Vento

O vento soprou forte

Balançou todas as árvores ao redor

Os meus cabelos foram-se na ventania

Arrepiaram… Embaraçaram…

A vontade de fazer o coque para disfarçar o frizz

As folhas vieram em minha direção

Eram folhas verdes, amarelas e marrons porque também tinham as folhas secas.

Um vento impetuoso vindo dos ares

Esforçava para arrancar coisas de um lugar para o outro

Me veio na mente que a vida é como o vento: uma constante mudança; há coisas que não podemos arrancar, outras podemos soprar para longe e outras que levamos onde for.


Crédito da imagem:  Foto por Masha Raymers em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Banquete aos vermes.

Banquete aos vermes

Banquete aos vermes

A irregularidade
Da ordem dos dias
é cada átomo gritando
(Des) acelerar!!!
Tempo urge
brada as horas irreversíveis
pêndulo imperfeito
ranhuras insistentes e obrigatórias,
comemoradas ano a ano
Por quê?
o entregar seu respirar ao desconhecido?
aplaudir a dor dos dias contados?
Acelerar
comer a vida com as mãos
Sem etiqueta
Sem permissão
só então…
…aos vermes mal passado.

Crédito da imagem:  Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Uma lista para chamar de minha

Sou a mulher das listas. Tenho lista para tudo: a lista de ideias para textos, a lista de livros para ler, a lista dos livros que emprestei e para quem emprestei, dos filmes para assistir, dos lugares para conhecer… Essas listas não me cobram uma ação imediata, ficam ali à mão esperando o prazeroso momento de serem consultadas para, a partir delas, nascer uma viagem ou uma nova história para contar. Mas tem também as listas de tarefas e compromissos. E é sobre elas que preciso falar.

Tenho a lista semanal e diária das tarefas pessoais (o que inclui a vida doméstica e financeira, o planejamento de estudos, os afazeres de mãe, o meu autocuidado e o cuidado com os meus, etc) e a lista pessoal de resoluções a médio e longo prazo também. No trabalho, são várias: a lista de tarefas da semana, a lista diária, a lista de ideias para implementar, a de assuntos para estudar, a de pautas possíveis para a próxima reunião e tantas outras mais… As pessoas que convivem comigo mais de perto sabem da existência das listas e de como minha vida, de certa forma, gira em torno delas. Minha caçula sempre aparece dizendo assim: “Mãe, põe tal coisa na sua lista” ou “Mãe, tem como colocar no topo da sua lista esse meu pedido?”. No trabalho, é muito comum alguém chegar com uma demanda para a qual respondo: “Já estava na minha lista. Vai chegar a vez”. Essa semana um colega de trabalho soltou uma risada depois que falei isso, o que me fez refletir que talvez eu falasse essa frase mais do que imaginava ou, ainda, que talvez o que vai para a lista esteja ficando desacreditado, como se o fato de colocar na lista signifique que talvez demore a ser resolvido… 

De tantas listas, ultimamente tenho andado para lá e para cá com três caderninhos a tiracolo. Sim, três. Poderiam ser menos e mais bem organizados, de forma que apenas um fosse necessário? Talvez. Mas, por enquanto, são três. Meu marido, que também é meu colega de trabalho, me pergunta: “Por que todo dia você leva e traz esses caderninhos?”  Porque tudo o que eu acho que preciso fazer está lá e porque preciso estar sempre com eles para anotar as coisas que vão surgindo e aproveitar o tempo disponível (que é escasso) para ir matando as coisas da lista. 

 “Acho que preciso fazer…” 

“Ir matando as coisas da lista…” 

Já tive algumas listas no celular. Mas de uns tempos para cá, voltei-me para as listas no papel mesmo, vendo o desenhar da minha letra me cobrando resoluções. Às vezes me pego olhando as listas anteriores e as tantas coisas que já fiz e que, por terem sido realizadas, transformaram, de alguma forma, minha vida. Para o bem ou para o mal. Absorto-me nostalgicamente admirando o caminho percorrido, orgulhosa da minha trajetória, refletindo o que poderia ter sido diferente mas que não foi.  

Foi do jeito que foi e pronto. 

Dizem que se pode conhecer alguém pelo seu lixo. Eu diria que se pode conhecer alguém muito mais pelas suas listas ou até pela falta delas. As do passado, com os itens prazerosamente riscados por terem sido realizados, bem como pelas presentes e futuras, com seu clamor silencioso pelas urgências da vida adulta. Seu DNA mais honesto está na lista. 

Sempre fui uma pessoa de muitos afazeres em praticamente todas as fases da vida. Fazia curso técnico, estudava espanhol e, ao mesmo tempo, estudava por conta própria para o vestibular. Fazia faculdade, curso técnico, inglês e estagiava. Já fui universitária, estagiária, esposa e mãe, com pouco mais de 20 anos. Para em seguida ser trabalhadora, concurseira, pós-graduanda, dona de casa e mãe de crianças pequenas. Tudo ao mesmo tempo, junto e misturado, almejando conquistas, achando que esse era o único caminho: me virar em mil para exercer tantos papéis que eu própria me impunha. E como conseguir dar conta de tudo sem planejamento?  Por isso as listas. 

“Dar conta de tudo…” 

De uns tempos para cá, contudo, estou vendo o fenômeno enigmático das listas crescendo assustadoramente rápido. Estão aumentando em progressão geométrica. E minha capacidade resolutiva nem de longe faz cócegas nesse monstrinho taciturno que dorme na minha cabeceira, tão perto e sorrateiro. Estou quase vendo essas listas me engolirem de uma vez por todas, como uma folha de papel gigante que me envolve em uma grande bola de papel amassado e se joga no incinerador. Ou nunca vi antes esse fenômeno das listas cujos itens se reproduzem como coelhos ou já aconteceu antes e eu é que não me dei conta porque era mais jovem e tinha mais energia ou mais ilusão na minha capacidade de resolver problemas. O “x” da questão é que essa situação tem me inquietado profundamente e me deixado a incômoda sensação de que estou nadando, exausta, para morrer na praia. 

“Mais ilusão na minha capacidade de resolver problemas…” 

O fato é que já tentei resolver essa questão de algumas formas. Já fiz a lista semanal no domingo para não perder tempo de execução na segunda-feira, já me dispus a delegar parte das coisas possíveis e para as quais eu tenha alguma rede de apoio, já tentei ser mais rápida nas resoluções e simplesmente já cortei coisas que reavaliei como menos importantes. Mas tudo se mostrou paliativo e a lista permanece crescendo sem parar.

Já busquei as causas desse fenômeno das listas medusas, aquelas que quando cortamos uma cabeça várias outras nascem a partir do corte. Tentei entender o porquê de estar tão sobrecarregada, crendo que, caso descobrisse essa pólvora, pudesse debelar esse incêndio que consome meus dias. Será que foi a pandemia? A mudança de casa? O novo casamento? Os pets que adotei? A condição de saúde dos meus pais? O momento profissional de tantas demandas e responsabilidades? A situação do país? Acho que nenhuma dessas causas pode receber a sentença condenatória da culpa. Parece que todas essas coisas se deram as mãos e decidiram, em conjunto, tomar meu tempo de assalto, como uma gangue sedenta por fazer meu ócio de refém para nunca mais liberá-lo… Mas, no fundo, não são as coisas (as listas e obrigações) que me comandam. Sou eu a senhora do meu destino. Essa constatação libertadora, contudo, carrega consigo o peso de que só eu, e ninguém mais, conseguirá fazer algo por mim e pela almejada leveza dos meus dias.   

“Sou eu a senhora do meu destino” 

Já faz décadas que perdi a ilusão de que daria conta de tudo e de que conseguiria ter um planejamento que refletisse a realidade das incertezas da vida. Quem consegue pegar o dia de amanhã pela mão? Quanto tempo eu tenho para viver? Vou gastá-lo todo nesse latejar inclemente de listas e resoluções sem fim? E se amanhã fosse meu último dia, qual seria meu legado para os que amo?  

A vida é tão preciosa e de duração tão incerta que não posso me dar ao luxo de gastá-la apenas com coisas ordinárias que me consomem e que, egoisticamente, não deixam espaço para as coisas extraordinárias reivindicarem sua vez. Leia-se ordinário como algo comum e rotineiro e não como algo depreciativo.

Preciso também das coisas extraordinárias e encantadoramente simples. Do café da tarde sem pressa com o bolo quentinho saído do forno. Do contemplar a lua e as estrelas e sentir a brisa do vento que balança as folhas. De ir ao cinema no meio da semana. De bater papo com a Bia até tarde sem pensar nas coisas da lista que tinham que dormir resolvidas. De dar um passeio com minha cachorrinha e na volta parar para tomar um sorvete. De levar meus pais para passear. De viajar romanticamente com meu marido um fim de semana inteiro. De dormir uma tarde inteira sem despertador. De fazer um trabalho voluntário que ajude alguém ou as tantas causas que julgo importantes e me emocionam. De visitar meus sobrinhos e afilhados. De me encontrar com minhas amigas sempre que precisar de colo e de um ombro para chorar. De estar disponível para apoiar os que amo quando estiverem precisando de mim. De estudar um assunto de trabalho (ou não) com profundidade. De escrever. De aprender a cantar. De assistir animes com a Bel. De implementar ideias novas no trabalho. De fazer diferença de verdade na vida profissional dos meus colegas. De ensinar a alguém (ou alguns) o pouco que aprendi… Porque todo mundo tem o que ensinar e o que aprender… 

É impressão minha ou acabo de criar uma nova lista? Definitivamente a culpa não é das listas. Sou eu que as inflo desprevenidamente e não observo, na construção delas, o que é verdadeiramente importante e coerente com o que acredito. Impressiona-me que aos 40 e poucos anos ainda estou aqui nesse conflito sobre o que eu vivo e faço e sobre o que eu verdadeiramente almejo.

Viver resolvendo problemas aleatórios ininterruptamente se assemelha mais a um barco à deriva sem farol. Posso estar extremamente empenhada em remar e, ainda assim, não conseguirei chegar na praia paradisíaca com a qual sonhei.

Lá vem de novo o equilíbrio mostrando sua importância na condução da vida diária.

Sem ele, como mataremos os leões diários sem o oásis das pequenas grandes coisas extraordinárias?

 Sei que ainda que ninguém faça por mim a maioria das coisas da vida prática (seguirão aparecendo na lista para serem resolvidas e riscadas depois), eu preciso focar naquelas que darão verdadeiramente sentido a minha vida. E prazer. E vontade de realizar tanto o ordinário (ocupando seu devido espaço) como o extraordinário (raro – ou nem tanto – mas sempre especial). 

Enfim, viva as listas. Absolvo-as! 

Eu não sou delas. Elas é que são minhas. 


Crédito da imagem:  Foto por Bich Tran em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

MÃE, ME OUVES

( Jovina Benigno)

Mamã,

quero te dizer palavras

inauditas. presentes.

alqueires

tua  presença

nas noites em que vago

sem ti.

te amo, mãe!

eu  te dizia.

Hoje,

incompleta pela tua ausência

total te enxergo .

declaro meu amor

seguro  teu rosto

em minhas mãos vazias.

é exato que te amo.

Escrevo no bronze

teu verbete

pendor a cada detalhe teu.

precioso elo.

Fecho os olhos

sinto teu corpinho.

eu te abraço, mãe

querendo

te trazer para meu útero

Na  escolta ao portão

de minha casa de infância

tu, alteza

de bengala na mão

passo curtinho

abraços. teus braços

estirpes de nossas vidas                                           

a calma de sentir-te

pede teu olhar

tua voz.

Nós, filhos, netos

toda  tua descendência  

confusos com tua ida

assustados.

perdidos na  partida,

buscamos

em cada canto da  vida

o  teu regaço

teus passos voltados  para nós.

O toque dos teus dedos mágicos

fazendo gentes

teus versos envolventes

quantas histórias, mãe,

quantas tu nos contaste!

saudades, mãe!

estais  perto,

embora nas estrelas.

Escrevo no bronze

teu verbete

pendor a cada detalhe teu.

precioso elo.

És  flor, mãe

bandeja do céu te exibe

rosa de todas as cores

de preferência vermelhas e brancas

(embora às flores devamos a todas preferir )

A aura  tua

Iluminada alma

sinto aqui onde estou

onde sou

aqui mãe, no meu coração.

Crédito da imagem:  Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Se eu fosse…

Se eu fosse…

… um fruta

… uma flor

… um lugar

… uma bebida

… uma comida

… um personagem

… um animal

… uma música

… uma cor 

…. uma estação

E assim, seguindo a nova modinha do Instagram me vi refletindo como sou ou o que me representa!! Foram boas reflexões!

1. Se eu fosse… uma fruta: manga!!!!

Fruta doce, saborosa, diversificada, que vai em pratos doces e salgados, que vai sozinha ou acompanhada, em qualquer momento, mas principalmente no verão. É possível comer in natura, como sorvete, sacolé (ou dindin), picolé, mousse, suco, vitamina, com queijo, iogurte, granola e mel, na salada de frutas, salada verde, no ceviche, vinagrete, etc. Lembra-me a infância de chupar a manga colhida do pé e ficar com os dentes sujos dos fiapos, da boca escorrendo do sumo e as mãos amareladas, mas a alma feliz. Experimentei suco de manga com maracujá: original, ousado e uma explosão de sabores inimagináveis. Até como música nos versos de Alceu Valença está registrada. Atenção: contra uma antiga lenda  manga com leite é bom e não mata!!!

2. Se eu fosse… uma flor:crisântemo.

O crisântemo tem vários significados. Na Ásia, significa felicidade e é sinônimo de uma vida cheia e completa. O branco, simboliza verdade e sinceridade. De acordo com o taoismo, é um símbolo de simplicidade e perfeição. Originalmente é de cor amarela, e por isso em grego o seu nome significa “flor de ouro“. Estando ligada ao Sol, na China a flor muitas vezes está ligada à nobreza.  Acredita-se que o crisântemo foi levado para o Japão pelos budistas e é mesmo um dos símbolos do país do sol nascente, sendo que o próprio trono do Imperador era conhecido como o “Trono do Crisântemo”. Essa flor é utilizada para representar tanto a vida quanto a morte, o sol e a chuva, sendo a preferida para ser oferecida no dia de finados e no dia de todos os santos.

3. Se eu fosse… um lugar: a praia!!!

O mar tem seus mistérios, tem seus dias calmos e destemperados e dias de beleza inimaginável. Sua paisagem, o som das ondas desmanchando na areia, as luzes do Sol refletindo sobre a água, seu horizonte a perder de vista, tudo isso, me renova, me acalma, me preenche. Nasci e fui criada no litoral, meu relacionamento com a praia é desde de muito pequena. Nossos programas de feriados e férias por muuuuito tempo foram exclusivamente viagens a regiões de praia. Eu sou muito do Sol (reveja o conceito do crisântemo), gosto de caminhar bem na beirinha d’água, sentir molhar os pés, fazer pegadas que se desmancham. Fico na areia me bronzeando por horas, até atingir a cor desejada, meu sangue latino não nego. Não sou tanto de ficar na água muito tempo, entro e saio várias vezes, quando a temperatura está fria então esquece: preciso de muita coragem para entrar. Mas nos dias quentes, um banho refrescante é tudo que preciso para me energizar. Hoje moro longe do litoral, mas minha relação com o mar continua a  mesma. 

4.  Se eu fosse… uma bebida: água de côco!!

É a bebida tipicamente do litoral! Universal da turma saudável!!! Uma água adocicada, que repõe os minerais, hidrata os atletas, mata a seca dos andarilhos, cura os doentes, dá um sabor interessante para os sucos. Na praia bem gelada, não há nada melhor!

5. Se eu fosse… uma comida: risoto de camarão!!

Porque amo!!!! Simples assim!!!

6. Se eu fosse … um personagem: Mérida (Valente) !

Da Mérida só me faltam os cabelos vermelhos. Rs. “Mulher que alcançou um lugar de honra”. Esse é o forte significado do nome da princesa Merida, do filme Valente. Ela é uma menina impetuosa, que ao contrário do desejo de sua mãe, não se interessa pelos assuntos da realeza e quer assumir o controle do seu próprio destino. Rebelde e aventureira, dona de excelente pontaria e agilidade, muito engenhosa e criativa, gosta de contar histórias de batalha aos irmãos e de tortinhas de geléia. A teimosia e a persistência também fazem parte de sua personalidade, e é o tipo de pessoa que nunca dá o braço a torcer. A protagonista de Valente se diferencia de todas as princesas da Disney.

7. Se eu fosse… um animal: um felino!!

Qualidades e virtudes dos gatos: São limpos, familiares, independentes, hábeis, curiosos, excelentes caçadores, sentimentais, inteligentes, alertas. Nada mais a acrescentar. Rs. 

8. Se eu fosse… uma cor: lilás!!

O significado da cor lilás é a purificação mental e física, além disso, a tonalidade também simboliza respeito, dignidade, sinceridade e espiritualidade. A cor é ideal para criar uma atmosfera serena e intimista na decoração porque representa mistério e elevação espiritual. É derivada da mistura entre o vermelho e o azul e por ser uma tonalidade delicada, muitos místicos utilizam essa cor para decorar os ambientes de meditação. Minha atração com essa cor vem desde de pequena. Enquanto a maioria das meninas escolhiam rosa, eu não. Roupas e acessórios sempre na cor lilás e suas variações.

9. Se eu fosse… uma estação: Outono!!!

Apesar da relação com o mar e gostar bastante dos dias de sol, o Outono traz dias de glória após a luta pela sobrevivência no Verão. É uma estação acolhedora. São lindos dias de sol, com a temperatura mais agradável e noites amenas anunciando a chegada do Inverno.

10. Se eu fosse… uma música: Simples Desejo (Luciana Melo)!!!

Que tal abrir a porta do dia, dia

Entrar sem pedir licença

Sem parar pra pensar

Pensar em nada

Legal ficar sorrindo à toa, toa

Sorrir pra qualquer pessoa

Andar sem rumo na rua

Pra viver e pra ver

Não é preciso muito

Atenção, a lição

Está em cada gesto

‘Tá no mar, ‘tá no ar

No brilho dos seus olhos

Eu não quero tudo de uma vez

Eu só tenho um simples desejo

Hoje eu só quero que o dia termine bem

Hoje eu só quero que o dia termine muito bem

Hoje eu só quero que o dia termine bem

Hoje eu só quero que o dia termine muito bem

Legal ficar sorrindo à toa, toa

Sorrir pra qualquer pessoa

Andar sem rumo na rua

Pra viver e pra ver

Não é preciso muito não

Atenção, a lição

Está em cada gesto

‘Tá no mar, ‘tá no ar

No brilho dos seus olhos

Eu não quero tudo de uma vez não

Eu só tenho um simples desejo

Hoje eu só quero que o dia termine bem

Hoje eu só quero que o dia termine muito bem

Hoje eu só quero que o dia termine bem (muito bem)

Hoje eu só quero que o dia termine muito bem

Hoje eu só quero que o dia termine bem

Hoje eu só quero que o dia

Já pensou o que você seria ?????

Hoje eu só quero que o dia termine bem pra mim e pra você!!!!

Crédito da imagem: Foto por Vie Sia em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Carrossel Encantado

Busquei muitas palavras para escrever, pensei em temas relevantes para meus leitores, mas adoeci física e emocionalmente no último mês e não fui capaz de mais nada. Li o que me foi possível, não escrevi nenhuma palavra. E então, com a caneta no papel nesse instante, me dei conta de que tenho vivido em carrosséis.

Quando pequena esperava ansiosamente pela quermesse da nossa Paróquia. O parquinho precário me fascinava com seu carrossel de cavalinhos coloridos. Não fazia muito além de dar voltas em torno do seu eixo sem nunca sair do lugar, uma ciranda de crianças, músicas e cores. Era bom demais! Mais velha, o carrossel de locais de trabalho, estilos de cabelo, namorados e, por que não, profissões. Gira, gira, sobe, desce e volta para o mesmo lugar. Aqui talvez não fosse exatamente o carrossel, mas o eterno devir de Heráclito, um movimento constante.

Ontem me peguei novamente galopando um cavalinho colorido, versão atualizada e apropriada para os nossos dias, e fiz um mergulho abissal nesse universo de encantamento. Quando abri os olhos para o mundo real, havia perdido um compromisso. Nada que trouxesse grandes prejuízos, mas bateu fundo um sentimento de algo que vinha passando sorrateiro e eu, nem aí para nada. Parei para refletir sobre isso.

Sem a opção de encontrar pessoalmente todos que conheço (ou que eu tenha a possibilidade de conhecer), entro em vários grupos e redes sociais e, na hora que a conversa começa, estou lá disponível para falar. Amo, simplesmente amo interagir com diferentes pessoas, ouvir suas ideias, compartilhar as minhas. E rolar telas com vídeos de trinta segundos com trabalhos manuais que as pessoas levaram semanas para executar me causa um prazer imenso. Tenho orgulho do trabalho (alheio) pronto.

Voltando para casa após minhas férias para recarregar abraços e restaurar a saúde, notei uma criança pequena, por volta de três anos de idade, dando um show para plateia completa. Tenho certeza de que até da última fileira do avião se ouvia seu choro. A solicitação era simples, ela desejava se sentar à janela. A mãe exasperada tentou de um tudo, mas não deu certo, a criança não cedeu e outro passageiro deu a vez para a pequena. É uma cena muito comum, certo? Seria, mas não foi para mim. Todas as vezes que olhei na direção daquele duelo uma coisa mínima me chamava atenção: não havia contato visual entre a mãe e a criança. A mulher estava perdida no carrossel, deslizando o dedo enquanto falava. Zero contato visual.

Vez ou outra estou no mesmo lugar daquela mãe. Quando percebo que estou fazendo isso me sinto como um jogador que entrou num cassino. Tantas luzes coloridas, brilhos, filtros, formas de ficar mais interessante, mais bonita (?), mais… mais. E como adicta, mergulho de novo no vício. Para soltar a tela, apenas o velho e bom livro de papel.

E ontem a noite, depois de um fim de semana cheio de emoções, finalizei o livro do Neil Gaiman, A Arte Importa. Várias passagens legais e coisas boas num livrinho compacto, com destaque para uma que ficou gravada no fundão da minha mente: “um dia, ergui os olhos e me dei conta de que tinha me tornado alguém cuja profissão era responder a e-mails e que escrevia nas horas vagas. Passei a responder a menos mensagens e descobri, aliviado, que estava escrevendo muito mais.” Quando entrei para as redes sociais para divulgar meus textos, achei que seria capaz de lançar um texto por dia, falar dos mil livros que li. Mas quando passo um mês inteiro sem escrever uma linha, ou sem comentar minha última leitura, percebo que fui atraída novamente para o carrossel.

A vantagem das conversas nos chats, aplicativos de mensagens e redes sociais é a de reunir rapidamente pessoas que levariam anos para se encontrar. A grande desvantagem é quando nosso cérebro decide escapar de toda conversa ao vivo e em cores, independentemente da razão, e nos faz pular para um grupo virtual onde nos sintamos mais acolhidos.

Não há mal nenhum em se sentir confortável, não há mal nenhum em estar junto às pessoas que pensam exatamente o mesmo que você. Mas quando o virtual se torna melhor que o real, será que a gente não está fugindo? Será possível expandir nossa compreensão e gerar bons textos, boa arte, bom trabalho ou estudo sem o contraditório? Sem aquilo que mexe num lugar desconfortável? Sem testar nossa tolerância ao que é diferente? E essa falta de contato visual, de olho no olho durante a conversa, será que é boa mesmo pra gente? Eu não tenho resposta para essas perguntas. Trago a vocês a possibilidade de pensar nelas junto comigo, virtualmente ou num café, ou sozinhos com um bom livro.

Li numa reportagem da BBC Brasil sobre os estímulos das redes sociais e a necessidade de parecer feliz sempre. Nossa juventude do não-contato-visual vem sofrendo todos os perrengues de ansiedade e depressão por terem seus cérebros bombardeados por estímulos de prazer ou de medo da sensação de terem ficado de fora da última festa mais legal do mundo todo. Pra essa última já tem nome: FOMO – Fear of Missing Out. Crises geradas pelos biscoitos de cachorro das redes sociais, os rankings de foto mais curtida. Sem o enfrentamento das questões reais da vida real, qualquer problema se torna gigante, impossível de ser resolvido. (Alguém aperta o botão do pânico que eu quero descer!)

Por fim, me lembro que o carrossel só me mostra aquilo que eu quero ver e me prende ao seu giro eterno. Mas como li esses dias no livro do Austin Kleon, a gente não precisa pegar um voo para acionar o modo avião. E muitas vezes ele é necessário. Continuo nas redes e nos chats, me esforçando para não estar disponível demais ou inacessível, para olhar nos olhos enquanto ouço, para manter a atenção e o foco. Estava preocupada porque não conseguia escrever. Sei que não usei as palavras mais bonitas, nem o melhor tema do ano. Mas desci do carrossel e estou de volta ao jogo, baby!


Fortaleza, 18/05/2022.

Se quiser conferir os livros e a matéria citadas nesse texto, deixo as referências:

Neil Gaiman. Arte Importa: Porque Sua Imaginação Pode Mudar o Mundo. Edição Português por Neil Gaiman (Autor), Chris Riddell (Ilustrador), Augusto Calil (Tradutor), Ângelo Lessa (Tradutor), 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2021, 112p.

Austin Kleon. SIGA EM FRENTE: 10 maneiras de manter a criatividade nos bons e maus momentos – Capa comum – 15 agosto 2020. Edição Português por AUSTIN KLEON (Autor), Sofia Soter (Tradutor). 1ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.

Autores alertam para a tirania da felicidade, do prazer e do pensamento positivo. Amanda Mont’Alvão Veloso. De São Paulo para a BBC News Brasil. 14 maio 2022. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-61417892 Acessado em: 21/05/2022.


Crédito da imagem: Foto por Elina Fairytale em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Sem defesas.

Gosto da percepção de que o tato é o mais amplo, complexo e exposto sentido dos seres viventes. Quiçá o único absolutamente em desamparo, pois entregue, sem proteções, à alteridade e ao estranhamento. Integralmente envolto no nada, e lançado no tudo.

Visão, audição, paladar, olfato e tato. Cinco os órgãos de sentido a experimentar o mundo. A captar e esquadrinhar os incontáveis estímulos externos, conduzindo-os às nossas camadas internas. Exímios em acordar pregressos e camuflados afetos; e também em provocar novos e desconcertantes gozos.

O tato a margear, sempre, cada uma de nossas experiências sensoriais. A limitar o corpo, o espaço interno e o externo. A permear os sentimentos, porosamente. A tangenciar o êxtase e o colapso. A interagir incessantemente.   

Não há com cerrar o tato. Seremos sempre invadidos. Estaremos sempre à mercê do mundo.

Degustamos, com a pele, tudo o que nos acaricia – ou violenta. Ouvimos, arrepiados, cada um dos toques que se anunciam, que se desvelam -orquestrada ou desafinadamente. Sentimos os aromas, diluídos em cada um de nossos poros. Enxergamos as sutilezas. Buscamos os horizontes, bem como recuamos a nossos esconderijos. Se em cores ou em P&B? Em cores e em P&B; às vezes, inclusive, concomitantes – a pele não julga, assente.

Passado, presente, futuro? Pouco importa. Cada encontro, uma possibilidade, uma oportunidade. Descobertas. Reencontros. Lembranças e atualizações. Travessias diárias. Jornadas de uma(s) vida(s).

Hoje nos reencontramos. Recostamo-nos. Reconhecemo-nos.   

Ele veio a mim, manso, fresco e cinza. Contornou minha pele. Atravessou minhas lembranças.  Salgou e acariciou um corpo cansado, em suas raízes, estruturalmente. Sussurrou que me acolhia, inteira, como sempre o fez; e sempre o fará – eterno, por milênios. Nesse momento, pele e tato eram entrega. Simples e maravilhosamente o invólucro singular de um imenso oceano, interno, a transbordar. O dentro e o fora em absoluto espelhamento, intimidade e liberdade. Sintonia, sem chance para defesas. 

Crédito da imagem: Adriana Agnese

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.

Dualismo

Acordei ainda atordoada. Minha cabeça pulsava deixando meu rosto contraído de dor. Continuar ali deitada me traria mais desconforto. Levantei meio tonta. Caminhei até à cozinha e tomei um gole d’água bem devagar, tentando alinhar meus pensamentos.

Aconteceu de novo. Qual será a razão disso tudo? Porque esses sonhos perturbadores insistem em me atormentar? Tal qual a água descendo em um funil, muitas perguntas rodopiam aqui dentro.

Por hora, minha mente só me permite lembrar de alguns takes desses pesadelos recorrentes. Apesar disso, o personagem principal sempre está lá.

Algumas vezes ele despeja em mim toda a fúria que parece sentir. Em outras, embala-me numa espécie de dança maligna até que eu esteja completamente submersa e sufocada. De quando em quando, sequestra meus queridos e os embosca em seus esconderijos disfarçados. Ele é sagaz e também aparece de mansinho. Quando vem assim, me lança um olhar desafiador ansiando me envolver em seu corpo infinito.

E num dualismo desconcertante, sigo sem entender como o mesmo mar que tanto me satisfaz durante o dia, consegue, à noite, obstinadamente roubar meu sossego.

Crédito da imagem: BBC Brasil

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.

A BONEQUINHA


Quando cheguei do aeroporto no apartamento em que ficaria hospedada fui levada pela dona da casa até o quarto que eu ocuparia.


Desarrumei a mala, acomodei minhas roupas e tudo que eu trouxe da melhor forma possível no armário que me havia sido oferecido.


Como sempre faço, dei uma olhada em torno do quarto e vi muitas estantes de livros infantis, brinquedos, jogos e coisas de crianças. A dona da casa era mãe de dois meninos pequenos.


E já quase no final da minha pesquisa de ambiente deparei-me com dois olhinhos que me olhavam fixamente.


Era uma bonequinha tipo bebê, carequinha, corpinho formado pela própria roupa: um macãozinho de tecido. Pés e mãos do mesmo material da cabeça carequinha.


Ali estava ela, sentada com os olhinhos fixos em mim.


Fiquei impressionada com aquele olhar doce e atento ao mesmo tempo.


Toda vez que voltava ao quarto deparava-me com seu olhar curioso.

Crédito da imagem: Pexels

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.

LAMENTO / ENTENDIMENTO

Eu não sei porque
as lágrimas acompanham
meus escritos…
Porque elas caem tão facilmente
ao som do piano triste
que todos julgam soar tão alegre.
Eu juro que não entendo
porque a poesia vem sempre
de mãos dadas com esse vazio
e essa tristeza que preenchem os pensamentos, os sonhos, as noites,
madrugadas… E os dias, e os anos
a esbranquiçar meus cabelos,
enrugar meu sorriso.
Eu juro, juro que não entendo
e talvez nem queira entender…
Mas acontece que o fardo
das cores e versos nem sempre
é leve, nem sempre colore
ou rima dentro de mim…
E eu não sei o que fazer
com tanta tristeza, com tanto vazio
e tantas lágrimas me impedindo de viver.

Lívia Maria (07/04/2022)

Crédito da imagem: Pexels

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.