Te esquecer

Hoje completam dois meses que nos separamos. É a primeira vez que saio de casa para uma programação de lazer. Durante esse tempo fiquei trancada, pensando no que poderíamos ser, mas não fomos.

Decidi ir a pista Cláudio Coutinho, lugar que amo, na zona sul da cidade. Não sei se você sabe, porque nunca fomos juntos. Nunca deu tempo.

Foi um ano turbulento o que vivemos. Muita paixão, mas também muitas brigas. A falta de tempo, dificuldade para conciliar a relação com outras tarefas, discordâncias ideológicas. Tudo era motivo para que brigássemos.

Mas mesmo em meio às dificuldades, nós persistíamos. Como tecido que estica, mas não arrebenta. E em uma trama repleta de conflitos, nos enrolávamos cada vez mais. Até o casamento chegamos a planejar.

Quis o destino que nada acontecesse. Quis a vida que tomássemos rumos separados.

Em nosso último encontro, ficou clara a discrepância. Ficou claro que a distância seria melhor que as lágrimas derramadas por tantos desentendimentos.

Apesar da decisão ser bem pensada, ainda caminho com dificuldade pela trilha. E pela vida.

Pelas pedras do caminho, sinto falta de ar, como se algo me sufocasse. Talvez seja o processo de cura. Só quero esquecer toda essa tragédia. Sinto a dor da sua falta como se fossem espinhos enfiados em minha pele.

Mas prossigo. Chego ao fim. Olho para o mar. Para o lindo céu infinito. E agradeço a Deus por estar viva.

Agora posso te esquecer,

enfim

A Despedida

É cedo, muito cedo. Ele levanta da cama devagar e os estalos no joelho lembram que a decadência chega para todos. Debaixo do chuveiro a água fria se confunde com lágrimas teimosas que insistem em lhe visitar nos últimos meses.

No quarto, sobre a cama de lençol esticado, a roupa preta preferida. Enquanto calça sua velha bota com fivela prateada, ele pensa que há tempos sente o peso dos anos e a depressão que veio de brinde.

Cabelo engomado, bigode alinhado e ele está pronto. Como de costume, tranca a porta da cozinha, chama por seu cachorro e pega seu cajado de cedro, presente do seu velho amigo índio.

Na rua segue devagar, mantendo a elegância que lhe resta, sabendo que a casa de Estela é logo na próxima esquina. Sente um leve tremor e o coração acelera. “Mas que diabos! Se acalme”, resmunga batendo de leve no peito. Estela, impossível esquecer da moça de cabelos cacheados, desarrumados pelo vento quando ela saía gastando as pernas pela cidade.

Ele sabe que Estela não mora mais lá, mesmo assim as lembranças traiçoeiras aparecem para brincar com ele. Estela sorri da janela e logo faz sinal para que ele espere. Ele para e se apoia em seu cajado.  sente o cheiro de mato verde quando ela se aproxima sorrindo. O sorriso de Estela é como banho de rio no verão. Ela não fala nada e ele sente os lábios dela tocando os seus. Ele fecha os olhos e prende a respiração. Quer guardar para sempre o perfume e o gosto dela.

O grito de caça de um gavião real risca o céu e o silêncio. Ele abre os olhos e se vê só, como de costume. Pisca os olhos e se volta para a janela da casa, que agora está fechada. Balança a cabeça e lamenta: “Seu velho tonto!”.

Naquela manhã a cidade está silenciosa e o calor promete ser intenso. “Esta cidade está só poeira”, reclama entre os dentes, justificando as pestanas úmidas. Para ele o tempo de chorar já passou. Apoia-se firme em seu cajado e segue seu caminho. Hoje ele precisa de paz e não dessas lembranças tolas que atravessam o tempo para lhe atormentar.

Conecte-se

Você sempre terá 1000 motivos externos para se sabotar
Você já parou pra perceber se realmente as escolhas que você faz são suas?
Você já se viu de frente à conflitos desnecessários, comentários descabidos ou dores dispensáveis?
Para enriquecer os seus pensamentos e as suas escolhas é fundamental saber o que você quer e praticar o “estado de presença”,
Esse é o primeiro passo, porém fortalecer tudo isso requer treinamento e um plano de ação, você se estimula através do auto conhecimento e essa construção é diária.
Você quer ter mais determinação, mais vontade, mais disposição ?
Você quer ter mais equilíbrio emocional ?
Você quer ter mais tempo,mais dinheiro e gozar mais a sua existência?
◦ Questione se
◦ Aprenda a dizer não
◦ Aprenda a respirar
◦ Esteja aberto a novas experiências
◦ Peça ajuda
◦ Leia um bom livro
◦ Exercite a gratidão diária
◦ Deleite-se da sua companhia
◦ Conheça a suas habilidades
◦ Medite, pelo menos 5 minutos por dia.

Não tenha pressa, Experimente cada passo, cada processo de maneira intencional e gentil.
Gratidão, gratidão, gratidão


Alessandra Gabriel
Conecte-se

VERSUS EMBRIAGADOS

Tivesse águia nos olhos

Outros seriam meus enredos

me serviria a

infindável sede dos embriagados

Bêbados

acordam arrependidos

riram em desvario

choraram sem pudor

dor crônica da alma

esqueceram dúvidas e dívidas

– breves  minutos –

pagaram espumas para desconhecidos

viram a beleza escondida  no trote

feito coruja  apaixonada

pela beldade dos filhotes.

A poeta

embriaguez da poesia

arrasta-se no ventre das mãos:

seu próprio vômito.

atônitas,

palavras não se entendem

se estendem.

sumário bipolar da vida

seu álcool de todo dia

Tivesse eu

lido o poeta

com os olhos de agora

e lá eu não fosse

a impagável promessa

de  ser,

eu gritaria meus versos

de cima dos montes

fazendo rir ou chorar

os horizontes

e quem sabe

alguém

até gostasse de ouvir-me.  

Resenha ” Lucy Diamond, Os Segredos da Felicidade, 2021, editora Arqueiro.”

Aproveito o fim emotivo da minha leitura para escrever sobre ela, com o calor ainda subindo pelo meu rosto e molhando meus olhos contra a minha vontade.

Me sinto impelida a escrever uma resenha formal, daquelas com início, meio e fim bem definidos, no qual traço a sinopse, falo curiosidades sobre a autora e expresso a minha opinião. Mas fui tentada a jogar tudo pro alto porque sou piegas e meu coração está aquecido por esse romance delicioso, uma trégua depois de tantas leituras duras (na vida e na literatura).

Então sim, minhas amigas leitoras, meu amigos leitores, amigues que me leem: esse é o terceiro livro de Lucy Diamond que leio, e ela me traz doçura em assuntos que seriam pedradas dependo de quem os contasse. Acabei de ler Os Segredos da Felicidade, 2016, edição de 2021 da editora Arqueiro.

É uma história sobre irmãs unidas pelo casamento de seus pais, ou seja, irmãs pela afinidade do relacionamento, não por amor, não por desejarem isso, que precisam percorrer uma jornada na vida adulta para se reconhecerem e reconectarem após a perda do pai, seu único elo.

“Ficou deitada na rede, observando as folhas balançarem sonhadoras com a brisa logo acima, ouvindo os sussurros. Desde que o pai morrera, era como se tivesse um bloco de gelo alojado no peito; parecia que nunca mais sentiria calor. Talvez, quem sabe, o gelo estivesse começando a derreter. “

Essas mulheres enfrentaram situações muito adversas em suas vidas:  tentativa de abuso, gordofobia, depressão pós-parto, divórcio, marido violento, perda de emprego, e todo o tipo de julgamento pelas escolhas feitas ou impostas pelo destino, dedos apontados muitas vezes por outras mulheres. De braços dados, essas irmãs têm a oportunidade de curar feridas e se apoiarem mutuamente.

“Pela primeira vez em semanas, a mente dela estava completamente em paz. O segredo da felicidade: subir uma montanha, pensou.”

Os romances de Lucy Diamond me trazem algo de muito bom. Eles não são apenas sobre mocinhas e rapazes apaixonados, mas sobre mulheres maduras buscando algo que seja só delas. São histórias de amor próprio e superação que enxergo nas minhas amigas queridas, na capacidade que temos de dar a volta por cima e encarar os obstáculos.

Histórias sobre mães e profissionais incríveis que andam por aí, trilhando seus caminhos sem holofotes, criando seus filhos e tocando uma profissão, se encantando com passarinhos na janela e se dando um tempo para descansar entre um estudo e outro, entre uma passada no médico com os filhos e uma reunião na escola, um café com as amigas e um cuidado com seus pais. E quando dá tempo, por que não?, se apaixonando também.

“Aquele brilho de felicidade estava de volta, notou: o brilho interior que surgia quando ela exercitava os músculos da criatividade.”

É bom demais ler um livro com final feliz. Para mim, são essas histórias que alentam e trazem esperança de que a minha própria história vista em perspectiva também tenha um final para o qual eu olhe com orgulho. Bom saber que não estamos sozinhas, nem na dor, nem na superação dela.  Experimente!

Resenha ” Mulheres Perfeitas: universos femininos à flor da pele”

O cotidiano de mulheres que lutam para conciliar as tarefas e os desafios do dia a dia, com muitas dificuldades e muita coragem! Esse é o livro Mulheres Perfeitas, da escritora baiana Séfora Oliveira.

Dona de uma escrita leve, e ao mesmo tempo incisiva, Séfora nos apresenta personagens marcantes, como a arquiteta Ana, que batalha para equilibrar vida pessoal e profissional, e a médica Ana Amélia, que luta contra o racismo no ambiente de trabalho.

O relato torna-se ainda mais cheio de emoção no conto “O telefonema”, em que vemos a dramática perda do filho de Alice para a morte: “O seu coração falhou na batida. Hesitou um minuto para pegar o aparelho, pois veio na sua mente uma frase tantas vezes repetidas por sua mãe: Telefonemas na madrugada com certeza trazem más notícias”.

Outro relato forte e cortante é o da personagem Isabel, no conto Hora do Jantar. Ela sofre violência doméstica: “Ele se levantou e jogou o conteúdo do seu prato sobre a blusa branca de Isabel, que se manteve imóvel. Puxou a toalha da mesa com um único movimento, fazendo tudo se espalhar por toda a sala. O som da louça se quebrando penetrou como pontas na cabeça de Isabel”.

E assim, por 119 páginas de muitos conflitos, Séfora nos conduz pelo universo de mulheres que, aos trancos e barrancos, só querem mesmo se libertar das amarras sociais, e serem felizes, claro. 

Vale à leitura!

Lágrimas

Mais uma lágrima desejosa de liberdade fugiu. Saiu apressada, deslizando. Mas, como não sabia voar, caiu e acertou em cheio o fio teimoso de esperança que ainda estava lá.

Eu nunca imaginei que aquela coisinha miúda e fluida pudesse fazer tal estrago.

Era madrugada, a cidade estava quieta. Acho que por isso consegui ouvir o som da queda.

Fiquei parada observando aquilo tudo. E, por um instante, tive pena dela. Imaginei quais seriam seus sonhos. Se ela tivesse asas, talvez tivesse sido diferente.

Amanheceu. Senti cheiro de café e ouvi risinhos saltitantes se aproximando. Fui tomada por um frenesi. Ah não! Avistei outra lágrima. Pobrezinha, pensei. Mal sabe seu destino.

Cheguei mais perto para observá-la melhor. Essa era diferente. Tinha uma roupa alegre, seu olhar era entusiasmado e feliz.

Curiosamente ela não tentou fugir. Olhou pra mim e pude ler seus lábios silenciosos falando: “eu sou mensageira da gratidão, ainda há esperança”.

Logo depois, quatro bracinhos miúdos me abraçaram dizendo: “bom dia, mamãe!”.

Não tenho dormido, mas ontem sonhei com você

Pode soar como uma mentira deslavada, mas se tem uma coisa que não tenho feito com frequência é dormir. O trabalho tem estado interessante e estressante ao mesmo tempo. Você me conhece há muito tempo e sinceramente, existem coisas que não mudaram com o passar do tempo.

Eu ainda adoro ouvir música enquanto estudo e/ou trabalho, correr em horários totalmente diferentes e ainda gosto de você. Falando sério, sempre que dizia isso você ficava super sem-graça, mas nunca me respondia. Acredito que sejamos polos não tão opostos, amigos há tanto tempo que nem me lembro, pessoas cheias de ideias e super ocupadas. E ainda assim, ontem sonhei com você.

E que sonho bom foi este.

Espero que leia o que te escrevo e que me encontre qualquer dia para um café e um abraço. Te conto mais sobre como foi bom reviver lembranças e visualizar algumas possibilidades de futuros. Eu sinto sua falta.

보고 싶어요,Oppa!

E se…

E se o dia amanhecesse diferente

Se seu sentimento fosse feliz

Se seu sorriso não fosse forjado

Se sua mente estivesse em paz

Se você fosse de verdade

Se o sonho se tornasse real

Se a luta não fosse em vão

Se o amor prevalecesse

Se a morte fosse recomeço

Se os povos se unissem

Se a fome não matasse

Se a sua fé fosse contagiante

Se seu carinho fosse reconhecido

Se seu esforço fosse recompensado

Se o descaso não existisse

Se o amor…

Se o…

Se…

Eu gostaria que chovesse agora

A caixinha de som na traseira da moto vibrava ao solo da guitarra. Parecia uma súplica, que chovesse naquela hora, aplacando o sol escaldante do Ceará, e lavasse sua alma empoeirada da estrada, que acumulava as traças da falta de contato, da distância que aquela missão havia imposto aos dois. Ele havia voltado apenas por ela. Por eles.

Ainda estava de uniforme quando saiu do aeroporto com a lua e o sol no céu. Precisava passar em casa antes de seguir para encontrá-la. Jogou uma jaqueta sobre a farda e foi direto para casa. Esperava que ela o encontrasse, que a música a fizesse, como uma Julieta em Verona, atender seu chamado. E lá estava há cinco longos minutos: Phil Collins cantando e Douglesney sentado em sua moto, as sacadas do edifício se enchendo de curiosos, e ela, onde estaria?

– l –

Haviam conversado muito ao telefone, não se tratava de uma intenção, mas uma decisão. E ela, do outro lado do Brasil, devia entender seus motivos, afinal era a razão de tudo ter chegado ao ponto que chegou. Para que os planos dessem certo, precisou negociar sua permanência na unidade. Passou noites em vigília na fronteira, cobriu turnos incansavelmente, sacrificou sua patente, ela não precisava saber.

Antes que o avião da FAB pousasse em Fortaleza naquela madrugada, fez uma oração silenciosa, uma prece ao padroeiro de sua mãe, precisaria de sua intercessão. O dia raiava em tons de roxo e laranja. Uma continência aos superiores, mochila nas mãos, tomou seu rumo.

Queria que ela estivesse em sua casa, mas apenas Caetana, herança de seu pai o aguardava. No celular nenhuma mensagem. A conversa não tinha ido na direção pretendida, mas se tem algo que aprendeu no exército foi nunca desistir. Ele não desistiria deles tão fácil assim. Tentaria ainda mais uma vez, mesmo que parecesse desesperado.

A cama desfeita no seu quarto e as partículas de poeira em suspensão trouxeram uma visão da noite em que ele a deixou. A hora em que sentiu sua respiração pesada pelo sono, retirou seu braço e se arrumou para partir com o pelotão. Era melhor que a despedida tivesse sido aquela, sem choro. Havia obstáculos a sua união, mas não para o homem que venceu a doença, não para o soldado condecorado, não para sua alma exposta e seu coração. Eles chegaram juntos até ali, naquele beijo de despedida, e estariam juntos de novo no beijo do reencontro, ele sabia, estava mais perto a cada minuto.

Preparou um café forte, foi até a garagem e tirou a capa de Caetana, uma Harley Glide década de 1970. Colocou mais algumas roupas na mochila e sua partida estava pronta. Ela saberia dele, onde quer que estivesse. Sobre a camiseta branca vestiu a jaqueta de couro. Minutos antes de sua partida uma chuva intensa fez o dia claro se fechar, assentando a poeira no chão, escorrendo pelos telhados de cerâmica da Rua dos Tabajaras. E logo se fez sol alto outra vez.

Quando parou a moto no Meireles, conectou a boombox ao celular e ligou o som. Era a música que ela gostava que ele tocasse ao violão, ela reconheceria, ele sabia. Phil Collins cantava I wish it would rain down. Ele queria que a chuva lavasse os erros do passado, que ela desse uma segunda chance ao amor deles, que Sofia o entendesse.

Dos prédios ao redor todos espreitavam das janelas, as varandas curiosas, sacadas esperançosas pelo desfecho dessa serenata moderna à luz do dia. Ele permanecia parado em sua moto, aguardando a vida mudar num salto, uma chegada, uma decisão tomada.

Aquela era a música, a hora, o local.

Nada.

No verso final da canção encarou seu destino.

– II –

Quando desligou o telefone naquela noite Sofia chorou até deixar o travesseiro empapado. Ela havia arrumado suas coisas e deixado a casa de Douglesney totalmente desalentada, pouco tempo depois que ele partiu em missão. Não havia sentido em permanecer ali se ele não estava. Ela se sentia adoentada, e a solidão potencializava sua fraqueza.

De volta a casa da prima no Meireles, precisava pensar sobre a vida e o que seria deles. Três meses separavam os dois daquela noite. Douglesney era capitão, tinha tempo de serviço para sair, começar uma vida nova. Ele havia planejado tudo: com as economias do soldo, eles comprariam a casa da Praia da Baleia em Itapipoca, aquela com o quiosque na frente que tanto gostaram quando passaram o fim de semana. Criariam ali aquele menino que crescia e os unia, uma vida de sonhos. Sofia poderia terminar sua faculdade de medicina depois que o bebê nascesse, e eles poderiam ter mais filhos quando ela quisesse. Ele tinha certeza que seriam felizes, tinha certeza de que a amava e que tudo era bênção.

Vai dar certo, ele repetia para a menina. Mas tudo parecia um pouco mais complexo. Sofia, mesmo ciente do amor de Douglesney, não tinha certeza se estava pronta. Não queria se casar, nem filhos, nem morar na Praia da Baleia, não naquele momento. Ela não queria o sonho de verão do namorado, estava sofrendo. Desejava que tudo voltasse no tempo, fossem namorados passeando na cidade de moto, curtindo a vida sem compromisso e feliz. Havia muito futuro para ser conquistado, e um filho e um casamento estavam longe de preencher os requisitos.

A prima havia chamado os pais de Sofia, que a encaravam quando ela desligou o telefone. Era uma menina de vinte anos, prodigiosa, um investimento de longo prazo que, diante dos pais, desmoronava por causa de um soldado em missão no sul do país. Não havia como dar certo.

Sofia queria ficar só é chorar. Tudo estava decidido, ele estava voltando, tinham planos, tudo daria certo. O pai argumentando com a filha que seu futuro era de glória, e ela o estava enterrando. Ela revidava com os planos que não eram seus, talvez fossem de Deus, mas ela aceitava. A mãe pedindo calma ao homem, calma à filha, tentando se acalmar também.

Os hormônios, os enjoos, a tristeza, uma menina frágil segurando o peso de uma vida em seu colo, de um mundo em seus ombros. Não tinha dinheiro, dependia dos pais. Veio para a capital estudar, ficava na casa da prima de sua mãe, a primeira a perceber os sinais. E o destino lhe deu uma rabissaca que a deixou sem chão.

Para aplacar a discussão, a mãe ofereceu um chá de camomila e um comprimido, apenas para relaxar. Quando dormiu, o pai a tomou nos braços e caminhou até o carro. Foram para Juazeiro do Norte na mesma noite, onde a menina acordou em seu quarto de adolescente. O telefone não estava lá.

– III –

Quando Phil Collins cantou o último verso e Sofia não apareceu na varanda, Douglesney encarou seu destino. Juazeiro do Norte era a terra do seu padim, seu intercessor, ele resolveria tudo pessoalmente com Sofia. Acionou o motor e, sem pressa, se afastou por entre os carros. Os acordes finais da música sufocados pelo som das buzinas e motores da avenida principal.