Enluarei

Sou fases, idas e vindas, ter e deixar ir

Sou cheia de sonhos, alegrias, esperanças,  lembranças, abundância

Nova de espírito, de possibilidades, de experiências

Crescente de esperança,  conhecimento, fé

Minguante de tudo que não me realiza, não me faz feliz

Minguante, nova, crescente, cheia

Não necessariamente nesta ordem

Cresço,  sumo, brilho, acredito, apareço e me faço

E de ciclo em ciclo, vou enluarando meu viver.

Crédito da imagem: Pexels

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.

DE DENTRO DE MIM

Por: Sônia Souza

Eu
Em uma mesa redonda, sentamos
Era estranha a nossa troca de olhares
Um desconhecimento conhecido, quase íntimo
Na mesa as cartas iam sendo, uma a uma, apresentadas
Autoestima
Cuidado
Gentileza
Amor
Intolerância
Fuga
Fantasia
Realidade
E diante de tudo perguntei até aonde aquilo iria
Perplexa ouvi a resposta
Fluida e paciente
que saia de mim
Vamos até o fim

Crédito da imagem: https://www.iquilibrio.com/blog/amp/

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

HÁ BELEZA

Por: Lidya Gois

Há beleza no caminho
Ainda que o momento seja de dor

O voo livre dos pássaros continua 
Fluindo no inebriante céu azul 

As ondas não cessaram 
Seu som relaxante no mar

As gotas da chuva seguem 
Bailando sua dança perfeita

O sol permanece liberando seu brando 
Calor nos primeiros raios matutinos

É preciso enxergar 
Há beleza no caminho

Crédito da imagem: Foto por Ryan Resatka disponível em https://www.instagram.com/p/CN0QJ-CHdyI/?utm_source=ig_web_button_share_sheet

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Útero de Aluguel

Hoje amanheci com vontade de entrar em um útero de aluguel. Daqueles que a gente escolhe e paga sem dar muitas explicações. Simplesmente ficar lá o tempo que achar necessário para estabilizar o caos dessa vida de altos e baixos. Ficar lá sem compromisso com nada, sem calcular, sem pensar. Respirando somente. Depois quando for a tempo sentir as contrações da hora da saída e sair livremente sem dar satisfações. Acerta a conta na recepção e vai embora sem deixar resíduos; ou melhor, ter a certeza que os resíduos ficaram lá dentro do útero momentaneamente meu.

Acho que o homem apesar da sua inteligência e criatividade ainda não construiu um espaço desses. É uma pena poderia até pagar com PIX, garantindo mais ainda a imparcialidade e impessoalidade dos fatos. Gostaria mesmo de um útero de aluguel hoje. Mas devido à impossibilidade do meu desejo sigo adiante. Marco uma sessão de terapia e descarrego tudo que aperta o peito, afoga a alma.

Passo na recepção acerto a conta. Dou um sorriso para a recepcionista, enfim ha tempos encontro com ela na recepção. Abro a porta do consultório e sigo em frente de alma lavada, de cabeça erguida pronta para os novos desafios.

Crédito da imagem: Foto por em Pexels.com

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SOBREVIVENTE

Por: Karina Freitas

Tentaram abortar-te:
um sopro de vida que lutava,
em um corpo nutrido pela rejeição,
pelo desamor e pela revolta;
lutou e,
contra todas as expectativas,
vieste ao mundo,
como uma flor entre os espinhos
prosperou.

Tentaram desamar-te:
não lhe deram abraços,
não ganhou beijos,
não havia alegria,
menos ainda carinho ou consolo,
nem palavras afirmativas,
o ambiente hostil da placenta
fora reproduzido fora dela,
contra todas as expectativas,
aprendeu amar em sua solidão. 

Tentaram moldar-te;
disseram o que vestir,
como se comportar,
para onde ir,
o que fazer,
o que ler ou não ler,
silenciar sua verdade,
ameaçar sua paz.

Tentaram calar-te:
definir exatamente o que falar,
o que não falar,
de que modo se expressar,
quais palavras dialogar,
qual o tom de voz usar,
até sua entonação, e
não demonstrar sua intenção,
abafar sua espontaneidade.

Tentaram intimidar-te;
abafar seus sonhos;
diminuir seus desejos;
destruir seus planos;
desestimularam suas capacidades;
desconstruir suas habilidades;
subestimar sua inteligência;
reduzir sua liberdade.

Tentaram desonrá-la;
atentaram contra seu corpo,
partiram seu coração, 
furtaram sua alma;
suas vestes estavam rasgadas,
seu corpo sujo e ferido,
tomado de marcas 
que lhe lembrariam para sempre;
que tinha sobrevivido,
à luta que travara.

Sobreviveu ao Holocausto, 
as guerras, ao paternalismo,
ao machismo, ao sexismo
Quem era essa fortaleza?
Qual seu nome?
Podem lhe chamar de menina, moça, mulher, senhora
a depender da idade
Mais conhecida como Sobrevivente. 

Tentaram de todas as formas;
e ainda tentam;
lhe dizer que sua existência é uma propriedade;
um patrimônio inalienável;
que não pode fazer tudo o que quer;
que precisa dar satisfação;
que precisa pedir autorização;
que o mundo exige isso;
mas não conseguiram;
E sempre, ela vai lutar e vai vencer!
E mais uma vez sobreviver!

Crédito da imagem: Foto por Felix Mittermeier em Pexels.com

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FILTRO DOS SONHOS

Por: Rosi Santos

Nem nos meus sonhos mais bucólicos, poderia imaginar uma vista dessas! Por essa janela entra luz, insetinhos e paz!

Mato seco, mato verde, tons claros, tons escuros, folhas no pé, folhas no chão, folhas no rio… tudo isso embalando meus pensamentos, norteando minhas vontades, conduzindo meus propósitos, aquietando meu coração!

No romper do dia o rio segue, ao longo do dia o rio segue, à tardinha, ao anoitecer, sempre seguindo… levando as folhas, os galhos, as preocupações, os medos, as incertezas… suave, tranquilo, levando meu barquinho de folha de caderno!

De vez em quando passa um barco carregando um pescador, sua rede, seu radinho, seus peixes… (Delícia de peixe fritinho com limão!) O sol ilumina as águas turvas, clareia o fundo, revelando o berçário dos peixes entre as pedras…

Um marreco vaidoso e seu curioso amigo ganso passeiam lentamente no rio, indo e vindo inúmeras vezes ao dia. Quando cansam, param e sobre a pedra tomam banho de sol. Hoje, dona pata passeou pela primeira vez com seus três patinhos bebês, uma lindeza só!

Borboletas amarelas vagueiam na superfície criando uma trilha que meu olhar teima em seguir. Avisto a curva, a árvore grande e a curiosidade faz meu pensamento voar. O que será que tem depois daquela curva?!

Todos os questionamentos da minha vida atual afloram. Organizadamente anoto as perguntas e penso nas respostas. Algumas já existem, outras nem sei se terei, mas de qualquer maneira, o incômodo voou pra longe de mim nas asas das borboletas amarelas…


Crédito da imagem: Rosi Santos @rosicleiasantos

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ELA (pequeno conto)

Por: Alessandra Gabriel

Ela era movida pela curiosidade e frequentemente caminhava pelos jardins de suas respostas.

Ela sabia que estava tão perto e tão distante de descobrir os segredos das raízes mais profundas de cada dia, então  se movimentava intuitivamente em busca de algo que a fizesse sentir a verdadeira verdade.

Em algum lugar de passos largos ela se deparou com uma caverna e claro que ela teve medo, tudo isso poderia ser tão assustador já que em sua mente uma caverna seria obscura a ponto de desmoronar a qualquer momento e fechar a única saída até então conhecida, e então movida por sua coragem e o seu espírito naturalmente otimista ela colocou seus pés fincados na terra quente e macia e pra lá avançou.

Continua…


Crédito da imagem: Foto por Skitterphoto em Pexels.com

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UMA CARTA PARA VOCÊ

Quando estávamos na escola, minhas amigas e eu, preocupadas com o inevitável fim das cartas escritas, decidimos criar um “clube de cartas” e para facilitar a logística o fizemos por e-mail.

Não me lembro do conteúdo de nenhuma das cartas, já verifiquei meu e-mail de acima a abaixo e definitivamente não consigo encontrá-las, com certeza as apaguei em algum momento de tristeza.

Enfim, como esperávamos, perdemos aquele lindo hábito de escrever cartas e as cartas viraram e-mails e os e-mails passaram a ser SMS, e o SMS a mensagens de WhatsApp e as mensagens de WhatsApp  emojis.

Durante anos, as cartas inspiraram histórias, romances, filmes e personagens. Os personagens que mais me interessam são aqueles que escreviam cartas de amor para outros, que ajudavam a amigos e estranhos a conquistarem através de textos românticos.

 Há poucos dias conheci uma verdadeira escritora de cartas de amor de carne e osso, e não pude deixar de lembrar de Florentino Ariza que amava tanto Fermina Daza que se dedicava a declarar-lhe seu amor a traves das cartas que escrevia para outras pessoas.

Depois que o e-mail passou a fazer parte das narrativas cinematográficas, o filme “Mens@gem Para Você” que em 1998 retratou perfeitamente aquele frio no estômago que Kathleen (Meg Ryan) sentia quando recebia um e-mail da Joe Fox (Tom Hanks), seu amigo misterioso que tinha conhecido pela internet.

Ontem à noite senti aquele frio quando recebi uma carta em meus sonhos, era uma carta física que estava em minhas mãos, mas não era escrita à mão ou à máquina de escrever, eram letras recortadas de revista e periódicos nos mais diversos tamanhos, estilos e cores, como os sequestradores dos anos 80 e 90 para que ninguém reconhecesse a sua caligrafia.

Apesar de a carta não ter sido assinada por ninguém, eu sabia de quem era e enquanto lia, ficava feliz em saber que acompanhava minha vida, que lia minhas crônicas e contos, e conhecia minhas amigas.

Quando acordei, a primeira coisa que fiz foi verificar meu celular para ver se tinha recebido algum e-mail, não encontrei nada, mas soube que outras pessoas também tinham recebido algumas cartas nos seus sonhos.

Crédito da imagem: Foto por Pexels

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PORTÕES

Eu abri meus olhos…

Com eles, minha mente.

Horizonte em cinza…

Céu em nuvem, carregado

Trazendo inspiração.

Fechei, tranquei portões

O vento que me embala,

Sopra hoje, canta agora!

Não há mais passado

Que me sirva no presente.

A chuva que desce e dança

Me envolve e me banha

Lava corpo, peito e alma.

E minha alma se expande

Meu coração se colore…

Se preenche de luz e vida

Eu abri meus olhos…

Com eles, minha mente.

Horizonte em cinza…

.

.

(Lívia Maria – 27/12/2017)

Crédito da imagem: Foto por Lívia Maria

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VALE CARIOCA

Por: Elaine Resende

Peguei os exames na gaveta, coloquei na sacola de pano e dei uma última olhada no espelho. Tenho orgulho de parecer uma cobra que engoliu um boi. A roupa não esconde mais a pele lustrosa e o zebrado branco, a mensagem evidente de que o dia tão esperado está próximo.

Um arrepio correu pela coluna quando abri a porta e avistei o mar de tijolos cobertos de cimento e musgo. O céu cinza chumbo prenuncia sirenes e alertas da defesa civil nos alto-falantes. Fechei a porta e pensei duas vezes se deveria mesmo sair.

Mamãe falou para não atrasar. Perder a consulta me levaria de novo para o fim da fila, não daria tempo. Busquei o chapéu e o casaco, abri a porta e inspirei uma dose extra de coragem. A descida íngreme descortinava o vale carioca.

Os passos calculados na pedra sabão, um bom dia dona Maria aqui, outro bom dia para o seu José acolá, as pessoas seguindo seu ritmo em busca do pão e vinho, súplicas ao Pai Nosso diário. Benzi o corpo em busca da companhia preciosa, que avistava ao longe de braços abertos.

Cheguei ao beco escuro, nada à vista, fui passando confiante, segurando a medalha milagrosa, a cabeça baixa. Eu tenho fé, mas não ousaria encarar o mal nos olhos. Há dezenove anos dá certo, hoje não teria por que ser diferente.

E foi nesse momento que uma estrela cadente cruzou o céu e iluminou o beco. Um estampido, um grito e a chuva caiu em gotas pesadas. Minha roupa ficou molhada e os sons ficaram confusos. A chuva dessa manhã deixou um gosto metálico na boca, esfriou o corpo quente, esquentou o peito. O coração disparou e a cabeça vagueou com um zunido que não conseguia identificar.

Decidi que me sentar um pouco não seria ruim. Pode ter sido o medo, o frio ou a chuva, o peso da barriga ou o café da manhã minguado, não importa, não me sentia bem. Tenho o direito de me sentar.

Passei a mão no peito e, quando a ergui até meus olhos, o céu enevoado se fez em mim. Uma mão se estendeu para a minha e ouvi sua voz, quase um sussurro, me dizer que tudo ficaria bem.

Naquela manhã gris, meu corpo escuro estendido no beco escuro, adormeceu.

Crédito da imagem: Foto por Elaine Resende

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”