Sobre aquele Natal

     Edineide caminha pelas ruas do centro da cidade de Salvador com sua estagiária Aline a tiracolo, quando passam por um Papai Noel sexy: short curto, camisa sem mangas, um gorrinho sem vergonha caído de lado, e o sorriso mais branco e arrebatador da face da terra. Não se contém e dispara a rir. Deseja feliz natal enquanto deposita umas moedas para a ação de caridade que ele promovia. A estagiária curiosa repara que a chefe mantém o sorriso no rosto, mesmo passado algum tempo e se sente impelida a questionar:

— Qual a razão da senhora continuar rindo, Dra. Neide?

— Ah, aquele Papai Noel me lembrou meu primeiro natal de casada…

A mulher entra em seu pensamento, e calada sorri para si mesma, rememorando a história.

Ela, tinha vinte e dois anos e Claudionor vinte e cinco quando se casaram. Eram muito jovens, mas se amavam de um jeito honesto e intenso, como só os jovens são capazes. O primogênito veio no mesmo ano e, naquele primeiro natal de casados, eram uma família em sentido amplo, como mandava a santa igreja.

Decidiram receber em casa a família dele para o jantar da véspera. A sogra foi ajudar com os preparativos, chegou cedo, e as duas trabalharam na cozinha como formigas, carregando pratos e tabuleiros num espaço ínfimo e quente durante todo o dia.

A ceia foi servida mais cedo, as mulheres estavam cansadas de todo o trabalho. O bebê acordava e mamava várias vezes durante a noite, Neide nem sabia como havia conseguido forças para arrumar uma mesa tão bonita. E então Claudionor pegou debaixo da árvore seu presente, uma caixa enorme e pesada. Ela bateu os pés e fechou os olhos de alegria, pensando em várias coisas que poderiam estar ali: uma calça jeans nova, um par de tênis confortáveis, alguns livros de ficção, uns CDs que não tivessem as músicas da Xuxa, um abadá para o carnaval.

Abriu o embrulho com toda a expectativa que aquela caixa trazia e… subiu os olhos e encarou Claudionor sem entender. Ele não se continha de tanta felicidade.

— Neidinha, você gostou, minha rainha? Você admira tanto os programas de culinária e, desde que você engravidou, vi a dificuldade que era para você bater um bolo fofinho igual ao de mãinha. Soube na hora que vi, esse presente tinha que ser seu.

Era uma batedeira vermelha de ferro fundido, um luxo reluzente e semiprofissional, trazida por um amigo que havia chegado do exterior. Ele se esforçou pelo presente e ostentava aquele sorriso branco e radiante que a deixava sempre com vontade de beijá-lo. Diante de tamanha surpresa, conseguiu exprimir um obrigada miúdo, dizer que era linda e mais nada.

Sorrindo sem convicção, Neide vislumbrou a sogra, uma mulher forte de turbante, dentes brancos e olhar de deboche. Depois virou-se para o sogro, aquele homem que, sentado na poltrona de amamentação balançando lentamente, pedia mais uma cerveja à mulher enquanto apreciava o especial de Natal na televisão. Sentiu que os olhos estavam quentes, e segurou a emoção que subia rápido. Foi salva pelo choro do bebê, antes que fossem suas as lágrimas a cair.Não serviria sua verdade de bandeja para ninguém. Quando colocou a mão na porta do quarto, teve tempo de ouvir a sogra dizer que eram os hormônios, coisa de mulher recém-parida.

Claudionor entrou no quarto quando ela havia acabado de colocar o bebê para dormir novamente. Sussurrou que todos haviam ido embora e tinha uma surpresa para ela. Por mais que Neide não quisesse criar expectativas, lá estavam elas, dando um sopro de esperança para uma noite perdida.

Ele abriu o armário e tirou uma caixinha branca com fita dourada, daquela que se vê em lojas de joias chiques. Um frisson se apoderou do seu corpo, deu gritinhos sufocados de alegria e beijou o marido de um jeito apaixonado sem ao menos ver o presente. Com suas mãos ágeis e seu desejo no topo da mais alta colina, desembrulhou rapidamente e notou que, o que quer que fosse – um anel, um brinco, um colar, talvez uma tornozeleira nova – estaria sob aquele tecido vermelho rendado. Levantou o tecido e nada. Ele, tomado da ansiedade por agradar sua esposa querida, pegou o tecido de sua mão e o abriu em frente ao seu rosto: uma calcinha, cavada, sensual, de renda.

Neide se apercebeu do presente, mirou seu próprio corpo que se recuperava do parto, lembrou da batedeira na sala de estar e, numa lufada de insatisfação com altas doses de ódio, temperada por cansaço e noites sem dormir, pediu com gentileza:

— Claudionor – fez uma pausa longa – faz favor, meu amor, vá até a sala e pegue o gorro de papai Noel que pendurei na árvore de Natal.

Ele notou que os cantos da boca da mulher subiram de um jeito perturbador, e então tomou a decisão que achou mais prudente. Voltou correndo da sala com o gorro, sem perguntas e sem gracejos. Ela segurava a calcinha estendida na ponta do dedo indicador na direção dele.

— Veste!

Claudionor estacou perplexo, sem reação.

— Quer me foder no Natal? Então veste. Hoje você vai ser meu Chapeuzinho Vermelho e eu vou ser seu Lobo Mau.

De volta ao centro poeirento e ao calor da cidade de Salvador, Aline nota que a chefe continua perdida em seus pensamentos e decide quebrar o silêncio. Pergunta há quantos anos a doutora e o doutor estão casados.

Neide responde feliz que há vinte anos estão casados e que, durante todo esse tempo, ele sempre se vestiu de papai Noel, só para ela.


Publicado por Elaine Resende

Escritora, amante das letras, viciada em criatividade fantasiada de texto, foto, desenho, música e escultura de argila. Um dia será boa em pelo menos uma dessas coisas, mas se diverte em seguir tentando.

4 comentários em “Sobre aquele Natal

  1. Ah que delícia de conto🔥❤️‍🔥🎅. Eu adorei e me diverti muito lendo. Uma reviravolta perfeita para manter acesa a chama da paixão. Parabéns!!!🔥🔥🔥🔥

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  2. Bom demais, Elaine! Morro de medo de ganhar batedeira! Rsrsrs. E adorei a
    ideia da Edineide para resolver a frustração do peso geral que estava sobre ela naquele Natal.

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    1. Ah, minha amiga, a batedeira, o ferro de passar, o jogo novo de panela… kkkk… Neidinha é uma mulher magnânima, capaz de reverter a situação a seu favor. Eu teria brigado feio com esse homem sem noção! Obrigada pela leitura! ♥️

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