sem título

Se bater em meu rosto agora
o único som que ouvirá não é o do grito,
ou o do pranto,
ouvirá o som surdo da casca oca.

Se violentar meu peito agora,
com a força da pancada bruta
não sentira a carne que afunda e sim estilhaços cortantes que me sangram mas não a ti.

Se forçar seu corpo contra o meu
num agora a pouco
não sentirá o gozo contrarindo o corpo
e sim uma leve brisa
úmida e morna
saindo da boca,
um último suspiro de um alguém que não existe mais.
A um alguém não esteve e que foi.
A um alguém que está mas não é.
A um alguém que é mas não está.

Lançar mão
De toda munição
Disparar todos os gatilhos.
Para não fazer meu
Teu desespero.

Crédito da imagem: Pexels

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.

O GRANDE ENCONTRO

O encontro não foi grande, muito pelo contrário, foi pequeno e intimista. Lembramos os velhos tempos, nos atualizamos dos eventos do presente e especulamos o futuro. Apenas umas poucas horas ilustrada por uma bela paisagem, regada a água, chopp e uns pastéis foram o suficiente para a nostalgia da nossa amizade.

Reencontrar uma amiga das antigas é assim: rimos, choramos, nos emocionamos e comemoramos. No final, dissemos até breve, nos reencontraremos em algum dia num futuro incerto. E está tudo bem!! Faz parte da vida.

Elaine Resende (@criaelaineresendene) foi minha primeira chefe, quem viu em mim um talento e acreditou no meu potencial profissional. Foi quem disse: “- É novinha, mas espertinha”. Era início do ano de 2005, tinha acabado de ser aprovada no vestibular e passava pela experiência da primeira entrevista de emprego para o qual acabei sendo contratada. Alí nos conhecemos e nasceu uma amizade que completou 17 anos. 

Seguimos nossos caminhos em paralelos, primeiro ela saiu para novos desafios, um tempo depois eu que passava num concurso e partia. Ela casou, teve filhos, passou num concurso e trocou 2 vezes de cidade. Eu também passei no concurso e anos depois também me mudei para outro estado. 

Há alguns anos eu estive a trabalho na cidade onde ela mora.  Esse ano ela quem veio a trabalho na cidade que moro. Coincidência? Alinhamento dos astros? Destino? Não faço ideia, mas sou grata esse presente de Deus! Podemos ficar, dias, meses, anos sem nos falar, mas quando damos ‘olá’ é uma festa que o referencial de tempo e espaço não rompe jamais.

Lembrei de quando os meninos eram bem pequenos, com todas as dificuldades de logística e eu dava um jeito de encontrar com ela, assim mesmo. Um encaixe na agenda, quase uma consulta médica, contada no relógio. Mas era tão bom!! Ela me pedia desculpa por não conseguir me dar tanta atenção que gostaria e eu agradecia por me permitir fazer parte daquilo tudo. 

Ela sempre me incentivou tirar um ano sabático, fazer uns passeios, esquecer das obrigações profissionais e compromissos  estudantis. Eu nunca consegui realizar, o máximo que fiz foram 30 dias no Canadá sozinha, só que para estudar (mas foi bom demais). Ironia da vida, ela criou um blog de escrita feminina de nome “Sabático Literário” (neste mesmo que escrevo) e me convidou para colaborar com o projeto. Aí está, o “meu ano sabático” foi realizado de uma forma um pouco diferente e chegou através dela. Não foi exatamente aquele que idealizou pra mim, mas foi o mais próximo que cheguei. rs

Foram poucas horas pra contar tudo que a gente queria, tudo que aconteceu nos últimos anos. Tanto tempo sem jogar conversa fora, coube ao coração selecionar os assuntos que foram pauta daquela momento. O que primeiro veio a mente ganhou preferência entre as participantes. E, naquele roteiro guiado pelo improviso, os assuntos oram surgindo conforme a conexão com as histórias contadas. 

Enfim, muitas coisas foram ditas e muitas outras ficaram por dizer. Nosso tempo tinha acabado, estava tarde, tínhamos trabalho no dia seguinte. “- Garçom, a conta por favor.” Ainda, não era meia noite, mas era hora de se despedir, dizer até breve. Deixei ela no hotel e segui pra casa feliz desse grande encontro certa de que o que torna os encontros grandes não é o tamanho, mas a profundidade das relações.   

Até breve, amiga!!!

Nos reencontraremos em algum dia num futuro incerto. 

Crédito da imagem: Acervo da autora Karina Freitas

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.

MULHERES…

A frieza do saguão daquele aeroporto não obstou o encontro dos olhares daquelas mulheres. Duas singularidades, absolutamente díspares, aos olhos do mundo posto. Um duplo de almas, aos olhos do invisível. O jeans, surrado e justo, gritava por autonomia, liberdade e sensualidade. A burca, negra e austera, sussurrava por discrição, tradição e sensualidade. Não se aproximem, estipulavam as leis não ditas locais. Mas a curiosidade feminina, não aceita fronteiras. Dois metros as separavam, fisicamente. Um universo, culturalmente. Nada, em verdade. Um pequeno espaço no tempo as uniu. Um imenso tempo no espaço as separou. Analisavam-se mútua, cuidadosa e afetivamente. Enquanto uma viajava com amigos, homens em sua maioria, e buscava diversão. A outra, rodeada por crianças, viajava com a família, e cumpria obrigações. Consentiram que estavam conectadas; que desejavam estar conectadas. Perceberam-se fixadas nos movimentos uma da outra. Admirando-se. As vozes ficaram mais ao fundo. A luz servia ao mistério. Todos em volta pareciam mover-se em câmera lenta, distantes. Os olhares brilhavam e se conversavam, como sempre narram os poetas: sem as palavras, radicalmente, em não forma, em não linguagem. Alcançavam-se profundamente. Compreendiam-se em suas dores – tão distintas e tão similares. Sonhavam-se em futuros próximos, também nos distantes, e em passados vividos – brincavam e ignoravam suas formas e contornos, opostos e paradoxais, diziam os ditos e narrados. Emocionaram-se com os séculos de ignorância. Sorriram e se amaram, por eternos 10 minutos. Redimiram, internamente, seus abismos de intolerâncias e preconceitos. Carregam-se em lembranças. Encontram-se sempre … mulheres.


Adriana Agnese. Mulher. Escutadora. Viajante. Advogada por profissão. Psicanalista por vocação.  Astróloga por paixão. Artista em construção.Minha vida tem seguido a rota da fluidez e da desfragmentação. E sigo. Caminho. Flutuo. Por vezes voo


Crédito da imagem: Acervo da autora Adriana Agnese

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.

UM PET EM NOSSA VIDA

O cachorrinho que pensava que era gente…
Byron era seu nome. Pelo pretinho reluzente. Carinha de bichinho carente. Olhar “pidão” feito menino quando quer um doce.
Chegou para a família bem na hora da pandemia. Foi uma alegria. Preencheu o dia das crianças e distraiu os adultos de suas enormes preocupações.
Trouxe também um aumento das responsabilidades diárias do pessoal da casa. Dois passeios por dia para resolver suas necessidades físicas. Horário de alimentação, novos itens incluídos na lista de compra semanal.
Estava tudo organizado e o bichinho de estimação era realmente estimado por todos da casa.
Um dia a família resolveu viajar e se hospedar na casa de uma parenta que tinha trauma de cachorros. Quando ainda criança fora mordida por um cachorro de sua madrinha.
Como deixar o Byron com ela? Criaram coragem e pediram … ela aceitou  e passaram a tarde juntos.
Byron conquistou mais este coração.
E com a convivência mais íntima a mulher percebeu que Byron achava que era gente.
Participava de todos os encontros da família e rapidamente se tornou uma presença importante e querida para todos.
Ele não se excluía de nada e se a mãe ou o pai dos meninos falassem qualquer assunto com eles o cachorrinho se colocava no meio  atento como se entendesse toda a conversa.
Byron é de uma raça que não cresce muito e por isso o chamam “bebê “, é parte da família e pensa que é gente. Espalha amor e carinho por onde passa e há uma mágica que faz todos se divertirem e dar boas gargalhadas com a sua presença.


Crédito da imagem: Foto por Paulo Resende (@cria.pauloresende)

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

RELVA

Os grilos pulam na minha cabeça 
Relva
Louca
Selva
Orvalho que molha pelos e pele
Cabelos compridos
Seda verde
Ensandecido
A tristeza não traz consolo
Conforto encontro
Nos olhos
Nos ombros
No beijo
Do bicho que vive em ciclo
Que acalma meus cios
Ouve histórias de tribos e guerras
E chama de Relva
O emaranhado de ideias
Onde vivem meus grilos

Crédito da imagem: Foto por Alana Sousa em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.

Música

És a soberana entre as artes

Por entre tuas notas, viajo

Voo leve, ou mergulho

Em um mundo mágico e obscuro

Sinto vibrar pelo meu corpo

– quase morto

E renasço em ti

Posso estar em um jardim

Repleto de flores

Ou em um deserto

Com os pés fundos na areia

Música que me liberta

A ti faço esta homenagem

Na solidão do isolamento sem fim

Tu me afagas

Me conduz a outros mundos

Sinto-me tocada como em sexo

Sinto-me amada, em teus versos

Trazes a mim uma espécie de transe

A alma: GRITA

Ahhhh

E me lembras que existe algo além de morte e tristeza

A vida pode nos oferecer também

– beleza

E se refaz

Enfim…

Crédito da imagem: Pexels

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

ABRAÇO

Eu, que nunca soube me despedir…

Talvez ainda não o saiba.

Talvez não hei de saber.

Eu, que nunca deixei de dizer que te amo…

Ainda não deixo.

E nunca deixarei.

Eu, que te olhava nos olhos

e enxergava sua alma…

Ainda te olho.

Ainda te vejo.

Ainda te olharei com esse amor

que lhe transbordava o peito.

Eu, que te abraçava…

Continuo a te abraçar.

E te abraçarei…

Como “ontem” te abracei.

Como a saudade nos abraça.

Te abraçarei pra sempre.

Eu, que nunca soube me despedir…

Talvez não o saiba.

Talvez não hei de saber.

(Lívia Maria – 25/07/2020)

Crédito da imagem: Arquivo pessoal Lívia Maria

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

AGENDA RABISCADA

         A caneta na minha mão e a agenda sendo rabiscada; e é tantos rabiscos que tem que não daria para contar em um curto tempo. Sempre tenho por perto e nela há centenas de frases, algumas até rasuradas e que dão desafio para ler. Sim, porque não são trechos de sentimentos recentes; há coisas que pensei tempos atrás.

         Dia desses me perguntaram se era um diário onde a minha vida mais íntima estaria na ponta das letras. Não, não era esse tipo de agenda ou diário que guarda pelas linhas histórias de amor. Mas, eram sentimentos de diversos tipos e situações colocados ali nos pedaços de papel.

         Rabiscos de vidas e vontades que existiram e perdeu sua importância, casos e histórias vividas e de sonhos que ainda não foram iniciados. Quando tiro tempo para ler o passado descrito nas linhas de uma agenda rabiscada surge na memória um contraste de pensamentos diferentes de tempos distintos.

         Parando para pensar vejo com mais entusiasmo como é bom relembrar nossos pensamentos vindos  através da escrita de outros tempos.


Crédito da imagem: Foto por Ketut Subiyanto em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

O homem perfeito existe?

“Qualidades imprescindíveis: estar disponível, ser honesto e bem humorado, morar nos arredores, ter uma aparência agradável, ser carinhoso e bom de cama (com a minha pegada!) que transite entre o amante romântico e o amante voraz, que tenha fantasias e as desperte, que mande bem no sexo oral (que raridade!), que me respeite como mulher inteligente e empoderada, que seja inteligente e empoderado, de bem com a vida e estabilizado financeiramente (que já tenha saído da casa dos pais ou dos filhos!) que tenha amigos e seja querido por eles e pela família, que goste de dançar e de se divertir, que cante no chuveiro ou no caraoquê, que goste de esportes mesmo que não pratique nenhum, que goste de crianças e de cães e gatos, que não fume (venenos industrializados!)  e beba socialmente, que seja espirituoso e espiritualizado, que tenha um poder superior para acreditar, que seja do BEM, um eterno aprendiz, aberto às descobertas e sem preconceitos, que sorria sempre, seja responsável mesmo que a criança interior sempre esteja à mostra, que curta o pôr do sol, goste de namorar e enamorar, que ande de mãos dadas, que goste de viajar, de conhecer lugares e gentes, que leia livros e comente sobre eles, que escreva e se liberte através das letras, que seja eclético tanto na música quanto no cinema, que respeite e ame minha filha (MEU BEM MAIOR!), que seja verdadeiro, coerente, fiel, cúmplice, que tenha firmes propósitos, bom caráter, que exercite seus valores morais e éticos, que já tenha filhos (e talvez até netos!), que seja de um signo que combine com o meu (agora sei que câncer seria perfeito pra peixes!), cabelos macios ou nenhum (amo carecas!). Características inaceitáveis: mau humor, ignorância, desonestidade, infidelidade, qualquer tipo de desrespeito comigo ou com minha filha, grosseria, ciúme, fumante.”

Escrevi esse texto em 14/06/2009 e agora dei umas ajustadas, mas o que surpreende é dizer que ao longo desses 13 anos não encontrei esse homem. Porque é tão difícil? Essas qualidades que tanto buscava na verdade são minhas, e se é possível uma mulher ser assim, porque fica tão difícil encontrá-las num homem? Não sei a resposta, e agora também não o busco mais (mas acredito que posso esbarrar nele a qualquer momento, rs!.

Hoje procuro a felicidade nas minhas realizações diárias e corriqueiras. O foco ainda é o profissional e o bem estar, mas já andei paquerando nas minhas andanças. Os catarinenses em sua maioria tem olhos azuis e pouca escolaridade, os mais inteligentes que conheci (mestres e doutores em educação) são gays e comprometidos e bem lindos!

Na verdade o que importa é viver um dia de cada vez, consciente do que quero pra mim e determinada a conquistar! O universo tem mandado só coisas boas e maravilhosas pra minha vida nos últimos tempos e quero usufruir todas elas com a melhor companhia do mundo: eu mesma!

Navegantes, 27 de março de 2022.


Crédito da imagem: 
Pexels

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

A FORTALEZA DE PLÁSTICO

O domingo passou como um relâmpago. Lá fora, a chuva intensa dissolvia tudo ao redor, carregando a água caudalosa que corria apressadamente pelo asfalto. As luzes dos postes foram acesas e me fizeram despertar para o fim do dia que já batia a nossa porta. O fluxo luminoso emanado pelas lâmpadas permitia enxergar as finas linhas de chuva em seu trajeto em diagonal. Dei uma espiadela na Avenida Aguanambi e observei por alguns instantes o trânsito calmo, típico de um domingo em seu fim de tarde. Imaginei as famílias saindo para a missa ou para o cinema, apesar da chuva, seguindo suas vidas normalmente, alheias ao que acontecia a poucos metros dali, dentro do hospital.

Uma enfermeira entrou no quarto sem cerimônia, acendendo as luzes fortes sobre o leito e trazendo os remédios do início da noite. Levantei-me apressadamente para dar passagem e desliguei a TV que despejava sobre nós os programas dominicais enfadonhos e que ninguém estava prestando atenção. Como de costume, perguntei o que ia ser dado e ela listou, uma por uma, cada droga que seria administrada. Minha mãe virou lentamente a cabeça em minha direção e seu olhar era de quem pedia autorização, como que esperando meu consentimento para aceitar receber os medicamentos. Ela tinha um temor antigo de erro médico dentro de hospital, fruto de tantas notícias dessas que escutou ao longo da vida. Eu consenti com a cabeça e um sorriso, sinalizando que estava tudo bem e que ela podia confiar. A enfermeira pegou um canudinho e passou a dar a ela, um por um, cada comprimidinho por dentro do orifício do capacete Elmo.

Há apenas dois dias atrás, nós chegamos a aquele hospital. Quando eu viajei 60 quilômetros para pegá-la e trazê-la para Fortaleza, naquela tarde de angústia, sabia que era a coisa certa a se fazer. Ficamos internadas desde então. Ela, como paciente com COVID-19; eu, sua acompanhante. Em apenas dois dias, vi ao vivo e em cores todo aquele calvário que até então eu só havia visto no noticiário: a busca por um leito hospitalar, o agravamento rápido da sua condição de saúde, apesar de vacinada, a necessidade de aporte complementar de oxigênio… Ela havia entrado para a estatística como mais uma cearense em estado grave por conta da COVID-19. Seus pulmões, sadios até então, sucumbiram a aquele vírus estranho e traiçoeiro e os aportes de oxigênio que ela vinha recebendo desde a internação não estavam sendo suficientes para a reversão do quadro que se deteriorava rapidamente.

Seu semblante se assustava a cada chegada dos médicos que traziam os resultados dos últimos exames e reavaliavam a conduta aplicada. Na véspera, a médica havia dito que ela precisaria começar a utilizar o Elmo. “Com a COVID a gente não perde tempo”, ela disse. Eu demonstrei serenidade, olhei para minha mãe com segurança e confiança e disse: “Lembra do Elmo, mãe? Aquele capacete criado aqui no Ceará? Ele é muito bom! Vai lhe ajudar muito!”

Eu já tinha ouvido falar muito bem do Elmo e do sucesso dele no tratamento de casos graves da COVID-19. Quando as primeiras notícias sobre a criação do Elmo começaram a circular, eu me senti tão orgulhosa por saber que uma invenção genuinamente cearense estava ajudando a salvar vidas na pandemia! Mal sabia que eu conviveria tão de perto com ele durante dias de expectativa, tensão e medo.

Apesar da esperança que o Elmo representava e da confiança que eu tinha de que seria o melhor caminho para o tratamento dela, a indicação do capacete sinalizava que estávamos entrando, naquele momento, no corredor escuro da última tentativa antes de uma possível intubação. O fantasma da intubação estava à espreita. O uso do Elmo gerava um sentimento de medo pela proximidade de uma intubação mas, ao mesmo tempo, de esperança de que ele reverteria o quadro. Diferentemente da intubação, o Elmo não era o fim do túnel, era a antessala. E estávamos, eu e ela, dispostas a fincar o pé naquela salinha pequena que era o capacete.

A enfermeira saiu e chamou a fisioterapeuta para mais uma checagem do Elmo. A chegada da fisioterapeuta era ansiosamente esperada porque era ela que ajustava o Elmo, regulava o fluxo de oxigênio e ajustava as faixas que fixavam o Elmo ao pescoço. Ainda que o Elmo fosse feito, em sua câmara principal, de uma espécie de plástico flexível, cada vez que a paciente se mexia, a depender da posição, uma fuga de ar poderia acontecer. E essa fuga, além de prejudicar o aporte de oxigênio desejado, causava desconforto a paciente.

Eu soube que no hospital em que estávamos havia um andar inteiro só de pacientes com Elmo e que lá tinha fisioterapeutas disponíveis 24 horas por dia. Contudo, quando chegamos ao hospital, este andar estava com todos os leitos ocupados e minha mãe teve que ser internada em outra ala. Assim, os fisioterapeutas do nosso andar não eram exclusivos, principalmente à noite. Então, sempre que eles entravam na nossa enfermaria, com seu uniforme verde escuro e paramentado com seus equipamentos de proteção (ou seriam trajes de guerra?), personificávamos neles a ciência e a técnica que poderiam ajudar a todas naquele quarto: tanto as doentes como as acompanhantes sedentas pela melhora delas.

A fisioterapeuta ajustou o Elmo e minha mãe conseguiu achar uma posição confortável para tentar cochilar. Eu também me aninhei em uma cadeira reclinável que posicionei de frente ao monitor da saturação dela. Olhar todo o tempo para o monitor, vendo a dança oscilatória dos valores da saturação deixava-me tensa. Às vezes os números caiam repentinamente e o monitor disparava um alerta sonoro. Eu me colocava a aguardar ansiosamente que subissem e estabilizassem, em segundos que duravam uma eternidade. Quanto tempo de saturação aquém do esperado seria prejudicial para ela? Espero por quanto tempo? Chamo alguém agora para aumentar o aporte de oxigênio? Acompanhar um doente nesse estado requer sangue frio e racionalidade.

E o cansaço, o medo e a insegurança? Guardo onde? Em uma gavetinha escondida até de mim mesma, para não cair na tentação de me lamentar, não ter pena de mim mesma e não abater a fortaleza que preciso ser nesse momento.

Lembro que no começo da pandemia os acompanhantes de pacientes com COVID não eram permitidos nos hospitais. Hoje em dia, com a vacinação, a realidade era outra. Eu, vacinada e recém-saída de uma COVID leve, tinha o privilégio de poder estar ali, apesar de tudo. Como diz minha mãe, “a tudo demos graças a Deus”.

Olhei ao redor e após alguns minutos de luz apagada, abri um pequeno pedaço da cortina para que a luz da lua iluminasse um pouquinho o ambiente. A chuva tinha passado e o vidro molhado da janela deixou meu reflexo cheio de pontinhos. Em meu rosto, as olheiras escuras davam o tom do cansaço da lida. As ruas estavam desertas. Lá embaixo, contudo, o movimento de pessoas e ambulâncias prosseguia, mas em um ritmo menos intenso. A luz que vinha da rua deixou o quarto menos escuro. Ao redor, a cena das pacientes com seus Elmos remetia mais a uma viagem espacial, como se estivessem com seus capacetes transparentes de astronauta, explorando um ambiente desconhecido e hostil. Talvez estivessem mesmo na lua, em sonho, flutuando leves carregadas pelo oxigênio fresquinho que seus Elmos lhes forneciam. Felizmente, estavam serenas, com os olhos fechados, parecendo dormir como crianças que receberam o carinho derradeiro da mãe. Nem pareciam as mesmas que vi durante o dia, de olhos arregalados, queixando-se da sua condição ou clamando por um alento qualquer que minimizasse aquele sofrimento, fosse por meio de um tranquilizante ou até mesmo de uma chamada de vídeo com uma pessoa querida.

Mal fechei os olhos e o dia logo amanheceu, o que é muito bom para uma noite em um hospital. Sem intercorrências nem desassossego. Acordei com minha máscara ao chão e um bom dia ensolarado da técnica em enfermagem que estreava no turno.

O céu despertou claro e de um azul terno, sem as nuvens escuras do dia anterior. Finalmente um dia que fazia jus à Terra do Sol, que também é terra de gente que resiste bravamente às dificuldades e inventa capacetes de ar.

Minha mãe também despertou e, ao me ver, sorriu. Seu rosto estava abatido por dentro do capacete. A luta que ela travava contra o vírus era árdua e cheia de incertezas. Contudo, eu sabia que ainda que o Elmo tivesse suas limitações no tratamento, era ele que estava permitindo que ela ainda estivesse ali comigo, na enfermaria e consciente, respirando com o apoio dele, e não intubada. Agradeci a Deus pelo ar que entrava em meus pulmões naquele momento através da minha máscara N95. Sorvi-o profundamente e com prazer, por mim e por ela, fazendo dele um refrigério também para minha alma, acalmando-me e preparando-me para mais um dia no hospital, na esperança convicta de que tudo isso seria revertido em breve. 

Nosso café da manhã chegou e o mingau que ela tanto gostava estava quentinho. Perguntei se ela já queria e ela disse que sim. Tirei o orifício do Elmo que já tinha aprendido a manusear e coloquei o canudinho em sua boca. Ela sorvia com gosto enquanto eu observava os níveis de saturação já que o orifício do Elmo estava destampado, diminuindo a pressão interna. Tudo tranquilo.

“Vai dar certo”, como diz a frase espalhada em todo lugar em Fortaleza, nas fachadas, faixas e lixeiras.

Naquele momento, nossa fortaleza era um castelo cearense bem pequeno e transparente. É tão cearense que só faltava ser adornado com renda de bilro ou com estampas de coqueiros e carnaúbas. Nossa fortaleza, nosso “bunker” de proteção, era o capacete Elmo.


Crédito da imagem: Foto por Tatiana Fortes, ASCOM Governo do Ceara. Disponível em https://www.ceara.gov.br/2021/06/09/presente-em-quase-todo-o-brasil-capacete-elmo-ja-tratou-quase-tres-mil-cearenses-na-rede-publica-em-seis-meses__trashed-2/

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”