de tudo que precisa ganhar a vida. Se arruma e pega a bolsa para sair.

Mas não encontra a chave de casa no chaveiro. Lembra-se então da amiga que dormiu lá, depois daquela festa bagaceira e foi embora mais cedo. Ela disse que ia jogar chave por debaixo da porta.

Ela se abaixa no chão, a cabeça ainda rodando, e acaba achando a bendita.

Ao tentar abrir a porta, percebe que ela está emperrada. Como seu coração, cansado de jogar tantas chaves fora. Ela está cansada, muito cansada. Precisa reduzir a quantidade de chaves e comprar um chaveiro mais forte. Quem sabe assim, pára de perdê-las? Ela fica ali parada, perdida no pensamento.

A vozinha volta e diz. “Abre Alice. Tenta de novo. Você merece ser feliz. Um dia, você acha a chave certa para a sua porta”.

((Esse texto é para todos aqueles que se despediram de pessoas. ))

No Japão também chove

Dia desses me peguei tão dentro de mim que parecia estar em um labirinto. Minha mente vagava por diferentes corredores, em versões distintas de alto otimismo e euforia ao mau pressentimento. Quando estamos assim não adianta ir muito longe, a viagem não deve ultrapassar a distância segura da sala de estar.

E nesse fluxo de sensações, uma imagem me chamou atenção na TV. Estava chovendo. Chovia. Sim, chovia e muito.

A princípio não estranhei, afinal eu estava ali e nessas condições não faz muita diferença se neva no filme enquanto você sua horrores.

Mas, com o passar dos segundos me dei conta: chovia no Japão. E imediatamente fui envolta nessa realidade. Eu estava há muitos mil quilômetros de distância e a chuva me resgatou. 

Chove em todo lugar. Existem alegrias e momentos tristes em todos os lugares. Existem oportunidades e desafios também.  

Então, aquela nuvem de diferentes matizes que habita a sua cabeça também habita a de outros.

Surpresa com aquela insana certeza eu respirei e pude sentir por dentro o cheiro da chuva. 

E decidi, corajosamente, fazer como meus colegas humanos de lá: abri o guarda chuva e saí.

Dorama como inspiração

Você conhece a expressão dorama? São as séries ou novelas de drama orientais. Seus espectadores no Brasil recebem o nome de dorameiros. Em 2022 me tornei uma dorameira: assinei canal exclusivo de doramas, me inscrevi em newsletters especializadas no assunto, assisti mais de 12 novelas, troquei indicações com as amigas e comecei a estudar coreano.

Sobre o último, sendo muito realista, apesar de estar no módulo 12 de coreano no Duolingo, sei menos que o básico. Identifico alguns anglicismos na escrita, conheço as letras, sei dizer que sou do Brasil, obrigada e desculpa. O resto, um bando de palavras soltas que não fazem muito sentido sozinhas.

Há 3 anos começamos a planejar, a pedido do filho mais velho, uma viagem para o Japão. Desde que entrei no universo dos doramas, os planos de viagem passaram a incluir China e Coréia do Sul no circuito. Quero conhecer os prédios e ruas que vejo nas telas, o marido quer provar as delícias culinárias e os meninos querem ir a todos os parques que existem. Ainda falta o essencial para uma viagem longa como essas: o capital! Aos poucos vamos resolver esse “detalhe”.

Além de aprender um novo idioma e da perspectiva de uma viagem legal, os doramas coreanos me trouxeram algo mais. Há ali muito material de inspiração para aplicar nos meus próprios textos. Então, quando não estou distraída demais suspirando de amor, observo as novelas pelas lentes da sua construção: arcos longos, personagens com muitas camadas, múltiplos plots, ganchos bem-feitos e muito subtexto para dar pano pra manga. Adoro quando eles fazem personagens se reencontrarem após longos anos de separação.

Assisti esses dias a Something in the rain. Nessa série, se juntasse todas as falas dos personagens durante a temporada completa, caberia em um único episódio. Longos silêncios e pausas para reflexão, com muito espaço para a imaginação de cada um completar de acordo com suas vivências. E, claro, encontros sob chuva. Ouvi dizer que as cenas mais bonitas nos filmes românticos são os beijos apaixonados em noite de chuva. Tenho certeza de que você lembrou de uma cena dessas agora. Na trama, a protagonista tem 35 anos e começa a namorar o irmão da melhor amiga, mais jovem 4 anos. Até então, tudo bem, eu penso, você pensaria também. Mas há várias questões que fazem com que a família dela não aceite a união: eles se conhecem desde a infância, o rapaz não fez faculdade, vem de um lar desestruturado etc. e tal. De maneira nenhuma ele é um bad boy. É um trabalhador do universo dos games (novas profissões que os mais antigos nem sempre compreendem), bonzinho, colega exemplar, amigo para todas as horas.

No entanto, é a idade o maior tabu que precisam superar. Há uma cena que me chamou atenção e motivou essa escrita. Durante um acampamento, o mocinho apresenta a namorada para os casais amigos, todos mais jovens que ela. Na tradição oriental de respeito aos mais velhos, ela é tratada conforme
sua idade, o que significa que a fazem se sentir como os idosos para quem cedemos o lugar no transporte público. À noite, as mulheres se reúnem para dormir juntas e conversar. A protagonista ocupa o lugar de quem venceu os obstáculos na carreira, a irmã mais velha, como elas chamam. As mais jovens começam a relatar suas dificuldades e decepções e esperam os conselhos. Uma delas conta que voltou para a faculdade por falta de emprego, outra que está de saída do quarto emprego, pois apesar de toda a formação que possui, só serve para levar café e escrever atas de reunião.

Guardadas as proporções culturais de cada quinhão do mundo, exageros dramatúrgicos à parte, as séries são fonte de discussão de padrões comportamentais tóxicos na sociedade. Nos romances, em particular, as discussões giram em torno dos comportamentos inadequados dos homens em relação às mulheres. Há muito assédio moral e sexual nos ambientes de trabalho, há uma forte hierarquia onde o homem manda e a mulher obedece, o silenciamento constante dos desejos e vocações femininas e, ainda, uma imposição por casamento e maternidade que recai sobre elas. Sempre. É sobre seus ombros que se ampara a construção dessa sociedade.

Essas discussões sobre nosso papel no mercado de trabalho (ou dentro de uma relação) consistem no ponto alto da trama para mim. São como naquele filme “A Origem”, onde sonhos são plantados para fazer com que os sonhadores mudem de opinião. Na novela, são as ideias de respeito às mulheres e valorização do feminino que estão num nível ora de tema principal, ora secundário, mas me fascinam quando surgem em momentos como essa cena do acampamento, apenas como uma semente esperando o tempo certo para aflorar.

Realizando a justa adaptação transcultural, temos um Brasil com menos tabus em relação à idade ou mesmo ao sexo fora de uma relação de casamento. No entanto, há outros pontos de contato com essa narrativa: mulheres preteridas em vagas por conta da maternidade, assédio moral e sexual gerando constrangimentos no ambiente de trabalho, e pessoas que ainda acreditam que servir o café ou arrumar a mesa do almoço é atividade exclusivamente feminina.

Participei uma vez de um esquete num treinamento de trabalho onde deveria desempenhar o papel da chefe ruim. Encarnei a pior versão que pude imaginar: a cada vez que uma colega tentava expressar opinião, eu a interrompia solicitando um café para o cliente, pegar pastas no arquivo ou fazer qualquer serviço desconectado do ponto central da reunião. Um tratamento tosco.

Os instrutores não entenderam minha atuação.

A bem da verdade, parece que não entendi a solicitação. Devia ser uma chefe ruim para o cliente e fui ruim para os colegas. Pedi desculpas, me sentindo uma tonta por não entender o que foi designado. No fundo, minha vontade era dizer que não importava qual fosse o cargo, tratar mal o cliente externo ou interno me tornaria a pior das colegas. Pegar o café ou a pasta do arquivo não é tarefa a ser desmerecida. É a falta de respeito que incomoda.

Não vou falar aqui sobre as doenças emocionais oriundas de se estar num ambiente de trabalho ou num relacionamento amoroso opressor. Ambos são difíceis e merecem atenção especializada. Parafraseando Frida Kahlo, se não for bom, não permaneça por muito tempo. Se couber denúncia, procure apoio, há profissionais e canais aptos para ouvir e tratar essas questões. Reúna provas, peça ajuda as amigas e amigos, mas não se isole com sua dor.

Precisamos tirar o bode da sala, o grito da garganta, o poder de quem não o merece. Pense que, quando falamos de trabalho, estamos falando de 1/3 dos nossos dias e que trabalharemos por aproximadamente 30 anos de nossas vidas. Como você espera passar esse tempo? Para mim, é bom que seja num lugar onde eu queira estar, onde me sinta respeitada e acolhida, onde desempenhar uma atividade seja motivo de satisfação. Nem sempre foi assim, por isso hoje sou grata por trabalhar num ambiente saudável, com colegas que respeito e admiro, e onde me sinto igualmente respeitada.

Por fim, sobre o romance, devo dizer que amo suas muitas facetas. Algumas mais fictícias e irreais, outras reflexivas e profundas, amores possíveis para uma sociedade que muda. Os doramas mostram que não devemos aceitar qualquer situação ou relação apenas para cumprir com os requisitos de uma “to do list”. Sei que é difícil mandar no coração, mas uma coisa que descobri na vida e nos romances é, se for para ter um relacionamento amoroso, escolha alguém que te respeita mesmo quando discordar de sua opinião; e que te faça sorrir, seja porque lembrou da sua música favorita, ou …(complete aqui com o que te faz sorrir).

Para mim, basta que ele apareça onde estou.

A calcinha revolucionária

Toda revolução tem início numa ação. Vitória, menina de dez anos  frequentava uma colônia de férias durante o recesso escolar, e carregava por toda parte uma mochila.

Nela havia tudo o necessário para passar o dia em um clube. Entre outras coisas, uma calcinha. Era uma peça aparentemente vulgar, digo, comum. Grande, de bolinhas, mas furada. Um aspecto surpreendente de tal peça e que escapava aos olhos dos demais, inclusive de Vitória, é que aquela, na verdade, era uma calcinha inconformada.

Talvez com a sua condição de estar sempre na escuridão,  sem poder observar o mundo lá fora. Havia mais do que era apresentado à ela pelos “amos da caverna”, como diria Platão?

Então, a calcinha decidiu sair e ver além. Vitória amarrava os cadarços, quando um dos supervisores apontou para baixo e disse: – Ei! Olha aí as coisas caindo para fora da mochila. Vitória, essa calcinha é sua?

A menina arregalou os olhos, e assentiu se transformando no exemplar de pimentão vermelho mais pigmentado da história. “Céus.. alguém viu minha calcinha furada…” Pensou vencida.  E a peça foi parar dentro da bolsa novamente. Vitória mal sabia que isso era o prelúdio de algo maior. A calcinha relatou o que viu para as outras vestimentas e por elas foi considerada louca.

Mas incomodada, não desistiria. Na volta para casa, já dentro do ônibus, eis que Vitória ouve o grito da boca de um moleque qualquer: – Ah lá uma calcinha furada!- E aquelas palavras ecoaram no seu cérebro centenas de vezes. A verdade  revirou seu interior.  Sabia mesmo sem olhar: era a tal calcinha com certeza.  O mundo não seria mais o mesmo para Vitória, nem para a peça íntima. A garota ficou sem ar, começou a adquirir um tom cinzento e um aspecto acolchoado que a plasmava ao assento numa demonstração de mimetismo camaleônico, traço evolutivo adquirido por ela em tão pouco tempo que surpreenderia até mesmo Darwin.

Como desgraça pouca é bobagem, dizem, a calcinha inconformada foi jogada de um lado para o outro pelas crianças em uma zoeira infernal, tão característica da selvageria infantil desses seres humanos pequenos sem supervisão. O momento mais longo da existência de Vitória, e da calcinha até então. Sabe-se que os revolucionários, várias vezes são mal compreendidos por muitos. Mesmo consciente, a calcinha inconformada jamais desistira de tentar.

Calcinha de fibra.

Quando as crianças se cansaram, foi parar no chão e recolhida por Vitória em momento oportuno. Considerada perigosa, foi  condenada às gavetas, mas seu exemplo de atitude e coragem resiste por meio da sua história contada, que nos serve de inspiração até os dias atuais.

Juventude de Amor

Eu sei como começou e foi engraçado pra caramba. Eu lembro de tantos detalhes quanto me esqueço deles. Você é uma amizade que só de lembrar tenho vontade de te conhecer de novo, de passar todos os momentos novamente e rir de muitos deles.

Mesmo que passem 3 décadas, parece que foi ontem que nos vimos pela primeira vez e eu usei meu dom de fazer piada ruim, coisa que sei fazer bem. Já escrevi tanto sobre nossa amizade e ainda tem muito que quero falar.

A principal característica da gente é a persistência e a reciprocidade.

Eu amei te conhecer e continuo adorando o fato que nossa amizade é como um abraço apertado e um beijo estalado na bochecha, é um sentimento muito acolhedor e às vezes eu posso ficar sem palavras pra descrever tudo isso que somos.

Muito obrigada por todos os anos. Que venham muito mais experiências e viagens nas nossas conversas infinitas.

Um abraço apertado, querido amigo. Obrigada por tanto!

O rio do Sítio Almas

Encaminhou-se até o oratório e procurou a imagem de São José. Tinha pressa e a minguada luz do candeeiro não ajudava. Achou-o por detrás de outras imagens, com a cabeça unida ao corpo por uma cola espessa e amarelada. O conserto feito por ela própria não tinha ficado muito bom. Mas ela não podia pedir por chuva sem levá-lo consigo. Nem o santo nem Deus a ouviriam.

Colocou-o em uma sacola de pano e tateou até a cama para pegar o terço de pedrinhas brancas pendurado na cabeceira. As vizinhas já estavam no alpendre, na frente da casa, esperando por ela. A madrugada findava e logo o sol avançaria iluminando um céu terrivelmente limpo, replicando a imagem aterradora que se sucedia dia após dia, sem nuvem escura que pudesse anunciar sinal de uma gota sequer.

Era dia de São José e não havia mais nada a fazer a não ser rezar para que chovesse. Ninguém suportaria mais um inverno como o do ano anterior, tão escasso de água e de esperança. Saíram em um grupo pequeno formado por mulheres e algumas crianças sonolentas. Seguiram silenciosamente pelo caminho de terra. Os rostos sérios nem se olhavam, como se temessem encontrar no outro a desesperança que se contrapunha ao fato de estarem ali, clamando por um milagre.


Pequena tomou a frente do grupo. Era o lugar que lhe cabia. As alpercatas de couro levantavam poeira e os pés ficavam cobertos por uma fina camada de terra vermelha e muito seca. As veredas abertas para abreviar as distâncias pareciam rasgos em meio à vegetação seca e retorcida. Aos poucos o Sítio Almas ia ficando para trás.

Pequena pensou em adiantar a reza e balbuciou um começo de terço. As outras a seguiram e ela se calou para mergulhar em suas próprias lembranças, enquanto as companheiras embalavam a reza. Viu-se jovem, atravessando aquele mesmo rio para chegar até a outra margem onde ficava a gruta de oração. Sua mãe levava mudas de roupa em uma trouxa sobre a cabeça para que pudessem rezar com roupas secas após a travessia. Naquela época, o clamor era para que a chuva cessasse e interrompesse as inundações que tudo alcançava e destruía. Hoje, como que amaldiçoados pela inconstância de não saber o que pedir, o pranto era para que chovesse pelo amor de Deus.

Pequena refez o mesmo caminho de outrora, desta vez com os pés secos. Do outro lado do que fora um rio, a gruta esperava pela comitiva sonâmbula. Pequena fez as outras se ajuntarem e solenemente retirou a imagem de São José da sacola. Em suas mãos, um São José sem cabeça segurava um menino Jesus gordo e corado. A cabeça do santo não estava na sacola e as mulheres se entreolharam assustadas, com medo de que o incidente fosse um mau presságio. O filho de Pequena apressou-se para tentar localizar a cabeça que deveria ter caído no caminho, ele imaginou. Há alguns metros da gruta, suas mãos miúdas e ágeis colheram a cabeça que jazia no chão e estava misteriosamente úmida, como se tivesse sido molhada por um rio invisível que só existia no passado de Pequena. A criança entregou a cabeça do santo à mãe e foi a primeira a perceber que algumas gotas começavam a cair sobre si. Inicialmente, eram espaçadas e faziam-na duvidar de seus sentidos. Depois, irromperam grossas e incontestáveis. As lágrimas de Pequena, então, se juntaram à chuva e ao rio saudoso que, há muito tempo, esperava por ela.