ABRAÇOS
Grande gesto que pensamos com prioridade no dia a dia para agradar, parabenizar, acolher ou até chorar
Para um dia de festa, de comemorar
Muitos abraços alguém irá ganhar
Para um dia de luto, de choro só de abraços para toda a dor passar
Abraços para mostrar nossa alegria
Abraços para diminuir a tristeza
Afinal quem não aceita um ombro amigo?
Um abraço que em troca ganha-se um sorriso
Vamos nos abraçar muito e ser felizes.
SAUDADE
Ela despediu da família já sentindo saudades do pai, mãe e irmãos.
Ela saiu da sua terra natal à procura de estrutura financeira.
A esperança era a grande chama daquele coração.
Aquela moça saiu com tão pouco no bolso, mas em sua alma levava todo o sonho de melhorar a sua vida e a vida de sua família.
E agora ela está na sua casa, passeando com o seu carro e cuidando de seu filho.
E aquele coração tão cheio de esperança que um dia se tornará a esperança de outros corações.
Ah, ela carrega em si uma grande saudade, a maior lembrança da sua consciência;
O lugarzinho que nasceu, o aconchego do colo dos seus pais e o abraço de cada um dos irmãos que agora já não pode ser dado presencialmente.
E cada dia que passa a vontade de voltar, de retornar aquele lugarzinho tão querido se aproxima do seu consciente.
Aquela pergunta que não tem resposta quando é que esse momento irá acabar para que ela possa viajar a sua terrinha e a todos abraçar!?
Aí sim ela poderá retornar e matar toda a sua saudade.
Foto: Adobe Stock
Ivone Santana
Brasileira, nascida nas terras de MG e morando atualmente no interior de SP. Mãe de um menino. Apaixonada pela natureza, pelo sol e pelas plantas. Gosta de ler, escrever e ouvir histórias.
“Amar ter a liberdade de poder viver toda a pureza desse mundo mágico.”
Existiu uma bailarina que durante a pandemia dançou em seu quarto sem parar. No início passava os dias revendo cada um dos passos em frente ao espelho, em busca da perfeição passava dia e noite repetindo a mesma coreografia, estudando cada detalhe de seu corpo, vendo seu corpo se transformar com a prática sem fim.
Ela parou de beber, parou de comer e parou de dormir, entrou em transe, em um looping eterno e colorido. Depois de alguns dias, começou a praticar de olhos fechados, como já conhecia perfeitamente cada detalhe de seu quarto e de seu corpo, não precisava mais ter os olhos abertos.
A partir daquele momento ela apenas sentia as cores e a música entrando pelos poros da pele de seus pés, que se conduziam pela corrente sanguínea percorrendo suas pernas, sua vagina, seus quadris, sua coluna, seu pescoço até chegar ao seu cérebro. De lá, irradiava-se para todo o universo, que nada mais era do que seu quarto.
Não sentia mais sede, fome ou cansaço, não sentia mais seu corpo, simplesmente dançava, com a ilusão de que quando seu corpo parasse a pandemia teria acabado e poderia voltar a se apresentar no teatro, queria experimentar de novo aquele frio na barriga, que sentia quando estava no palco e a cortina começava a subir ao mesmo tempo que as luzes se acendiam para iniciar o show.
Estava lá altiva e majestosa
Olhava no entorno mas pouco via
A cegueira impiedosa progredia
e cobrava a cada dia
seu momento de maestria
Então veio o tremor de onde não se vinha
E do alto ela caiu
Feliz, ela via.
Sônia Souza
Adora podcasts, ouvir cigarras no final da tarde e café.
A gente saiu da missa após Gabriel cantar que “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã…”. Essa nunca foi minha parte preferida. Sempre gostei mais quando Renato Russo entoava “o amor é fogo que arde sem se ver.”
Um contentamento descontente é melhor que só dor. Era assim aquele grupo para mim, tal qual algo que a gente se contenta enquanto espera algo melhor acontecer.
No final daquela missa fomos para a saída lateral, para nossas despedidas e para marcar onde seria o reencontro mais tarde.
Normalmente tínhamos o segundo encontro do grupo jovem na varanda da minha casa, com pelo menos dois amigos tocando violão e as meninas cantando. Alguns se tornaram casais nesses encontros, outros tentavam sem sucesso.
Nesse dia em particular nós tínhamos outras opções. Gabriel disse que queria ir ao encontro de outros amigos, estavam reunidos perto da casa dele numa roda de conversa e música. Uma festa do Círculo de Fogo.
A líder do grupo jovem, carismática para a maioria, mas cheia de uma soberba irritante para mim, tinha um passeio em um clube. Seu pai tinha dinheiro, levaria a ela e aos amigos que ela convidasse para se divertir por sua conta.
O grupo tendeu na íntegra a aceitar o convite da líder, eu não. Pode ser que pareça pecado o que vou dizer, já que éramos um grupo de jovens saindo da missa e que se encontrava para falar do amor de Deus. Mas tinha algo na voz dela que me irritava. Um esnobismo incompreensível, que me causava uma tremenda ira. Eu não queria sentir, mas sentia.
Era cedo para voltar para casa. Então, eu e minha melhor amiga, Carol, aceitamos o convite do Gabriel e fomos para a festa do Círculo do Fogo. Caminhamos por cerca de meia hora até que chegamos ao local. Era uma festa americana, as pessoas tinham levado comidas e bebidas. Nos sentimos um pouco intrusas mas seguimos em frente.
Estavam todos no quintal dos fundos, o irmão do Gabriel com o violão cantava junto com o grupo a música do Capital Inicial. Nas minhas entranhas eu ria e achava louca a coincidência de ter todo aquele fogo presente: uma fogueira, um facho aceso numa tocha, uma música que falava “é tão certo quanto o calor do fogo”, e a vergonha que ardia no meu rosto por chegar na festa de mãos vazias.
Carol e eu fizemos um breve aceno e continuamos a cantoria com o grupo: rapazes e moças que eu não conhecia, não eram da minha escola nem frequentavam nossa igreja. Divertido como mudar de bairro mudava todo nosso contexto e nos deixava perdidos.
Acabada a música, o carinha que era uma graça e estava sentado ao lado do Gabriel pegou uma maraca e sacudiu. Soltei um risinho bobo, ele não notou. Feito isso, falou uns versos de Milton Nascimento sobre guardar amigos no coração. Passou a maraca para a menina ao lado dele que lembrou uma passagem bíblica sobre a força da amizade. Comecei a entender que existia um padrão: as pessoas falavam sempre algo relativo a amizade.
A-ha! Meu cérebro lógico não me deixava na mão, aquele era um encontro temático.
A menina seguinte passou a maraca sem nada dizer. Olhei pra Carol e sussurrei “vou falar também “. Ela me incentivou com o olhar. Outro rapaz falou a frase sobre amigos serem irmãos e discorreu sobre o assunto alguns minutos.
A cada um que passava a maraca, uma chacoalhada, uma frase, um poema, uma música, uma recordação mesmo que breve.
Chegou minha vez, eu estava empolgada, falei sobre a felicidade de estar com aquele grupo especial, por ter dois grandes amigos comigo. Carol chacoalhou a maraca e passou sem nada dizer e assim foi até chegar no Gabriel, com o círculo se fechando. Ele agradeceu as palavras e passou a maraca para seu irmão cantar.
Durante a música, algumas pessoas se levantaram e eu aproveitei para beber água. Uma menina se aproximou de mim. – Pena que vocês tenham vindo num dia tão triste. Normalmente estaríamos mais alegres, com dança e sangria, mas hoje estamos fazendo uma homenagem ao nosso amigo que cometeu suicídio.
Nesse momento desabou minha máscara de vaidade e minha aparência ostentava o choque da informação. Não podia acreditar que estava ali por quase uma hora sem notar os sinais.
Deus, que ser humano sem compaixão eu fui! Tinha um arranjo na mesa ao lado do buffet de comidas com uma foto, velas acesas tremulando e vários cartões com mensagens dentro de um jarro de vidro.
Não compreendi o significado do ritual, nem os sentimentos de quem estava a minha volta. Soube um pouco mais do menino quando Gabriel chegou com Carol ao seu lado. – Me desculpa, meninas. Não sabia que seria assim hoje. – Você o conhecia? – Sim, mas não éramos muito próximos. Ele era de outra igreja, onde meu irmão participa. Às vezes ele vinha para a festa do fogo, mas sempre ficava na dele, sabe? Muito introspectivo. Soube hoje que foi depressão. – Quantos anos ele tinha? – Carol quis saber. – A mesma que a gente.
Baixei minha cabeça e não consegui conter as lágrimas. Conheci a depressão de perto, um ano antes, e me lembrava bem da sensação de não ter saída, de estar encurralada no canto escuro.
Carol e Gabriel me abraçaram, sentiram a dor que eu compartilhava com aquele menino. Eu tive apoio e achei a saída. Ele não. Gabriel achou melhor me levar para casa. Voltamos andando na penumbra das ruas do meu bairro. Ao lado dele, um outro rapaz que viera para fazer companhia no retorno.
Nunca mais participei de outra festa do Círculo de Fogo. Aquele grupo jovem que me apoiou quando nada fazia sentido seguiu suas vidas adultas, cada um no seu caminho, às vezes um encontro, outros tantos desencontros.
A depressão que um dia me manteve refém volta de tempos em tempos para me lembrar que ela ainda existe. A diferença daqueles tempos para hoje é que quando ela vem, vem também a lembrança e a certeza de que tenho muitos amigos que não soltam minha mão, mesmo que não estejam comigo. E a vida volta ao curso.
Finitas tardes intermináveis, Cabelos embaraçados, soltos. A ventania os amava tanto... E a recíproca era real. Surreal. Cobrindo face, encobrindo medos, Embalados na canção profunda, Tão profunda a misturar brisa, riso, Sonho, desejo, lágrima e sal... Uma vida. Uma eternidade. Mar. Profundidade. Melancolia. Despertar. Verdes ondas acariciando as rochas, Acolhendo as lágrimas, abraçando-as, Dançando ao som do meu pranto... Pressentindo a dor da despedida, Vislumbre imediato, encantamento Um cenário familiar e mágico... Profundo sentir. Profundo a(MAR). (Lívia Maria - 10/11/2017)
Sou Lívia Maria. Artista Plástica, poeta e atriz. Apaixonada por arte. Vivo arte. Sou arte. Inspiro e expiro arte por onde vou.
Macerava a folha amarga entre dentes. Amarga de uma mágoa morna, sem grandes arroubos, só uma saudade persistente, afinal já era tempo.
Absorvia a seiva fresca que lhe escorria pela garganta, mas sem conter o arrepio que o sabor provocava. Ah o arrepio e seus pelos eriçados! Beijo na boca, hálito na nuca… Também era uma saudade persistente (…) e fez um chá para rememorar.
Katia Mota
Nascida em São Paulo, residente em Cerquilho-SP desde tenra idade.
Formada em Letras e Artes Visuais, pós graduada em Literatura Contemporânea.
Dormi até acordar, sem despertador, sem hora marcada.
Só que não programar o despertador é só uma farsa que faço comigo mesma.
Porque, na prática, deixo a janela e a cortina abertas para a luz do sol invadir o quarto e me despertar. Banho-me com essa luz, energizando-me e completando o trabalho das horas de sono que normalmente foram insuficientes. É assim na rotina espartana da semana e na maioria dos sábados e domingos “livres”.
Mal tinha aberto os olhos e peguei o celular quase instantaneamente. Qual não foi minha surpresa ao ver que havia uma mensagem enviada na madrugada avisando do agendamento para que meu pai comparecesse a um local de vacinação para receber a segunda dose da tão preciosa e ainda rara vacina contra a COVID-19. Por um instante, meu cérebro titubeou em me responder se havíamos perdido o prazo ou não.
Felizmente não. Corri para avisá-los para que viessem para a cidade, pois estão morando há alguns quilômetros da capital e não tem carro próprio. Combinamos tudo. Como dizem os muros cinzentos da cidade: “vai dar certo”.
Meus pais agora são quase meus filhos. E digo isso com o orgulho e felicidade de que chegamos a esse ponto. Pois é sinal de que continuam aqui, compartilhando esse mundo comigo, ainda que seja um mundo caótico e desafiador.
Eu sabia que esse dia em que eles precisariam mais de mim do que eu deles chegaria. Chegou junto com a pandemia, com o medo galopante de que se infectassem e sofressem, com a necessidade de que se isolassem fisicamente em uma rotina planetária que tem achado no mundo virtual a alternativa para substituir as tantas coisas que eram feitas presencialmente.
Diferentemente daqueles que vimos nascer das nossas entranhas, os pais que viraram filhos precisarão cada vez mais de nós. Esperamos que os filhos criem asas e voem “ao infinito e além”, como diz o Buzz Lightyear ainda que estejamos com o ninho quentinho esperando as pausas dos vôos deles. Com os pais que viram filhos é diferente. Nesse caso, nosso ninho tem que ser cada vez maior e mais aconchegante para a permanência cada vez mais frequente deles.
Mudei minha programação caseira do dia para incorporar essa missão feliz e nobre de levar meu pai para receber essa dose de esperança que tem o poder de contagiar a gente que está perto e que nem vacina vai receber. Apressei-me na cozinha e adaptei o prato de chef que eu estava me programando para fazer desde a véspera. Enquanto cozinhava o pensamento ia longe, borbulhava junto com a água das panelas e se dissipava no ar em meio aos aromas da cozinha, bailava no ar junto com as músicas da playlist preferida. Por que não cozinho mais? Tive mais ideias mirabolantes nesses minutinhos à beira do fogão do que na semana inteira ao computador…
A saída para buscar meus pais não foi sem contratempos. Filha que cortou o dedo na lavagem apressada da louça: corre, pega o curativo, diz que não precisa de ponto, mesmo porque ir para hospital, nem pensar! Procura a chave do carro que descobrimos perdida na hora de sair, busca pela chave reserva que, por ser reserva, nunca é usada e logicamente está perdida também. Pega duas máscaras para cada pessoa que essa variação da cepa não está de brincadeira! Segura o gato para não sair e contaminar as patas no hall, pega o borrifador de álcool reserva que o do carro acabou, sai descalça, calça o sapato que está no hall. Ufa! Dizem que as mulheres conseguem fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Muito treino desde sempre das nossas ancestrais, né? Ou era isso ou a gente era engolida pelos dinossauros na primeira espiadela para fora da caverna.
Conseguimos pegar meus pais a tempo e com os nervos mais calmos após a saída “traumática” de casa. Minha mãe que estava sedenta por um interlocutor ao vivo que não fosse o meu pai, despejou, em minutos, várias atualizações de assuntos que foram da pandemia ao BBB, passando pela nova namorada do meu sobrinho e pela nostalgia de voltar à Fortaleza após a recente mudança para a cidade natal deles, após mais de 40 anos morando aqui.
À medida que nos aproximávamos do local da vacinação, íamos nos preparando para o momento. Recomendávamos a todos que estivessémos atentos à vacinação, à aplicação da dose, às informações que seriam prestadas, à foto que deveria ser retirada para registrar esse momento histórico, etc. Minha mãe orientando que meu pai fizesse assim ou assado. “Mãe, deixa ele tranquilo. A gente faz o que precisa fazer. Ele tem que apenas aproveitar o momento.”
Pai vacinado e todos batemos palmas! Eu sempre atenta às impressões do meu pai no pós-vacina. Ele sempre fica emocionado e eu também. Foi assim na primeira dose e na segunda.
Nesta, a primeira frase foi: “Espero que em breve todos os brasileiros possam ter esse momento”. Na primeira dose, ele disse: “Viva a Deus. Viva à Ciência. Viva aos Servidores da Saúde”. Chorei.
Missão cumprida e eu e Bia, a neta do dedo cortado, retornamos para casa. Bia, a princípio, não sabia se poderia ir com a gente nessa missão porque tinha coisas para fazer (ela sempre tem coisas a fazer, não sei a quem puxou!). Na volta, feliz em ter podido estar com os nossos velhinhos, perguntei como tinha sido o “passeio”. E ela disse: “Foi bom treinar a esperança”.
Lidianne Monteiro
Mulher, mãe, trabalhadora e especialista em tentar equilibrar todos esses pratos. Engenheira apaixonada pela precisão dos números que desenham o mundo. E pela subjetividade que permeia as relações e as pessoas. Enfim, paradoxal como se deve ser.
Ela estava sentada, bebendo café, seu cabelo castanho acariciando suas costas cobertas por uma jaqueta de lã com listras coloridas. Nas mãos um livrinho e os olhos fixos nas páginas amareladas furadas pelo tempo.
Ele não conseguia parar de olhá-la, sentou-se na mesa ao lado sem esconder o encanto por aquele movimento absurdo e ao mesmo tempo sedutor de suas pernas por baixo da mesa.
Então ele pediu um café e lembrou da aquela velha arvore onde passou a manhã abrigado à sombra, desfrutando do vício adocicado e ardido de ler as poesias do escritor Jose Asunción Silva.
Enquanto levava o café amargo aos lábios, sentia o calor queimando seu esôfago, enquanto imaginava como o chumbo passava por seu coração assim como aconteceu com o poeta.
Cada verso afundou-se num grito de dor, num pedido de silêncio entre as folhas secas que caíam da árvore. Imerso nas palavras, ele foi dominado novamente pela morte tão engenhosa e trágica do escritor.
De repente, ele percebeu novamente a bela mulher ao seu lado, dessa vez ele notava as mãos pequenas e macias, eram mãos de artista – ele pensou – era fascinante como seguravam delicadamente aquele livrinho azul.
Ela poderia ser uma pintora ou cartunista, talvez pudesse tocar um instrumento, um piano ou algo assim.
Ele queria falar com ela, mas parecia estúpido abordá-la sem nenhum motivo além de seu fascínio por sua imagem boêmia.
Essa semana fomos brindados por uma lua cheia cinematográfica. Senti vontade de ir para a rua, montar o tripé e colocar a câmera em longa exposição, capturando um beijo de um casal apaixonado com aquela belezura redonda e rosada ao fundo.
Vários filmes me vieram à cabeça, o tempo todo somos expostos mais que cofrinho de bêbado em noite de happy hour aos encantos da lua, nas mais diversas formas de arte. Moonlight Serenade não me deixa mentir. Quando a orquestra de Glenn Miller começa seus acordes, imediatamente me sinto tentada a segurar a mão do meu amor e dançar pela sala, olho no olho, coração acalentado.
Enquanto escrevo, me lembro da lenda do Boto, que sai em noite de lua cheia na sua forma humana sedutora e leva as donzelas à loucura.
O Boto é uma das muitas criaturas fantásticas narradas em verso e prosa, habitantes do inconsciente coletivo, das lendas, atraídas pelo brilho que transforma o negrume da noite em ruas de paralelepípedos fulgurantes, em euforia nos bailões do interior.
E a lua dessa semana me fez lembrar, antes de tudo, Caetano e a Lua de São Jorge. Não conseguia parar de cantar a música, apesar de errar todos os versos. Nessas horas, tá aí nosso tio americano para não nos deixar falhar. Corri para o Google em busca de auxílio e encontrei a letra: azul verdejante, cauda de pavão… nobre porcelana sobre o céu azul… mãe, irmã e filha de todo esplendor.
Lua é feminina e não é à toa. Mexe com as marés e com as mulheres. A banda de rock Raimundos cantava que somos tal como ela, cheias de fases. Mudamos de cara, de tamanho, de forma, de corte de cabelo e, quando sumimos um pouco, deixamos toda a gente com saudades. E de pronto estamos de volta, lindas e esplendorosas, inspirando poetas e sapos, lobisomens e oceanos.
Há seis meses, antes de estar poetizando sobre a mulher e a lua, ao mero evocar do seu nome eu começava a cantar: “lua minguante, lua crescente, declaro ser o seu mais lindo amante, com você eu quero me casar, fazer da noite escura o nosso altar.” Quando se tem filhos, a poesia é ainda mais bela pela sua inocência . O rato, criado pela dupla Palavra Cantada, apaixonado pela perfeita circunferência iluminada celeste, faz canções de amor para sua inalcançável amada.
Aliás, alcançada apenas pelos astronautas e pelos rapazes do Biquíni Cavadão que, por coincidência, estavam na lua quando os astronautas chegaram por lá, fugindo de casa e do barulho da rua, numa tentativa de recompor seu mundo bem devagar…
E por falar nos astronautas, penso no Major Tom de David Bowie e Peter Schilling, dando adeus à terra, apaixonado por sua nova visão da nossa bola azul. Será para a lua que ele decide ir? E será por isso que a lua beija o mar? Deve ser quase impossível não se apaixonar pela visão que se tem lá de cima, desse nosso planeta lindo como a cauda do pavão de Caetano.
Mas fui e voltei muitas vezes num falatório sobre a lua, a mulher e essa nossa louca conexão, antes de realmente contar minha história, preparando o caminho que agora vamos trilhar.
Faz um ano que fiz uma histerectomia. Meu útero me trazia problemas desde os vinte e oito, vinte e nove anos, quando descobri que iria perdê-lo sem nunca ter engravidado.
Foi chocante!
Meu namorado, na época era um relacionamento verde e sem compromisso, sentiu minha dor e decidiu que precisávamos relaxar com uma viagem. Daí, milagres aconteceram e tristezas vieram em sucessão. Duas gestações interrompidas pela sabedoria da natureza, que dizia que meu corpo não estava pronto para receber outro corpo.
Vou poupá-los da saga que consumiu alguns anos da minha vida, porque é sobre os dias atuais que se concentra o desfecho. E essa história tem final feliz, afinal meus dois meninos estão aí para lembrar que existe uma força divina, muito maior do que a minha existência mortal, que nos move e nos conecta. Acreditemos!
Depois da histerectomia, muitas coisas mudaram na minha vida, especialmente o fluxo que deixou de existir e tingir de vermelho cinco dias do meu mês. Não vou mentir, eram dias detestáveis: pernas a peso de chumbo, cabeça dolorida, retenção de líquidos, inchaço, ganho de peso, etc e tal. Mulheres entenderão. Uma semana antes muitos sintomas davam as caras, prenúncio dos dias chegadouros. “Tá pra vir”, me diziam algumas. Não esqueci as cólicas intensas. Para mim o segundo dia era sempre o pior.
Foi uma histerectomia quase completa. Os ovários, ou melhor, o único ovário que havia sido preservado de uma cirurgia realizada anos antes, ficou para garantir a produção autônoma de hormônios.
E aí reside minha questão essencial.
Não tenho mais um alerta, um sinal de sangue, aquele dia que coloco no calendário para piscar em um gadget que vinte e oito dias depois o ciclo se repetirá. Tenho um conjunto de sintomas estranhos que movimentam meu peso e minha cabeça, às vezes sinto cólicas. Segundo minha irmã, sofro da síndrome do membro fantasma.
Nessa vibe diferente na qual me encontro, tenho a impressão em certos meses que meu ciclo se iniciou pelo meado do mês, outras acho que está mais para o final do mês, mas ele, meu ciclo, não bate ponto e não é salário com data fixa. Valsa ao seu próprio som.
Com a chegada da lua cheia neste primeiro de março, reparei nos sintomas associados e, cá estou eu hoje, em 03 de março de 2021, com uma enxaqueca de ferro malhado a frio.
Para finalizar essa conversa, lembrei das mulheres que acompanham a gestação pelas luas: 9 luas cheias, uma lua nova e, voilà, um bebê sendo ninado nos braços. Eu e a lua estamos nessa aproximação. Femininas, mulheres, gerando uma sintonia fina de marés no meu corpo.
Vou aguardar as cenas das próximas fases, buscar na nossa ancestralidade matriarcal um calendário lunar que me traga mais respostas. Até lá, Salve a Lua Mulher!