Verdades ínfimas

Acordou acompanhada pelo Chico. Buarque. “Cotidiano”, a música com a qual despertara naquela terça-feira. Ainda deitada, visitava, por meio da melodia, o ritmo padronizado de suas escolhas; na letra, que se repetia incessantemente em seu pensamento, a estória de uma vida. Dia a dia. Ano a ano. Décadas. Definitivamente, era aquela “A música” que representava sua vida vivida. 62 anos completos. “Todo dia ela faz tudo sempre igual”. Aquela constatação a oprimiu, mais do que qualquer violência, física ou moral, outrora experimentada. Era a confirmação de sua mais absoluta passividade e falta de coragem perante cada um dos diferentes caminhos que lhe acenaram – como mulher, profissional, ser humano. À frente não haveria mais surpresas, opções, espaço. Tempo? Quanto mais? Resignava-se. Implodia-se, na verdade. Amanhecia lá fora e, dentro, ela apenas desejava que a esquecessem na cama, por um dia, uma semana, um ano, o resto de sua vida.

No banheiro, olhava-se no espelho e não se reconhecia. A imagem refletida, sentida como defletida, a atravessava cortante, debochada e provocativa. O creme dental, companheiro por décadas, tinha gosto de fel. Não compreendia porque desejava gritar. Não se situava em tempo e espaço. Não recordava o roteiro programado para o dia. Não distinguia a frieza dos azulejos e a intensidade de sua dor interna. A água vertia pela pia, gelada; e ela se derramava em lágrimas, ferventes. As mãos tremiam e as pernas fraquejavam. Sentia o sangue correr nas veias e um vento incômodo soprar pelo ventre. Os pensamentos tinham vida própria e velocidade alucinante, não se fixavam e não faziam sentido. Enlouqueci, assentiu em um lapso consciente. Encarou-se novamente, buscando-se. Por fim, a aceitação da loucura, em olhos flamejados, não trouxe qualquer estranhamento. Ao contrário, um certo regozijo, a satisfação de quem encontra um amigo de infância. Uma gargalhada movimentava-se por seu corpo, a explodir, quando o “Sr. Cotidiano” bateu à porta, cobrando-lhe o café que estava atrasado.

Vencida a tristeza matinal e reprimida a loucura privativa momentânea, espreitava uma sombria lembrança de que fora invadida, tendo-lhe sido roubado o direito a uma deliciosa gargalhada. Na cozinha, a rotina se impôs. Jornal. Leite. Café. Pão. Açúcar. Fruta. Remédio. Remédios … Lembrou-se do ditado popular de que a diferença entre o remédio e o veneno estaria na dosagem do produto. Ficou imaginando quantos comprimidos de losartana seriam suficientes para dar fim ao “Sr. Cotidiano”. Enquanto divagava, seu inconsciente sacava compulsivamente os comprimidos do blister. Ao final, eram 13 em cima da mesa, alinhados em fila de comando. A gargalhada não mais se conteve, e o som, decibéis incontáveis acima dos padrões aceitáveis para o horário, para o momento e, principalmente, para o quase “de cujus”, assustou-o. Paralisado na cadeira, com o olhar tentava ordenar por uma explicação, mas, em verdade, suplicava pelo estancamento daquela exaltação desarrazoada. Ela percebeu horror naqueles olhos incrivelmente submetidos. Quanto mais alarmado lhe parecia o “Sr. Cotidiano”, mais alto, dissonante e gostoso ela gargalhava. Provocava-o, encarava-o, e flertava com os limites da situação. Deliciava-se o torturando e experimentando um gozo absolutamente individual, íntimo e imperscrutável.

Arrefecida a ideia do homicídio e recalcado o gozo pela singela maldade imputada ao personificado cotidiano, percebeu-se sozinha no (in)cômodo. Esquadrinhou todas as tarefas do dia e resolveu que naquele dia tudo deveria ser diferente. Decretou feriado pessoal, em razão de 62º aniversário e se deitou no sofá. Feira, farmácia, trabalho, netos, banho, almoço, cachorro, unhas, o mundo externo não a subjugaria naquele dia. Uma rebeldia muito bem-vinda, ponderou, depois de anos dispondo-se ao serviço e aos cuidados dos outros. Respirou aliviada, desligou os instrumentos para o mundo externo e cerrou os olhos.

Foi acordada pelo barulho do ferrolho, às 18h47. “Sr. Cotidiano” havia chegado do trabalho, como de costume entre 18h40 e 19h. Ainda com os olhos fechados, sabia que viriam as flores – lírios brancos – acompanhadas de um beijo e a pergunta sobre o quê gostaria de jantar, para celebrar. Sabia, também, que a filha havia lembrado o pai da data e que a resposta correta, repetida mais uma vez, deveria ser “vamos pedir uma pizza, meu amor?”. Seguiu-se também a ritualística demonstração de surpresa com a chegada dos filhos e netos em torno das 20h.                 

Ao se deitar, percebeu que passou seu aniversário exatamente como viveu a sua vida. Sonhando, encerrada em si própria. Entregue. Alienada. Revoltada. Deitada e paralisada. Quem sabe amanhã ressuscite Bom Scott e acorde ao tom de “Highway to Hell”, ou encarne Michael Douglas em “Dias de Fúria”, e então possa dar vida externa à sua tristeza, loucura e maldade. Ou não. Talvez a companhia cotidiana de Chico Buarque não seja, assim, tão ruim. Programou o despertar para 6h20 de quarta-feira, ao som de “Cotidiano”, como de costume. 


Crédito da imagem:  Foto por Bianca Salgado em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Marque um Encontro

Quais são os seus alicerces?
Você se namora?
Você se sente livre?
Marque seu encontro com você.
Conecte-se com o amor, com alegria, com a saúde 

Marque um encontro com tudo o que te conecta com a sua identidade.
Marque um encontro com as suas emoções, sinta, seja, veja, receba!
Pergunte o que te traz felicidade, pergunte:

Como eu posso me encontrar com a minha Essência?
Ouça você! Toque você! Veja você!
O que te traz paz
O que você está fazendo de sua vida?
Você faz falta?
Marque um encontro com tudo que está dentro de você!
Transborde!

Crédito da imagem:  Foto por Monstera em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Tempo de Mudança

Quando a tristeza for maior que a alegria
Você precisa mudar.
Quando a dor se torna maior do que o Amor
Você precisa mudar.
Quando o amigo torna-se seu inimigo
Você precisa mudar.
Quando você é alvo de inveja
Você precisa mudar.
Quando sua liberdade for controlada
Você precisa mudar.
Não espere que os outros façam alguma coisa por você,
é você mesmo que tem que tomar uma atitude para salvar sua vida.

Crédito da imagem:  Foto por Ketut Subiyanto em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Des(encanto)

Já perdera de longe
a contagem dos dias

Servir
Agradar
Atender
Anular

De onde vinham todas aquelas cobranças?

Por mais que fizesse
se esforçasse
desviasse a atenção
Lá estavam elas
Listadas
Pontualmente
A sufocar

Sempre tem alguém para mandar
E na roda o mandado

Como uma continuação nada efêmera daquele rigor travestido de bom

Mas hoje não

Na balança
um minuto de reconhecimento
seguido de horas de insuficiência

Hoje não

Nas desculpas sem assinatura

Eu quisera entender
Quantas versões do amor existe

Só para saber
Quando sou amada
E quando não


Crédito da imagem:  Foto por Skyler Ewing em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Cicatrizes

Cicatrizes

O sopro dos dias sussurra no meu rosto
Nem menina, nem mulher
Como se escreve um corpo
Um tropeço?
Um engano
Foi-se o Pertencimento
O eu refletido no véu do não
Lâmina afiada
Tão crua
Cicatriz fina e fria
Em meu rosto estampado
A velhice de minha mãe.
Incógnita profusa
Dolorida de ser consentida
Marcando a pele
Feito ferro quente


Crédito da imagem:  Foto por Alexander Krivitskiy em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

As quatro estações do amor

A falta de amor é como o inverno frio e sozinho. Onde sentimos calafrios que deixam nosso coração gelado, petrificado, sem vida e sem sentido. No inverno o branco se mistura ao vazio dos sentimentos onde nem a dor consegue existir.

O amor que floresce é como a primavera que desperta nossos diversos desejos. Nasce amor por todos os lados. O movimento de cores e diversidade transforma tudo numa linda fantasia. Tudo é possível entre os corações.

O outono é como o amor que se transforma. É um amor maduro, porto seguro dos amantes. Consolidado. Um amor que fica cada vez mais forte, calmo, estável e seguro.

E de repente chega o verão. O sol ardente do amor nos invade com uma paixão avassaladora e queremos viver plenamente com toda nossa energia. Mania de você, mania de ter. Mania de sempre querer.

São essas as estações do amor. Acontecem assim naturalmente. Invadem nossos caminhos e transformam e consolidam e mudam novamente. Basta uma pequena semente de vida e lá vem uma nova estação.


Crédito da imagem:  Foto por Magda Ehlers em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Um grande dia para escritoras

Desejo começar esse texto de um jeito que me pareça que falo para uma pequena audiência, uma sala com alguns espectadores, sem pretensão de parecer detentora de um conhecimento maior. Sinto falta dos tempos em sala, daqueles momentos de interação com a classe, da partilha que se realizava nesses espaços.

E então eu diria: Olá pessoal, é muito bom ter vocês aqui nessa reunião, nessa noite quente de outono no Ceará, para debatermos ideias. É bom demais ter com quem debater ideias, às vezes meu imaginário se torna um lugar solitário e, sem outras pessoas por lá, me falta o contraditório.

Eu ouviria alguns risos da minha piada boba e, após uma pausa estratégica e um sorriso gentil, sentiria o ímpeto necessário para prosseguir. Me movendo pela sala, cabeça baixa para organizar os pensamentos, recomeçaria minha fala assim:

Essa última semana do Dia dos Namorados teve um sabor mais especial para mim que os bombons, presentes e jantares que poderia ganhar. E digo com firmeza que não foi assim apenas para mim, mas para um grupo imenso de mulheres ao redor do Brasil, quiçá do mundo, que decidiram se encontrar trajando apenas coragem e suas palavras em um livro, um escrito, um manifesto de sua independência literária.

Independência que vem sendo trabalhada e conquistada ao longo dos anos, numa luta diária por um espaço que também é nosso. Na história recente do Brasil, questão de 30 ou 40 anos atrás, ainda era possível encontrar mulheres que não tinham CPF (cadastro de pessoa física) em seus próprios nomes. Entre 1916 e 1962 vigorou o Código Civil Brasileiro que previa que a mulher era incapaz e totalmente dependente de um homem para ditar os rumos da sua vida. Dessa forma, a mulher só poderia trabalhar, estudar, ter uma profissão, um comércio ou uma conta no banco se fosse autorizada pelo pai ou pelo marido. Não seria a mulher uma pessoa?

Se para algumas mulheres se discutia o direito a ter um documento em seu próprio nome, para outras entretanto inexistia o direito ao registro civil, que era pago até 1997. Seja pela pobreza ou pela questão racial, muitas mulheres viviam relegadas a condições ainda mais espúrias. Trabalhadoras domésticas eram as principais vítimas de um país cujo preconceito anda sob panos quentes e termos como “agregadas” eram comuns para se referir a alguém que trabalhava dia e noite e, vez em quando, ganhava algo que lhe concedia um status de “quase da família”.

Tem apenas 106 anos que a lei deixou de legitimar o direito de o marido matar a mulher por qualquer suposição de adultério. Ele nem precisava provar, bastava ouvir rumores. E mesmo depois de revogada, precisamos de uma nova lei para nos proteger de agressões, a Lei Maria da Penha, de 2006. E temos indicadores: o Brasil é o 5º país no ranking de assassinatos de mulheres. Em 50% dos casos, a mulher é atacada por quem ela mais confia, dentro de sua casa. Na morte, somos todas iguais, no entanto as mulheres negras morrem mais. A desigualdade de gênero é o fator preponderante nos homicídios, mas o preconceito racial e desigualdade social tornam essas situações ainda mais cruéis.

Voltando às leis, foi apenas em 1988 que a Constituição Federal tornou homens e mulheres iguais. E transformou o preconceito racial em crime. Quantos de vocês que me leem hoje nasceram depois dessa data? Você sabia que antes disso havia dispositivos legais que nos tornavam diferentes perante a sociedade? Em questões de gênero, podemos não ser iguais biologicamente falando, é evidente que não somos. Mas em questões de raça, o que nos difere além do preconceito? Você, mulher, se acha menos merecedora de uma casa, de um trabalho justo e um salário digno, de ter direito à guarda dos seus filhos, de estudar o que quiser, ter uma conta bancária e investir no mercado financeiro, que um homem? E uma mulher negra é menos merecedora que uma mulher branca? Você escritora, acha que seus livros não merecem ganhar as prateleiras das livrarias, contratos editoriais que te permitam escrever como profissão e não apenas como passatempo?

Como seria o Brasil se, ao lermos as estatísticas de prêmios e publicações de livros, descobríssemos que 50% dos livros lançados e premiados no ano pertencem a escritoras? E que metade dessas publicações pertencem a escritoras negras e pardas? Nossa média atual está em cerca de 30% dos livros publicados escritos por mulheres (chute meu, depois de ler várias estatísticas de grandes editoras), e mantemos a lanterna acesa iluminando um grupo pequeno, que se repete em muitas mídias, como me lembrou uma autora querida.

Eliane Paz escreveu um artigo onde analisou a lista publicada pela Revista Veja de livros mais vendidos nos últimos 21 anos e alguns prêmios existentes. Ela chegou aos seguintes dados: dos 113 prêmios Nobel de Literatura, apenas 16 foram concedidos para mulheres, sendo 10 delas premiadas nos últimos 30 anos. O Jabuti, nosso prêmio maior da literatura brasileira, contemplou 19 autoras e 116 autores ao longo dos anos. Em ambos, representamos cerca de 15% dos contemplados. O ranking da Veja mostra que apenas 30% dos livros mais vendidos no país são escritos por mulheres. E desse percentual, a maioria avassaladora é de livros de língua estrangeira. Não creiam que para elas é mais fácil. As duas maiores potências de autoria feminina foram orientadas a não assinar seus nomes completos.

Não poderia dizer minhas palavras após ler estas da Eliane Paz:

“Essa baixa representatividade perpetua o círculo vicioso da invisibilidade literária feminina – menos publicação, menos divulgação, menos prêmios, menos leitores –, aumenta o desconhecimento sobre o que as mulheres têm a narrar, silencia suas experiências e mantém as mulheres à margem do campo literário.”

No censo brasileiro de 2019 ficou evidente que somos maioria da população (52%). Em 2019 uma estatística apontou que somos também a maioria do público leitor: 54% dos leitores se identificam com o gênero feminino. É aqui que te pergunto algo que minha amiga de coletivo me perguntou há quase um ano: quantos livros escritos por mulheres você leu nesse ano?

Antes que ideias pré-concebidas te assaltem a alma, literatura feminina não significa apenas romances com finais felizes ou poemas de amor. Somos isso também, mas somos muito mais. E me acreditem quando digo que escrever um romance com um final feliz é muito desafiador. Tente imaginar aquele par que se junta com você e abraça uma vida cheia de percalços, compreende que você é um ser imperfeito (assim como ele) e que te ama incondicionalmente. Só amor de mãe, né? Às vezes nem esse… escrevemos ficção de alto nível.

Há mulheres incríveis fazendo todo tipo de literatura. Se elas existem, por que não lemos seus livros? Por que deixamos esse espaço ser ocupado por homens em sua maioria? Você lembra quem formou seu gosto pela literatura? O meu foi formado por outra mulher, minha mãe. E ela me apresentou várias escritoras maravilhosas. E escritoras brasileiras.

Aqui no Ceará, me apresentei para aproximadamente 40 mulheres na tarde de 11 de junho de 2022 e celebramos esse momento com um registro fotográfico. Cada uma de nós teve seu tempo de fala respeitado e muitas histórias bonitas foram compartilhadas. Algumas me tocaram e reverberaram por mais tempo na memória, histórias de silenciamento e dor, de poemas incompreendidos e rasgados. Lá em São Paulo, onde essa onda começou, um tsunami de mulheres ocupou a arquibancada do Estádio do Pacaembu. Vestimos coragem e nossos livros. Tenho consciência de que somos muitas mais e, por isso, mal posso esperar pelo próximo encontro.

Para encerrar essa fala, me responda: qual autora brasileira viva você leu nos últimos seis meses? Se a sua resposta for “nenhuma”, leia novamente esse texto e perceba que você pode ajudar a mudar as estatísticas. Terminada a minha preleção, eu teria em mãos uma lista de autoras para quem quiser começar a mudança.


Quer conhecer as fontes das informações citadas nesse texto? Só vem:

https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/feminicidio/capitulos/qual-a-dimensao-do-problema-no-brasil/

https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18320-quantidade-de-homens-e-mulheres.html

https://www.prolivro.org.br/pesquisas-retratos-da-leitura/as-pesquisas-2/

https://jornal.usp.br/radio-usp/dados-do-ibge-mostram-que-54-da-populacao-brasileira-e-negra/

https://seer.dppg.cefetmg.br/index.php/VINCO/article/download/1030/987

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2019/01/05/interna-brasil,729072/lei-que-torna-racismo-crime-completa-30-anos-mas-ha-muito-a-se-fazer.shtml


Crédito da imagem:  Foto por Cláudio Rodrigues (@claudc ) e Miguel Silva (@silva.fotografo )

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Expresso da Meia-Noite

Sabe aquela receita do insucesso que todos, inclusive eu, recomendam não fazer porque é quase certo que o resultado dê errado? Não seria exatamente uma tragédia anunciada, mas a chance de “dar bom” seria bemmm improvável. Mas uma chance mínima ainda é uma chance, então me apeguei a ela com disposição. Me inscrevi para participar de uma corrida de rua no domingo (dia 19/06). Estava bem animada para o evento, mas acabei precisando desistir por conta de uma viagem. Mesmo assim, resolvi pegar o kit porque achei a camisa linda (queria guardar de lembrança) e também pela garrafinha pra usar na academia. Acontece que, na quarta-feira, algumas horas antes da minha viagem, aconteceu uma reviravolta e não viajei. Logo, estaria na minha cidade no dia e horário da corrida. Resumindo: desisti da desistência de correr. Buscar o kit não foi em vão. Bora me preparar para aquela corrida!!!

Naquele final de semana também tinha sido o feriado de Corpus Christi (em parte a razão da minha viagem), aí começou a sequência de eventos não recomendados. Mas antes, preciso explicar que estou com o joelho lesionado e em tratamento (fisioterapia, acupuntura, musculação, repouso, etc). Então, como não viajei fui aproveitar meus dias de descanso do feriado. Só lembrando que a corrida seria no domingo. Na quinta fui dar uma volta de bike que totalizaram pouco mais de 20 quilômetros de percurso. Primeiro ponto: não é uma distância que estou acostumada a fazer, normalmente, faço, no máximo, 15 km. Segundo ponto: faziam semanas que não pedalava. Ponto três: faltavam 3 dias para a prova. Na sexta-feira fiz treino de musculação e funcional. Quarto ponto: estava evitando o funcional por causa do joelho (seguindo minha trajetória do insucesso kkk).

No sábado…advinhem??? Descanso!!!! Só que não. Dei uma caminhada pelo meu bairro alternando com trotes de corrida (total de 8 km). Ponto cinco: esse ano não fiz nenhuma corrida (já falei do joelho né! rs). Ah! também tem a coluna inflamada na lombar. Mas pelo menos eu dormi cedo??? Deveria, só que não!!! À noite tive uma confraternização de festa junina. Não consumi bebida alcoólica, nem comi muita besteira, só um pouquinho (ninguém é de ferro). Despedi-me à meia-noite, ainda mantinha a intenção de correr. Fui pra casa para dormir um pouco, deveria me levantar às 6h da manhã. Cansada do dia e da noite resolvi tomar um café expresso quase 1 da manhã, não me tiraria o sono, mas me permitiria acordar disposta com as poucas horas de sono que me restavam. Era isso ou nada. Não recomendo, mas pra mim dá certo, só uso em situações bem extremas, como era este o caso. Às seis, o despertador tocou, ensaiei insistir no modo soneca, mas se já tinha passado por todas aquelas etapas e tinha acordado era pra eu ir!!!! Comi pão com geleia, banana com mel, mais um cafezinho e rumei ao meu desafio.

Às oito foi dada a largada, estava disposta e alegre pela minha persistência em tentar até o final, mas ainda tinha o desafio de correr!!! O primeiro quilômetro vieram aqueles pensamentos combativos de que não ia aguentar, que o joelho ia doer, estava sem treinar, por qual razão fui, podia estar dormindo e uma infinidade de possibilidades e forças contrárias. Tava lá né!!! Então esquece. Podia desistir? Claro! Sentaria no meio fio e assistiria as pessoas participando, se superando e comemorando suas pequenas vitórias. Resolvi seguir: eu tinha 2 metas: 1) cumprir o trajeto de 5 km e 2) percorrer todo o trajeto correndo, sem nenhum momento de caminhada. Se conseguisse ambos estaria orgulhosa de mim. Coloquei minha meta dentro das condições que me encontrava. No segundo quilômetro começavam as baixas dos corredores migrando para a caminhada, ao mesmo tempo vários passavam a minha frente, o sol começava a esquentar, o olhar no horizonte me lembrava que ainda tinha muito chão pela frente. Então foi tentando manter minha velocidade média e respirar, lembrando que cada vez que avançava faltava menos do que na largada.

No quilômetro três tinha descida, um descanso, mas um alerta e cuidado para o joelho e coluna. Logo estaria dando a volta e a descida se transformaria em uma subida digna de respeito. Até pensei que estaria tudo bem caminhar só na subida para conseguir fechar a prova, mas fui no meu ritmo e persisti até o limite que pudesse aguentar. Só pensei: “- Bora lá!!!! Não desista na mente antes de tentar no corpo”. Até que cheguei no quilômetro quatro, agora era questão de honra, a subida íngreme já tinha acabado, já estava plano então era buscar a energia que me restava e correr para o abraço. Voltar ao ponto de largada é um misto de felicidade pela chegada, do cumprimento das metas e exaustão (morri, mas passo bem!!!!). Acabou!!!!!

Sentei no meio fio para recuperar o fôlego, comi uma fruta, bebi uma água, conferi meu relógio medidor, tinha ficado abaixo dos 30 minutos. Aguardei o resultado oficial. A medalha de participação já estava garantida. Eis que tive uma grata surpresa, além de um bom tempo de prova, para uma pessoa sem treinar e lesionada, tive uma excelente colocação. No quadro geral feminino em 16º lugar de 493 participantes e na minha categoria em 8º lugar de 343. Fiquei muito feliz e bem surpresa. Se aquele cafezinho da meia-noite fez a diferença no resultado?? Não tenho certeza!! Mas tenho fé que sim!!! Não recomendo, mas diante do meu cenário era a ferramenta que tinha para me ajudar. Resumindo: deu bom, apesar de tudo!!! Como estarei amanhã??? Ou melhor, como meu joelho e coluna estarão amanhã?? Aposto que vão doer voltando a rotina, mas foram legais comigo neste dia, me deram um descanso pra minha diversão na manhã de um domingo. O efeito do expresso passou, mas esse feito ficará na memória.


Crédito da imagem:  Foto por Nataliya Vaitkevich em Pexels.com

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Uma mãe por todas. Todas por uma mãe

Deixei minha caçula em casa com o compromisso de lavar a louça gigante que estava sobre a pia desde muito cedo. Era a tarefa dela, meio indigesta, eu sei, mas ela parecia resignada. Deitada no sofá, ela tentava reunir coragem para enfrentar a pilha de pratos e travessas enquanto a cachorrinha a puxava pelo vestido para ceder à brincadeira de cabo de guerra.

Eu estava atrasada e me arrumava apressadamente para o compromisso que me aguardava. Entretanto, interrompi o que estava fazendo por alguns instantes e me sentei na ponta da cama para conversar por meio de mensagens com a filha mais velha que estava na casa do namorado desde o dia anterior. Perguntei como ela estava e a que horas chegaria. Ela me respondeu de pronto, dizendo que estava tudo bem e que chegaria em casa no inicio da noite pois ainda tinha marcado uma tarde de jogos com os amigos. Fiquei feliz por ela estar bem e por estar se distraindo após sua semana cansativa de faculdade e trabalho. Eu disse que a amava e desejei que se divertisse. Ela me respondeu com um “Eu também te amo”.

Voltei a me arrumar sem muita atenção com o que vestiria. Mas com o requisito de que teria que ser simples e que denotasse esperança. E fé de que a vida não termina aqui… Não sei se a cor de uma roupa conseguiria denotar tudo isso. Mas não me sentia confortável em vestir preto no velório de um adolescente. Seria muito estranho. Com o pensamento sob uma nuvem de tristeza, apesar de estar tudo bem com minhas “pequenas”, saí para ver uma despedida de mãe e filho.

Não posso dizer que imagino a dor que minha colega de trabalho estava sentindo pela partida de seu filho único. Não, eu não consigo nem imaginar. Acredito que deva ser uma dor que transcende qualquer definição ou explicação. A dor dela me causou uma profunda tristeza desde o momento em que soube que seu filhinho havia partido. Como mães, inevitavelmente acabamos pensando o que faríamos se fôssemos nós a passar por aquilo tudo. A identificação é imediata e profunda. O que eu diria a ela quando a visse e sentisse seu pranto? Não havia nada que eu dissesse que pudesse amenizar seu luto. Ofereci meu abraço e meu carinho. A ela peço desculpas por ser tão pequena e tão pouco poder fazer. Sou mãe e sou humana, falível, limitada e pequena frente aos mistérios e dores desse mundo. 

Precisei sair mais cedo do velório e não vi o sepultamento. Despedi-me dos conhecidos e, já quase na saída, conversei um pouco com outra colega que há muito tempo não encontrava. Ela me disse que estava tudo bem com sua família e falou das conquistas recentes dos seus dois filhos. Um deles está estudando medicina e o outro formado e pós-graduado. Tão orgulhosa estava aquela mãe! E solidária nessa corrente de outras mães em volta da mãe enlutada. Fiquei feliz pelas conquistas dos filhos dela.

O outro compromisso que me fez sair mais cedo do velório foi com uma de minhas enteadas. Ela estava voltando de um retiro religioso que fazia parte de sua preparação para a crisma. A escola tinha organizado uma recepção surpresa dos familiares para com os crismandos. Eu participei da pequena comitiva dela, junto aos seus pais. Esperamos por volta de uma hora até que os crismandos chegassem do retiro. Nesse tempo, vi o desfilar de pais, irmãos e avós esperando por seus adolescentes, conduzindo flores, presentes e cartazes. Era uma festa, sem dúvida. Festa de cores alegres, de risadas, de cânticos religiosos e de palavras de esperança e fé. Via-se o quanto os pais estavam sedentos por receber suas crias das quais estiveram sem comunicação durante todo um final de semana. Juntei-me a esse coro de saudação, de comemoração da vida e recebi minha enteada com muita alegria. Feliz pela felicidade dela. Ali, eu era uma coadjuvante: a madrasta. Mas como mãe, estava ali com o mesmo sentimento uníssono de saudação aos jovens que retornavam de uma experiência espiritual.

Mas, no fundo, meu coração de mãe estava dividido. Meus sentimentos oscilavam como um pêndulo desbalanceado. Eu acabara de presenciar a dor pungente de uma mãe que perdera o filho e que nitidamente ansiava por algum entendimento para aquela avalanche que a havia atingido. Praticamente ao mesmo tempo, eu vira o regozijo de outra mãe orgulhosa e que comemorava com toda legitimidade as conquistas dos seus filhos. Estava, ainda, entre as mães coloridas e risonhas da escola que festejavam a chegada de seus jovens crismandos e, ao mesmo tempo, eu refletia sobre a minha própria condição particular de mãe divorciada, o que muito impactava na vivência da minha própria maternidade. Eu estava em meio àquela turba festiva mas havia acabado de presenciar um clamor de lamento e dor em um cemitério há minutos dali. E, por incrível que pareça, em cada um daqueles lugares e situações, eu me senti igualmente parte desse corpo único da maternidade. Eu identifico a dor e a alegria de todas essas mães. E vivencio ambos os sentimentos com a mesma legitimidade, entendendo que não há incoerência alguma nessa identificação quase que simultânea com a dor e com a alegria. Permito-me chorar pela dor compartilhada com a mãe que lutou e não alcançou a saúde do seu filho. E me permito sorrir ao ver minha enteada feliz, retornando de um retiro, recebendo abraços, presentes e aconchego.

Na volta para casa, uma olhada no celular para ver as últimas mensagens que haviam sido negligenciadas pelos eventos (e sentimentos) das últimas horas. Lá, aguardavam resposta uns recados da minha mãe, combinando detalhes da semana vindoura de consultas médicas de rotina dela e do meu pai, para as quais minha participação seria necessária. Estava ali outra faceta da maternidade dela e minha, com uma recente troca de papéis. A filha cuidando da mãe. A mãe cuidada pela filha.

Em tudo isso, sinto a teia invisível da maternidade unindo-me, de certa forma, a todas essas mulheres, em menor ou maior grau. Certamente, nem todas as mães se sentem da mesma forma frente a situações como essas. E não há mal algum se elas sentem de outro jeito. Cada uma conduz às costas sua carga, às vezes leve e com asas que as fazem voar, às vezes pesada que dificulta a navegação por esse rio que é a maternidade. Fluido, dinâmico, caudaloso ou plácido, mas sempre a permear a nossa existência inteira.


Crédito da imagem:  Foto por Irina Iriser em Pexels.com

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Apenas mais um texto infeliz

Era escritora. Ofício difícil, que carrega muita dor. 

Para escrever, pensava principalmente no passado. Os abandonos que sofrera, a saudade da família, os relacionamentos que não foram para frente… toda a sorte de angústias, desprazeres e frustrações.

Era um dia frio de maio, um domingo daqueles entediantes, arrastados. Foi para a frente do computador com sua xícara de café e pensou: preciso reverter esse quadro.

Queria escrever textos mais animados, motivantes. Xô tristeza!

Mas nossa, como é difícil mudar o quadro quando se tem tendência a depressão.

Abriu então seu word e disse a si mesma: a primeira coisa que vier a minha cabeça vai ser colocada no papel.

Havia acabado de receber um e-mail da revista na qual trabalhava cobrando urgência. Sua coluna já estava atrasada, e bem atrasada.

Era uma baita crise de inspiração.

Até que…

***

Era como se estivesse nas nuvens. Aquele beijo representou exatamente o que ela imaginava por anos.

Eduardo era melhor amigo de uma amiga dela. Tinha os olhos claros, o cabelo castanho, e uma linda voz. Alice era apaixonada por ele há anos. Chegou a ter outro namorado, mas nunca o esqueceu.

Ele martelava em seu pensamento. Martelava, martelava. Às vezes, inclusive, nos sonhos. Quando isso acontecia, Alice acordava assustada, com medo. Não queria que ninguém soubesse do seu segredo.

Segredo tão bem guardado, que nem sua melhor amiga sabia. Ninguém sabia. Alice não queria admitir nem pra si mesma.

Mas naquela noite, quando todos dançavam na festa, algo surpreendente aconteceu. Eduardo, que nunca lhe havia dado a menor bola, de repente começou a olhar pra ela de modo estranho, diferente. Tímida como era, Alice ficou encabulada. Mas ele foi se aproximando, aproximando. E enquanto isso começou a tocar uma música do Los Hermanos: “De onde vem a calma, daquele cara…”

E um beijo aconteceu. Um beijo de amor.

***

Olhando para o arquivo em branco, Alice lembrava-se apenas daquele beijo, e daquela noite inesquecível.

Como já podemos imaginar, aquilo que julgou amor não teve prosseguimento. Foi apenas mais um momento nesta longa vida líquida…

Um momento que marcou tanto, tanto.

Dessa vez, não pensou duas vezes.

Precisava vomitar aquilo.

O prazo estava apertado, precisava entregar a coluna. Com o coração aos pulos, lembrou-se daquela música tão especial, e escreveu.

“De onde vem a calma, daquele cara? Tá se exibindo pra solidão”.

E ali, naquele domingo preguiçoso, acabou escrevendo…

apenas mais um texto infeliz.


Crédito da imagem:  Foto por Ketut Subiyanto em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”