Música

És a soberana entre as artes

Por entre tuas notas, viajo

Voo leve, ou mergulho

Em um mundo mágico e obscuro

Sinto vibrar pelo meu corpo

– quase morto

E renasço em ti

Posso estar em um jardim

Repleto de flores

Ou em um deserto

Com os pés fundos na areia

Música que me liberta

A ti faço esta homenagem

Na solidão do isolamento sem fim

Tu me afagas

Me conduz a outros mundos

Sinto-me tocada como em sexo

Sinto-me amada, em teus versos

Trazes a mim uma espécie de transe

A alma: GRITA

Ahhhh

E me lembras que existe algo além de morte e tristeza

A vida pode nos oferecer também

– beleza

E se refaz

Enfim…

Crédito da imagem: Pexels

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

ABRAÇO

Eu, que nunca soube me despedir…

Talvez ainda não o saiba.

Talvez não hei de saber.

Eu, que nunca deixei de dizer que te amo…

Ainda não deixo.

E nunca deixarei.

Eu, que te olhava nos olhos

e enxergava sua alma…

Ainda te olho.

Ainda te vejo.

Ainda te olharei com esse amor

que lhe transbordava o peito.

Eu, que te abraçava…

Continuo a te abraçar.

E te abraçarei…

Como “ontem” te abracei.

Como a saudade nos abraça.

Te abraçarei pra sempre.

Eu, que nunca soube me despedir…

Talvez não o saiba.

Talvez não hei de saber.

(Lívia Maria – 25/07/2020)

Crédito da imagem: Arquivo pessoal Lívia Maria

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

AGENDA RABISCADA

         A caneta na minha mão e a agenda sendo rabiscada; e é tantos rabiscos que tem que não daria para contar em um curto tempo. Sempre tenho por perto e nela há centenas de frases, algumas até rasuradas e que dão desafio para ler. Sim, porque não são trechos de sentimentos recentes; há coisas que pensei tempos atrás.

         Dia desses me perguntaram se era um diário onde a minha vida mais íntima estaria na ponta das letras. Não, não era esse tipo de agenda ou diário que guarda pelas linhas histórias de amor. Mas, eram sentimentos de diversos tipos e situações colocados ali nos pedaços de papel.

         Rabiscos de vidas e vontades que existiram e perdeu sua importância, casos e histórias vividas e de sonhos que ainda não foram iniciados. Quando tiro tempo para ler o passado descrito nas linhas de uma agenda rabiscada surge na memória um contraste de pensamentos diferentes de tempos distintos.

         Parando para pensar vejo com mais entusiasmo como é bom relembrar nossos pensamentos vindos  através da escrita de outros tempos.


Crédito da imagem: Foto por Ketut Subiyanto em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

O homem perfeito existe?

“Qualidades imprescindíveis: estar disponível, ser honesto e bem humorado, morar nos arredores, ter uma aparência agradável, ser carinhoso e bom de cama (com a minha pegada!) que transite entre o amante romântico e o amante voraz, que tenha fantasias e as desperte, que mande bem no sexo oral (que raridade!), que me respeite como mulher inteligente e empoderada, que seja inteligente e empoderado, de bem com a vida e estabilizado financeiramente (que já tenha saído da casa dos pais ou dos filhos!) que tenha amigos e seja querido por eles e pela família, que goste de dançar e de se divertir, que cante no chuveiro ou no caraoquê, que goste de esportes mesmo que não pratique nenhum, que goste de crianças e de cães e gatos, que não fume (venenos industrializados!)  e beba socialmente, que seja espirituoso e espiritualizado, que tenha um poder superior para acreditar, que seja do BEM, um eterno aprendiz, aberto às descobertas e sem preconceitos, que sorria sempre, seja responsável mesmo que a criança interior sempre esteja à mostra, que curta o pôr do sol, goste de namorar e enamorar, que ande de mãos dadas, que goste de viajar, de conhecer lugares e gentes, que leia livros e comente sobre eles, que escreva e se liberte através das letras, que seja eclético tanto na música quanto no cinema, que respeite e ame minha filha (MEU BEM MAIOR!), que seja verdadeiro, coerente, fiel, cúmplice, que tenha firmes propósitos, bom caráter, que exercite seus valores morais e éticos, que já tenha filhos (e talvez até netos!), que seja de um signo que combine com o meu (agora sei que câncer seria perfeito pra peixes!), cabelos macios ou nenhum (amo carecas!). Características inaceitáveis: mau humor, ignorância, desonestidade, infidelidade, qualquer tipo de desrespeito comigo ou com minha filha, grosseria, ciúme, fumante.”

Escrevi esse texto em 14/06/2009 e agora dei umas ajustadas, mas o que surpreende é dizer que ao longo desses 13 anos não encontrei esse homem. Porque é tão difícil? Essas qualidades que tanto buscava na verdade são minhas, e se é possível uma mulher ser assim, porque fica tão difícil encontrá-las num homem? Não sei a resposta, e agora também não o busco mais (mas acredito que posso esbarrar nele a qualquer momento, rs!.

Hoje procuro a felicidade nas minhas realizações diárias e corriqueiras. O foco ainda é o profissional e o bem estar, mas já andei paquerando nas minhas andanças. Os catarinenses em sua maioria tem olhos azuis e pouca escolaridade, os mais inteligentes que conheci (mestres e doutores em educação) são gays e comprometidos e bem lindos!

Na verdade o que importa é viver um dia de cada vez, consciente do que quero pra mim e determinada a conquistar! O universo tem mandado só coisas boas e maravilhosas pra minha vida nos últimos tempos e quero usufruir todas elas com a melhor companhia do mundo: eu mesma!

Navegantes, 27 de março de 2022.


Crédito da imagem: 
Pexels

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

A FORTALEZA DE PLÁSTICO

O domingo passou como um relâmpago. Lá fora, a chuva intensa dissolvia tudo ao redor, carregando a água caudalosa que corria apressadamente pelo asfalto. As luzes dos postes foram acesas e me fizeram despertar para o fim do dia que já batia a nossa porta. O fluxo luminoso emanado pelas lâmpadas permitia enxergar as finas linhas de chuva em seu trajeto em diagonal. Dei uma espiadela na Avenida Aguanambi e observei por alguns instantes o trânsito calmo, típico de um domingo em seu fim de tarde. Imaginei as famílias saindo para a missa ou para o cinema, apesar da chuva, seguindo suas vidas normalmente, alheias ao que acontecia a poucos metros dali, dentro do hospital.

Uma enfermeira entrou no quarto sem cerimônia, acendendo as luzes fortes sobre o leito e trazendo os remédios do início da noite. Levantei-me apressadamente para dar passagem e desliguei a TV que despejava sobre nós os programas dominicais enfadonhos e que ninguém estava prestando atenção. Como de costume, perguntei o que ia ser dado e ela listou, uma por uma, cada droga que seria administrada. Minha mãe virou lentamente a cabeça em minha direção e seu olhar era de quem pedia autorização, como que esperando meu consentimento para aceitar receber os medicamentos. Ela tinha um temor antigo de erro médico dentro de hospital, fruto de tantas notícias dessas que escutou ao longo da vida. Eu consenti com a cabeça e um sorriso, sinalizando que estava tudo bem e que ela podia confiar. A enfermeira pegou um canudinho e passou a dar a ela, um por um, cada comprimidinho por dentro do orifício do capacete Elmo.

Há apenas dois dias atrás, nós chegamos a aquele hospital. Quando eu viajei 60 quilômetros para pegá-la e trazê-la para Fortaleza, naquela tarde de angústia, sabia que era a coisa certa a se fazer. Ficamos internadas desde então. Ela, como paciente com COVID-19; eu, sua acompanhante. Em apenas dois dias, vi ao vivo e em cores todo aquele calvário que até então eu só havia visto no noticiário: a busca por um leito hospitalar, o agravamento rápido da sua condição de saúde, apesar de vacinada, a necessidade de aporte complementar de oxigênio… Ela havia entrado para a estatística como mais uma cearense em estado grave por conta da COVID-19. Seus pulmões, sadios até então, sucumbiram a aquele vírus estranho e traiçoeiro e os aportes de oxigênio que ela vinha recebendo desde a internação não estavam sendo suficientes para a reversão do quadro que se deteriorava rapidamente.

Seu semblante se assustava a cada chegada dos médicos que traziam os resultados dos últimos exames e reavaliavam a conduta aplicada. Na véspera, a médica havia dito que ela precisaria começar a utilizar o Elmo. “Com a COVID a gente não perde tempo”, ela disse. Eu demonstrei serenidade, olhei para minha mãe com segurança e confiança e disse: “Lembra do Elmo, mãe? Aquele capacete criado aqui no Ceará? Ele é muito bom! Vai lhe ajudar muito!”

Eu já tinha ouvido falar muito bem do Elmo e do sucesso dele no tratamento de casos graves da COVID-19. Quando as primeiras notícias sobre a criação do Elmo começaram a circular, eu me senti tão orgulhosa por saber que uma invenção genuinamente cearense estava ajudando a salvar vidas na pandemia! Mal sabia que eu conviveria tão de perto com ele durante dias de expectativa, tensão e medo.

Apesar da esperança que o Elmo representava e da confiança que eu tinha de que seria o melhor caminho para o tratamento dela, a indicação do capacete sinalizava que estávamos entrando, naquele momento, no corredor escuro da última tentativa antes de uma possível intubação. O fantasma da intubação estava à espreita. O uso do Elmo gerava um sentimento de medo pela proximidade de uma intubação mas, ao mesmo tempo, de esperança de que ele reverteria o quadro. Diferentemente da intubação, o Elmo não era o fim do túnel, era a antessala. E estávamos, eu e ela, dispostas a fincar o pé naquela salinha pequena que era o capacete.

A enfermeira saiu e chamou a fisioterapeuta para mais uma checagem do Elmo. A chegada da fisioterapeuta era ansiosamente esperada porque era ela que ajustava o Elmo, regulava o fluxo de oxigênio e ajustava as faixas que fixavam o Elmo ao pescoço. Ainda que o Elmo fosse feito, em sua câmara principal, de uma espécie de plástico flexível, cada vez que a paciente se mexia, a depender da posição, uma fuga de ar poderia acontecer. E essa fuga, além de prejudicar o aporte de oxigênio desejado, causava desconforto a paciente.

Eu soube que no hospital em que estávamos havia um andar inteiro só de pacientes com Elmo e que lá tinha fisioterapeutas disponíveis 24 horas por dia. Contudo, quando chegamos ao hospital, este andar estava com todos os leitos ocupados e minha mãe teve que ser internada em outra ala. Assim, os fisioterapeutas do nosso andar não eram exclusivos, principalmente à noite. Então, sempre que eles entravam na nossa enfermaria, com seu uniforme verde escuro e paramentado com seus equipamentos de proteção (ou seriam trajes de guerra?), personificávamos neles a ciência e a técnica que poderiam ajudar a todas naquele quarto: tanto as doentes como as acompanhantes sedentas pela melhora delas.

A fisioterapeuta ajustou o Elmo e minha mãe conseguiu achar uma posição confortável para tentar cochilar. Eu também me aninhei em uma cadeira reclinável que posicionei de frente ao monitor da saturação dela. Olhar todo o tempo para o monitor, vendo a dança oscilatória dos valores da saturação deixava-me tensa. Às vezes os números caiam repentinamente e o monitor disparava um alerta sonoro. Eu me colocava a aguardar ansiosamente que subissem e estabilizassem, em segundos que duravam uma eternidade. Quanto tempo de saturação aquém do esperado seria prejudicial para ela? Espero por quanto tempo? Chamo alguém agora para aumentar o aporte de oxigênio? Acompanhar um doente nesse estado requer sangue frio e racionalidade.

E o cansaço, o medo e a insegurança? Guardo onde? Em uma gavetinha escondida até de mim mesma, para não cair na tentação de me lamentar, não ter pena de mim mesma e não abater a fortaleza que preciso ser nesse momento.

Lembro que no começo da pandemia os acompanhantes de pacientes com COVID não eram permitidos nos hospitais. Hoje em dia, com a vacinação, a realidade era outra. Eu, vacinada e recém-saída de uma COVID leve, tinha o privilégio de poder estar ali, apesar de tudo. Como diz minha mãe, “a tudo demos graças a Deus”.

Olhei ao redor e após alguns minutos de luz apagada, abri um pequeno pedaço da cortina para que a luz da lua iluminasse um pouquinho o ambiente. A chuva tinha passado e o vidro molhado da janela deixou meu reflexo cheio de pontinhos. Em meu rosto, as olheiras escuras davam o tom do cansaço da lida. As ruas estavam desertas. Lá embaixo, contudo, o movimento de pessoas e ambulâncias prosseguia, mas em um ritmo menos intenso. A luz que vinha da rua deixou o quarto menos escuro. Ao redor, a cena das pacientes com seus Elmos remetia mais a uma viagem espacial, como se estivessem com seus capacetes transparentes de astronauta, explorando um ambiente desconhecido e hostil. Talvez estivessem mesmo na lua, em sonho, flutuando leves carregadas pelo oxigênio fresquinho que seus Elmos lhes forneciam. Felizmente, estavam serenas, com os olhos fechados, parecendo dormir como crianças que receberam o carinho derradeiro da mãe. Nem pareciam as mesmas que vi durante o dia, de olhos arregalados, queixando-se da sua condição ou clamando por um alento qualquer que minimizasse aquele sofrimento, fosse por meio de um tranquilizante ou até mesmo de uma chamada de vídeo com uma pessoa querida.

Mal fechei os olhos e o dia logo amanheceu, o que é muito bom para uma noite em um hospital. Sem intercorrências nem desassossego. Acordei com minha máscara ao chão e um bom dia ensolarado da técnica em enfermagem que estreava no turno.

O céu despertou claro e de um azul terno, sem as nuvens escuras do dia anterior. Finalmente um dia que fazia jus à Terra do Sol, que também é terra de gente que resiste bravamente às dificuldades e inventa capacetes de ar.

Minha mãe também despertou e, ao me ver, sorriu. Seu rosto estava abatido por dentro do capacete. A luta que ela travava contra o vírus era árdua e cheia de incertezas. Contudo, eu sabia que ainda que o Elmo tivesse suas limitações no tratamento, era ele que estava permitindo que ela ainda estivesse ali comigo, na enfermaria e consciente, respirando com o apoio dele, e não intubada. Agradeci a Deus pelo ar que entrava em meus pulmões naquele momento através da minha máscara N95. Sorvi-o profundamente e com prazer, por mim e por ela, fazendo dele um refrigério também para minha alma, acalmando-me e preparando-me para mais um dia no hospital, na esperança convicta de que tudo isso seria revertido em breve. 

Nosso café da manhã chegou e o mingau que ela tanto gostava estava quentinho. Perguntei se ela já queria e ela disse que sim. Tirei o orifício do Elmo que já tinha aprendido a manusear e coloquei o canudinho em sua boca. Ela sorvia com gosto enquanto eu observava os níveis de saturação já que o orifício do Elmo estava destampado, diminuindo a pressão interna. Tudo tranquilo.

“Vai dar certo”, como diz a frase espalhada em todo lugar em Fortaleza, nas fachadas, faixas e lixeiras.

Naquele momento, nossa fortaleza era um castelo cearense bem pequeno e transparente. É tão cearense que só faltava ser adornado com renda de bilro ou com estampas de coqueiros e carnaúbas. Nossa fortaleza, nosso “bunker” de proteção, era o capacete Elmo.


Crédito da imagem: Foto por Tatiana Fortes, ASCOM Governo do Ceara. Disponível em https://www.ceara.gov.br/2021/06/09/presente-em-quase-todo-o-brasil-capacete-elmo-ja-tratou-quase-tres-mil-cearenses-na-rede-publica-em-seis-meses__trashed-2/

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

TERRA INCÓGNITA

Em minhas expedições urbanísticas conheci muitas cidades. Uma delas, particularmente, marcou minha existência, pois sou fruto de suas terras férteis. Como filha egressa, cravei minha bandeira em muitos territórios, mas chegou o dia em que se tornara imprescindível tornar à casa, conhecê-la novamente, e narrar suas idiossincrasias com meu olhar de viajante.

Quando avistei Brites pela primeira vez era ainda uma cidade jovem. Inspirava paixão nos viajantes com seus jardins floridos, suas pedras empilhadas que contavam histórias, um ar primaveril do sol poente alaranjado.

Brites tem mulheres varrendo calçadas, homens cuidando de passarinhos em gaiolas, paredes caiadas de branco em ruas estreitas e sinuosas. Um comércio de pequenos estabelecimentos que te convidam ao ingresso e à cachaça – a falar das coisas corriqueiras da vida – pontuam aqui e ali, salteando em coloridos letreiros.

O vento é como um sussurro que traz promessas de amor, descortinando sua natureza travessa e sedutora. As cortinas de renda que fogem pelas janelas ora cobrem, ora revelam, saletas onde a música mora e teima em escapar.

Ela encanta por sua cultura variada, suas livrarias e bancas de jornais, das enciclopédias às revistas de famosos. E quando um viajante se senta em suas pedras com um livro, são as pedras que te recontam as histórias do povo daquele lugar, de mulheres de cabelos crespos envoltos em lenços coloridos, de homens que saem para construir novas cidades. Aprecie o momento.

Quando se vê Brites é impossível não sorrir diante das suas nuances esculturais, pictóricas, icônicas. Brites é um signo cheio de significados. E como tudo que envelhece, voltar à essa cidade anos mais tarde é voltar ao seu colo caloroso, vislumbrar teu sorriso e ouvir tuas promessas de amor, mas saber que seus sonhos de viajante nunca serão concretizados. Uma vez que tenha partido, você se tornará um eterno forasteiro.

Falar de Brites é evocar a memória de sua juventude admirando árvores frondosas. É saber que os anos passaram, mas a cidade se comporta como se nada a tivesse afetado, nem o sol inclemente, nem o vento forte, nem a poeira que sobe das vassouras.


Crédito da imagem: Foto por Element5 Digital em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

RAIZ DE BILRO

Canto da jandaia, Alencar te definiu.
Ara ou Arara, és ninho e periquito.
num assobio, Ceará.
de anônimos e imortais.

Tua identidade múltipla, jangadeiro
jangada etérea em Patativa
abrigas Caatinga, em ti ouve-se ao longe
os sons Tupí e Jê negociando a Tatajuba
a Oiticica, o Algodão Bravo.

Teu povo sabe das armadilhas da seca.
tórridas manhãs de sementes mortas.

Ceará das chapadas, serras
rios , açudes, soldadinho - do- araripe
e uirapuru-laranja, de matas e cocais
talhados na madeira
pinturas nos jarros adornados
e garrafas coloridas
brilham nos olhos
incrédulos de tal beleza .

Ceará, tua gente fez do cipó
admiração para teu país.
o estrangeiro rende-se à tua renda,
às artes nascidas da Carnaúba e Aroeira.

São muitos os caminhos descalços
onde sangram os pés de teus filhos
naturais ou adotados, chegados ou fugidos.
Caminhos, feito renda intrincada no bilro
milagre nas mãos falantes, lacrimosas
das bocas cantadeiras de tuas rendeiras.

Ceará, de metrópoles
e cidades de única avenida.
em tuas confusas ruas
mambembes nos sinais
minúsculos shows,
a arte e a morte em convívio.
ebulição dos camelôs
no centro abafado
que pára numa esquina.
não acredita no que vê.

Ceará, da palha das barracas ou
do barro dos lares esquecidos
ao mármore dos shoppings.
da ebulição dos camelôs
no centro abafado
que para numa esquina,
sem acreditar no que vê.

Muitos, teus braços e pernas
nos salões de dança sensual
conversas hilárias.

Ceará do almoço apetitoso
com sumo da cana moída
e pastel dos deuses.
do gosto doce da carne de caranguejo
das multidões nos ônibus
das lotações. carros de luxo
sufocados pelo escaldo dos asfaltos
e pela inexorável modernidade
dos teus empreendedores.

Ceará, com o mesmo olhar
contemplas mar lua internet.
adentras em trilhas da Meruoca,
no frio de Viçosa, na fé em Canindé,
em Juazeiro do meu Padim Ciço.
teu povo paga promessas que não fez.
jura que é feliz, porque sois seara, sois Ceará.


Crédito da Imagem: Foto por Sunsetoned em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

AINDA PREFIRO AMAR NESTE MUNDO DE GUERRAS

Sempre fui do tipo de pessoa que gosta das coisas feitas do meu jeito, uma workaholic literalmente falando, eu vivi muitos anos sendo minha única pessoa de segurança, sendo meu próprio porto seguro. Sigo assim.

Eu já gostei de alguém, uma, duas, três vezes. Essas pessoas têm um espaço na minha vida até hoje, eu não preciso dizer nada sobre isso pois as ações deixam claro. Ouvi dizer que o amor é algo super complexo, sinceramente o amor é a simples existência.

Só o fato de alguém ter me colocado neste mundo para viver uma vida boa é o maior ato de amor que pode existir, o amor é mais que palavras, são ações necessariamente inclusas no ato da vida. Eu aprendi a amar, a me amar e respeitar meus limites, aprendi que nem tudo vai sair como eu quero porém estará tudo bem.

A vida é o maior aprendizado que uma pessoa pode adquirir, é como um livro em lançamento que anseia por ser lido, é a própria história contada em várias versões por uma mesma pessoa em contextos diferentes.

Enxergo o mundo como uma oportunidade de seguir planos e conquistar objetivos passando por obstáculos naturais ou não, mesmo assim vivendo. Sabendo do que se trata. Amando.


Crédito da Imagem: Foto por Natalie Dmay em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

UM CAFÉ E UM ANSIOLÍTICO, PELO AMOR DE DEUS AGORA.

Cinco da tarde.

Faltam apenas trinta minutos para terminar o expediente. Mas o número de declarações para fazer ainda é enorme. Período de imposto de renda é intenso, não dá para negar trabalho.

Lembro-me da roupa que esqueci na máquina de lavar quando saí de casa. Terei que bater de novo. E também que tenho que colocar o lixo para fora, e tirar o resto de comida velha da geladeira. Há dias que só janto comida pedida pelo aplicativo.

Penso que deveria ter tirado a hora de almoço para correr na academia, mas cadê a disposição? Engoli a comida em apenas 20 minutos e preferi voltar para o batente. Devo ter alguma espécie de vício em trabalho”.

Vejo minhas unhas.

Um horror.

O vermelho está corroído e gritando por uma acetona. Tentarei tirar em casa antes de dormir se o cansaço me der uma chance.

Sem tempo para salão.

Sem tempo para atividade física.

Sem tempo para mim.

O relógio bate cinco e meia em um piscar de olhos. “Meu Deus, quanto tempo perdi perdida no enrosco do meu próprio pensamento”!

Acho que farei 30 minutos a mais para compensar….

Passam-se 15.

Desisto.

Minhas mãos tremem. Sinal daquilo que a médica já me avisou, mas insisto em negar. “Imagina se eu teria algum problema psicológico”!

Pego meu blazer velho e corro para o ponto do ônibus. Depois de perder uns dois por simplesmente ser ignorada pelos motoristas (afê maria), consigo um, daqueles bem cheios. Tento encontrar um espaço minimamente confortável, mas tá difícil.

Suo.

Limpo o suor que escorre pelo rosto com a camisa. Verão do Rio de Janeiro nem à noite dá trégua.

Meu coração acelera. As mãos movimentam-se novamente sem controle. Lembro-me da médica. Sinto medo. Será que aquilo é verdade? Vou entrar para a geração dos tarjas pretas?

O celular toca. Tenho vontade de gritar. Meu Deus, por que não me mandam zap?!

Atendo.

Meu cachorro fugiu pelo corredor e os vizinhos estão revoltados. Que merda! Na correria, devo ter esquecido a porta destrancada…

Trabalho, lixo, roupa, comida, cachorro, minha vida, quem sou eu, até quando isso dura… Trabalho, lixo, roupa, comida, cachorro, minha vida, quem sou eu, até quando isso dura…

… meu cérebro está em looping.

Passo do ponto. Desço correndo, já em plena crise daquilo que persisto em negar.

***

De repente, me vejo sentada na mesa de um boteco. Nem sei como fui parar ali. Uma garçonete velha e cansada me atende. Aparenta ser uns 10 anos mais velha que eu. Tem seios fartos, espalhados por um sutiã apertado, e um decote grande. Me perco prestando atenção em suas linhas. Ela pergunta aborrecida.

– O que você quer?

Respondo desanimada, já no limite das minhas forças.

– Um café…

((… um café e um ansiolítico, pelo amor de Deus mulher!!))


Crédito da imagem: Foto por Ahmed em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

SONETO ÀS PALAVRAS MORTAS.

Arranquei as páginas do diário
Pequenas e frágeis
Momentos livres
Eximidos dos seus próprios pesos

Arranquei as notas frágeis
De uma canção antiga
O silêncio dolorido
Suavizando o compasso

Agora há abismo em suas páginas
Um dia inexistente
Amanhecido e anoitecido em segundos

Folhas sem pautas
Pequenos pedaços da mudez
Contidas na cadência do soneto.


Crédito da imagem: Foto por Alina Vilchenko em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”