Todo mundo sabe que homem não chora

Estive em um festival de dança cuja etapa da competição estava sendo realizada em minha cidade. Minha enteada estava competindo com sua academia de dança e fomos prestigiá-la. As apresentações eram realizadas em um ritmo frenético, praticamente sem pausas. Uma verdadeira maratona que deixava os expectadores sem fôlego, como se fôssemos nós a entrar, dançar e sair do palco repetidas vezes.

Assistindo à sequência de apresentações, vi muitas mulheres, das mais variadas idades e corpos. Havia mulheres de músculos esculpidos pelos treinos de repetição e força necessários aos movimentos precisos de um nível mais sofisticado de dança. E também havia os corpos mais “comuns”, sem músculos tão definidos, alguns até franzinos, outros com contornos mais generosos. Em todos esses corpos femininos cheios de representatividade senti igualmente a dedicação e paixão pela dança, o brilho no olhar, o sorriso para o público e a expressão atenta nas parceiras de palco em busca da sincronia que deixa os movimentos ainda mais impressionantes. Fiquei feliz em ver que não havia um padrão único de corpo feminino habitando aquele “mundo da dança”. Pelo menos não naquela etapa da competição e naquele festival. A mensagem era a de que meninas-mulheres de quaisquer idades e corpos tinham o direito de ocupar aquele espaço.

Mas e os homens? Onde estariam? Nos bastidores? Na organização? Na apresentação do evento? Na plateia vi alguns gatos pingados. Mas por que os homens não ocupavam o palco também? Confesso, contudo, que só passei a me questionar sobre isso justamente quando um grupo de dança composto apenas por homens subiu ao palco. Até aquele momento, o repetido desfilar de grupos de mulheres, um após o outro, não havia me despertado questionamento algum. Talvez porque a gente às vezes se acostuma tanto com o que vê ao nosso redor que se esquece de questionar por que determinadas coisas acontecem (ou deixam de acontecer).

O grupo de rapazes subiu ao palco e causou estranhamento e surpresa na plateia. Vi o público se entreolhar e esboçar um sorriso como se dissesse: “Olha lá! Finalmente um grupo masculino!” Os rapazes formavam um grupo numeroso que dançou uma música brasileira que eu ainda não tinha ouvido e cuja letra falava de masculinidade tóxica. Eles dançavam com beleza e força e, dentro da coreografia, interpretavam a mensagem que a letra da música nos oferecia. Aquela apresentação me impactou porque dava visibilidade à questão da masculinidade tóxica por meio da quebra de um estereótipo de gênero que era o fato dos homens estarem ali, naquele palco, dançando. E ainda que a letra da música tenha abordado apenas a ponta do iceberg da questão da masculinidade tóxica, um problema que afeta homens e mulheres e, consequentemente, toda a sociedade, a experiência de vê-los no palco naquela performance lançou holofotes sobre essa questão. E também sobre o “status quo” e sobre a quebra de paradigmas.

Se você pesquisar por aí sobre masculinidade tóxica, assim como eu fiz depois da apresentação dos meninos, vai ver que se trata do aprisionamento dos homens a um conjunto de comportamentos associados ao “masculino” e que são extremos e prejudiciais a eles próprios e à sociedade.

Lembro do meu pai lavando a louça da nossa casa quando eu era criança e se preocupando se alguma visita chegaria porque não ficaria bem para ele ser visto naquela tarefa doméstica. Como se o “cuidar” da casa fosse uma tarefa exclusivamente feminina. E, pior, como se essa tarefa inferiorizasse alguém. Em outro momento, recordo de assistir às aulas de judô das minhas filhas e testemunhar o pai de um dos meninos xingá-lo durante a luta porque ele não estava se saindo bem e dizer, dentre outras sandices: “Se não lutar direito, vou te levar para fazer balé” ou “Parece uma menininha lutando. Lute direito!”. Como se fazer balé fosse um castigo ou algo que o diminuísse. Ou como se lutar como uma menina fosse sinônimo de lutar mal. Eu torcia para que a criança lutasse melhor só para o pai parar de falar aquelas coisas. E torcia mais ainda para que a criança não chorasse. Afinal, todo mundo sabe que homem não chora… Essas cenas são apenas um “recorte” de uma vida inteira a testemunhar uma infinidade de situações como essas. Não condeno os protagonistas dessas histórias, encharcados que estavam de uma cultura que exigia deles uma série de comportamentos esperados do “ser homem”. Felizmente, eu não sou a única a levantar essa questão hoje em dia e vejo uma mudança crescente, principalmente vinda dos mais jovens.

Estereotipar pessoas a partir das expectativas que se têm sobre elas em virtude de alguma condição (porque é homem ou mulher, jovem ou velha, gorda ou magra, etc) é reflexo dos padrões de comportamento replicados de geração em geração como heranças culturais que recebemos e muitas vezes nem questionamos. Eu própria já fui enroscada na armadilha dos estereótipos por várias vezes. Estou sempre me policiando mas sei que escorrego vez ou outra em alguns dos rótulos que surgem como verdadeiras cascas de banana. Os rótulos estão por aí, em todos os lugares e para quase todas as situações e extrapolam “apenas” a questão do ser homem ou do ser mulher. Apesar de ter ilustrado aqui apenas algumas situações de estereótipos de gênero, nossa sociedade é permeada por muitos outros. Construamos menos rótulos e menos muros aprisionadores de pessoas. Sejamos mais abertos, tolerantes e empáticos com a complexidade e beleza das múltiplas formas de ser de cada um.

Resenha “Fiquei Com Seu Número, Sophie Kinsella, Editora Record, 8ª ed, setembro/2012”

Poppy é uma fisioterapeuta que trabalha com mais duas amigas em uma clínica e está noiva de Magnus, um intelectual membro de uma família de acadêmicos com publicações e programas de TV.

Magnus a surpreendeu com um pedido de casamento relâmpago, após um mês de relacionamento, ao lhe dar “O Anel”, uma joia presente há três gerações em sua família, que Poppy perde em um evento num hotel com as amigas. 

Além de perder o anel de noivado, tem seu telefone roubado e todo o desenrolar da história começa no momento em que ela encontra um telefone empresarial funcionando numa lata de lixo. Inusitado? Sim! Divertido? Também.

E, por conta do tal telefone que ela encontra no lixo, uma relação com o executivo Sam Roxton se estabelece. A maior de todas as dúvidas que a autora planta em nossa mente é: você seria capaz de dividir seu celular com outra pessoa? Dar a ela acesso completo a todas as suas mensagens? É isso que Poppy e Sam fazem, compartilham um mesmo celular.

Poppy tem diversas oportunidades de sair do enrosco que se meteu, mas se afunda cada vez mais em mentiras e dissimulação. Isso porque se sente inferior, especialmente quando está com a família de Magnus, por não ter um doutorado e publicações acadêmicas. E talvez porque ela tenha um grande desejo de ser amada. 

A autora me fez rir várias vezes, suas personagens são curiosas, engraçadas, cheias de falhas de caráter e, algumas vezes, um pouco ridículas. Notou alguma semelhança com a sua própria vida? Eu vejo o tempo todo. A cena em que Poppy dança I’m a single Lady, de Beyoncé, é de rolar de rir.

Os sufocos que a personagem passa nos divertem e geram empatia. É um livro leve e fresco, excelente para quando se quer um respiro. Uma verdadeira comédia romântica, deliciosa como a gente espera que seja. Não sei como ainda não virou filme! 

Sophie Kinsella é britânica, tem mais de vinte livros publicados, e uma de suas obras mais famosas e adaptada para o cinema é Os Delírios de Consumo de Becky Bloom. 

Amar

Amar é como um objetivo de vida
Ninguém vai fazer o outro feliz
Fazer feliz é uma responsabilidade só nossa
Ter companhia é bom mas não dá pra cobrar nada disso, não faz sentido

Ter um amor é como ter um hóspede em seu coração
Ele chega e traz consigo uma bagagem
Seu passado,presente e futuro

Amar é acima de tudo não atrapalhar que te ama
É entender as paixões
E curtir juntos sempre que for possível

Amar é um verbo que tem muitas conjugações
Pode ser como sorrir
Abraçar a pessoa amada
Ou simplesmente, escrever sobre e para ela

Amar é isso
Difícil de explicar
Fácil de entender
E incrivelmente intenso de se sentir

A vida em um abraço

Quem nunca recebeu um abraço apertado daqueles de quase quebrar os ossos deveria experimentar. Às vezes nenhuma palavra é suficiente para expressar um sentimento. Mais vale ele, simples, de graça, super fácil de dar. Quanto mais forte melhor.

É engraçado gente que não gosta de abraçar. Que se sente desconfortável ou algo assim. Fico pensando que devia haver uma pílula pra isso. A pílula do abraço. Você toma, perde a vergonha, e sai agarrando todo mundo. Eu distribuiria por aí, pelas ruas que passo, pra toda a gente. Na verdade, eu acho que deveria ser acessível no sistema público de saúde.

Um dia me peguei pensando nos que já recebi. Teve abraços de paixão, e também de despedida. Mas, ainda assim, só guardo boas lembranças de todos eles, porque são formas de amor, mesmo quando ele acaba.

Um abraço de mãe, de pai, de amigo, de namorado, tanto faz. Vale por todo um discurso! É como se por um instante a vida de duas pessoas se resumisse naquele carinho grudendo. Que se danem os tímidos, os reservados, os caretas. Vamos abraçar quem amamos, e amar quem abraçamos. Ai, que vontade…

Querido Basílio

Lisboa, um dia qualquer de junho

Querido Basílio,

O abismo entre nós fez minhas lágrimas secarem, porém, ainda sinto na boca o gosto frio do punhal da humilhação, da chantagem e do abandono que cravaste em mim.

Ainda me consumo de arrependimentos, quando lembro que devia ter deixado no passado, aquele amor que chamastes de “inclinação infantil”. Quem dera pudesse voltar no tempo e sepultá-lo junto com as promessas que não cumpriste.

Aliás, meu caro, iludir é tua especialidade. Com ares de aristocrata, fazia-me crer que minha vida era sem graça. No fundo, uma das tuas estratégias perversas para que eu me sentisse frágil e insegura, e tu, um grande homem. A bem da verdade não passavas de um almofadinha, soberbo e entediante.

Ah, quanto sofrimento eu teria evitado se não tivesse me rendido à luxúria que me consumia. Sucumbi! Não resisti ao toque das tuas mãos libidinosas em meu corpo febril de paixão, nem às palavras sedutoras que me fizeram conhecer o paraíso, tão somente para depois descer ao inferno.

Ingênua! Mil vezes estúpida! Nosso paraíso, era como chamavas aquele quarto vulgar e pestilento onde nos encontrávamos. Que decepção. Trataste-me como uma qualquer. Como me dói saber que não fui mais do que um capricho em tuas mãos e que, passada a novidade de me possuir, o que restou foi tédio, desprezo e dores febris.

Apaixonada, fui tua de corpo e alma. Uma presa fácil para Juliana e sua chantagem, que me fez viver o desassossego das trevas na Terra. E, mais uma vez, não cumpriste tuas promessas.

Jorge, pobre Jorge! Meu marido não merecia passar por tamanha vergonha. Ele sofre e eu mais ainda, pois continuo a remoer infidelidade e ingenuidade. Não tenho paz. Talvez nunca venha a tê-la. Quanto a ti, meu caro, garanto que também não terás um só instante de sossego. Estarei em teus pesadelos até que tu, ao despertares, estejas nas profundezas do inferno, que é o teu lugar.

Com rancor,

Luísa

Notas


As notas dedilhadas me transportaram para longe

Pude apreciar sorrisos, cores esfumaçadas que se misturaram e me trouxeram paz

Pude ver castelos lapidados pelas gotas da cera derretida

As pequenas chamas descobriram que sabiam dançar com a vibração dos sons

Além dos vitrais, pairava uma melancolia bucólica

Sorri no íntimo, intensamente agradecida

O sonho de escrever

Olhava para aquele arquivo de papel indecisa e insegura. Desde pequena, sempre teve o sonho de escrever estórias. Mas, pressionada pela família, resolveu fazer uma faculdade. Escolheu jornalismo, porque na sua cabeça era o menos diferente. Pelo menos, poderia narrar fatos, o que não era a mesma coisa, mas já quebrava um galho.

Durante anos então, sufocou seu desejo de ser escritora. Achava que, como repórter, sua alma já estava suprida, e poderia então dedicar o tempo que sobrava para a família e os amigos.

Até que um dia percebeu que tudo aquilo não fazia mais sentido. As matérias de índices, pesquisas, projetos… tudo aquilo parecia mais uma repetição do que propriamente algo que combinasse com sua alma de artista. Aqueles textos eram mais um rearranjo de informações do que propriamente uma criação original.

Todos os dias, sua vida parecia a mesma. Igualzinha.

Sentia-se sufocada!

Então, em um ímpeto de coragem e falta de sanidade, ela resolveu mexer naquela energia. Cancelou todas as entrevistas, deixou o chefe na mão, e correu para uma lan house.

Chegou lá com o coração aos pulos. Iria enfim colocar sua mente em algo criativo. Queria falar sobre a estória de uma garota que sonhava em ser escritora, como ela.

Colocou o login e a senha com as mãos tremendo. Abriu o word. E então… nada!

Nada!

Até que escreveu, no silêncio de se coração partido…

Olhava para aquele arquivo de papel indecisa e insegura.

Nosso encontro com Chico

Mal caía a tarde e eu começava a cantarolar os versos decorados do livro que eu não largava mais e que tinha tomado como meu. Passava o dia com o livro embaixo do braço, lendo-o e cantando com voz baixinha e aguda, quase um sopro, desafinando aqui e acolá, avançando corajosa nos versos recém-decorados. Meu olhar ansioso buscava aprovação e perguntava: “E aí, pai? Tô cantando bem? Viu que agora sei a música quase toda?” Ele, ainda com a roupa do trabalho, dava atenção às minhas urgências infantis, mesmo estando cansado da labuta. Nessa fase, a música preferida e que eu tentava decorar era “Maninha”: 

“Se lembra da fogueira?

Se lembra dos balões?

Se lembra dos luares dos sertões?

Eram tempos sem celular, sem as mensagens rápidas que vencem quilômetros em fração de segundos. Naquela época, para a audição doméstica, eu precisava esperar um dia inteiro para o meu pai chegar do trabalho, presencialmente, ao vivo e em cores. Tê-lo como plateia era suficiente. 

Não lembro o nome desse livro de estimação do qual me apropriei com menos de dez anos de idade. Mas recordo que se propunha a ter toda a obra de Chico Buarque de Holanda à época. Dentro da capa azul marinho e com a foto em preto e branco do Chico em perfil (pelo menos é assim que me lembro) havia letras de músicas e peças teatrais. Naquela época, ele ainda não havia publicado livros. 

Meu pai já era fã do Chico. E, por ser fã, sabia de histórias sobre ele e sobre as músicas que havia composto, o porquê de determinadas letras, as circunstâncias que inspiravam determinada música, etc. Eu absorvia com avidez aquelas histórias e me deixava flutuar nas ondas das músicas que vinham dos seus vinis ou fitas cassete. Aos domingos, acordava ao som da Rádio Universitária FM e tomava café da manhã enquanto uns sambinhas preenchiam despretensiosamente a manhã ensolarada. Era deliciosa essa atmosfera da manhã preguiçosa do domingo. Enquanto eu despertava em câmera lenta, meu pai estava a todo vapor, cuidando do quintal, regando as plantas e alimentando as galinhas com nome de gente e que não tinham a menor chance de irem para a panela porque não iríamos conseguir comer o Jabes ou a Zélia ou qualquer filhote deles.

Na adolescência, as músicas de crítica social eram as preferidas. Muitas faziam alusão ao tenebroso período da Ditadura Militar. Àquela altura, o livro antes inseparável tinha cedido a vez para outros da estante do meu pai, como “Brasil nunca mais”. Anos depois, começando os estudos que iriam desembocar em uma faculdade de engenharia, as músicas “Pedro, pedreiro” e “Construção” me chamavam atenção e me traziam a injustiça social em um cenário de canteiro de obras: “seus olhos embotados de cimento e lágrimas”.

Com o passar do tempo, e por motivos óbvios, o idealismo da adolescência cedeu espaço para as canções de amor que passaram a ocupar um espaço especial em minha playlist. Nas palavras do Chico, até a dor de cotovelo mais banal ganha poesia e, muitas vezes, a companhia de um sambinha , como em “Rita”:

“A Rita levou meu sorriso

No sorriso dela

Meu assunto

Levou junto com ela

E o que me é de direito

Arrancou-me do peito

E tem mais”

Dia desses estava dirigindo, levando minha caçula como passageira e tocou “Geni e o Zepelin”.  Uma música forte que nos escancara sobre como o corpo feminino pode ser tomado como um objeto e, pior, como a sociedade patrulha o que fazemos com ele. Disse para Bel prestar atenção na letra e, para minha surpresa, ela disse: “Eu já conheço, mamãe. Um professor passou na escola”. 

Em meados de Julho desse ano, eu soube que o Chico estaria em turnê e que viria à Fortaleza. Três meses depois, eu e meu pai, juntamente com meu marido e uma de minhas enteadas, fomos ver o Chico cantar algumas das músicas que nos embalaram ao longo das nossas vidas, juntos ou nas estradas solitárias que cada um precisou trilhar em diversos momentos. Passamos meses combinando esse encontro. Meu pai que é um leitor contumaz e que devora vários jornais por dia, já tinha me dado detalhes da turnê e me perguntado se eu conhecia a nova música que dava nome ao show: “Que tal um samba?”. Tratei de me atualizar sobre um Chico também atual, para além das clássicas canções que permearam minha infância, adolescência e começo da vida adulta.

Assistir a um show de quem se admira é uma experiência fantástica e emocionante. Meu pai nunca tinha tido a oportunidade de ver o Chico cantar ao vivo. Aos 83 anos, era a primeira vez dele (e minha). Então cada momento da experiência, desde a saída de casa até os aplausos finais e o cerrar das cortinas, foi saboreado em cada detalhe. Não posso deixar de registrar que o momento político e histórico da realização do show deixou a atmosfera ainda mais especial, em um festivo movimento coletivo de esperança e fé na democracia e na nossa liberdade de expressão.

Também não pude deixar de pensar que aquele encontro “presencial” com o Chico foi antecedido por vários “encontros” anteriores: nas leituras, nos vinis, nos CDs e no aplicativo de música… Também refleti o quão longo foi o nosso percurso desde aqueles fins de tarde em que eu cantava para meu pai até o dia do show, quando eu o levei pela mão para ver o que sempre desejou mas que ainda não tinha conseguido realizar. A música “Maninha” diz que “eu era tão criança e ainda sou”, o que é um pouco verdade. Naquele show, eu ainda era a criança cantando “Maninha” para meu pai ouvir. A diferença é que, dessa vez, junto à minha voz, havia a dele, a do Chico e de mais um tanto de pessoas na mesma vibração.

A última barca para Paquetá

Ela me ofereceu um cigarro tirado de uma cigarrilha cravejada de brilhantes. Eu havia envenenado meu fígado de muitas maneiras diferentes antes de me sentar naquela amurada, tinha acabado o happy hour e não consegui pegar a última barca pra Paquetá.

Aquela oferta me fez fixar o olhar em quem só de lado me fitava. Um mulherão da porra. Em outros tempos eu nem pensaria duas vezes em convidar pra esticar a noite. O vestido de paetê preto balançando de mansinho com a brisa que fazia chuá na baía, as unhas pontudas com a mais perfeita empunhadura, meu cérebro sem raciocinar, só reagindo àquela visão, e minha mulher esperando em casa.

Virei pro lado e senti quando ela tocou em meus dedos para aproximar seu cigarro do meu. Ela tava na minha, não fosse a maldita abelha que surgiu e ferrou com a minha noite e com meu braço esquerdo. Putz grila, que dor!

Levei o cigarro ao canto da boca pra afastar a maldita abelha. A mulher me provocando como se eu fosse o Casmurro e ela a Capitu, com seus olhos de cigana dissimulada. Jogou os cabelos e sussurrou algo que entendi um convite, um te vejo mais tarde.

Me dá seu telefone?

Eu te encontro, não precisa se preocupar…sei onde você mora…

Merda! Era alguma sacanagem, minha mulher deve ter contratado ela pra me espionar, só pode ser isso. A malandra deixou um rastro de fumaça e me impregnou de um cheiro de flor, eu conheço esse cheiro, mas não me vem agora.

Comecei a duvidar se era uma abelha ou um escorpião. A dor irradiava pro peito. E aí ouvi o apito. Uma barca extra para Paquetá era tão rara que me senti abençoado.

Certo, não podia perder essa, senão no dia seguinte eu não estaria aqui para contar essa história, minha mulher se encarregaria pessoalmente da minha morte. Pulei da amurada tão rápido que me senti com vinte anos outra vez.

As catracas estavam liberadas, nem paguei a passagem. O saguão na penumbra da noite, estação vazia, uma barca menor que as normais. Horário especial, barca especial, ok, ok.

Cumprimento os marinheiros que estão no convés e vejo o brilho do paetê sob uma luz difusa na área dos passageiros.

Ela me seguiu? Sabia quem eu sou?

Estaco em meu lugar com a voz do capitão que solicita meu bilhete.

Por quê? Quero saber.

Pra onde você vai?

Pra Paquetá.

Mostra o bilhete.

Não era um procedimento comum, mas eu topei. A noite também estava incomum. Boto a mão no bolso e puxo o bilhete, mas só tinha uma moeda de 1 real dourada, que o capitão disse que estava tudo bem por ele. Nunca foi tão barato dar uma propina. Olhei para o nome na tarjeta de identificação: Carontti O-. Italiano, com certeza. E tipo sanguíneo O negativo é raro. Hum! Minha mulher adora essas histórias de coincidência, quando chegar em casa e contar pra ela, vai ser um passa hora.

Falou que a mulher me esperava lá na frente, que uma dona como aquelas não se deixa esperando, pode ficar brava.

A barca serenou no mar, ajustando meu prumo que ainda sofria do efeito da bebida. Pisei fofo no chão, estufei o peito e ergui o queixo, ganhando confiança a cada passo.

Me sentei ao lado da dona, o cheiro impregnando minhas narinas. Queria perguntar algo a ela, seu nome, de onde me conhecia, mas ela fez um gesto sensual pedindo meu silêncio. Segurou meu rosto com as duas mãos e se encaminhou na minha direção, pronta para o beijo. Os lábios vermelhos carnudos me possuíam.

Então me lembrei de onde conhecia o cheiro. É crisântemo. Como eu pude esquecer? Não tem mulher esperando em casa. Ela se foi há 7 dias. Aquela sensação de tristeza invadindo o corpo, tomando conta de tudo. Por isso estava bebendo, não tinha nada para comemorar, uma sad hour. Acabou a missa na candelária, pensei em voltar, mas voltar para quem? Minha mulher, que saudade da minha mulher. Que falta ela me faz. Pra quem vou contar as histórias?

Afastei a moça com toda gentileza possível, a sensação de que o peito ia explodir a qualquer momento. Então meu coração parou, e não ouvi mais nada.

No dia seguinte a cabeça estava bastante dolorida, uma rebordosa de toda a cachaça da noite anterior. E o mais estranho, não sabia como tinha chegado em casa. A moça deve ter pedido para algum dos marinheiros me colocar no rumo, já que a maioria deles me conhecia na estação.

Uma mulher de meia idade me pergunta se estou sentindo alguma coisa.

Quem é essa mulher? Não consigo abrir muito os olhos, só ouço sua voz e sinto seus movimentos.

A mulher começa a mexer em algo ao lado da cama e falar animadamente. Diz que passei bem a noite depois do susto, que estava tudo bem, ainda em observação…

Minha cabeça dá voltas, eu não estou em casa, eu não estou… onde estou?

Ela me responde com condescendência, está no Salgado Filho, o senhor sofreu um infarto ontem na praça XV, foi trazido pelo Corpo de Bombeiros. Foi a vendedora de cachorro-quente quem lhe salvou, ela largou tudo e ficou até saber que o senhor estava fora de perigo. Uma moça linda.

Ela disse o nome?

Hum, parecia um nome saído de uma história bíblica… deixa eu ver, anotei aqui porque achei bonito demais: Samarra. Disse pro senhor não se preocupar, que vocês vão se encontrar em breve na barca.

Rocambole, recheio de amor

A cozinha é o meu lugar sagrado de magia, lembranças e meu cômodo preferido da casa. E é desse lugar a lembrança mais nostálgica que carrego comigo. A lembrança do Rocambole de Goiabada que minha mãe fazia, nas raras vezes em que cozinhava.

A receita é simples: massa de pão de ló e goiabada cremosa. De tão simples nunca consegui reproduzir a contento, por mais que eu tente. O bolo sempre fica ruim e a sensação que falta algo, me deixa frustrada.

Para Mia Couto “cozinhar é um modo de amar os outros” e, eu acrescento que, amar é entregar-se por inteiro. Na cozinha, assim como no amor, não há espaço para a avareza. Basta ver o exemplo de uma mãe que alimenta cada filho com o mesmo tamanho de porção, nem que para isso ela abra mão da sua parte. Pura magia. Ela multiplica não o que sobra, mas o que falta.

Essa intensidade me faz pensar sobre o que aprendi com minha mãe e seu rocambole. Em primeiro lugar, o pão de ló deve ser assado em fogo médio, assim como o amor que deve crescer aos poucos, dia a dia. Depois de assado, deixe esfriar e só então, coloque sobre um pano úmido, salpicado de açúcar e aconchegante como colo de mãe. Em seguida, distribua a goiabada cremosa por toda a superfície do bolo, é doçura na medida certa e agrada a todos.

Agora, é só enrolar o pão de ló com a ajuda do pano açucarado, em volta dele mesmo, até se transformar em um rolo uniforme. Igual fazem as mães com os seus bebês recém-nascidos para que eles fiquem seguros e confortáveis. O bolo é frágil e qualquer pressão mais forte pode fazê-lo rachar. Feito isso, retire o pano, acomode o bolo em uma travessa e já pode fatiá-lo.

Ansiosa, não via a hora de ganhar o meu pedaço de bolo. Mamãe fazia questão que cada uma recebesse o mesmo tamanho de fatia. E assim, aquele bolo era repartido com igualdade. Por isso, hoje sei que as mães amam igual, não existe filho preferido, nós é que somos diferentes uns dos outros, e elas sabem disso, mas o amor é o mesmo.

E a frustração com a receita? Simples, não é que o bolo fique ruim, como disse, a receita é simples, fácil e qualquer pessoa faz. O ruim é a falta que sinto da pessoa que fazia o rocambole e distribuía porções exatas de amor.