A FORTALEZA DE PLÁSTICO

O domingo passou como um relâmpago. Lá fora, a chuva intensa dissolvia tudo ao redor, carregando a água caudalosa que corria apressadamente pelo asfalto. As luzes dos postes foram acesas e me fizeram despertar para o fim do dia que já batia a nossa porta. O fluxo luminoso emanado pelas lâmpadas permitia enxergar as finas linhas de chuva em seu trajeto em diagonal. Dei uma espiadela na Avenida Aguanambi e observei por alguns instantes o trânsito calmo, típico de um domingo em seu fim de tarde. Imaginei as famílias saindo para a missa ou para o cinema, apesar da chuva, seguindo suas vidas normalmente, alheias ao que acontecia a poucos metros dali, dentro do hospital.

Uma enfermeira entrou no quarto sem cerimônia, acendendo as luzes fortes sobre o leito e trazendo os remédios do início da noite. Levantei-me apressadamente para dar passagem e desliguei a TV que despejava sobre nós os programas dominicais enfadonhos e que ninguém estava prestando atenção. Como de costume, perguntei o que ia ser dado e ela listou, uma por uma, cada droga que seria administrada. Minha mãe virou lentamente a cabeça em minha direção e seu olhar era de quem pedia autorização, como que esperando meu consentimento para aceitar receber os medicamentos. Ela tinha um temor antigo de erro médico dentro de hospital, fruto de tantas notícias dessas que escutou ao longo da vida. Eu consenti com a cabeça e um sorriso, sinalizando que estava tudo bem e que ela podia confiar. A enfermeira pegou um canudinho e passou a dar a ela, um por um, cada comprimidinho por dentro do orifício do capacete Elmo.

Há apenas dois dias atrás, nós chegamos a aquele hospital. Quando eu viajei 60 quilômetros para pegá-la e trazê-la para Fortaleza, naquela tarde de angústia, sabia que era a coisa certa a se fazer. Ficamos internadas desde então. Ela, como paciente com COVID-19; eu, sua acompanhante. Em apenas dois dias, vi ao vivo e em cores todo aquele calvário que até então eu só havia visto no noticiário: a busca por um leito hospitalar, o agravamento rápido da sua condição de saúde, apesar de vacinada, a necessidade de aporte complementar de oxigênio… Ela havia entrado para a estatística como mais uma cearense em estado grave por conta da COVID-19. Seus pulmões, sadios até então, sucumbiram a aquele vírus estranho e traiçoeiro e os aportes de oxigênio que ela vinha recebendo desde a internação não estavam sendo suficientes para a reversão do quadro que se deteriorava rapidamente.

Seu semblante se assustava a cada chegada dos médicos que traziam os resultados dos últimos exames e reavaliavam a conduta aplicada. Na véspera, a médica havia dito que ela precisaria começar a utilizar o Elmo. “Com a COVID a gente não perde tempo”, ela disse. Eu demonstrei serenidade, olhei para minha mãe com segurança e confiança e disse: “Lembra do Elmo, mãe? Aquele capacete criado aqui no Ceará? Ele é muito bom! Vai lhe ajudar muito!”

Eu já tinha ouvido falar muito bem do Elmo e do sucesso dele no tratamento de casos graves da COVID-19. Quando as primeiras notícias sobre a criação do Elmo começaram a circular, eu me senti tão orgulhosa por saber que uma invenção genuinamente cearense estava ajudando a salvar vidas na pandemia! Mal sabia que eu conviveria tão de perto com ele durante dias de expectativa, tensão e medo.

Apesar da esperança que o Elmo representava e da confiança que eu tinha de que seria o melhor caminho para o tratamento dela, a indicação do capacete sinalizava que estávamos entrando, naquele momento, no corredor escuro da última tentativa antes de uma possível intubação. O fantasma da intubação estava à espreita. O uso do Elmo gerava um sentimento de medo pela proximidade de uma intubação mas, ao mesmo tempo, de esperança de que ele reverteria o quadro. Diferentemente da intubação, o Elmo não era o fim do túnel, era a antessala. E estávamos, eu e ela, dispostas a fincar o pé naquela salinha pequena que era o capacete.

A enfermeira saiu e chamou a fisioterapeuta para mais uma checagem do Elmo. A chegada da fisioterapeuta era ansiosamente esperada porque era ela que ajustava o Elmo, regulava o fluxo de oxigênio e ajustava as faixas que fixavam o Elmo ao pescoço. Ainda que o Elmo fosse feito, em sua câmara principal, de uma espécie de plástico flexível, cada vez que a paciente se mexia, a depender da posição, uma fuga de ar poderia acontecer. E essa fuga, além de prejudicar o aporte de oxigênio desejado, causava desconforto a paciente.

Eu soube que no hospital em que estávamos havia um andar inteiro só de pacientes com Elmo e que lá tinha fisioterapeutas disponíveis 24 horas por dia. Contudo, quando chegamos ao hospital, este andar estava com todos os leitos ocupados e minha mãe teve que ser internada em outra ala. Assim, os fisioterapeutas do nosso andar não eram exclusivos, principalmente à noite. Então, sempre que eles entravam na nossa enfermaria, com seu uniforme verde escuro e paramentado com seus equipamentos de proteção (ou seriam trajes de guerra?), personificávamos neles a ciência e a técnica que poderiam ajudar a todas naquele quarto: tanto as doentes como as acompanhantes sedentas pela melhora delas.

A fisioterapeuta ajustou o Elmo e minha mãe conseguiu achar uma posição confortável para tentar cochilar. Eu também me aninhei em uma cadeira reclinável que posicionei de frente ao monitor da saturação dela. Olhar todo o tempo para o monitor, vendo a dança oscilatória dos valores da saturação deixava-me tensa. Às vezes os números caiam repentinamente e o monitor disparava um alerta sonoro. Eu me colocava a aguardar ansiosamente que subissem e estabilizassem, em segundos que duravam uma eternidade. Quanto tempo de saturação aquém do esperado seria prejudicial para ela? Espero por quanto tempo? Chamo alguém agora para aumentar o aporte de oxigênio? Acompanhar um doente nesse estado requer sangue frio e racionalidade.

E o cansaço, o medo e a insegurança? Guardo onde? Em uma gavetinha escondida até de mim mesma, para não cair na tentação de me lamentar, não ter pena de mim mesma e não abater a fortaleza que preciso ser nesse momento.

Lembro que no começo da pandemia os acompanhantes de pacientes com COVID não eram permitidos nos hospitais. Hoje em dia, com a vacinação, a realidade era outra. Eu, vacinada e recém-saída de uma COVID leve, tinha o privilégio de poder estar ali, apesar de tudo. Como diz minha mãe, “a tudo demos graças a Deus”.

Olhei ao redor e após alguns minutos de luz apagada, abri um pequeno pedaço da cortina para que a luz da lua iluminasse um pouquinho o ambiente. A chuva tinha passado e o vidro molhado da janela deixou meu reflexo cheio de pontinhos. Em meu rosto, as olheiras escuras davam o tom do cansaço da lida. As ruas estavam desertas. Lá embaixo, contudo, o movimento de pessoas e ambulâncias prosseguia, mas em um ritmo menos intenso. A luz que vinha da rua deixou o quarto menos escuro. Ao redor, a cena das pacientes com seus Elmos remetia mais a uma viagem espacial, como se estivessem com seus capacetes transparentes de astronauta, explorando um ambiente desconhecido e hostil. Talvez estivessem mesmo na lua, em sonho, flutuando leves carregadas pelo oxigênio fresquinho que seus Elmos lhes forneciam. Felizmente, estavam serenas, com os olhos fechados, parecendo dormir como crianças que receberam o carinho derradeiro da mãe. Nem pareciam as mesmas que vi durante o dia, de olhos arregalados, queixando-se da sua condição ou clamando por um alento qualquer que minimizasse aquele sofrimento, fosse por meio de um tranquilizante ou até mesmo de uma chamada de vídeo com uma pessoa querida.

Mal fechei os olhos e o dia logo amanheceu, o que é muito bom para uma noite em um hospital. Sem intercorrências nem desassossego. Acordei com minha máscara ao chão e um bom dia ensolarado da técnica em enfermagem que estreava no turno.

O céu despertou claro e de um azul terno, sem as nuvens escuras do dia anterior. Finalmente um dia que fazia jus à Terra do Sol, que também é terra de gente que resiste bravamente às dificuldades e inventa capacetes de ar.

Minha mãe também despertou e, ao me ver, sorriu. Seu rosto estava abatido por dentro do capacete. A luta que ela travava contra o vírus era árdua e cheia de incertezas. Contudo, eu sabia que ainda que o Elmo tivesse suas limitações no tratamento, era ele que estava permitindo que ela ainda estivesse ali comigo, na enfermaria e consciente, respirando com o apoio dele, e não intubada. Agradeci a Deus pelo ar que entrava em meus pulmões naquele momento através da minha máscara N95. Sorvi-o profundamente e com prazer, por mim e por ela, fazendo dele um refrigério também para minha alma, acalmando-me e preparando-me para mais um dia no hospital, na esperança convicta de que tudo isso seria revertido em breve. 

Nosso café da manhã chegou e o mingau que ela tanto gostava estava quentinho. Perguntei se ela já queria e ela disse que sim. Tirei o orifício do Elmo que já tinha aprendido a manusear e coloquei o canudinho em sua boca. Ela sorvia com gosto enquanto eu observava os níveis de saturação já que o orifício do Elmo estava destampado, diminuindo a pressão interna. Tudo tranquilo.

“Vai dar certo”, como diz a frase espalhada em todo lugar em Fortaleza, nas fachadas, faixas e lixeiras.

Naquele momento, nossa fortaleza era um castelo cearense bem pequeno e transparente. É tão cearense que só faltava ser adornado com renda de bilro ou com estampas de coqueiros e carnaúbas. Nossa fortaleza, nosso “bunker” de proteção, era o capacete Elmo.


Crédito da imagem: Foto por Tatiana Fortes, ASCOM Governo do Ceara. Disponível em https://www.ceara.gov.br/2021/06/09/presente-em-quase-todo-o-brasil-capacete-elmo-ja-tratou-quase-tres-mil-cearenses-na-rede-publica-em-seis-meses__trashed-2/

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

5 comentários em “A FORTALEZA DE PLÁSTICO

  1. Palavras de esperança, amor e cuidado, recheadas de orgulho, sempre contagiam a circunvizinhança.
    Agora é cruzar os 60 quilômetros por outros motivos.
    Parabéns pela vitória!!!🍀

    Curtido por 2 pessoas

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