TERRA INCÓGNITA

Em minhas expedições urbanísticas conheci muitas cidades. Uma delas, particularmente, marcou minha existência, pois sou fruto de suas terras férteis. Como filha egressa, cravei minha bandeira em muitos territórios, mas chegou o dia em que se tornara imprescindível tornar à casa, conhecê-la novamente, e narrar suas idiossincrasias com meu olhar de viajante.

Quando avistei Brites pela primeira vez era ainda uma cidade jovem. Inspirava paixão nos viajantes com seus jardins floridos, suas pedras empilhadas que contavam histórias, um ar primaveril do sol poente alaranjado.

Brites tem mulheres varrendo calçadas, homens cuidando de passarinhos em gaiolas, paredes caiadas de branco em ruas estreitas e sinuosas. Um comércio de pequenos estabelecimentos que te convidam ao ingresso e à cachaça – a falar das coisas corriqueiras da vida – pontuam aqui e ali, salteando em coloridos letreiros.

O vento é como um sussurro que traz promessas de amor, descortinando sua natureza travessa e sedutora. As cortinas de renda que fogem pelas janelas ora cobrem, ora revelam, saletas onde a música mora e teima em escapar.

Ela encanta por sua cultura variada, suas livrarias e bancas de jornais, das enciclopédias às revistas de famosos. E quando um viajante se senta em suas pedras com um livro, são as pedras que te recontam as histórias do povo daquele lugar, de mulheres de cabelos crespos envoltos em lenços coloridos, de homens que saem para construir novas cidades. Aprecie o momento.

Quando se vê Brites é impossível não sorrir diante das suas nuances esculturais, pictóricas, icônicas. Brites é um signo cheio de significados. E como tudo que envelhece, voltar à essa cidade anos mais tarde é voltar ao seu colo caloroso, vislumbrar teu sorriso e ouvir tuas promessas de amor, mas saber que seus sonhos de viajante nunca serão concretizados. Uma vez que tenha partido, você se tornará um eterno forasteiro.

Falar de Brites é evocar a memória de sua juventude admirando árvores frondosas. É saber que os anos passaram, mas a cidade se comporta como se nada a tivesse afetado, nem o sol inclemente, nem o vento forte, nem a poeira que sobe das vassouras.


Crédito da imagem: Foto por Element5 Digital em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Publicado por Elaine Resende

Escritora, amante das letras, viciada em criatividade fantasiada de texto, foto, desenho, música e escultura de argila. Um dia será boa em pelo menos uma dessas coisas, mas se diverte em seguir tentando.

2 comentários em “TERRA INCÓGNITA

  1. Que descrição maravilhosa de Brites! Com tantas impressões que nos transportam para as cenas descritas. Destaque para: “Uma vez que tenha partido, você se tornará um eterno forasteiro.” Parabéns!)

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