SALVE A LUA MULHER!

Essa semana fomos brindados por uma lua cheia cinematográfica. Senti vontade de ir para a rua, montar o tripé e colocar a câmera em longa exposição, capturando um beijo de um casal apaixonado com aquela belezura redonda e rosada ao fundo.

Vários filmes me vieram à cabeça, o tempo todo somos expostos mais que cofrinho de bêbado em noite de happy hour aos encantos da lua, nas mais diversas formas de arte. Moonlight Serenade não me deixa mentir. Quando a orquestra de Glenn Miller começa seus acordes, imediatamente me sinto tentada a segurar a mão do meu amor e dançar pela sala, olho no olho, coração acalentado.

Enquanto escrevo, me lembro da lenda do Boto, que sai em noite de lua cheia na sua forma humana sedutora e leva as donzelas à loucura.

O Boto é uma das muitas criaturas fantásticas narradas em verso e prosa, habitantes do inconsciente coletivo, das lendas, atraídas pelo brilho que transforma o negrume da noite em ruas de paralelepípedos fulgurantes, em euforia nos bailões do interior.

E a lua dessa semana me fez lembrar, antes de tudo, Caetano e a Lua de São Jorge. Não conseguia parar de cantar a música, apesar de errar todos os versos. Nessas horas, tá aí nosso tio americano para não nos deixar falhar. Corri para o Google em busca de auxílio e encontrei a letra: azul verdejante, cauda de pavão… nobre porcelana sobre o céu azul… mãe, irmã e filha de todo esplendor.

Lua é feminina e não é à toa. Mexe com as marés e com as mulheres. A banda de rock Raimundos cantava que somos tal como ela, cheias de fases. Mudamos de cara, de tamanho, de forma, de corte de cabelo e, quando sumimos um pouco, deixamos toda a gente com saudades. E de pronto estamos de volta, lindas e esplendorosas, inspirando poetas e sapos, lobisomens e oceanos.

Há seis meses, antes de estar poetizando sobre a mulher e a lua, ao mero evocar do seu nome eu começava a cantar: “lua minguante, lua crescente, declaro ser o seu mais lindo amante, com você eu quero me casar, fazer da noite escura o nosso altar.” Quando se tem filhos, a poesia é ainda mais bela pela sua inocência . O rato, criado pela dupla Palavra Cantada, apaixonado pela perfeita circunferência iluminada celeste, faz canções de amor para sua inalcançável amada.

Aliás, alcançada apenas pelos astronautas e pelos rapazes do Biquíni Cavadão que, por coincidência, estavam na lua quando os astronautas chegaram por lá, fugindo de casa e do barulho da rua, numa tentativa de recompor seu mundo bem devagar…

E por falar nos astronautas, penso no Major Tom de David Bowie e Peter Schilling, dando adeus à terra, apaixonado por sua nova visão da nossa bola azul. Será para a lua que ele decide ir? E será por isso que a lua beija o mar? Deve ser quase impossível não se apaixonar pela visão que se tem lá de cima, desse nosso planeta lindo como a cauda do pavão de Caetano.

Mas fui e voltei muitas vezes num falatório sobre a lua, a mulher e essa nossa louca conexão, antes de realmente contar minha história, preparando o caminho que agora vamos trilhar.

Faz um ano que fiz uma histerectomia. Meu útero me trazia problemas desde os vinte e oito, vinte e nove anos, quando descobri que iria perdê-lo sem nunca ter engravidado.

Foi chocante!

Meu namorado, na época era um relacionamento verde e sem compromisso, sentiu minha dor e decidiu que precisávamos relaxar com uma viagem. Daí, milagres aconteceram e tristezas vieram em sucessão. Duas gestações interrompidas pela sabedoria da natureza, que dizia que meu corpo não estava pronto para receber outro corpo.

Vou poupá-los da saga que consumiu alguns anos da minha vida, porque é sobre os dias atuais que se concentra o desfecho. E essa história tem final feliz, afinal meus dois meninos estão aí para lembrar que existe uma força divina, muito maior do que a minha existência mortal, que nos move e nos conecta. Acreditemos!

Depois da histerectomia, muitas coisas mudaram na minha vida, especialmente o fluxo que deixou de existir e tingir de vermelho cinco dias do meu mês. Não vou mentir, eram dias detestáveis: pernas a peso de chumbo, cabeça dolorida, retenção de líquidos, inchaço, ganho de peso, etc e tal. Mulheres entenderão. Uma semana antes muitos sintomas davam as caras, prenúncio dos dias chegadouros.  “Tá pra vir”, me diziam algumas. Não esqueci as cólicas intensas. Para mim o segundo dia era sempre o pior.

Foi uma histerectomia quase completa. Os ovários, ou melhor, o único ovário que havia sido preservado de uma cirurgia realizada anos antes, ficou para garantir a produção autônoma de hormônios.

E aí reside minha questão essencial.

Não tenho mais um alerta, um sinal de sangue, aquele dia que coloco no calendário para piscar em um gadget que vinte e oito dias depois o ciclo se repetirá. Tenho um conjunto de sintomas estranhos que movimentam meu peso e minha cabeça, às vezes sinto cólicas. Segundo minha irmã, sofro da síndrome do membro fantasma.

Nessa vibe diferente na qual me encontro, tenho a impressão em certos meses que meu ciclo se iniciou pelo meado do mês, outras acho que está mais para o final do mês, mas ele, meu ciclo, não bate ponto e não é salário com data fixa. Valsa ao seu próprio som.

Com a chegada da lua cheia neste primeiro de março, reparei nos sintomas associados e, cá estou eu hoje, em 03 de março de 2021, com uma enxaqueca de ferro malhado a frio.

Para finalizar essa conversa, lembrei das mulheres que acompanham a gestação pelas luas: 9 luas cheias, uma lua nova e, voilà, um bebê sendo ninado nos braços. Eu e a lua estamos nessa aproximação. Femininas, mulheres, gerando uma sintonia fina de marés no meu corpo.

Vou aguardar as cenas das próximas fases, buscar na nossa ancestralidade matriarcal um calendário lunar que me traga mais respostas. Até lá, Salve a Lua Mulher!

Publicado por Elaine Resende

Aspirante a escritora, amante das letras, viciada em criatividade fantasiada de texto, foto, desenho, música e escultura de argila. Um dia será boa em pelo menos uma dessas coisas, mas se diverte em seguir tentando.

10 comentários em “SALVE A LUA MULHER!

  1. Elaine, que texto maravilhoso, lua e mulher se confundem, verdade amiga, Tudo o que você falou. Seu texto é brilhante, como eu disse antes, você é uma artista.

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