Clara no Sistema

Clara não conseguia respirar dentro do ônibus lotado. Estava abafado e sua sensação era a de que o ar que entrava pela janela estava denso, pesando sobre seu corpo franzino. A máscara no rosto incomodava mas não era prudente prescindir dela se quase todos os seus companheiros de viagem já a haviam dispensado. O suor que escorria pelo rosto e caía sobre seus olhos deixava-a com vontade de chorar. Tentou pensar em amenidades, observar a paisagem da cidade e o movimento dos transeuntes de rostos sérios que enfrentavam a manhã de segunda-feira.

Lembrou-se do filho na escola. Achou-o diferente aquela manhã, queixando-se de sono e dispensando o achocolatado que ele normalmente bebia de um gole só. Titubeou se ele deveria ir mesmo à escola. Contudo, como nada mais ele apresentava além do comportamento atípico, decidiu que o levaria mesmo assim. Caso ele ficasse em casa, ela teria que faltar seu trabalho de meio-período, a faculdade e tudo o mais…

Desde que Francisco nascera, Clara arrastava um curso universitário em uma faculdade pública que lhe exigia horários de aula difíceis de conciliar com a maternidade e com o trabalho que a ajudava a manter a si e ao filho. O trabalho de meio-período foi um achado que ela tratava como uma pedra preciosa e frágil, potencialmente quebrável a menor turbulência de sua vida inconstante. Na semana anterior, havia sido alvo do comentário de uma colega de trabalho que dizia que uma mãe solteira como ela não deveria se dar ao luxo de fazer faculdade e trabalhar apenas meio-período. Constrangida, engoliu o comentário e, na primeira oportunidade, devolveu-o ao universo em um choro silencioso e solitário no banheiro da empresa. Não acreditava naquela ilógica mas recebê-la recorrentemente deixava-a desanimada.

O ônibus parou no seu ponto e, ao desembarcar, retirou a máscara e recebeu a lufada de um inesperado vento frio que parecia anunciar uma chuva-surpresa. O céu ficou nublado de repente e ela apressou-se para ganhar a corrida contra a chuva. Mal pisou na recepção da empresa, sua bolsa vibrou. Na tela do celular, o número de telefone da escola. Francisco estava realmente indisposto e já começava a apresentar uma febre que subia rápido. Preocupou-se porque ele tinha um histórico de convulsões em situações assim. Lastimou-se por não ter dado ouvidos a sua intuição e ter racionalizado a decisão da ida à escola.

 A chuva despencou forte, lavando as ruas e tangendo as pessoas para os abrigos pelo caminho. Tudo ela observava pela porta de vidro da recepção, absorta. Clara permaneceu imóvel, sem ação por alguns instantes, olhando a chuva intensa que rapidamente encharcava os colegas que chegaram depois dela. Decidiu telefonar para o pai de Francisco, saber se ele poderia pegar o filho na escola e levá-lo ao hospital que ficava no meio do caminho entre a escola e o trabalho de Clara. A ligação foi rápida, como era de costume. Ele não podia buscar Francisco nem deu outra alternativa. E desligou. Simples assim.

 Clara pediu um transporte por aplicativo. Não iria sair barato mas não lhe ocorreu outra ideia. Ao se dirigir à porta, deparou-se com a chefe que acabava de chegar e lhe lançava um olhar de quem não entendia por que Clara estava saindo em um horário em que todos estavam chegando. O motorista do transporte que Clara havia chamado chegaria em minutos. Clara apressou-se em explicar à chefe o porquê de sua saída. Gaguejou, atropelou as palavras e mal se fez entender porque ela própria estava confusa, sem nem saber se a compreensão que buscava era mesmo legítima de ser obtida. Sua chefe, contudo, fez um sinal para que Clara interrompesse o discurso. Olhou com atenção para ela e respirou lenta e profundamente, como quem incentiva que o outro faça o mesmo. Clara entendeu e fez uma pausa em seu relato trôpego. Sua chefe a abraçou e disse que tudo ficaria bem. Que fosse ao encontro do filho. Depois ela compensaria aquelas horas não trabalhadas. Apesar da aprovação confortadora da chefe, o que relampejou na mente de Clara, naquele momento, foram as palavras da  colega na semana anterior. Despediu-se e embarcou no carro.

 Clara telefonou para a escola e soube que Francisco havia sido medicado. A febre, apesar de persistente, estava mais amena. No trajeto, o motorista começou a conversar e perguntou no que atuava a empresa na qual Clara trabalhava. “É uma empresa de Tecnologia da Informação. Trabalhamos com softwares para outras empresas”. O motorista achou muito interessante e começou a falar de uma sobrinha formada nessa área. Disse que ela era executiva de uma grande empresa de TI e morava em São Paulo. Que ela sempre fora muito estudiosa e agora, aos quarenta e poucos anos, era muito bem-sucedida e palestrava Brasil afora. Disse que ela viajava muito a trabalho e a lazer. Contou que ora ela estava no exterior ora em alguma cidade turística brasileira. Depois de várias demonstrações de admiração pela carreira bem-sucedida da sobrinha, ele soltou: “Mas é solteirona. Nunca casou nem teve filhos. Com uma carreira dessas, ou ela escolhia uma coisa ou outra, né?”. “Verdade…”, Clara respondeu quase sem pensar. Mal se calou, porém, arrependeu-se imensamente da sua resposta.

 No rádio, tocava a sua canção preferida, um reggae que falava de uma longa estrada cujas curvas e dificuldades só conheciam quem nela caminhava. O ritmo gostoso trazia a tiracolo a mensagem de resiliência e esperança. Clara estava muito cansada e a música que enchia o carro não a alegrou tanto como de costume. Ainda era segunda-feira mas o cansaço do fim de semana de estudos e tarefas domésticas davam à Clara o peso de quem nunca se sentia menos que exausta. As adversidades das situações e o peso das palavras que vinha ouvindo nos últimos dias a levavam para um lugar de desconfiança sobre seu futuro e o de Francisco. O momento não podia ser pior para essa reflexão, um início de semana estranho em que ela acabava de largar o trabalho para socorrer o filho.

Clara chegou à escola e encontrou Francisco deitado em um colchonete. Seus olhinhos estavam lacrimejando e sua testa quente. Ela se pôs de joelhos para abraçá-lo e ele correspondeu com o pouquinho da disposição que lhe restava. Seu hálito adocicado pelo antitérmico a deixou enjoada e a despertou para as providências que estava ali para tomar. Pegou a mochila de Francisco e se encaminhou para pedir outro transporte rumo ao hospital. Qual não foi sua surpresa ao ver seu pai adentrando o pátio da escola e indo ao encontro deles. Ele estava de folga e ela nem lembrava. Ele também recebera uma ligação acerca da febre de Francisco pois seu número de telefone estava na ficha escolar dele. Clara achava que seu pai estava trabalhando então nem cogitou que ele poderia acudí-los.

A presença do pai deu à Clara um novo ânimo e uma sensação acolhedora de quem não está sozinha. Na verdade, desde que chegou à escola e abraçou o corpinho de Francisco, ela se lembrou disso.  

No hospital, Francisco foi atendido e tudo indicava que era mais uma virose de criança. A febre cedeu e logo ele tentou se desvencilhar do colo da mãe para brincar no mini-escorregador da sala de espera. Ao vê-lo assim, Clara se alimentou de uma esperança que o reggae não tinha sido capaz de inspirar. No celular, uma mensagem da amiga avisava que a aula da tarde havia sido adiada por um contratempo da professora. Isso daria à Clara a possibilidade de se dedicar a Francisco no resto do dia. Seu pai, contudo, a presenteou com outra missão para aquela tarde de folga dele. Ele trazia no celular a propaganda de uma startup que contratava estudantes de TI.

A seleção era exclusiva para estudantes do gênero feminino e que fossem chefes de família. A empresa tinha como uma das premissas a valorização profissional da mulher e a inclusão de mães de família, solteiras ou não, no mercado de trabalho. O salário era um pouco maior que o do seu emprego atual e trazia a possibilidade de trabalhar em casa quando necessário. Clara enxergou nessa chance de trabalho uma oportunidade que superava sua questão individual. Atrás desse anúncio e dessa empresa, havia uma causa maior. O avô de Francisco avisou: “Melhor almoçarmos logo para você não se atrasar para a seleção. Pode deixar o Francisco comigo.” E, imitando voz de criança, fingiu sussurrar para Francisco: “O vovô só não pode lhe dar sorvete porque senão sua mãe vai brigar com a gente”. O pai pendurou Francisco no colo e cheirou seus cabelos cacheados de menino arteiro. Clara se encaixou entre eles e molhou o rostinho de Francisco com o gosto salgado do seu amor por ele.


Crédito da imagem:  Foto por George Pak em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Gotas

Olhei para fora e as gotas da chuva escorriam pelo vidro da janela na mesma sintonia das minhas lágrimas. Por um instante, me perdi nessa visão e esqueci um pouco da dor.

O dia estava cinzento e melancólico. A música ao fundo também inspirava uma atmosfera tristonha.

O trinado lamentoso de um pássaro me tirou do devaneio. Olhei lentamente para cima e o vi cortando o ar com seu voo planado. Ele parecia solitário. Talvez estivesse bailando alguma melodia saudosa. Uma fisgada forte me trouxe de volta a minha agonia.

Catei um pedaço de papel qualquer e com um lápis recém-comprado, anotei esse recorte do tempo. Contei sobre as gotas no vidro e sobre o pássaro viajante.

Escrevi porque senti um desejo frívolo de eternizar aquele momento. Escrever geralmente me ajuda a aliviar anseios e dores. Trata, cuida e algumas vezes me consola.

Guardei com carinho aquela anotação e por um tempo nem lembrei mais dela. Esses dias, arrumando umas gavetas da mesa de cabeceira, encontrei o pequeno texto e pude reviver, agora de forma aliviada, os sentimentos de outrora.


Crédito da imagem:  Foto por Markus Spiske em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Ciclos…

...idas e vindas, 
términos e recomeços,  
alegria e tristeza, 
abundância e escassez, 
desespero e esperança, 
vigília e sono, 
sobriedade e embriaguez,  
equilíbrio e destempero, 
calor e frio, 
introspecção e expansão,  
claro e escuro, 
perto e longe, 
você e ela, 
você e você,  
eu e eu, 
de repente...nós e, 

logo, 

o todo se encaixa em um.

Crédito da imagem:  Foto por Jben Beach Art em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Verdades ínfimas

Acordou acompanhada pelo Chico. Buarque. “Cotidiano”, a música com a qual despertara naquela terça-feira. Ainda deitada, visitava, por meio da melodia, o ritmo padronizado de suas escolhas; na letra, que se repetia incessantemente em seu pensamento, a estória de uma vida. Dia a dia. Ano a ano. Décadas. Definitivamente, era aquela “A música” que representava sua vida vivida. 62 anos completos. “Todo dia ela faz tudo sempre igual”. Aquela constatação a oprimiu, mais do que qualquer violência, física ou moral, outrora experimentada. Era a confirmação de sua mais absoluta passividade e falta de coragem perante cada um dos diferentes caminhos que lhe acenaram – como mulher, profissional, ser humano. À frente não haveria mais surpresas, opções, espaço. Tempo? Quanto mais? Resignava-se. Implodia-se, na verdade. Amanhecia lá fora e, dentro, ela apenas desejava que a esquecessem na cama, por um dia, uma semana, um ano, o resto de sua vida.

No banheiro, olhava-se no espelho e não se reconhecia. A imagem refletida, sentida como defletida, a atravessava cortante, debochada e provocativa. O creme dental, companheiro por décadas, tinha gosto de fel. Não compreendia porque desejava gritar. Não se situava em tempo e espaço. Não recordava o roteiro programado para o dia. Não distinguia a frieza dos azulejos e a intensidade de sua dor interna. A água vertia pela pia, gelada; e ela se derramava em lágrimas, ferventes. As mãos tremiam e as pernas fraquejavam. Sentia o sangue correr nas veias e um vento incômodo soprar pelo ventre. Os pensamentos tinham vida própria e velocidade alucinante, não se fixavam e não faziam sentido. Enlouqueci, assentiu em um lapso consciente. Encarou-se novamente, buscando-se. Por fim, a aceitação da loucura, em olhos flamejados, não trouxe qualquer estranhamento. Ao contrário, um certo regozijo, a satisfação de quem encontra um amigo de infância. Uma gargalhada movimentava-se por seu corpo, a explodir, quando o “Sr. Cotidiano” bateu à porta, cobrando-lhe o café que estava atrasado.

Vencida a tristeza matinal e reprimida a loucura privativa momentânea, espreitava uma sombria lembrança de que fora invadida, tendo-lhe sido roubado o direito a uma deliciosa gargalhada. Na cozinha, a rotina se impôs. Jornal. Leite. Café. Pão. Açúcar. Fruta. Remédio. Remédios … Lembrou-se do ditado popular de que a diferença entre o remédio e o veneno estaria na dosagem do produto. Ficou imaginando quantos comprimidos de losartana seriam suficientes para dar fim ao “Sr. Cotidiano”. Enquanto divagava, seu inconsciente sacava compulsivamente os comprimidos do blister. Ao final, eram 13 em cima da mesa, alinhados em fila de comando. A gargalhada não mais se conteve, e o som, decibéis incontáveis acima dos padrões aceitáveis para o horário, para o momento e, principalmente, para o quase “de cujus”, assustou-o. Paralisado na cadeira, com o olhar tentava ordenar por uma explicação, mas, em verdade, suplicava pelo estancamento daquela exaltação desarrazoada. Ela percebeu horror naqueles olhos incrivelmente submetidos. Quanto mais alarmado lhe parecia o “Sr. Cotidiano”, mais alto, dissonante e gostoso ela gargalhava. Provocava-o, encarava-o, e flertava com os limites da situação. Deliciava-se o torturando e experimentando um gozo absolutamente individual, íntimo e imperscrutável.

Arrefecida a ideia do homicídio e recalcado o gozo pela singela maldade imputada ao personificado cotidiano, percebeu-se sozinha no (in)cômodo. Esquadrinhou todas as tarefas do dia e resolveu que naquele dia tudo deveria ser diferente. Decretou feriado pessoal, em razão de 62º aniversário e se deitou no sofá. Feira, farmácia, trabalho, netos, banho, almoço, cachorro, unhas, o mundo externo não a subjugaria naquele dia. Uma rebeldia muito bem-vinda, ponderou, depois de anos dispondo-se ao serviço e aos cuidados dos outros. Respirou aliviada, desligou os instrumentos para o mundo externo e cerrou os olhos.

Foi acordada pelo barulho do ferrolho, às 18h47. “Sr. Cotidiano” havia chegado do trabalho, como de costume entre 18h40 e 19h. Ainda com os olhos fechados, sabia que viriam as flores – lírios brancos – acompanhadas de um beijo e a pergunta sobre o quê gostaria de jantar, para celebrar. Sabia, também, que a filha havia lembrado o pai da data e que a resposta correta, repetida mais uma vez, deveria ser “vamos pedir uma pizza, meu amor?”. Seguiu-se também a ritualística demonstração de surpresa com a chegada dos filhos e netos em torno das 20h.                 

Ao se deitar, percebeu que passou seu aniversário exatamente como viveu a sua vida. Sonhando, encerrada em si própria. Entregue. Alienada. Revoltada. Deitada e paralisada. Quem sabe amanhã ressuscite Bom Scott e acorde ao tom de “Highway to Hell”, ou encarne Michael Douglas em “Dias de Fúria”, e então possa dar vida externa à sua tristeza, loucura e maldade. Ou não. Talvez a companhia cotidiana de Chico Buarque não seja, assim, tão ruim. Programou o despertar para 6h20 de quarta-feira, ao som de “Cotidiano”, como de costume. 


Crédito da imagem:  Foto por Bianca Salgado em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Marque um Encontro

Quais são os seus alicerces?
Você se namora?
Você se sente livre?
Marque seu encontro com você.
Conecte-se com o amor, com alegria, com a saúde 

Marque um encontro com tudo o que te conecta com a sua identidade.
Marque um encontro com as suas emoções, sinta, seja, veja, receba!
Pergunte o que te traz felicidade, pergunte:

Como eu posso me encontrar com a minha Essência?
Ouça você! Toque você! Veja você!
O que te traz paz
O que você está fazendo de sua vida?
Você faz falta?
Marque um encontro com tudo que está dentro de você!
Transborde!

Crédito da imagem:  Foto por Monstera em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Tempo de Mudança

Quando a tristeza for maior que a alegria
Você precisa mudar.
Quando a dor se torna maior do que o Amor
Você precisa mudar.
Quando o amigo torna-se seu inimigo
Você precisa mudar.
Quando você é alvo de inveja
Você precisa mudar.
Quando sua liberdade for controlada
Você precisa mudar.
Não espere que os outros façam alguma coisa por você,
é você mesmo que tem que tomar uma atitude para salvar sua vida.

Crédito da imagem:  Foto por Ketut Subiyanto em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Des(encanto)

Já perdera de longe
a contagem dos dias

Servir
Agradar
Atender
Anular

De onde vinham todas aquelas cobranças?

Por mais que fizesse
se esforçasse
desviasse a atenção
Lá estavam elas
Listadas
Pontualmente
A sufocar

Sempre tem alguém para mandar
E na roda o mandado

Como uma continuação nada efêmera daquele rigor travestido de bom

Mas hoje não

Na balança
um minuto de reconhecimento
seguido de horas de insuficiência

Hoje não

Nas desculpas sem assinatura

Eu quisera entender
Quantas versões do amor existe

Só para saber
Quando sou amada
E quando não


Crédito da imagem:  Foto por Skyler Ewing em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Cicatrizes

Cicatrizes

O sopro dos dias sussurra no meu rosto
Nem menina, nem mulher
Como se escreve um corpo
Um tropeço?
Um engano
Foi-se o Pertencimento
O eu refletido no véu do não
Lâmina afiada
Tão crua
Cicatriz fina e fria
Em meu rosto estampado
A velhice de minha mãe.
Incógnita profusa
Dolorida de ser consentida
Marcando a pele
Feito ferro quente


Crédito da imagem:  Foto por Alexander Krivitskiy em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

As quatro estações do amor

A falta de amor é como o inverno frio e sozinho. Onde sentimos calafrios que deixam nosso coração gelado, petrificado, sem vida e sem sentido. No inverno o branco se mistura ao vazio dos sentimentos onde nem a dor consegue existir.

O amor que floresce é como a primavera que desperta nossos diversos desejos. Nasce amor por todos os lados. O movimento de cores e diversidade transforma tudo numa linda fantasia. Tudo é possível entre os corações.

O outono é como o amor que se transforma. É um amor maduro, porto seguro dos amantes. Consolidado. Um amor que fica cada vez mais forte, calmo, estável e seguro.

E de repente chega o verão. O sol ardente do amor nos invade com uma paixão avassaladora e queremos viver plenamente com toda nossa energia. Mania de você, mania de ter. Mania de sempre querer.

São essas as estações do amor. Acontecem assim naturalmente. Invadem nossos caminhos e transformam e consolidam e mudam novamente. Basta uma pequena semente de vida e lá vem uma nova estação.


Crédito da imagem:  Foto por Magda Ehlers em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Um grande dia para escritoras

Desejo começar esse texto de um jeito que me pareça que falo para uma pequena audiência, uma sala com alguns espectadores, sem pretensão de parecer detentora de um conhecimento maior. Sinto falta dos tempos em sala, daqueles momentos de interação com a classe, da partilha que se realizava nesses espaços.

E então eu diria: Olá pessoal, é muito bom ter vocês aqui nessa reunião, nessa noite quente de outono no Ceará, para debatermos ideias. É bom demais ter com quem debater ideias, às vezes meu imaginário se torna um lugar solitário e, sem outras pessoas por lá, me falta o contraditório.

Eu ouviria alguns risos da minha piada boba e, após uma pausa estratégica e um sorriso gentil, sentiria o ímpeto necessário para prosseguir. Me movendo pela sala, cabeça baixa para organizar os pensamentos, recomeçaria minha fala assim:

Essa última semana do Dia dos Namorados teve um sabor mais especial para mim que os bombons, presentes e jantares que poderia ganhar. E digo com firmeza que não foi assim apenas para mim, mas para um grupo imenso de mulheres ao redor do Brasil, quiçá do mundo, que decidiram se encontrar trajando apenas coragem e suas palavras em um livro, um escrito, um manifesto de sua independência literária.

Independência que vem sendo trabalhada e conquistada ao longo dos anos, numa luta diária por um espaço que também é nosso. Na história recente do Brasil, questão de 30 ou 40 anos atrás, ainda era possível encontrar mulheres que não tinham CPF (cadastro de pessoa física) em seus próprios nomes. Entre 1916 e 1962 vigorou o Código Civil Brasileiro que previa que a mulher era incapaz e totalmente dependente de um homem para ditar os rumos da sua vida. Dessa forma, a mulher só poderia trabalhar, estudar, ter uma profissão, um comércio ou uma conta no banco se fosse autorizada pelo pai ou pelo marido. Não seria a mulher uma pessoa?

Se para algumas mulheres se discutia o direito a ter um documento em seu próprio nome, para outras entretanto inexistia o direito ao registro civil, que era pago até 1997. Seja pela pobreza ou pela questão racial, muitas mulheres viviam relegadas a condições ainda mais espúrias. Trabalhadoras domésticas eram as principais vítimas de um país cujo preconceito anda sob panos quentes e termos como “agregadas” eram comuns para se referir a alguém que trabalhava dia e noite e, vez em quando, ganhava algo que lhe concedia um status de “quase da família”.

Tem apenas 106 anos que a lei deixou de legitimar o direito de o marido matar a mulher por qualquer suposição de adultério. Ele nem precisava provar, bastava ouvir rumores. E mesmo depois de revogada, precisamos de uma nova lei para nos proteger de agressões, a Lei Maria da Penha, de 2006. E temos indicadores: o Brasil é o 5º país no ranking de assassinatos de mulheres. Em 50% dos casos, a mulher é atacada por quem ela mais confia, dentro de sua casa. Na morte, somos todas iguais, no entanto as mulheres negras morrem mais. A desigualdade de gênero é o fator preponderante nos homicídios, mas o preconceito racial e desigualdade social tornam essas situações ainda mais cruéis.

Voltando às leis, foi apenas em 1988 que a Constituição Federal tornou homens e mulheres iguais. E transformou o preconceito racial em crime. Quantos de vocês que me leem hoje nasceram depois dessa data? Você sabia que antes disso havia dispositivos legais que nos tornavam diferentes perante a sociedade? Em questões de gênero, podemos não ser iguais biologicamente falando, é evidente que não somos. Mas em questões de raça, o que nos difere além do preconceito? Você, mulher, se acha menos merecedora de uma casa, de um trabalho justo e um salário digno, de ter direito à guarda dos seus filhos, de estudar o que quiser, ter uma conta bancária e investir no mercado financeiro, que um homem? E uma mulher negra é menos merecedora que uma mulher branca? Você escritora, acha que seus livros não merecem ganhar as prateleiras das livrarias, contratos editoriais que te permitam escrever como profissão e não apenas como passatempo?

Como seria o Brasil se, ao lermos as estatísticas de prêmios e publicações de livros, descobríssemos que 50% dos livros lançados e premiados no ano pertencem a escritoras? E que metade dessas publicações pertencem a escritoras negras e pardas? Nossa média atual está em cerca de 30% dos livros publicados escritos por mulheres (chute meu, depois de ler várias estatísticas de grandes editoras), e mantemos a lanterna acesa iluminando um grupo pequeno, que se repete em muitas mídias, como me lembrou uma autora querida.

Eliane Paz escreveu um artigo onde analisou a lista publicada pela Revista Veja de livros mais vendidos nos últimos 21 anos e alguns prêmios existentes. Ela chegou aos seguintes dados: dos 113 prêmios Nobel de Literatura, apenas 16 foram concedidos para mulheres, sendo 10 delas premiadas nos últimos 30 anos. O Jabuti, nosso prêmio maior da literatura brasileira, contemplou 19 autoras e 116 autores ao longo dos anos. Em ambos, representamos cerca de 15% dos contemplados. O ranking da Veja mostra que apenas 30% dos livros mais vendidos no país são escritos por mulheres. E desse percentual, a maioria avassaladora é de livros de língua estrangeira. Não creiam que para elas é mais fácil. As duas maiores potências de autoria feminina foram orientadas a não assinar seus nomes completos.

Não poderia dizer minhas palavras após ler estas da Eliane Paz:

“Essa baixa representatividade perpetua o círculo vicioso da invisibilidade literária feminina – menos publicação, menos divulgação, menos prêmios, menos leitores –, aumenta o desconhecimento sobre o que as mulheres têm a narrar, silencia suas experiências e mantém as mulheres à margem do campo literário.”

No censo brasileiro de 2019 ficou evidente que somos maioria da população (52%). Em 2019 uma estatística apontou que somos também a maioria do público leitor: 54% dos leitores se identificam com o gênero feminino. É aqui que te pergunto algo que minha amiga de coletivo me perguntou há quase um ano: quantos livros escritos por mulheres você leu nesse ano?

Antes que ideias pré-concebidas te assaltem a alma, literatura feminina não significa apenas romances com finais felizes ou poemas de amor. Somos isso também, mas somos muito mais. E me acreditem quando digo que escrever um romance com um final feliz é muito desafiador. Tente imaginar aquele par que se junta com você e abraça uma vida cheia de percalços, compreende que você é um ser imperfeito (assim como ele) e que te ama incondicionalmente. Só amor de mãe, né? Às vezes nem esse… escrevemos ficção de alto nível.

Há mulheres incríveis fazendo todo tipo de literatura. Se elas existem, por que não lemos seus livros? Por que deixamos esse espaço ser ocupado por homens em sua maioria? Você lembra quem formou seu gosto pela literatura? O meu foi formado por outra mulher, minha mãe. E ela me apresentou várias escritoras maravilhosas. E escritoras brasileiras.

Aqui no Ceará, me apresentei para aproximadamente 40 mulheres na tarde de 11 de junho de 2022 e celebramos esse momento com um registro fotográfico. Cada uma de nós teve seu tempo de fala respeitado e muitas histórias bonitas foram compartilhadas. Algumas me tocaram e reverberaram por mais tempo na memória, histórias de silenciamento e dor, de poemas incompreendidos e rasgados. Lá em São Paulo, onde essa onda começou, um tsunami de mulheres ocupou a arquibancada do Estádio do Pacaembu. Vestimos coragem e nossos livros. Tenho consciência de que somos muitas mais e, por isso, mal posso esperar pelo próximo encontro.

Para encerrar essa fala, me responda: qual autora brasileira viva você leu nos últimos seis meses? Se a sua resposta for “nenhuma”, leia novamente esse texto e perceba que você pode ajudar a mudar as estatísticas. Terminada a minha preleção, eu teria em mãos uma lista de autoras para quem quiser começar a mudança.


Quer conhecer as fontes das informações citadas nesse texto? Só vem:

https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/feminicidio/capitulos/qual-a-dimensao-do-problema-no-brasil/

https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18320-quantidade-de-homens-e-mulheres.html

https://www.prolivro.org.br/pesquisas-retratos-da-leitura/as-pesquisas-2/

https://jornal.usp.br/radio-usp/dados-do-ibge-mostram-que-54-da-populacao-brasileira-e-negra/

https://seer.dppg.cefetmg.br/index.php/VINCO/article/download/1030/987

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2019/01/05/interna-brasil,729072/lei-que-torna-racismo-crime-completa-30-anos-mas-ha-muito-a-se-fazer.shtml


Crédito da imagem:  Foto por Cláudio Rodrigues (@claudc ) e Miguel Silva (@silva.fotografo )

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”