Um café (e um rapé), por favor!


Como falar das coisas do coração sem ser piegas, sem cair no senso comum?
Quando aprendemos com ele. Quando nos acrescenta, nos engrandece e nos faz feliz.
Quando aprendemos que amor, paixão, tesão, desejo, ternura se fundem numa confusão de sentimentos quando achamos a pessoa “certa”, aquela que dá match, se encaixa, funde, que atende nosso momento, nossa urgência e, independe do tempo que nos conhecemos -será eterno enquanto durar – como já dizia o poeta.
É aquela pessoa que faz teu café ter um gosto diferente, que invade tua manhã com uma aura de luxúria e dá um novo sentido ao ritual da pitadinha de rapé matinal.
Começa, quando sem perceber, acordamos cantarolando uma música, verificando as mensagens no celular e aguardando as próximas.
É quando desperta um sorriso bobo e um suspiro, quase um gemido, nos lugares mais inusitados.
Te faz sentir a mulher mais gostosa do mundo, quando você lembra que seu bom dia tem sido assim:

Acordei agora pensando em você…querendo…
E ao longo do dia, tudo te remete às lembranças mais quentes.

Passando agora só pra te dar um beijo na boca, chupando essa língua safada…só pra não esquecer que tem dono…
E andar pelas ruas, pelo mercado, lembrando dos poderes de um simples chocolate nas mãos dos amantes e o áudio:

Tudo que eu como, quero que esteja com o teu gosto.
Acordar no meio da noite e ler nas notificações:

Gosto de te fazer gemer baixinho nos lugares mais inapropriados…
E no meio dessa safadeza, do gozo no meio do dia, você recebe:

Eu te amo! Você foi a melhor coisa que me aconteceu. E as coisas mais simples vão ganhando um novo sentido. O dia, o trabalho, a vida ficam
mais leves. As horas passam mais rápido e em tudo há um clima de romance.
E nesse ressignificar da vida, no devir dos desejos e sonhos, vamos percebendo que o amor é o que nos torna melhores, o que nos faz demonstrar o que há de mais lindo em nós.
O amor não pode ser descrito, manifesta-se das mais variadas formas. Até porque, tudo que tem receita aprisiona.

Cláudia Nagau

Sobre aquele Natal

     Edineide caminha pelas ruas do centro da cidade de Salvador com sua estagiária Aline a tiracolo, quando passam por um Papai Noel sexy: short curto, camisa sem mangas, um gorrinho sem vergonha caído de lado, e o sorriso mais branco e arrebatador da face da terra. Não se contém e dispara a rir. Deseja feliz natal enquanto deposita umas moedas para a ação de caridade que ele promovia. A estagiária curiosa repara que a chefe mantém o sorriso no rosto, mesmo passado algum tempo e se sente impelida a questionar:

— Qual a razão da senhora continuar rindo, Dra. Neide?

— Ah, aquele Papai Noel me lembrou meu primeiro natal de casada…

A mulher entra em seu pensamento, e calada sorri para si mesma, rememorando a história.

Ela, tinha vinte e dois anos e Claudionor vinte e cinco quando se casaram. Eram muito jovens, mas se amavam de um jeito honesto e intenso, como só os jovens são capazes. O primogênito veio no mesmo ano e, naquele primeiro natal de casados, eram uma família em sentido amplo, como mandava a santa igreja.

Decidiram receber em casa a família dele para o jantar da véspera. A sogra foi ajudar com os preparativos, chegou cedo, e as duas trabalharam na cozinha como formigas, carregando pratos e tabuleiros num espaço ínfimo e quente durante todo o dia.

A ceia foi servida mais cedo, as mulheres estavam cansadas de todo o trabalho. O bebê acordava e mamava várias vezes durante a noite, Neide nem sabia como havia conseguido forças para arrumar uma mesa tão bonita. E então Claudionor pegou debaixo da árvore seu presente, uma caixa enorme e pesada. Ela bateu os pés e fechou os olhos de alegria, pensando em várias coisas que poderiam estar ali: uma calça jeans nova, um par de tênis confortáveis, alguns livros de ficção, uns CDs que não tivessem as músicas da Xuxa, um abadá para o carnaval.

Abriu o embrulho com toda a expectativa que aquela caixa trazia e… subiu os olhos e encarou Claudionor sem entender. Ele não se continha de tanta felicidade.

— Neidinha, você gostou, minha rainha? Você admira tanto os programas de culinária e, desde que você engravidou, vi a dificuldade que era para você bater um bolo fofinho igual ao de mãinha. Soube na hora que vi, esse presente tinha que ser seu.

Era uma batedeira vermelha de ferro fundido, um luxo reluzente e semiprofissional, trazida por um amigo que havia chegado do exterior. Ele se esforçou pelo presente e ostentava aquele sorriso branco e radiante que a deixava sempre com vontade de beijá-lo. Diante de tamanha surpresa, conseguiu exprimir um obrigada miúdo, dizer que era linda e mais nada.

Sorrindo sem convicção, Neide vislumbrou a sogra, uma mulher forte de turbante, dentes brancos e olhar de deboche. Depois virou-se para o sogro, aquele homem que, sentado na poltrona de amamentação balançando lentamente, pedia mais uma cerveja à mulher enquanto apreciava o especial de Natal na televisão. Sentiu que os olhos estavam quentes, e segurou a emoção que subia rápido. Foi salva pelo choro do bebê, antes que fossem suas as lágrimas a cair.Não serviria sua verdade de bandeja para ninguém. Quando colocou a mão na porta do quarto, teve tempo de ouvir a sogra dizer que eram os hormônios, coisa de mulher recém-parida.

Claudionor entrou no quarto quando ela havia acabado de colocar o bebê para dormir novamente. Sussurrou que todos haviam ido embora e tinha uma surpresa para ela. Por mais que Neide não quisesse criar expectativas, lá estavam elas, dando um sopro de esperança para uma noite perdida.

Ele abriu o armário e tirou uma caixinha branca com fita dourada, daquela que se vê em lojas de joias chiques. Um frisson se apoderou do seu corpo, deu gritinhos sufocados de alegria e beijou o marido de um jeito apaixonado sem ao menos ver o presente. Com suas mãos ágeis e seu desejo no topo da mais alta colina, desembrulhou rapidamente e notou que, o que quer que fosse – um anel, um brinco, um colar, talvez uma tornozeleira nova – estaria sob aquele tecido vermelho rendado. Levantou o tecido e nada. Ele, tomado da ansiedade por agradar sua esposa querida, pegou o tecido de sua mão e o abriu em frente ao seu rosto: uma calcinha, cavada, sensual, de renda.

Neide se apercebeu do presente, mirou seu próprio corpo que se recuperava do parto, lembrou da batedeira na sala de estar e, numa lufada de insatisfação com altas doses de ódio, temperada por cansaço e noites sem dormir, pediu com gentileza:

— Claudionor – fez uma pausa longa – faz favor, meu amor, vá até a sala e pegue o gorro de papai Noel que pendurei na árvore de Natal.

Ele notou que os cantos da boca da mulher subiram de um jeito perturbador, e então tomou a decisão que achou mais prudente. Voltou correndo da sala com o gorro, sem perguntas e sem gracejos. Ela segurava a calcinha estendida na ponta do dedo indicador na direção dele.

— Veste!

Claudionor estacou perplexo, sem reação.

— Quer me foder no Natal? Então veste. Hoje você vai ser meu Chapeuzinho Vermelho e eu vou ser seu Lobo Mau.

De volta ao centro poeirento e ao calor da cidade de Salvador, Aline nota que a chefe continua perdida em seus pensamentos e decide quebrar o silêncio. Pergunta há quantos anos a doutora e o doutor estão casados.

Neide responde feliz que há vinte anos estão casados e que, durante todo esse tempo, ele sempre se vestiu de papai Noel, só para ela.


ODE AOS LIVROS

Razia vida
sem mastigar
estilhas a curta existência
surtas viventes
meros transeuntes
em penitência
purgam seus
descuidosos momentos
eternos e passageiros.
Repito teu nome
vida
nestes versos
sinto em cada fôlego
tua repetição
submersa em surpresas.
Vida
ocupo-me de tuas horas
leio um entre tantos livros
espalhados nos aconchegos
da casa
eles rogam ansiosos
o afago de meus dedos
feito eu
eles também sofrem.
os livros querem existir
de verdade fora do papel
como alma que
vive fora do corpo.
ocupo-me do banho
batismo dos meus dias
ressurreição da poeta
olhos roxos na vigília
dos versos
coxos de saudades.

Em meus dias
desacorrentados
observo a pressa
a morosidade dos animais
sem pecado sem culpa
na fidelidade em desatino
no tino à própria natureza
quinhão de fardo e destino.

O tempo sem passividade
tudo aceita
insulto – o no escorrer
dos minutos
nas coisas bobas do dia
sem pesar
já tenho a idade
vejo a novela clichê repetida
adormeço
na cadeira de balanço
rancho que amamentou
e ninou meus filhos
posposta na varanda.

Nessa brevidade imagino
que a fruta doce na minha boca
ainda é semente à procura de chão
e tu meu amor
já estais lívido
e sem vida mesmo agora
quando toco teus cabelos
será que meu vestido
da infância aquele xadrez
com fitinhas marrons
voltou ao meu armário?
ou a caneta concreta
que seguro é a única certeza?

Dizem que o tempo
come nossas carnes
quero acreditar que sim
há pouco vi
mais fundo o meu olhar
mais baixas minhas pálpebras
mais calos no meu rosto ralo
vi mais saudade no espelho.

Eu queria fugir
para dentro dos livros
ser eterna em suas histórias
humilhar o tempo
que só nos dá incertezas.

Desejo

-DESEJO

Não sou constituída pelo mesmo substrato que você, homem.

Narrativas de infância percorrem as memórias dos contos de fadas.

Príncipes? Castelos? Donzelas adormecidas? Bah!!!

Deles, trago no corpo as estrelas … a água e o pó das estrelas.

Na alma, o sonho pulsante; no coração, a certeza instintiva.

Insculpido, no ente, no ventre, o vermelho.

O escarlate se inscreve em minha pele desde que a reconheci como MINHA.

Minha contenção. Meu limite. Minha fonte de experimentação. Meu manancial de deleite – e dor.

Rosa tatuada em confiança ao caminhar, sempre em frente. Herança e fidelidade ancestrais.

Rubra é a cor do meu fogo; e também da loba que me alimenta.

Do sangue que escorre por entre minhas pernas à seiva que alimenta cada uma de minhas células … Tudo voleia. Tudo sopra. Tudo dança.

No ato, no atrito, no grito – erupção.

Você não entende nada, homem, do que permeia ser íntima da morte e do renascimento. Ciclos. Existências. Espirais.

Encaro mortes; e morro, por vezes … muitas vezes. Ou quase!!!

Dos contos de fadas, lapidei-me púrpura. Rubi, por opção bruto.

Respiro vida. Caminho incerto. Substrato carmim.

– DESEJO.

Meu querido adversário

O medo é um sentimento que costuma me rondar vez ou outra. É a ele que chamo, carinhosamente, de Querido Adversário. Querido, porque, se não fosse ele, eu não teria conseguido enfrentar algumas situações em minha vida. Situações que exigiram coragem, muita coragem e determinação.

E foi por causa dele também, medo de me expor, de receber críticas e não saber o que fazer com elas, de me diminuir frente aos outros e me sentir incapaz de colocar no papel as histórias que fervilhavam na minha cabeça, que comecei a escrever.

Esse sentimento, que teimava em se agigantar dentro de mim, me impedia de ver e de acreditar que, o que eu escrevia poderia ser interessante, não só para mim, mas para outras pessoas também.

Desde mocinha gostava de escrever, colocar no papel meus pensamentos e sentimentos. No colégio, no final do que hoje é o Ensino Médio, escrevia poesias de amor inspirada pela paixão que nutria por um professor de Literatura.

Foi por causa desse amor platônico que uma vez, em plena sala de aula, enfrentei meu Querido Adversário impetuosamente. O professor pediu que alguém lesse o Soneto de Fidelidade de Vinícius de Moraes. E eu, em um rompante, me ofereci para ler o poema que até hoje sei de cor.

“De tudo, ao meu amor serei atento antes

E com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento…”

Na verdade não li, declamei apaixonadamente o poema para o professor! Os colegas da sala sabendo dessa paixão, riram. Meu rosto se incendiou, e o professor ficou desconcertado com a minha ousadia. Apesar da situação constrangedora, consegui derrotar meu Querido Adversário com uma boa rasteira.

Agora já mais madura, retomei meus escritos. Uma escrita intimista e despretensiosa. Mas, o que realmente me impulsionou a escrever e publicar meus escritos foi o que ouvi, ou melhor, li de um amigo com quem comecei a me corresponder durante a pandemia: “lidar com críticas é sempre complicado, mas na minha profissão ou você aprende, ainda que seja na paulada, ou desiste de fazer pesquisa competitiva!”. E mais uma vez vi meu Querido Adversário rolando de dor no chão com o soco que lhe apliquei no estômago, quando iniciei meu Instagram de escrita criativa. Mais um round vencido.

Com isso, entendi que existem algumas situações em nossas vidas que não tem jeito e é preciso enfrentar corajosamente, sem medo de apanhar, ou de ser criticada. E escrever tem sido um desafio diário, prazeroso e sofrido.

Explico: prazeroso pela grandeza da linguagem escrita, pela possibilidade de materializar os pensamentos e sofrido, porque o processo de escrita nos coloca em situação de confronto e fragilidade. Confronto com nossas crenças, sejam quais forem, e fragilidade diante das nossas emoções mais íntimas, secretas e inconfessáveis.

De qualquer maneira, decidi enfrentar o monstro da crítica, ou melhor, meu Querido Adversário, tendo clareza de que qualquer um pode opinar sobre o que bem quiser. Porém, cabe a mim decidir o que fazer com as opiniões alheias.

E foi assim, com o coração aos solavancos, que iniciei minha aventura no universo literário. Hoje me arrisco em editais de variados gêneros, participo de desafios de escrita e o que mais aparecer pela frente. É desse jeito que mantenho meu Querido Adversário na coleira, colado a mim. Afinal somos íntimos e sem suas provocações, com certeza cairia com facilidade na vala do fracasso, lugar comum dos que desistem fácil e não se permitem lutar. Às vezes, um olho roxo vale a pena, principalmente quando a luta é honesta e por uma boa causa.

Todo mundo sabe que homem não chora

Estive em um festival de dança cuja etapa da competição estava sendo realizada em minha cidade. Minha enteada estava competindo com sua academia de dança e fomos prestigiá-la. As apresentações eram realizadas em um ritmo frenético, praticamente sem pausas. Uma verdadeira maratona que deixava os expectadores sem fôlego, como se fôssemos nós a entrar, dançar e sair do palco repetidas vezes.

Assistindo à sequência de apresentações, vi muitas mulheres, das mais variadas idades e corpos. Havia mulheres de músculos esculpidos pelos treinos de repetição e força necessários aos movimentos precisos de um nível mais sofisticado de dança. E também havia os corpos mais “comuns”, sem músculos tão definidos, alguns até franzinos, outros com contornos mais generosos. Em todos esses corpos femininos cheios de representatividade senti igualmente a dedicação e paixão pela dança, o brilho no olhar, o sorriso para o público e a expressão atenta nas parceiras de palco em busca da sincronia que deixa os movimentos ainda mais impressionantes. Fiquei feliz em ver que não havia um padrão único de corpo feminino habitando aquele “mundo da dança”. Pelo menos não naquela etapa da competição e naquele festival. A mensagem era a de que meninas-mulheres de quaisquer idades e corpos tinham o direito de ocupar aquele espaço.

Mas e os homens? Onde estariam? Nos bastidores? Na organização? Na apresentação do evento? Na plateia vi alguns gatos pingados. Mas por que os homens não ocupavam o palco também? Confesso, contudo, que só passei a me questionar sobre isso justamente quando um grupo de dança composto apenas por homens subiu ao palco. Até aquele momento, o repetido desfilar de grupos de mulheres, um após o outro, não havia me despertado questionamento algum. Talvez porque a gente às vezes se acostuma tanto com o que vê ao nosso redor que se esquece de questionar por que determinadas coisas acontecem (ou deixam de acontecer).

O grupo de rapazes subiu ao palco e causou estranhamento e surpresa na plateia. Vi o público se entreolhar e esboçar um sorriso como se dissesse: “Olha lá! Finalmente um grupo masculino!” Os rapazes formavam um grupo numeroso que dançou uma música brasileira que eu ainda não tinha ouvido e cuja letra falava de masculinidade tóxica. Eles dançavam com beleza e força e, dentro da coreografia, interpretavam a mensagem que a letra da música nos oferecia. Aquela apresentação me impactou porque dava visibilidade à questão da masculinidade tóxica por meio da quebra de um estereótipo de gênero que era o fato dos homens estarem ali, naquele palco, dançando. E ainda que a letra da música tenha abordado apenas a ponta do iceberg da questão da masculinidade tóxica, um problema que afeta homens e mulheres e, consequentemente, toda a sociedade, a experiência de vê-los no palco naquela performance lançou holofotes sobre essa questão. E também sobre o “status quo” e sobre a quebra de paradigmas.

Se você pesquisar por aí sobre masculinidade tóxica, assim como eu fiz depois da apresentação dos meninos, vai ver que se trata do aprisionamento dos homens a um conjunto de comportamentos associados ao “masculino” e que são extremos e prejudiciais a eles próprios e à sociedade.

Lembro do meu pai lavando a louça da nossa casa quando eu era criança e se preocupando se alguma visita chegaria porque não ficaria bem para ele ser visto naquela tarefa doméstica. Como se o “cuidar” da casa fosse uma tarefa exclusivamente feminina. E, pior, como se essa tarefa inferiorizasse alguém. Em outro momento, recordo de assistir às aulas de judô das minhas filhas e testemunhar o pai de um dos meninos xingá-lo durante a luta porque ele não estava se saindo bem e dizer, dentre outras sandices: “Se não lutar direito, vou te levar para fazer balé” ou “Parece uma menininha lutando. Lute direito!”. Como se fazer balé fosse um castigo ou algo que o diminuísse. Ou como se lutar como uma menina fosse sinônimo de lutar mal. Eu torcia para que a criança lutasse melhor só para o pai parar de falar aquelas coisas. E torcia mais ainda para que a criança não chorasse. Afinal, todo mundo sabe que homem não chora… Essas cenas são apenas um “recorte” de uma vida inteira a testemunhar uma infinidade de situações como essas. Não condeno os protagonistas dessas histórias, encharcados que estavam de uma cultura que exigia deles uma série de comportamentos esperados do “ser homem”. Felizmente, eu não sou a única a levantar essa questão hoje em dia e vejo uma mudança crescente, principalmente vinda dos mais jovens.

Estereotipar pessoas a partir das expectativas que se têm sobre elas em virtude de alguma condição (porque é homem ou mulher, jovem ou velha, gorda ou magra, etc) é reflexo dos padrões de comportamento replicados de geração em geração como heranças culturais que recebemos e muitas vezes nem questionamos. Eu própria já fui enroscada na armadilha dos estereótipos por várias vezes. Estou sempre me policiando mas sei que escorrego vez ou outra em alguns dos rótulos que surgem como verdadeiras cascas de banana. Os rótulos estão por aí, em todos os lugares e para quase todas as situações e extrapolam “apenas” a questão do ser homem ou do ser mulher. Apesar de ter ilustrado aqui apenas algumas situações de estereótipos de gênero, nossa sociedade é permeada por muitos outros. Construamos menos rótulos e menos muros aprisionadores de pessoas. Sejamos mais abertos, tolerantes e empáticos com a complexidade e beleza das múltiplas formas de ser de cada um.

Resenha “Fiquei Com Seu Número, Sophie Kinsella, Editora Record, 8ª ed, setembro/2012”

Poppy é uma fisioterapeuta que trabalha com mais duas amigas em uma clínica e está noiva de Magnus, um intelectual membro de uma família de acadêmicos com publicações e programas de TV.

Magnus a surpreendeu com um pedido de casamento relâmpago, após um mês de relacionamento, ao lhe dar “O Anel”, uma joia presente há três gerações em sua família, que Poppy perde em um evento num hotel com as amigas. 

Além de perder o anel de noivado, tem seu telefone roubado e todo o desenrolar da história começa no momento em que ela encontra um telefone empresarial funcionando numa lata de lixo. Inusitado? Sim! Divertido? Também.

E, por conta do tal telefone que ela encontra no lixo, uma relação com o executivo Sam Roxton se estabelece. A maior de todas as dúvidas que a autora planta em nossa mente é: você seria capaz de dividir seu celular com outra pessoa? Dar a ela acesso completo a todas as suas mensagens? É isso que Poppy e Sam fazem, compartilham um mesmo celular.

Poppy tem diversas oportunidades de sair do enrosco que se meteu, mas se afunda cada vez mais em mentiras e dissimulação. Isso porque se sente inferior, especialmente quando está com a família de Magnus, por não ter um doutorado e publicações acadêmicas. E talvez porque ela tenha um grande desejo de ser amada. 

A autora me fez rir várias vezes, suas personagens são curiosas, engraçadas, cheias de falhas de caráter e, algumas vezes, um pouco ridículas. Notou alguma semelhança com a sua própria vida? Eu vejo o tempo todo. A cena em que Poppy dança I’m a single Lady, de Beyoncé, é de rolar de rir.

Os sufocos que a personagem passa nos divertem e geram empatia. É um livro leve e fresco, excelente para quando se quer um respiro. Uma verdadeira comédia romântica, deliciosa como a gente espera que seja. Não sei como ainda não virou filme! 

Sophie Kinsella é britânica, tem mais de vinte livros publicados, e uma de suas obras mais famosas e adaptada para o cinema é Os Delírios de Consumo de Becky Bloom. 

Amar

Amar é como um objetivo de vida
Ninguém vai fazer o outro feliz
Fazer feliz é uma responsabilidade só nossa
Ter companhia é bom mas não dá pra cobrar nada disso, não faz sentido

Ter um amor é como ter um hóspede em seu coração
Ele chega e traz consigo uma bagagem
Seu passado,presente e futuro

Amar é acima de tudo não atrapalhar que te ama
É entender as paixões
E curtir juntos sempre que for possível

Amar é um verbo que tem muitas conjugações
Pode ser como sorrir
Abraçar a pessoa amada
Ou simplesmente, escrever sobre e para ela

Amar é isso
Difícil de explicar
Fácil de entender
E incrivelmente intenso de se sentir

A vida em um abraço

Quem nunca recebeu um abraço apertado daqueles de quase quebrar os ossos deveria experimentar. Às vezes nenhuma palavra é suficiente para expressar um sentimento. Mais vale ele, simples, de graça, super fácil de dar. Quanto mais forte melhor.

É engraçado gente que não gosta de abraçar. Que se sente desconfortável ou algo assim. Fico pensando que devia haver uma pílula pra isso. A pílula do abraço. Você toma, perde a vergonha, e sai agarrando todo mundo. Eu distribuiria por aí, pelas ruas que passo, pra toda a gente. Na verdade, eu acho que deveria ser acessível no sistema público de saúde.

Um dia me peguei pensando nos que já recebi. Teve abraços de paixão, e também de despedida. Mas, ainda assim, só guardo boas lembranças de todos eles, porque são formas de amor, mesmo quando ele acaba.

Um abraço de mãe, de pai, de amigo, de namorado, tanto faz. Vale por todo um discurso! É como se por um instante a vida de duas pessoas se resumisse naquele carinho grudendo. Que se danem os tímidos, os reservados, os caretas. Vamos abraçar quem amamos, e amar quem abraçamos. Ai, que vontade…

Querido Basílio

Lisboa, um dia qualquer de junho

Querido Basílio,

O abismo entre nós fez minhas lágrimas secarem, porém, ainda sinto na boca o gosto frio do punhal da humilhação, da chantagem e do abandono que cravaste em mim.

Ainda me consumo de arrependimentos, quando lembro que devia ter deixado no passado, aquele amor que chamastes de “inclinação infantil”. Quem dera pudesse voltar no tempo e sepultá-lo junto com as promessas que não cumpriste.

Aliás, meu caro, iludir é tua especialidade. Com ares de aristocrata, fazia-me crer que minha vida era sem graça. No fundo, uma das tuas estratégias perversas para que eu me sentisse frágil e insegura, e tu, um grande homem. A bem da verdade não passavas de um almofadinha, soberbo e entediante.

Ah, quanto sofrimento eu teria evitado se não tivesse me rendido à luxúria que me consumia. Sucumbi! Não resisti ao toque das tuas mãos libidinosas em meu corpo febril de paixão, nem às palavras sedutoras que me fizeram conhecer o paraíso, tão somente para depois descer ao inferno.

Ingênua! Mil vezes estúpida! Nosso paraíso, era como chamavas aquele quarto vulgar e pestilento onde nos encontrávamos. Que decepção. Trataste-me como uma qualquer. Como me dói saber que não fui mais do que um capricho em tuas mãos e que, passada a novidade de me possuir, o que restou foi tédio, desprezo e dores febris.

Apaixonada, fui tua de corpo e alma. Uma presa fácil para Juliana e sua chantagem, que me fez viver o desassossego das trevas na Terra. E, mais uma vez, não cumpriste tuas promessas.

Jorge, pobre Jorge! Meu marido não merecia passar por tamanha vergonha. Ele sofre e eu mais ainda, pois continuo a remoer infidelidade e ingenuidade. Não tenho paz. Talvez nunca venha a tê-la. Quanto a ti, meu caro, garanto que também não terás um só instante de sossego. Estarei em teus pesadelos até que tu, ao despertares, estejas nas profundezas do inferno, que é o teu lugar.

Com rancor,

Luísa