UMA CARTA PARA INGRID

Fortaleza, 06/02/2022.

Querida Ingrid,

Como tem passado, menina? Sei que ainda não nos conhecemos, mas ouvi teu nome muitas vezes nesse ano que passou. Em todas essas vezes que perguntaram por você, aqui em casa nos perguntamos por você também. Fizemos piada e os meninos passaram vários trotes para quem queria apenas seu contato.

Sou velha, reconheço, então o mais adequado a se dizer é que fizemos troça com as suas ligações. Talvez se você estivesse ao lado achasse graça das nossas imitações do que seria a sua voz, ou gargalhasse abertamente das vezes em que informamos que você havia viajado num programa espacial para algum lugar distante, tipo Marte ou Lua, e que não sabíamos a data do seu retorno. Ainda não tem 4G no espaço!

Até essa semana.

Foi nessa semana que me perguntei seriamente se você está bem. Tive vontade de saber se não haveria outro telefone de contato para falar contigo, se…

Nessa semana me lembrei que estamos atravessando um lago pantanoso, escorregadio e cheio de bichos peçonhentos, que podem a qualquer momento depositar seu veneno sem que a gente perceba.

Me preocupei que talvez, ao cruzar para a outra margem, você tenha sido abatida, ou a pessoa responsável por prover sua família tenha ficado desempregada, ou que esse papel de provedora da família seja seu, e tudo possa estar um pouco caótico agora.

Desde o início dessa semana passei a pensar em você como uma pessoa, não mais como um número de telefone que herdamos aleatoriamente. E por isso decidi te escrever, porque não foi apenas o seu número de telefone que você perdeu, mas também sua matrícula na faculdade de engenharia civil, naquela mesma cidade sorriso onde um dia lecionei para jovens e adultos com a esperança de que seriam engenheiras e engenheiros respeitados ao terminar a graduação.

Tão perto.

Essa semana, quando os cobradores ligarem, direi a eles que tenham paciência, que entendam que a sua condição atual de devedora não é algo de sua natureza, mas da natureza dos eventos extremos que estamos vivendo. Vou lembrar ainda que a vida anda dura, mas que temos que acreditar na ciência, nas vacinas, e não desperdiçarmos nossa fé, que sei que sofre com a escassez. E esperançosa que sou, espero que você possa ter um novo número de telefone, pagar seus débitos e retomar seu projeto de se tornar engenheira civil.  Um novo começo, como o novo ano sugere.

Seja forte, Ingrid. Cuide-se bem, mantenha-se segura e saudável dentro de suas possibilidades. E que em breve você possa me responder essa carta dizendo que entendi tudo errado, que você descobriu que arquitetura tinha mais a ver com você, e que trancou sua matrícula antiga porque passou para uma universidade federal.

Queria muito te ouvir dizer que trocou seu número porque seu ex-crush era um pé no saco e que você desejava ferozmente que as mensagens dele queimassem no inferno. E que os cobradores que te ligam são sempre os mesmos, a respeito do pagamento daquela mensalidade infeliz que, por uma razão desconhecida, não foi baixada no sistema.

Queria ler em tuas palavras que você atravessou o lago de braçada e chegou tranquila do outro lado, sem intercorrências, sem perdas, com a respiração forte e fôlego para aguentar driblar os novos bichos peçonhentos que poderão surgir.

Queria te ouvir dizer tudo isso e achar graça do meu jeito velho de me preocupar, como se fosse sua mãe ou algo assim. E no fim você me diria “sua loka, não se meta!” ou ainda “te respondi por educação, por favor não me escreva novamente”. Ao que eu suspiraria aliviada pensando, “que bom, menina, que você está bem!”


Crédito da Imagem: Foto por cottonbro em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Publicado por Elaine Resende

Escritora, amante das letras, viciada em criatividade fantasiada de texto, foto, desenho, música e escultura de argila. Um dia será boa em pelo menos uma dessas coisas, mas se diverte em seguir tentando.

8 comentários em “UMA CARTA PARA INGRID

  1. Nesse mundo cada vez mais impessoal (e não estou falando do princípio constitucional da impessoalidade na administração publica), colocar-se, vez por outra, no lugar do outro tem sido qualidade rara – acho que a isso que chamamos de empatia -, sua carta nos dá esperança de que as pessoas possam enxergar umas às outras como gente, não como um número de telefone.

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