Expresso da Meia-Noite

Sabe aquela receita do insucesso que todos, inclusive eu, recomendam não fazer porque é quase certo que o resultado dê errado? Não seria exatamente uma tragédia anunciada, mas a chance de “dar bom” seria bemmm improvável. Mas uma chance mínima ainda é uma chance, então me apeguei a ela com disposição. Me inscrevi para participar de uma corrida de rua no domingo (dia 19/06). Estava bem animada para o evento, mas acabei precisando desistir por conta de uma viagem. Mesmo assim, resolvi pegar o kit porque achei a camisa linda (queria guardar de lembrança) e também pela garrafinha pra usar na academia. Acontece que, na quarta-feira, algumas horas antes da minha viagem, aconteceu uma reviravolta e não viajei. Logo, estaria na minha cidade no dia e horário da corrida. Resumindo: desisti da desistência de correr. Buscar o kit não foi em vão. Bora me preparar para aquela corrida!!!

Naquele final de semana também tinha sido o feriado de Corpus Christi (em parte a razão da minha viagem), aí começou a sequência de eventos não recomendados. Mas antes, preciso explicar que estou com o joelho lesionado e em tratamento (fisioterapia, acupuntura, musculação, repouso, etc). Então, como não viajei fui aproveitar meus dias de descanso do feriado. Só lembrando que a corrida seria no domingo. Na quinta fui dar uma volta de bike que totalizaram pouco mais de 20 quilômetros de percurso. Primeiro ponto: não é uma distância que estou acostumada a fazer, normalmente, faço, no máximo, 15 km. Segundo ponto: faziam semanas que não pedalava. Ponto três: faltavam 3 dias para a prova. Na sexta-feira fiz treino de musculação e funcional. Quarto ponto: estava evitando o funcional por causa do joelho (seguindo minha trajetória do insucesso kkk).

No sábado…advinhem??? Descanso!!!! Só que não. Dei uma caminhada pelo meu bairro alternando com trotes de corrida (total de 8 km). Ponto cinco: esse ano não fiz nenhuma corrida (já falei do joelho né! rs). Ah! também tem a coluna inflamada na lombar. Mas pelo menos eu dormi cedo??? Deveria, só que não!!! À noite tive uma confraternização de festa junina. Não consumi bebida alcoólica, nem comi muita besteira, só um pouquinho (ninguém é de ferro). Despedi-me à meia-noite, ainda mantinha a intenção de correr. Fui pra casa para dormir um pouco, deveria me levantar às 6h da manhã. Cansada do dia e da noite resolvi tomar um café expresso quase 1 da manhã, não me tiraria o sono, mas me permitiria acordar disposta com as poucas horas de sono que me restavam. Era isso ou nada. Não recomendo, mas pra mim dá certo, só uso em situações bem extremas, como era este o caso. Às seis, o despertador tocou, ensaiei insistir no modo soneca, mas se já tinha passado por todas aquelas etapas e tinha acordado era pra eu ir!!!! Comi pão com geleia, banana com mel, mais um cafezinho e rumei ao meu desafio.

Às oito foi dada a largada, estava disposta e alegre pela minha persistência em tentar até o final, mas ainda tinha o desafio de correr!!! O primeiro quilômetro vieram aqueles pensamentos combativos de que não ia aguentar, que o joelho ia doer, estava sem treinar, por qual razão fui, podia estar dormindo e uma infinidade de possibilidades e forças contrárias. Tava lá né!!! Então esquece. Podia desistir? Claro! Sentaria no meio fio e assistiria as pessoas participando, se superando e comemorando suas pequenas vitórias. Resolvi seguir: eu tinha 2 metas: 1) cumprir o trajeto de 5 km e 2) percorrer todo o trajeto correndo, sem nenhum momento de caminhada. Se conseguisse ambos estaria orgulhosa de mim. Coloquei minha meta dentro das condições que me encontrava. No segundo quilômetro começavam as baixas dos corredores migrando para a caminhada, ao mesmo tempo vários passavam a minha frente, o sol começava a esquentar, o olhar no horizonte me lembrava que ainda tinha muito chão pela frente. Então foi tentando manter minha velocidade média e respirar, lembrando que cada vez que avançava faltava menos do que na largada.

No quilômetro três tinha descida, um descanso, mas um alerta e cuidado para o joelho e coluna. Logo estaria dando a volta e a descida se transformaria em uma subida digna de respeito. Até pensei que estaria tudo bem caminhar só na subida para conseguir fechar a prova, mas fui no meu ritmo e persisti até o limite que pudesse aguentar. Só pensei: “- Bora lá!!!! Não desista na mente antes de tentar no corpo”. Até que cheguei no quilômetro quatro, agora era questão de honra, a subida íngreme já tinha acabado, já estava plano então era buscar a energia que me restava e correr para o abraço. Voltar ao ponto de largada é um misto de felicidade pela chegada, do cumprimento das metas e exaustão (morri, mas passo bem!!!!). Acabou!!!!!

Sentei no meio fio para recuperar o fôlego, comi uma fruta, bebi uma água, conferi meu relógio medidor, tinha ficado abaixo dos 30 minutos. Aguardei o resultado oficial. A medalha de participação já estava garantida. Eis que tive uma grata surpresa, além de um bom tempo de prova, para uma pessoa sem treinar e lesionada, tive uma excelente colocação. No quadro geral feminino em 16º lugar de 493 participantes e na minha categoria em 8º lugar de 343. Fiquei muito feliz e bem surpresa. Se aquele cafezinho da meia-noite fez a diferença no resultado?? Não tenho certeza!! Mas tenho fé que sim!!! Não recomendo, mas diante do meu cenário era a ferramenta que tinha para me ajudar. Resumindo: deu bom, apesar de tudo!!! Como estarei amanhã??? Ou melhor, como meu joelho e coluna estarão amanhã?? Aposto que vão doer voltando a rotina, mas foram legais comigo neste dia, me deram um descanso pra minha diversão na manhã de um domingo. O efeito do expresso passou, mas esse feito ficará na memória.


Crédito da imagem:  Foto por Nataliya Vaitkevich em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Publicado por Karina Freitas

Nascida em Niterói/RJ, residente na Capital Federal, desbravadora do cerrado. Ama natureza, trilha, pedalar, filmes, música, conversar bastante (gêmeos, já entendeu) e vez em quando se perder dentre as letras e as palavras.

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