A CAIXA

Abri o armário à procura de uma blusa para combinar com a saia estampada.
Não podia chegar atrasada e queria causar uma boa impressão no primeiro dia de trabalho.

Na pressa da procura da roupa perfeita para a ocasião, tomei um susto quando a caixa rosa com flores azuis e laço de fita caiu aos meus pés. Meu coração disparou. Há tempos tinha decidido que não iria mais olhar o que estava guardado dentro dela.

Mas a dor e a lembrança sempre nos pregam peças e, na mesma hora em que vi a caixa, lembrei da música que embalava aqueles momentos únicos de ternura que ficaram congelados no tempo. O cheiro morno e doce, a pele macia, o sorriso. Nada poderia apagar aquelas sensações e imagens que agora flutuavam ao meu redor.

Fiquei entorpecida. Como é possível que a simples visão de uma caixa desperte emoções tão profundas e perturbadoras? Peguei a embalagem e sentei-me na beirada da cama. Desfiz o laço lentamente e abri a caixa com cuidado exagerado.

Foram tempos difíceis. Mas havia muita esperança. Esperança que tudo
acabaria bem e que nosso lar seria novamente um lugar feliz. Entretanto, nem tudo é exatamente como desejamos e planejamos. Existem situações que nos fogem completamente ao controle. E assim a tristeza se instalou em nossas vidas.

Superamos? Não. A caminhada até aqui foi longa e dolorosa.

Já estava me acostumando com a ausência e agora essa caixa surge na
minha frente me fazendo recordar de momentos maravilhosos que tive a
oportunidade de viver, mas que deixaram um amargo na boca que nunca será digerido.

Não contive as lágrimas. Chorei de saudade, de raiva, de alegria.

Sentimentos contraditórios me tomaram por inteira. Com as mãos trêmulas, acariciei o vestido branco de organza, bordado com borboletas coloridas. Foi só o que me restou. Minha pequena Alice partiu sem nunca ter usado o vestido, comprado especialmente para o seu primeiro aniversário.

Não Sou Eu, É Você, de Mhairi McFarlane, editora Harper Collins Brasil, julho/2016

O livro conta a história de Delia, uma relações públicas que pede o namorado com quem vive há 10 anos em casamento e descobre, no mesmo dia, que está sendo traída.

A história de Delia se desenvolve a partir desse ponto. Primeiro o luto pela relação, passando por todos os estágios, inclusive a negação, até se descobrir alguém com desejos próprios e sonhos engavetados.

Ela muda de cidade, de trabalho e de amor, sem se fazer a pergunta mais importante: o que eu quero de verdade? 

Tem um ditado que diz que se você não sabe para onde vai, qualquer caminho serve. Apenas quando Delia toma suas próprias decisões é que sua vida começa a fluir novamente. 

O livro me cativou do início ao fim. É bem escrito, tem uma trama paralela sobre trabalho e ética muito atual, com políticos corruptos e subcelebridades que topam tudo para se promover. 

Tem também uma história de amor plausível, com questionamentos reais e sofrimento idem. 

Delia tem as mesmas dúvidas que as mulheres de trinta têm ao se separar: ainda dá tempo de arranjar outro parceiro que queira ter filhos? Para as mulheres, o relógio biológico muitas vezes é o fiel da balança. 

Teve apenas um ponto fraco, que são pequenas falhas de português, mas nada que comprometa a leitura. 

O livro está disponível em formato e-book pela Amazon e, para quem tem Kindle unlimited, pode baixar gratuitamente. 

Mhairi é escocesa e autora best-seller do livro Amor a Segunda Vista.

Redecorando minha casa e minha alma

O amor não sobreviveu a força do tempo. Foi eterno enquanto durou, chegou ao fim. Agora é hora de recomeçar. E redecorar minha nova casa, meu novo quarto, e minha alma.

Alguns quadros eu já tenho, outros vou comprar. Também pretendo trocar o capacho com aquela imagem da sua série preferida. Talvez escolha um rosa choque escrito “bem-vinda nova vida” (se não existir eu encomendo!)

Também pretendo comprar umas flores de plástico. Sim! Porque eu sempre gostei e você não, rs. E colocar novas fotos pela sala.

Tudo será muito simples e discreto, porque preciso economizar, agora que minhas despesas vão ser maiores. Com exceção do rosa choque, que não quero abrir mão! A ideia é que a nova organização transmita um pouco mais de quem eu sou. Estava tão apagada nos últimos tempos…

Quero flores de lótus, para simbolizar meu renascimento, imagens de gatinhos (porque acho tão fofo), meu velho quadro do bondinho, meio de transporte tão agradável…

Quero rosa, lilás, azul e verde, para me trazer esperança nesse novo ciclo. Um amigo também sugeriu acrescentar mais um número na porta do apartamento, porque segundo ele o atual traz azar. Vimos em um site que a soma deles traz afastamento entre os moradores. Será que foi isso? Não acredito tanto assim em numerologia.

Meu amor, te falo com todo meu coração: me perdoa se escrevo como se fosse fácil. Saiba que não é. Tenho me arrastado por dentro, mas sei que é preciso. Vou fazer algo duro, mas necessário. Tiro sua vitrola agora, e coloco de volta a minha vida.

Texto do livro Salto para o Desconhecido, da autora Carolina Pessôa. À venda no site: https://www.editorapenalux.com.br/loja/salto-para-o-desconhecido

Saiba mais sobre a jornalista e escritora em: https://www.carolinapessoa.com.br/ https://www.instagram.com/carolinapessoa25/

Quero

Quero
A vida levada.
O coração aberto
O sorriso de cara limpa
O corpo no movimento do sol
Vistoso, forte e quente
Iluminando cada caminho,
Escaldando a alma leve e livre como o vento, necessária eterna e transparente, pisando na terra saudável e resistente.
Quero me banhar em cada gota de orvalho, rio, cachoeira e mar da minha essência!
Quero!

Eu luto

Eu luto
e o meu luto
perpassa
as minhas artérias
os meus capilares
escuros de tinta azulada

As raízes do meu peito
dos meus cabelos
hoje estão quase pretas
tintas de mar revolto.

Pois a minha caneta chora
e a tinta vem de dentro.
Esse é o meu sangue.
É disso que ele é feito:
tinta.

Nada consegue
remediar
Isso é apenas dor
tudo é apenas perda

O que resta
é só esse ressentimento
estranho.

Eu olho a minha imagem
no espelho e vejo um sonho
se enevoando.

  • É, você foi enganada.
    diz o eco na minha cabeça.

E hoje não tem sorriso

  • como de costume
    Desses que ofereço
    gratuitamente aos passantes.

Só há sangue azul de tinta
espalhado por todo canto
e tudo o que eu ouço
é o canto de um pássaro fúnebre
com suas asas azuis
da janela daquele quarto
onde escrevo sonhos
como esse, frustrados.

No canto, o outro canto
o da sala
me encolho como um feto.

Até virar semente de novo
Até poder brotar novamente
Até conseguir botar
minhas folhinhas de fora
verdes, verdinhas e com flores
nas pontas dos galhos compridos.

Apesar de toda essa tinta
de um azul tão violento
que tristemente
joguei fora…

Assim de dentro pra fora
num luto
que eu luto
todo santo dia.

Um café (e um rapé), por favor!


Como falar das coisas do coração sem ser piegas, sem cair no senso comum?
Quando aprendemos com ele. Quando nos acrescenta, nos engrandece e nos faz feliz.
Quando aprendemos que amor, paixão, tesão, desejo, ternura se fundem numa confusão de sentimentos quando achamos a pessoa “certa”, aquela que dá match, se encaixa, funde, que atende nosso momento, nossa urgência e, independe do tempo que nos conhecemos -será eterno enquanto durar – como já dizia o poeta.
É aquela pessoa que faz teu café ter um gosto diferente, que invade tua manhã com uma aura de luxúria e dá um novo sentido ao ritual da pitadinha de rapé matinal.
Começa, quando sem perceber, acordamos cantarolando uma música, verificando as mensagens no celular e aguardando as próximas.
É quando desperta um sorriso bobo e um suspiro, quase um gemido, nos lugares mais inusitados.
Te faz sentir a mulher mais gostosa do mundo, quando você lembra que seu bom dia tem sido assim:

Acordei agora pensando em você…querendo…
E ao longo do dia, tudo te remete às lembranças mais quentes.

Passando agora só pra te dar um beijo na boca, chupando essa língua safada…só pra não esquecer que tem dono…
E andar pelas ruas, pelo mercado, lembrando dos poderes de um simples chocolate nas mãos dos amantes e o áudio:

Tudo que eu como, quero que esteja com o teu gosto.
Acordar no meio da noite e ler nas notificações:

Gosto de te fazer gemer baixinho nos lugares mais inapropriados…
E no meio dessa safadeza, do gozo no meio do dia, você recebe:

Eu te amo! Você foi a melhor coisa que me aconteceu. E as coisas mais simples vão ganhando um novo sentido. O dia, o trabalho, a vida ficam
mais leves. As horas passam mais rápido e em tudo há um clima de romance.
E nesse ressignificar da vida, no devir dos desejos e sonhos, vamos percebendo que o amor é o que nos torna melhores, o que nos faz demonstrar o que há de mais lindo em nós.
O amor não pode ser descrito, manifesta-se das mais variadas formas. Até porque, tudo que tem receita aprisiona.

Cláudia Nagau

Sobre aquele Natal

     Edineide caminha pelas ruas do centro da cidade de Salvador com sua estagiária Aline a tiracolo, quando passam por um Papai Noel sexy: short curto, camisa sem mangas, um gorrinho sem vergonha caído de lado, e o sorriso mais branco e arrebatador da face da terra. Não se contém e dispara a rir. Deseja feliz natal enquanto deposita umas moedas para a ação de caridade que ele promovia. A estagiária curiosa repara que a chefe mantém o sorriso no rosto, mesmo passado algum tempo e se sente impelida a questionar:

— Qual a razão da senhora continuar rindo, Dra. Neide?

— Ah, aquele Papai Noel me lembrou meu primeiro natal de casada…

A mulher entra em seu pensamento, e calada sorri para si mesma, rememorando a história.

Ela, tinha vinte e dois anos e Claudionor vinte e cinco quando se casaram. Eram muito jovens, mas se amavam de um jeito honesto e intenso, como só os jovens são capazes. O primogênito veio no mesmo ano e, naquele primeiro natal de casados, eram uma família em sentido amplo, como mandava a santa igreja.

Decidiram receber em casa a família dele para o jantar da véspera. A sogra foi ajudar com os preparativos, chegou cedo, e as duas trabalharam na cozinha como formigas, carregando pratos e tabuleiros num espaço ínfimo e quente durante todo o dia.

A ceia foi servida mais cedo, as mulheres estavam cansadas de todo o trabalho. O bebê acordava e mamava várias vezes durante a noite, Neide nem sabia como havia conseguido forças para arrumar uma mesa tão bonita. E então Claudionor pegou debaixo da árvore seu presente, uma caixa enorme e pesada. Ela bateu os pés e fechou os olhos de alegria, pensando em várias coisas que poderiam estar ali: uma calça jeans nova, um par de tênis confortáveis, alguns livros de ficção, uns CDs que não tivessem as músicas da Xuxa, um abadá para o carnaval.

Abriu o embrulho com toda a expectativa que aquela caixa trazia e… subiu os olhos e encarou Claudionor sem entender. Ele não se continha de tanta felicidade.

— Neidinha, você gostou, minha rainha? Você admira tanto os programas de culinária e, desde que você engravidou, vi a dificuldade que era para você bater um bolo fofinho igual ao de mãinha. Soube na hora que vi, esse presente tinha que ser seu.

Era uma batedeira vermelha de ferro fundido, um luxo reluzente e semiprofissional, trazida por um amigo que havia chegado do exterior. Ele se esforçou pelo presente e ostentava aquele sorriso branco e radiante que a deixava sempre com vontade de beijá-lo. Diante de tamanha surpresa, conseguiu exprimir um obrigada miúdo, dizer que era linda e mais nada.

Sorrindo sem convicção, Neide vislumbrou a sogra, uma mulher forte de turbante, dentes brancos e olhar de deboche. Depois virou-se para o sogro, aquele homem que, sentado na poltrona de amamentação balançando lentamente, pedia mais uma cerveja à mulher enquanto apreciava o especial de Natal na televisão. Sentiu que os olhos estavam quentes, e segurou a emoção que subia rápido. Foi salva pelo choro do bebê, antes que fossem suas as lágrimas a cair.Não serviria sua verdade de bandeja para ninguém. Quando colocou a mão na porta do quarto, teve tempo de ouvir a sogra dizer que eram os hormônios, coisa de mulher recém-parida.

Claudionor entrou no quarto quando ela havia acabado de colocar o bebê para dormir novamente. Sussurrou que todos haviam ido embora e tinha uma surpresa para ela. Por mais que Neide não quisesse criar expectativas, lá estavam elas, dando um sopro de esperança para uma noite perdida.

Ele abriu o armário e tirou uma caixinha branca com fita dourada, daquela que se vê em lojas de joias chiques. Um frisson se apoderou do seu corpo, deu gritinhos sufocados de alegria e beijou o marido de um jeito apaixonado sem ao menos ver o presente. Com suas mãos ágeis e seu desejo no topo da mais alta colina, desembrulhou rapidamente e notou que, o que quer que fosse – um anel, um brinco, um colar, talvez uma tornozeleira nova – estaria sob aquele tecido vermelho rendado. Levantou o tecido e nada. Ele, tomado da ansiedade por agradar sua esposa querida, pegou o tecido de sua mão e o abriu em frente ao seu rosto: uma calcinha, cavada, sensual, de renda.

Neide se apercebeu do presente, mirou seu próprio corpo que se recuperava do parto, lembrou da batedeira na sala de estar e, numa lufada de insatisfação com altas doses de ódio, temperada por cansaço e noites sem dormir, pediu com gentileza:

— Claudionor – fez uma pausa longa – faz favor, meu amor, vá até a sala e pegue o gorro de papai Noel que pendurei na árvore de Natal.

Ele notou que os cantos da boca da mulher subiram de um jeito perturbador, e então tomou a decisão que achou mais prudente. Voltou correndo da sala com o gorro, sem perguntas e sem gracejos. Ela segurava a calcinha estendida na ponta do dedo indicador na direção dele.

— Veste!

Claudionor estacou perplexo, sem reação.

— Quer me foder no Natal? Então veste. Hoje você vai ser meu Chapeuzinho Vermelho e eu vou ser seu Lobo Mau.

De volta ao centro poeirento e ao calor da cidade de Salvador, Aline nota que a chefe continua perdida em seus pensamentos e decide quebrar o silêncio. Pergunta há quantos anos a doutora e o doutor estão casados.

Neide responde feliz que há vinte anos estão casados e que, durante todo esse tempo, ele sempre se vestiu de papai Noel, só para ela.


ODE AOS LIVROS

Razia vida
sem mastigar
estilhas a curta existência
surtas viventes
meros transeuntes
em penitência
purgam seus
descuidosos momentos
eternos e passageiros.
Repito teu nome
vida
nestes versos
sinto em cada fôlego
tua repetição
submersa em surpresas.
Vida
ocupo-me de tuas horas
leio um entre tantos livros
espalhados nos aconchegos
da casa
eles rogam ansiosos
o afago de meus dedos
feito eu
eles também sofrem.
os livros querem existir
de verdade fora do papel
como alma que
vive fora do corpo.
ocupo-me do banho
batismo dos meus dias
ressurreição da poeta
olhos roxos na vigília
dos versos
coxos de saudades.

Em meus dias
desacorrentados
observo a pressa
a morosidade dos animais
sem pecado sem culpa
na fidelidade em desatino
no tino à própria natureza
quinhão de fardo e destino.

O tempo sem passividade
tudo aceita
insulto – o no escorrer
dos minutos
nas coisas bobas do dia
sem pesar
já tenho a idade
vejo a novela clichê repetida
adormeço
na cadeira de balanço
rancho que amamentou
e ninou meus filhos
posposta na varanda.

Nessa brevidade imagino
que a fruta doce na minha boca
ainda é semente à procura de chão
e tu meu amor
já estais lívido
e sem vida mesmo agora
quando toco teus cabelos
será que meu vestido
da infância aquele xadrez
com fitinhas marrons
voltou ao meu armário?
ou a caneta concreta
que seguro é a única certeza?

Dizem que o tempo
come nossas carnes
quero acreditar que sim
há pouco vi
mais fundo o meu olhar
mais baixas minhas pálpebras
mais calos no meu rosto ralo
vi mais saudade no espelho.

Eu queria fugir
para dentro dos livros
ser eterna em suas histórias
humilhar o tempo
que só nos dá incertezas.

Desejo

-DESEJO

Não sou constituída pelo mesmo substrato que você, homem.

Narrativas de infância percorrem as memórias dos contos de fadas.

Príncipes? Castelos? Donzelas adormecidas? Bah!!!

Deles, trago no corpo as estrelas … a água e o pó das estrelas.

Na alma, o sonho pulsante; no coração, a certeza instintiva.

Insculpido, no ente, no ventre, o vermelho.

O escarlate se inscreve em minha pele desde que a reconheci como MINHA.

Minha contenção. Meu limite. Minha fonte de experimentação. Meu manancial de deleite – e dor.

Rosa tatuada em confiança ao caminhar, sempre em frente. Herança e fidelidade ancestrais.

Rubra é a cor do meu fogo; e também da loba que me alimenta.

Do sangue que escorre por entre minhas pernas à seiva que alimenta cada uma de minhas células … Tudo voleia. Tudo sopra. Tudo dança.

No ato, no atrito, no grito – erupção.

Você não entende nada, homem, do que permeia ser íntima da morte e do renascimento. Ciclos. Existências. Espirais.

Encaro mortes; e morro, por vezes … muitas vezes. Ou quase!!!

Dos contos de fadas, lapidei-me púrpura. Rubi, por opção bruto.

Respiro vida. Caminho incerto. Substrato carmim.

– DESEJO.

Meu querido adversário

O medo é um sentimento que costuma me rondar vez ou outra. É a ele que chamo, carinhosamente, de Querido Adversário. Querido, porque, se não fosse ele, eu não teria conseguido enfrentar algumas situações em minha vida. Situações que exigiram coragem, muita coragem e determinação.

E foi por causa dele também, medo de me expor, de receber críticas e não saber o que fazer com elas, de me diminuir frente aos outros e me sentir incapaz de colocar no papel as histórias que fervilhavam na minha cabeça, que comecei a escrever.

Esse sentimento, que teimava em se agigantar dentro de mim, me impedia de ver e de acreditar que, o que eu escrevia poderia ser interessante, não só para mim, mas para outras pessoas também.

Desde mocinha gostava de escrever, colocar no papel meus pensamentos e sentimentos. No colégio, no final do que hoje é o Ensino Médio, escrevia poesias de amor inspirada pela paixão que nutria por um professor de Literatura.

Foi por causa desse amor platônico que uma vez, em plena sala de aula, enfrentei meu Querido Adversário impetuosamente. O professor pediu que alguém lesse o Soneto de Fidelidade de Vinícius de Moraes. E eu, em um rompante, me ofereci para ler o poema que até hoje sei de cor.

“De tudo, ao meu amor serei atento antes

E com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento…”

Na verdade não li, declamei apaixonadamente o poema para o professor! Os colegas da sala sabendo dessa paixão, riram. Meu rosto se incendiou, e o professor ficou desconcertado com a minha ousadia. Apesar da situação constrangedora, consegui derrotar meu Querido Adversário com uma boa rasteira.

Agora já mais madura, retomei meus escritos. Uma escrita intimista e despretensiosa. Mas, o que realmente me impulsionou a escrever e publicar meus escritos foi o que ouvi, ou melhor, li de um amigo com quem comecei a me corresponder durante a pandemia: “lidar com críticas é sempre complicado, mas na minha profissão ou você aprende, ainda que seja na paulada, ou desiste de fazer pesquisa competitiva!”. E mais uma vez vi meu Querido Adversário rolando de dor no chão com o soco que lhe apliquei no estômago, quando iniciei meu Instagram de escrita criativa. Mais um round vencido.

Com isso, entendi que existem algumas situações em nossas vidas que não tem jeito e é preciso enfrentar corajosamente, sem medo de apanhar, ou de ser criticada. E escrever tem sido um desafio diário, prazeroso e sofrido.

Explico: prazeroso pela grandeza da linguagem escrita, pela possibilidade de materializar os pensamentos e sofrido, porque o processo de escrita nos coloca em situação de confronto e fragilidade. Confronto com nossas crenças, sejam quais forem, e fragilidade diante das nossas emoções mais íntimas, secretas e inconfessáveis.

De qualquer maneira, decidi enfrentar o monstro da crítica, ou melhor, meu Querido Adversário, tendo clareza de que qualquer um pode opinar sobre o que bem quiser. Porém, cabe a mim decidir o que fazer com as opiniões alheias.

E foi assim, com o coração aos solavancos, que iniciei minha aventura no universo literário. Hoje me arrisco em editais de variados gêneros, participo de desafios de escrita e o que mais aparecer pela frente. É desse jeito que mantenho meu Querido Adversário na coleira, colado a mim. Afinal somos íntimos e sem suas provocações, com certeza cairia com facilidade na vala do fracasso, lugar comum dos que desistem fácil e não se permitem lutar. Às vezes, um olho roxo vale a pena, principalmente quando a luta é honesta e por uma boa causa.