Carrossel Encantado

Busquei muitas palavras para escrever, pensei em temas relevantes para meus leitores, mas adoeci física e emocionalmente no último mês e não fui capaz de mais nada. Li o que me foi possível, não escrevi nenhuma palavra. E então, com a caneta no papel nesse instante, me dei conta de que tenho vivido em carrosséis.

Quando pequena esperava ansiosamente pela quermesse da nossa Paróquia. O parquinho precário me fascinava com seu carrossel de cavalinhos coloridos. Não fazia muito além de dar voltas em torno do seu eixo sem nunca sair do lugar, uma ciranda de crianças, músicas e cores. Era bom demais! Mais velha, o carrossel de locais de trabalho, estilos de cabelo, namorados e, por que não, profissões. Gira, gira, sobe, desce e volta para o mesmo lugar. Aqui talvez não fosse exatamente o carrossel, mas o eterno devir de Heráclito, um movimento constante.

Ontem me peguei novamente galopando um cavalinho colorido, versão atualizada e apropriada para os nossos dias, e fiz um mergulho abissal nesse universo de encantamento. Quando abri os olhos para o mundo real, havia perdido um compromisso. Nada que trouxesse grandes prejuízos, mas bateu fundo um sentimento de algo que vinha passando sorrateiro e eu, nem aí para nada. Parei para refletir sobre isso.

Sem a opção de encontrar pessoalmente todos que conheço (ou que eu tenha a possibilidade de conhecer), entro em vários grupos e redes sociais e, na hora que a conversa começa, estou lá disponível para falar. Amo, simplesmente amo interagir com diferentes pessoas, ouvir suas ideias, compartilhar as minhas. E rolar telas com vídeos de trinta segundos com trabalhos manuais que as pessoas levaram semanas para executar me causa um prazer imenso. Tenho orgulho do trabalho (alheio) pronto.

Voltando para casa após minhas férias para recarregar abraços e restaurar a saúde, notei uma criança pequena, por volta de três anos de idade, dando um show para plateia completa. Tenho certeza de que até da última fileira do avião se ouvia seu choro. A solicitação era simples, ela desejava se sentar à janela. A mãe exasperada tentou de um tudo, mas não deu certo, a criança não cedeu e outro passageiro deu a vez para a pequena. É uma cena muito comum, certo? Seria, mas não foi para mim. Todas as vezes que olhei na direção daquele duelo uma coisa mínima me chamava atenção: não havia contato visual entre a mãe e a criança. A mulher estava perdida no carrossel, deslizando o dedo enquanto falava. Zero contato visual.

Vez ou outra estou no mesmo lugar daquela mãe. Quando percebo que estou fazendo isso me sinto como um jogador que entrou num cassino. Tantas luzes coloridas, brilhos, filtros, formas de ficar mais interessante, mais bonita (?), mais… mais. E como adicta, mergulho de novo no vício. Para soltar a tela, apenas o velho e bom livro de papel.

E ontem a noite, depois de um fim de semana cheio de emoções, finalizei o livro do Neil Gaiman, A Arte Importa. Várias passagens legais e coisas boas num livrinho compacto, com destaque para uma que ficou gravada no fundão da minha mente: “um dia, ergui os olhos e me dei conta de que tinha me tornado alguém cuja profissão era responder a e-mails e que escrevia nas horas vagas. Passei a responder a menos mensagens e descobri, aliviado, que estava escrevendo muito mais.” Quando entrei para as redes sociais para divulgar meus textos, achei que seria capaz de lançar um texto por dia, falar dos mil livros que li. Mas quando passo um mês inteiro sem escrever uma linha, ou sem comentar minha última leitura, percebo que fui atraída novamente para o carrossel.

A vantagem das conversas nos chats, aplicativos de mensagens e redes sociais é a de reunir rapidamente pessoas que levariam anos para se encontrar. A grande desvantagem é quando nosso cérebro decide escapar de toda conversa ao vivo e em cores, independentemente da razão, e nos faz pular para um grupo virtual onde nos sintamos mais acolhidos.

Não há mal nenhum em se sentir confortável, não há mal nenhum em estar junto às pessoas que pensam exatamente o mesmo que você. Mas quando o virtual se torna melhor que o real, será que a gente não está fugindo? Será possível expandir nossa compreensão e gerar bons textos, boa arte, bom trabalho ou estudo sem o contraditório? Sem aquilo que mexe num lugar desconfortável? Sem testar nossa tolerância ao que é diferente? E essa falta de contato visual, de olho no olho durante a conversa, será que é boa mesmo pra gente? Eu não tenho resposta para essas perguntas. Trago a vocês a possibilidade de pensar nelas junto comigo, virtualmente ou num café, ou sozinhos com um bom livro.

Li numa reportagem da BBC Brasil sobre os estímulos das redes sociais e a necessidade de parecer feliz sempre. Nossa juventude do não-contato-visual vem sofrendo todos os perrengues de ansiedade e depressão por terem seus cérebros bombardeados por estímulos de prazer ou de medo da sensação de terem ficado de fora da última festa mais legal do mundo todo. Pra essa última já tem nome: FOMO – Fear of Missing Out. Crises geradas pelos biscoitos de cachorro das redes sociais, os rankings de foto mais curtida. Sem o enfrentamento das questões reais da vida real, qualquer problema se torna gigante, impossível de ser resolvido. (Alguém aperta o botão do pânico que eu quero descer!)

Por fim, me lembro que o carrossel só me mostra aquilo que eu quero ver e me prende ao seu giro eterno. Mas como li esses dias no livro do Austin Kleon, a gente não precisa pegar um voo para acionar o modo avião. E muitas vezes ele é necessário. Continuo nas redes e nos chats, me esforçando para não estar disponível demais ou inacessível, para olhar nos olhos enquanto ouço, para manter a atenção e o foco. Estava preocupada porque não conseguia escrever. Sei que não usei as palavras mais bonitas, nem o melhor tema do ano. Mas desci do carrossel e estou de volta ao jogo, baby!


Fortaleza, 18/05/2022.

Se quiser conferir os livros e a matéria citadas nesse texto, deixo as referências:

Neil Gaiman. Arte Importa: Porque Sua Imaginação Pode Mudar o Mundo. Edição Português por Neil Gaiman (Autor), Chris Riddell (Ilustrador), Augusto Calil (Tradutor), Ângelo Lessa (Tradutor), 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2021, 112p.

Austin Kleon. SIGA EM FRENTE: 10 maneiras de manter a criatividade nos bons e maus momentos – Capa comum – 15 agosto 2020. Edição Português por AUSTIN KLEON (Autor), Sofia Soter (Tradutor). 1ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.

Autores alertam para a tirania da felicidade, do prazer e do pensamento positivo. Amanda Mont’Alvão Veloso. De São Paulo para a BBC News Brasil. 14 maio 2022. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-61417892 Acessado em: 21/05/2022.


Crédito da imagem: Foto por Elina Fairytale em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Publicado por Elaine Resende

Aspirante a escritora, amante das letras, viciada em criatividade fantasiada de texto, foto, desenho, música e escultura de argila. Um dia será boa em pelo menos uma dessas coisas, mas se diverte em seguir tentando.

15 comentários em “Carrossel Encantado

    1. Adorei a alegoria do carrossel para ilustrar o que lhe inquietava. Todo o texto tem muitas reflexões que ne tocaram. Ainda vou passar umas horas presa na frase “um dia, ergui os olhos e me dei conta de que tinha me tornado alguém cuja profissão era responder a e-mails e que escrevia nas horas vagas”… Como tudo na vida, o equilíbrio é o caminho. Nem se largar indefinidamente no encantamento ilusório nem estar sempre criativa e produtiva (pode ser outra prisão). Sinto que somos e vivemos em ciclos (e para nós, mulheres, essa condição cíclica parece que é ainda mais latente,). Quando rompemos um looping limitador e partimos para o que queremos, é libertador. Que bom que você voltou a escrever e nos presentear. E obrigada também pelas referências. Beijo.

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      1. Acredito que a criatividade nos abre portas que possibilitam interromper esse looping, essa maré que carrega a gente pra longe da praia.
        A chave está em encontrar seu próprio ponto de equilíbrio, e de vez em quando parar para refletir sobre eles. Obrigada pela leitura atenta! Beijo 🥰

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  1. Elaine amada. Parabéns! Seu texto é a composição que nada fica devendo aos grandes escritores. Uma dicção segura do que diz, assertividade em cada palavra escrita. O tema, tocante e atualissimo você tratou objetiva , eleganteme e com muita lírica. Obrigada por esse presente,mi há querida. Quanto a mim, já aconteceu o mesmo. Ficar sem escrever, na tontura do carrossel, do qual de vez em quando pulo, para voltar depois e de novo pular. Grande beijo, Elainezinha. Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Penso que esse carrossel, diferente dos cavalinhos da nossa infância, roda numa velocidade que não permite nossas cabeças de adultos aproveitar os giros e sonhar nessa frequência.

    Muitas vezes também me penitencio por me entregar às telinhas em detrimento dos livros que deveria estar lendo.

    Por outro lado, se não estivesse preso por essa telinha agora, não teria alcançado seu texto que me leva a essa reflexão.

    Vou ficar com o dizer da minha avó: tudo de mais e veneno! O negócio é tentar não exagerar na dose, já que estamos fadados a nos envenenar.

    Curtido por 1 pessoa

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