UMA CARTA PARA INGRID

Fortaleza, 06/02/2022.

Querida Ingrid,

Como tem passado, menina? Sei que ainda não nos conhecemos, mas ouvi teu nome muitas vezes nesse ano que passou. Em todas essas vezes que perguntaram por você, aqui em casa nos perguntamos por você também. Fizemos piada e os meninos passaram vários trotes para quem queria apenas seu contato.

Sou velha, reconheço, então o mais adequado a se dizer é que fizemos troça com as suas ligações. Talvez se você estivesse ao lado achasse graça das nossas imitações do que seria a sua voz, ou gargalhasse abertamente das vezes em que informamos que você havia viajado num programa espacial para algum lugar distante, tipo Marte ou Lua, e que não sabíamos a data do seu retorno. Ainda não tem 4G no espaço!

Até essa semana.

Foi nessa semana que me perguntei seriamente se você está bem. Tive vontade de saber se não haveria outro telefone de contato para falar contigo, se…

Nessa semana me lembrei que estamos atravessando um lago pantanoso, escorregadio e cheio de bichos peçonhentos, que podem a qualquer momento depositar seu veneno sem que a gente perceba.

Me preocupei que talvez, ao cruzar para a outra margem, você tenha sido abatida, ou a pessoa responsável por prover sua família tenha ficado desempregada, ou que esse papel de provedora da família seja seu, e tudo possa estar um pouco caótico agora.

Desde o início dessa semana passei a pensar em você como uma pessoa, não mais como um número de telefone que herdamos aleatoriamente. E por isso decidi te escrever, porque não foi apenas o seu número de telefone que você perdeu, mas também sua matrícula na faculdade de engenharia civil, naquela mesma cidade sorriso onde um dia lecionei para jovens e adultos com a esperança de que seriam engenheiras e engenheiros respeitados ao terminar a graduação.

Tão perto.

Essa semana, quando os cobradores ligarem, direi a eles que tenham paciência, que entendam que a sua condição atual de devedora não é algo de sua natureza, mas da natureza dos eventos extremos que estamos vivendo. Vou lembrar ainda que a vida anda dura, mas que temos que acreditar na ciência, nas vacinas, e não desperdiçarmos nossa fé, que sei que sofre com a escassez. E esperançosa que sou, espero que você possa ter um novo número de telefone, pagar seus débitos e retomar seu projeto de se tornar engenheira civil.  Um novo começo, como o novo ano sugere.

Seja forte, Ingrid. Cuide-se bem, mantenha-se segura e saudável dentro de suas possibilidades. E que em breve você possa me responder essa carta dizendo que entendi tudo errado, que você descobriu que arquitetura tinha mais a ver com você, e que trancou sua matrícula antiga porque passou para uma universidade federal.

Queria muito te ouvir dizer que trocou seu número porque seu ex-crush era um pé no saco e que você desejava ferozmente que as mensagens dele queimassem no inferno. E que os cobradores que te ligam são sempre os mesmos, a respeito do pagamento daquela mensalidade infeliz que, por uma razão desconhecida, não foi baixada no sistema.

Queria ler em tuas palavras que você atravessou o lago de braçada e chegou tranquila do outro lado, sem intercorrências, sem perdas, com a respiração forte e fôlego para aguentar driblar os novos bichos peçonhentos que poderão surgir.

Queria te ouvir dizer tudo isso e achar graça do meu jeito velho de me preocupar, como se fosse sua mãe ou algo assim. E no fim você me diria “sua loka, não se meta!” ou ainda “te respondi por educação, por favor não me escreva novamente”. Ao que eu suspiraria aliviada pensando, “que bom, menina, que você está bem!”


Crédito da Imagem: Foto por cottonbro em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

CONFISSÃO

Há muito que não ando.

Vago, desvio, tropeço, corro…

Do encontro ao desencontro

Que é pra não querer chorar

Que é pra eu não me aprisionar

Que é pra eu não demonstrar…

O que há muito venho procurando

Mas eu nego! Até o fim, eu nego!

Negarei até que não o possa mais.

E já não o posso. Admito. Sim.

Há muito que não ando.

Vago, desvio, tropeço, corro…

Da chegada à despedida

Que é pra querer não querer

Que é pra eu me entristecer

Que é pra eu me desprender…

De mim e dos teus cabelos

Mas eu nego! Até o fim, eu nego!

Negarei até que não o possa mais.

E já não o posso. Admito. Sim.

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Lívia Maria (20/12/2017)

Crédito da Imagem: Camila Barbosa e Carlos Bon

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário

Fruir

Não ter tempo para escrever este texto foi o insight para escrevê-lo.

Quando recebi uma doce mensagem da editora do Sabático, perguntando, delicadamente, se meu texto de janeiro estava pronto; percebi que havia sido engolida pelas férias.

Sim! Deliciosamente engolida por esse momento pleno de repouso e restauração.

Aproveitei cada segundo…a esta altura, já voltei ao trabalho.

Percebi, após refletir sobre o fator tempo, que minha vontade era viver aqueles momentos como se não houvesse amanhã.

Lembro de fazer milhares de planos no início do ano e que, depois, analisando melhor, mais pareciam uma lista de obrigações digna de um regime militar.

Consegui reduzi-los a umas oito metas por dia e cheguei à conclusão que meu ascendente deveria ser em Virgem, não em Escorpião. 

A partir da urgência em escrever o texto (que já estava atrasado), aproveitar meus momentos de descanso, e sorver cada segundo de fruição, pensei: será falta de tempo, de organização, ou de definir prioridades?

Deduzi que era só meu amor próprio cuidando de mim, preservando esses momentos raros e dizendo: acalma o coração. O mundo continuaria mesmo sem você.

Aí o(a) leitor(a) me pergunta: você acatou sua fala interior?

O texto que você lê hoje, é o texto de janeiro.

Respondi?

Sobre o título: Fruir – desfrutar prazerosamente.

Crédito da Imagem: Pexels “Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário

As Oportunidades da Pandemia

                                                            “O sol nasce pra todos, só não sabe quem não quer”

Legião Urbana

É 24 de março de 2021. Mais de um ano de pandemia. Mais de um ano do mundo virado de cabeça de cabeça para baixo por algo que, absurdamente, nos une: um agente invisível, silencioso, de alcance global e que se propaga a velocidade alarmante. 

Antes de 2020, o nosso cotidiano atual de isolamento, obsessão sanitária com máscaras e álcool gel, restrição para viagens, trabalho remoto em larga escala e contato físico com o menor número possível de outros seres humanos, era visto apenas em filmes catastróficos de ficção científica. E de mau gosto.

Todas as nossas certezas mudaram em 2020 e, de repente, o mundo que conhecíamos passou a ser um lugar inseguro e perigoso. No meio da comoção e da falta de norte, valores precisaram ser repensados; paradigmas, quebrados; necessidades reais, reavaliadas.

Como em toda crise, muitas dificuldades e muitos dilemas estão presentes no “novo normal”, mas também novas oportunidades interessantes para quem experimentar olhar com atenção.

Talvez a principal oportunidade trazida pela pandemia seja a de ressignificar o que é, de fato, importante. De entender que não estamos no controle, fundamentalmente, de nada. Mas mesmo assim, podemos fazer muito. E a oportunidade de nos preparar, em todas as dimensões da vida, para a certeza da mudança. Para a necessidade de nos adaptar, da melhor maneira possível, aos tempos difíceis, que sempre acabam batendo na nossa porta em algum momento.  E, nessas horas, o que vale mesmo é como reagimos à situação. Ficamos paralisados diante da adversidade ou conseguirmos reagir, criando novas para os problemas?

No frigir dos ovos, em situações limite, como durante uma pandemia global, quando o isolamento social é a regra do jogo, os contatos entre pessoas são predominantemente virtuais, quando o receio da doença espreita e a morte ronda, o que e quem é realmente importante? Qual, no final do dia, é a nossa motivação para viver? Quais são as nossas prioridades? Estamos agindo de acordo com elas? Quais mudanças poderíamos nos propor empreender para estarmos mais alinhados ao nosso “projeto estratégico” de vida?

A pandemia trouxe, sim, situações muito ruins, inimagináveis mesmo. Mas trouxe também a possibilidade de muito aprendizado, na prática diária. Mais: trouxe a  chance de separar o joio do trigo, de repensar a nossa existência, de refletir para (re)descobrir o que nos move, de revisitar o verdadeiro propósito da nossa vida e de relembrar os nossos sonhos. E, no fim das contas, o que a pandemia nos trouxe mesmo foi oportunidade de reflexão interna profunda e de fazer eventuais mudanças no curso da nossa vida para tentar ser mais feliz.

Importante perceber que muita coisa que não era possível antes, agora é. Coisas boas e ruins. Cabe a nós aproveitar isso da melhor maneira possível: tentar aprender a lidar com as ruins e aproveitar para se reinventar, no meio tempo, com as boas. Um conjunto amplo de novas possibilidades está bem aqui para todos nós se nos dispusermos a olhar com olhos de ver.

Eu, por exemplo, resolvi aproveitar o maior tempo sozinha em casa que veio junto com o trabalho remoto para fazer algo novo e de que gosto muito: resolvi começar a escrever.

E você? Como está aproveitando as oportunidades da pandemia?

Crédito da Imagem: Pexels

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.

PRINCESA DO MEU LUGAR*

Chegou na cidade na hora de mais calor. Estava tão feliz arrastando sua mala colorida pela rua de pedras que nem se importou com o suor que escorria em bicas e encharcava o vestido. As rodinhas da mala trepidavam pelas pedras do calçamento e faziam tanto barulho que ela mal conseguia ouvir a conversa da mãe que caminhava ao seu lado.

Fazia muitos anos desde a última vez em que estivera ali. As lembranças mais felizes daquele lugar eram as memórias de criança arteira que uma vez por ano vinha passar férias no interior do Ceará. Hospedava-se na casa dos avós, desfrutando de todos os mimos que recebia quando vinha do outro lado do mundo para a terra natal do pai falecido. Lembrava do cheiro da comida da avó, das brincadeiras com os primos na calçada, no fim da tarde, e do sorvete de castanha “o-melhor-do-mundo” que o tio trazia toda noite quando chegava do trabalho. Provou sorvetes famosos em vários países, sempre na tentativa de reviver aquele sabor mas nunca experimentou outro nem parecido.

E nem encontraria. Porque o que ela buscava naquela lembrança do sorvete de criança era muito mais que o simples sabor de um doce. Sorriu com as lembranças e o coração se encheu de um frescor gostoso que a arrepiou por inteiro. Já para a mãe, viúva, caminhando ao seu lado, as lembranças eram outras… Na verdade, conhecia pouco daquela cidade. E justamente por isso ficava tão impressionada com as lembranças que borbulhavam feito água fervente e queimavam seu peito de uma forma que há muito não sentia. Não conhecia a cidade mas conhecia o homem. E tudo ali parecia com ele.

A filha a puxou pela mão e o toque a fez voltar rapidamente para o momento presente, como que embarcando de volta no trem expresso do túnel do tempo. Lembraram do avançar da hora e apressaram o passo. Seguiram para a casa da irmã caçula do pai. O almoço já devia estar na mesa e a algazarra de crianças e adolescentes já devia estar a todo vapor. Certamente alguns tios já estavam cantando as músicas de sempre, desinibidos pelo álcool que, a princípio, traz a euforia e, no final, os conduz em botes lotados pelo rio de lágrimas pelos que já se foram. Como diz Mia Couto, “morto amado nunca para de morrer”.

Ela perdeu o pai quando era muito pequena e ainda estava engatinhando pelo mundo dele. O universo do pai se incorporou ao dela de uma forma diferente. Ao invés de memórias construídas pelos dois ao longo dos anos, ela própria edificou o castelo de memórias do pai. A cada foto e história sobre ele, um tijolinho era cuidadosamente colocado nesse castelo. Sem dúvida alguma, as memórias mais frescas e leves do pai eram sorvidas nesses encontros com a família paterna.

Às vésperas de completar seus trinta anos, ainda se surpreendia com as semelhanças entre si mesma e vários dos seus familiares. E era revelador para si própria observar a reciprocidade de ser, também, parte deles. Ela sabia que tamanha identificação podia estar sendo potencializada pela emoção de vê-los e pelo desejo que a acompanha por toda a vida de fazer parte do universo do pai.

Estar com os familiares paternos era um exercício constante e surpreendente de reflexão, autoconhecimento e identificação. Nas coisas profundas e nas simples também. Era uma risada mais escancarada de um tio ou o ritmo cadenciado do caminhar de uma prima ou, ainda, a habilidade em tocar instrumentos ou o gosto em soltar a voz acompanhando músicas antigas da MPB. E tudo isso personificava o pai e fortificava e ampliava seu castelo de memórias. Ora se empenhava em trancar as novas lembranças recém-criadas ora se deixava conduzir pelo momento despretensioso de apenas conviver e (re)conhecer cada um dos seus.

O almoço seguia em tom festivo. Em pouco tempo, o distanciamento inicial causado pela demora da visitante em ver os parentes se desvaneceu. Todos, do seu jeito, iam se aproximando aos poucos, contando as novidades, apresentando os novos membros da família, recontando histórias antigas, cantando as músicas que lembravam o pai e o avô… Para eles, ela era tão bonita e cheia de vida e juventude! Sua presença trazia imensa alegria e completava a foto de família que iria ser tirada para registrar esse momento. Ela era deles e, ao mesmo tempo, era única e apenas de si mesma.

Findo o dia, ela estava transbordante do sentimento de pertencimento, intimamente reafirmava para si que tinha o mundo inteiro mas que isso não a descredenciava do direito de chamar aquele pedacinho de lugar de seu também, onde parte das suas raízes está fixada em terra dura e firme, ao lado de cajueiros e carnaubeiras. E ainda que haja lutas árduas e desafios sempre à espreita, ela tem a confiança de contar com um reino imenso em seu castelo interior de memórias, como a princesa que tem sempre ao seu lado um rei jovem, risonho e revolucionário.


*O título do texto faz referência a música do compositor cearense Belchior, conterrâneo da família que inspirou esse texto de ficção. Para ouvir a música, acesse: https://fb.watch/b5-MUPtlei/


Crédito da Imagem: Foto por Paulo Barros disponível em http://siteantigo.pi.gov.br/materia/semar/carnauba-e-eleita-arvore-simbolo-do-piaui-2913.html

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LIBERDADE AOS 18?

Quando se está com 14 ou 15 anos o pensamento é que chegue logo os 18 simplesmente pelo ar de poder que esta idade permite.

E… Liberdade aos 18? Enfim aparece o poder da tomada de decisões. E para uma pré-adolescente que acha que ter 18 era sair pelo mundo colocando tudo a seu jeito de certa forma verá essa ideia esvair-se pelo chão. Não é bem assim que as coisas acontecem.

A verdade que ter o poder da liberdade nas mãos também aumentará o tamanho da responsabilidade. Já não se tem mais os mesmos amigos que outrora estendiam os braços a qualquer momento e podiam rir de tudo até nas coisas que exigiam seriedade. Cada um desses adolescentes sairá em busca de seus sonhos. Também não terá os braços familiares que eram fortes apoiadores e agora dá espaço a momentos de cobrança do que será toda a liberdade e que rumos esse “dezoitão” fará pela frente.

O tempo passará… E tempos depois as lembranças serão as melhores recordações de alguém que continua jovem e sonhadora pois se percebe que o ar da adolescência e juventude nada tem a ver com os números da idade.

Lá no mais íntimo do coração nunca se apaga os sonhos e o desafio da liberdade de prover seus próprios rumos.


Crédito da Imagem: Foto de Allan Mas no Pexels

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NOVELA

Assistia todas as novelas, das duas, seis, sete, oito e qualquer outra reprise que pudesse passar entre esses horários.

Entre sonhos e panelas, desejos e afazeres, aquela vida encantada das novelas dividia sua mente entre os devaneios e a realidade, mais devaneios que realidade. Se imaginava a mocinha da trama das seis e num passe de mágica era a própria megera da novela das oito. As megeras têm seu charme, mas isso até o próximo capítulo, pois, no final queria ser a mocinha; Seus destinos são perfeitos, todo em prol a um destino de contos de fadas. Por vezes, se revoltava diante do sapato gasto e as roupas de todos os dias, nem as empregadas das novelas das sete repetiam figurinos, sempre tão coloridos e alegres. E tudo acabaria bem no final, com casamento e festa. Assim seria sua vida, por hora imaginava, mas cria piamente, seria um enredo perfeito do horário nobre.

Sofreu horas e horas a fio o triste destino do núcleo pobre, vítima de carrascos e injustiças. “Ah! Um dia o mocinho olhará para mim e só ele saberá meu real valor. Me levará para sua grande casa, com carrão e mordomo; e o esperarei com seu lindo vestido longo no topo de uma escadaria enorme.” Ensaiava mentalmente o que diria quando o protagonista se declarasse, diria palavras bonitas, nem sabia o significado de muitas delas, mas eram bonitas.

Um dia, como outro dia qualquer, acordou cedo, com a cara inchada, descabelada, insatisfeita com seu destino tão lento, dia de feira, a patroa queria que fosse cedo, não podia perder o melhor da feira. Arrastou as sandálias pelo asfalto com a cabeça nas nuvens. Entre pepinos e abobrinhas o moço era lindo, a voz que lhe cortejava para uma compra perfeita e lhe piscava-lhe um olho, todo galante. O coração lhe saltou à boca. Se deteve analisando as possibilidades. Virou-lhe as costas afinal, o mocinho não estava encerrado num cubo.


Crédito da Imagem: Foto por Gelatin em Pexels.com

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A ESCOLA

Ontem eu passei em frente à nossa antiga escola. Estava sendo pintada. Reformada. Me lembrei dos momentos que passamos dentro dela. Cheios de sonhos. Filhos de uma classe média que tentava nos dar um lugar no mundo. 

Você era alegre, cheio de vida. Eu, tímida, insegura, estudiosa. Alguns anos depois nos encontramos. Você ainda era o mesmo, mas com mil outros adjetivos. Eu também. Buscamos um no outro nosso passado. Quem éramos, quem ainda somos. Mas esbarramos nos novos “eus” que gritavam por espaço. E se colidiram. 

A escola está suja, mas não é só da obra. Entre o entulho encontramos sobras de amizades não prosseguidas, desentendimentos, brigas. Mas também brincadeiras, crianças rindo, correndo, meninos jogando, meninas medindo o comprimento de suas saias, qual tinha o cabelo mais bonito. Perdendo tempo com pequenas futilidades e escrevendo seus primeiros poemas. Eu estava nesse último grupo. 

Na verdade eu odiava aquela escola. Odiava e amava ao mesmo tempo. 

Nela sofri alguns tipos de bullying, fiz e desfiz amizades, faltava muito porque preferia dormir e estranhamente tinha uma mãe que me deixava ficar em casa. Eu detestava as meninas que só pensavam em namoro, roupas, festas. Eu queria viver, sonhar, fazer arte, morar numa cidade grande. Eu era diferente. 

Mas também tive bons momentos. Fui eleita a “prefeita” da escola. Comandei uma coreografia. Organizei trabalhos de grupo. Recebi de um professor a primeira dica da profissão que decidi seguir. jornalismo. Mal sabia ele que eu queria mesmo era ser como ele, e entrar pras letras. Ser escritora. Mas isso também nem eu mesma percebia. 

E é claro, te conheci. O melhor momento de todos.

Essa história está lá, marcada naquelas paredes empoeiradas e desbotadas. Pelos corredores temos também outros pequenos amores infantis. Alguns poucos vividos, outros sufocados pela falta de coragem da pouca idade. Como o meu. 

Mas o prédio hoje já não é mais o mesmo. As vidraças quebradas denunciam. Com o tempo, sofreu com a violência urbana. A crise econômica. A concorrência desleal. As intempéries do mundo.  

Hoje ele está sendo pintado. Reformado. Mas não é pra abrigar uma escola de novo. Eu não sei o que vai ser, mas o negócio acabou. Não teve forças pra continuar. Fica da época da escola a doçura das crianças fazendo suas primeiras amizades, as risadas, os trabalhos feito às pressas, a lembrança do amigo que caiu de roupa na piscina e hoje já nem está mais entre nós. A memória da ridícula lista das meninas mais bonitas. A eleição pra orador de turma na formatura. Ganhei por um voto de diferença. Quem sabe não foi o seu? 

O trabalho de português que fizemos. A placa com erro que foi roubada da porta de uma casa e levada pra apresentação. A prova com uma pergunta sobre uma música de Legião Urbana. Vento no litoral. Até onde me lembro, você foi o único que acertou a resposta. Mas de repente isso é só viagem minha. 

E nossas tentativas de ser descolados. Tropeçando em nosso início de adolescência. Tentando ser gente, quando na verdade éramos só imbecis que mal se olhavam no espelho. Vivendo nossas vidinhas tolas, sem ter a menor ideia do que estávamos fazendo. 

Hoje ainda não temos.  

E eu continuo sendo a menina que sofreu bullying, solitária, que tira dez em redação mas não consegue se declarar. Tentou depois de adulta mas fez tudo errado. Meu professor me daria 10 nesse texto, mas zero na vida. Quem sabe ainda não sou uma garotinha, esperando o ônibus da escola sozinha. Outro dia essa música tocou numa festa e uma amiga me disse: “é você, Nina”. 

Fica meu amor, acima de tudo, o doce frescor dos anos de inocência que não voltam mais. 

P.s: (A escola está sendo pintada. Reformada. Na verdade, eu sonhei com ela. E se essa escola na verdade é o meu coração, que ainda bate por você, mas cansou de ser a menina não correspondida?)


Crédito da Imagem: 

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HERANÇA

A herança que eu quero deixar
não é feita de BENS, de POSSE ou valor em dinheiro.
É o amor pela vida
O desejo de construir um futuro de afetos e amizades
São as gargalhadas gostosas dos almoços de família
nos dias de domingo
É uma herança herdada de meus pais
A paixão pela música, poesia e tudo que revele
o que há de melhor em nossa alma.
É a alegria de viver e a beleza do sonhar
É o comprometimento com o bem do próximo
É saber e reconhecer que não sou a única no mundo
Que no meu crescimento levo muita gente comigo
E que muita gente me leva também
É o valor do abraço solidário. Das palavras de apoio aos que me cercam
É a FÉ e a CORAGEM de continuar nos momentos mais difíceis
É o exemplo de viver e sobreviver apesar de...
É a memória de que fui muito feliz.

Crédito da Imagem: Foto por Askar Abayev em Pexels.com

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ESCOLHER OU NÃO ESCOLHER, EIS A QUESTÃO…

Sem dúvida é mais fácil viver sem essa preocupação, no estilo Zeca Pagodinho “vida leva eu”, “dançando conforme a música’, “empurrando com a barriga”, usando sempre a forma verbal “queria”.

Quando me demitiram em julho de 2021, fui convidada pela vida a escolher: o que farei agora, já que achava que me aposentaria nessa empresa? Atualizar o currículo e buscar uma nova vaga na área de mais de 30 anos de experiência ou retomar a carreira estudada e nunca exercida?

Não atualizei o currículo!

E não satisfeita em decidir abraçar minha carreira de educadora, também escolhi mudar de estado e de estilo de vida. Troquei bus e barcas pela bike e canela! Partindo do princípio de que toda escolha tem que ser pautada na necessidade, busquei as minhas. Mais do que suporte financeiro, preciso de paz e mar! Então vim pra Navegantes – SC!

E tendo em mente que precisava acreditar nos meus sonhos e desejos, pude enxergar os meios e as capacidades que precisava desenvolver para realizá-los. Fácil assim? Óbvio que não! Desde o dia que tomei essa decisão comecei a estudar loucamente! Troquei a CLT pela LDB apaixonadamente! Revisitei conteúdos, aprendi outros. Concluí uma pós na área educacional e além de outras, já planejo o mestrado!

Primeiros resultados: passei em 6º lugar no Processo Seletivo e em 18º no Concurso Público, um feito e tanto para alguém há tanto tempo fora de uma rotina de estudos acadêmicos. Estou feliz e orgulhosa por essas conquistas!

E já que toda escolha vem acompanhada de consequências, tenho lidado com as minhas. Estar longe da minha filha fisicamente, resultou num amadurecimento surpreendente, pra ela e pra mim! Virtualmente, continuamos íntimas e amigas!

Estar longe das cats (Frida, Nina, Dandara e Serena) está realmente puxado, mas a “cã” Poly tá cuidando de mim com carinho! Família e amigos também fazem falta, estão todos no meu coração e na minha mente e quero todos aqui em casa em breve! Pensar nessas visitas me acalanta!

Para montar meu lar doce lar, precisarei comprar coisas, algumas novas outras usadas, e isso é delicioso. É como brincar de casinha, e dessa vez eu escolho tudo sozinha, porque Mi casa es mi casa mesmo! E ainda tenho garimpado umas coisas bem interessantes para adornar meu refúgio.

Para fazer minhas escolhas darem certo, foi preciso mudar posturas e mentalidade. Mas quando mudamos um comportamento, nos envolvemos no processo de forma comprometida, e vemos pouco a pouco, nossas escolhas se concretizarem! A parte mais difícil é definir quais são as coisas certas a fazer para alcançar nossos sonhos. A parte fácil é usufruir!

Nessa trajetória ainda aprendi umas coisas novas: Menos é menos mesmo! O essencial é suficiente! Construir novos horizontes é fundamental! E minha lição preferida: Deus escreve certo por linhas lindas!


Crédito da Imagem: Foto por @rosicleiasantos

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”